<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545</id><updated>2011-10-02T07:45:39.057-07:00</updated><category term='Crônica'/><title type='text'>Poeta Crítico José Fernandes</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>79</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-743662216731697279</id><published>2011-02-01T04:31:00.000-08:00</published><updated>2011-02-01T04:35:31.599-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            ASFALTO TRIMÁTICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Geraldino Carro, a despeito da idade avançada, não abandona seu arraigado hábito de leitura. Sempre encontra um livro novo. Dia desses, mesmo, falou-me sobre “A dança do condor”. Gostou imenso das narrativas de Lacordaire. Sobretudo, não deixa de ler os jornais e, muito menos, de acessar a internet. Adapta-se facilmente à tecnologia.  Certamente por isso, discutia as condições das estradas pós-alcíname, o homem que negou o nome, pois deveria ser forte e dinâmico; mas foi fraco e inglório:&lt;br /&gt;            – Você leu uma crônica, ano passado, quando o “preguiça” tentava eleger seu sucessor? Aquela que falava das novas técnicas brasileiras e goianas de recuperação asfáltica. O autor chamou a nova pavimentação de “asfalto palintrimático”, pois a minúscula camada depositada sobre os buracos permitia aos passageiros sentirem-se como se estivessem com maleita, tamanho o tremor. Não há de ver que gastaram verdadeira fortuna e realmente o “asfalto metrísico” se confirmou. Apenas chegaram as primeiras chuvas, e os buracos se multiplicaram como as sementes da romã.&lt;br /&gt;            – Ora, Geraldino, é que o adjetivo “forte”, significado do nome do governador, à época, passou para os buracos ou crateras, pois, à semelhança dos vulcões, eles escancaram suas bocas devoradoras!&lt;br /&gt;            – Panglos, não sem razão alguém disse que você sabe tirar farinha. Mas, o adjetivo esburacado realmente é pouco para a tecnologia asfáltica empregada pela Agência Goiana de Transportes e Obras.&lt;br /&gt;– Gerandino, pra mim, obra mal feita tem outro significado. Além disso, a estrada por que ela caminha também tem outro nome!&lt;br /&gt;             – Tenho “Carro” como sobrenome e sei bem o que é uma pista esburaquenta! Além de observador, sofro, por analogia, pois ando fervilhando em solo meteorítico. Não conheço os esgotos dessas obras, mas as diferenças são nenhumas. Veja, por exemplo, um trecho asfáltico, como o que vai de Santo Antônio de Goiás a Nova Veneza, ou de Goiânia a Aruanã! Gastaram-se, segundo notícias jornalísticas, que ainda tem crédito nestes brasis pinóquios, muitos milhões de reais para fazer aquele recapeamento.&lt;br /&gt;            – E os buracos tridentes voltaram a triturar pneus, a destruir amortecedores! Como se gasta impunemente os impostos dos contribuintes! Até as ruas de Goiânia são retapeadas!&lt;br /&gt;            – Ora, Pangloss, e eu não sei!? Realmente, neste Brasil Münchhausen, recapeação é retapeaçao é a mesma coisa! O inglório governo teve até coragem de inaugurar, com placa e tudo, uma tapeação asfáltica em uma cidade da grande Goiânia. E olha que gastaram mais de trezentos mil reais para um trechinho de nada! Será que o Tribunal de Contas do Estado vai aprovar as contas desse governo, felizmente findo e finado?&lt;br /&gt;            – Já que as contas públicas ficaram numa buraqueira danada, acho que tudo é trimático. Tudo é buraco! Será que é possível consertar todos os estragos?&lt;br /&gt;            – É difícil saber, Pangloss. Só sei que esse nome trimático, com significado de buraco é ótimo, pois podemos fazer uma adaptação para o português e, quando necessário, acrescentarmos algum número. Há estradas estaduais e ruas em Goiânia em que se encontram tetra, penta, hexa, eneadecamáticos. Se procurar bem, acha até penentamáticos e enenentamáticos, pois eles vão se colocando um dentro do outro, infinitamente, como se fossem caixa de pandora a espalhar desgraça aos quatro ventos.  &lt;br /&gt;            – Pois é, Geraldino, ouvi dizer que naqueles paisinhos da Europa não se tampam buracos apenas jogando asfalto e deixando que os próprios veículos procedam à tarefa de comprimir as camadas para que elas se compactem. Eles, quando não procedem à recapagem total, atacam toda a extensão afetada e efetuam um trabalho, inclusive, com rolos compressores, para que o remendo dure, pelos menos, uns vinte anos. Aqui, desde que começou a chover, já vi rodovias e ruas serem remendadas a cada semana. E, sempre as mesmas crateras se avolumando e se multiplicando. Quando o político nega a semântica do próprio nome, a administração pública se torna um descalabro! Por isso, quando se vota, deve-se verificar se o candidato exercita e pratica o significado do nome.&lt;br /&gt;            – As pavimentações brasileiras não duram mais que uma chuva! O chamado mau-tempo, mesmo que esteja uma seca dos diabos, é sempre o culpado pela falta de brio, de vergonha, pela irresponsabilidade que vem de longe.&lt;br /&gt;– Para consertar o mal-feito é mais difícil que fazer o bem-feito. Por que não se fazem as obras públicas para durarem?&lt;br /&gt;– Eh! Por mais que os ufanistas gritem contra aqueles paisinhos, nós nunca chegaremos aos pés deles. Falta honestidade à maioria de nossos políticos! Disseram-me que até vereador ganha propina com tapeações e retapeações asfálticas.&lt;br /&gt;– Falta ousadia para debelar os ludíbrios, as falcatruas, e começar a pôr os trens nos trilhos!&lt;br /&gt;– Eh!  Como não temos trens..., os ludibriosos se multiplicam!&lt;br /&gt;– E, como brilham! Parece até pesca ao dourado com colher de isca! Mas, isso precisa acabar!... Miserere nobis, Domine!     &lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;  Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 1-2-2011, p. 10.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-743662216731697279?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/743662216731697279/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2011/02/asfalto-trimatico-geraldino-carro.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/743662216731697279'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/743662216731697279'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2011/02/asfalto-trimatico-geraldino-carro.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-4279481051455104401</id><published>2011-01-25T03:05:00.000-08:00</published><updated>2011-01-25T03:07:44.426-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            DEUS E AS TRAGÉDIAS – II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;            – Você, na crônica anterior, ainda não satisfez minha curiosidade. Queria terminar minha fala com mais uma pergunta.&lt;br /&gt;– Mas, foi o senhor, seu Ângelo, que disse “Miserere nobis, Domine!”&lt;br /&gt;– Só repeti, pois achei que você mangasse da observação relativa ao fato de Deus exemplar os homens! A minha dúvida se refere à possibilidade de Deus impedir uma tragédia natural. Pode?&lt;br /&gt;– Seu Ângelo, Deus criou o homem e lhe deu inteligência e livre arbítrio. Cabe a ele julgar seus atos. Se pensarmos que Deus monitora a criação, e as coisas acontecem, todas, mediante sua vontade, caímos no chamado providencialismo. Não é isso que ocorre em relação às tragédias. O homem é que as provoca. Qualquer pessoa de bom-senso sabe que uma casa construída à beira de um rio pode ser invadida por enchentes, sobretudo quando a natureza é maltratada, decorrência de atos inconseqüentes praticados pelo chamado “homo sapiens”. Qualquer pessoa, com um mínimo de discernimento, deve desconfiar que escalavrarem-se os morros, sacando-lhes a vegetação, notadamente árvores enraizadas, torna-os suscetíveis de desmoronamento. Construírem-se casas ao sopé deles implica assumirem-se os riscos que eles representam, mormente aquelas que exigem cortes na terra. Além disso, o senhor deve ter notado, como bom observador, que a maioria das construções dispõe de minúsculos alicerces. Coluninhas de meio metro de profundidade não suportam nem o próprio peso e, muito menos, as dores do tempo. O próprio Cristo, embora falando de forma alegórica e, portanto, dando margem a interpretações de cunho teosófico, alerta: "Todo aquele, pois, que ouve estas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína." Mateus 7:24-27. Ora, seu Ângelo, vivemos em um País em que as leis, quando existem, ficam apenas no papel. Todos são irresponsáveis: as autoridades e os cidadãos.&lt;br /&gt;– Os governos fingem governar segundo as leis do estado, e o povo finge cumpri-las. Inclusive, quando podem, os políticos mudam as leis segundo as suas conveniências. O novo código florestal é um exemplo. Se a natureza continuar sendo objeto do bel prazer de insensatos, coisas muito piores poderão acontecer. Tudo, nestes brasis, é construído sobre areia. O senhor está querendo dizer que Deus não age diretamente sobre a natureza; mas deixa que ela haja em seu nome!&lt;br /&gt;– Exatamente! É o que quis dizer com “Deus bate na cangalha para o burro entender.” Só que este burro é indômito; tem vontade própria e só pensa no momento em que cangalha, bruacas e balaios desabam sobre ele.    &lt;br /&gt;– Você não acha, também, que os homens andam se esquecendo de Deus? Há até quem decrete a sua morte! Imagina que cavalice! Falamos muito do burro; mas ele não entra em atoleiro; cavalo, sim! Estamos em um momento de pura matéria! Até as igrejas são materialistas: fingem a palavra para arrecadar dinheiro! Criaram até uma associação dos ateus, que se destina a provar a inexistência de Deus.&lt;br /&gt;– Realmente, Deus não existe; Deus é! “Deus esse”, diz Santo Tomás na “Suma Teológica”. Depois, se Ele não é, por que os ateus estão preocupados com Ele? Não é uma contradição! Joseph de Maistres tinha razão: “Ninguém afirma: `Deus não existe' sem antes ter desejado que Ele não exista". É a criatura finita e ingrata desejando que o Criador não exista. Há um filosofo brasileiro, Riobaldães Rosa, que diz: "Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança; sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há de a gente perdidos no vaivém, a vida é burra."&lt;br /&gt;– A vida é uma cavalice. Principalmente, em nosso País! Imagina, não existir Deus! Um dia desses li um poema que, apesar de o autor ser meio louco, me parece, ainda traduz este momento de nossa história cavala: "Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,/ Porque seja ele quem for, com certeza que é tudo/ E fora dele só há Ele, e tudo para Ele é pouco. Cada alma é uma escada para Deus,/ Cada alma é um corredor Universo para Deus,/ Cada alma é um rio por margem do Externo para Deus em Deus com um sussurro noturno. Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito."  &lt;br /&gt;– Eh! seu Ângelo, depois o senhor me diz que só sabe o trivial! O senhor tirou a minha farinha; mas fez um bom bolo! Deus esteja! Esse Fernando é demais! &lt;br /&gt;– É Pessoa! Sabe de Deus! Espero que Ele continue batendo na cangalha até acordar os cavalinhos; inclusive, os de Platiplanto! O J. Veiga os conhece bem!&lt;br /&gt;– Agora, sim, vamos encerrar este assunto. Eu não disse ao senhor que não sou senão cronista? Mais, não posso! Veni Creator Spiritus, mentes hominum equuorum visita! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 25-1-2011, p. 8.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-4279481051455104401?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/4279481051455104401/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2011/01/deus-e-as-tragedias-ii-voce-na-cronica.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4279481051455104401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4279481051455104401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2011/01/deus-e-as-tragedias-ii-voce-na-cronica.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-4433406616623250756</id><published>2011-01-18T12:11:00.000-08:00</published><updated>2011-01-18T12:12:43.978-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            DEUS E AS TRAGÉDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                            &lt;br /&gt;            – Fala-se muito sobre a participação de Deus nas tragédias como se Ele fosse um pai desnaturado. Fazem-se muitas perguntas; mas resposta satisfatória mesmo, nenhuma! Você poderia falar sobre isso em uma de suas crônicas, a fim melhor esclarecer aos leigos, problema tão intrigante!&lt;br /&gt;            – Eu, caro Ângelo Bello, sou cronista; não sou teólogo! O senhor está confundindo as coisas; não?! Quem sou eu para explicar “mysteria fidei”!&lt;br /&gt;            – Você sabe!Não me enrole! Quem tem a sua leitura entende melhor os segredos de Deus que a gente que só lê o trivial!&lt;br /&gt;            – Seu Ângelo, o senhor, uma de suas criaturas prediletas e seu mensageiro, quer me tirar farinha; mas, vá lá! Espero não estar cometendo nenhum sacrilégio; mas Deus está dentro das tragédias! Não se assuste! Se Deus existe, conforme se tem provado, a partir da teoria do primeiro motor de Aristóteles, e mediante todos os argumentos teológicos e metafísicos utilizados por Santo Tomás de Aquino, na “Suma Teológica”, com base, inclusive, em método cientifico, como ele bem o coloca no que poderemos chamar introdução, Deus está nas tragédias. Não digo que Ele seja causa delas; mas as deixa desencadear através do criado: a natureza!&lt;br /&gt;            – Você está sendo muito simplista! E se ele não existir, e a natureza se constituir apenas um fenômeno?&lt;br /&gt;            – Caro Ângelo, admiro a sua incredulidade! Se os argumentos teológicos e metafísicos não são suficientes, observe a extensão do universo! Como surgiu esta imensidão, a ponto de existirem planetas e sistemas solares, segundo a nossa parca inteligência, há milhões de anos-luz? Veja a terra! Está flutuando, apesar de as pessoas dizerem que gostam de terra firme! Se ela e tudo que nela há funciona com precisão matemática; se todo o universo existe e é através de leis físicas e matemáticas, alguém tem de tê-lo criado! Ele não pode ter sido feito per se! Alguém tem de ter pronunciado o “faça-se” ou apenas ter tido a vontade de que ele se fizesse! Não se trata apenas de fenômenos que se auto-explicam!&lt;br /&gt;            – Pois é; mas Deus não teria criado tudo e se afastado da criação? Tudo age sem sua vontade externa, não?!&lt;br /&gt;            – Age? Externa, como se Ele está dentro delas? Não sei, seu Ângelo! Só sei que todas as coisas tem um início! Alguém fez e organizou tudo isso! Nós, homens, é que nada sabemos! Veja, meu caro, nem a lua, que está logo ali atrás do morro, o homem conhece direito! Aliás, nós também somos criaturas de extrema finitude, apesar de sermos necessários para que o Criador seja Criador! Há um poema antigo, em latim, que expõe com maestria este problema da interdependência entre o criador e o criado: chama se “Sator”! Há um amigo meu que o analisa em um livro intitulado “O poema visual”! Era bom o senhor dar uma olhadinha nele, para entender os mistérios e os enigmas que nos cercam!&lt;br /&gt;            – Você foge do assunto! Como que Deus está dentro das tragédias?&lt;br /&gt;            – Fujo, não! Se o universo todo é criação de um Deus, conforme se lê em todas as mitologias, qualquer que seja o nome que se Lhe dê, o homem, a despeito de se considerar a criatura por excelência, não sabe cuidar dos outros criados e nem de si mesmo, pois destrói a matemática inerente as criaturas! Os quatro elementos formadores desse mundo em que vivemos são implacáveis! Agem em silêncio, como o pai que vê o filho praticar o mal! Quando menos se espera, eles dão o troco!&lt;br /&gt;            – E Deus está nos quatro elementos? Você vai longe demais!&lt;br /&gt;            – Vou, não! Sem ser panteísta, posso afirmar que Deus está nos quatro elementos, pois se não o estivesse, não seria onipresente! Os adjetivos usados, notadamente no cristianismo, para defini-Lo e qualificá-Lo são perfeitos: onipotente, onipresente, onisciente! Nos “Upanishads”, séc. VIII a. C., Ele é assim descrito: “Eis o que é invisível e inapreensível, sem ascendente e sem aparência, e não tem nem olhos, nem ouvidos, nem mãos, nem pés, mas é sempre e para sempre — o Onipenetrante que está em toda parte, mas é impalpável e imperecível, Onipresente e Aquele que os sábios, em toda parte, contemplam como a Matriz de todas as criaturas”.&lt;br /&gt;            – Estou começando a entender! E a convencer-me!&lt;br /&gt;            – Ainda bem, seu Ângelo! Se Ele é onipresente, está nas tragédias e bate na cangalha para o burro entender! Só que o burro não entende e continua destruindo o criado!&lt;br /&gt;            – Pode ser que um dia...&lt;br /&gt;– Somos filhos de Deus; mas não estamos percebendo o seu olhar nas profundezas dos mistérios!&lt;br /&gt;– É isso mesmo! Apesar de as leis dos homens proibirem exemplarem-se os filhos, de vez em quando uma tunda, daquelas de arrancar os pêlos, aplicada pelo Criador, é necessária, já que o desconfiômetro não funciona, a fim de que Ele se torne palpável mais do que com o dedo! Miserere nobis, Domine!                &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 18-1-2011, p. 13.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-4433406616623250756?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/4433406616623250756/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2011/01/deus-e-as-tragedias-fala-se-muito-sobre.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4433406616623250756'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4433406616623250756'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2011/01/deus-e-as-tragedias-fala-se-muito-sobre.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-3185770478859896820</id><published>2011-01-11T02:52:00.000-08:00</published><updated>2011-01-11T02:56:19.685-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;           O LIVRO DA DÉCADA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                           José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            A arte se faz do nada. Mas, um nada que é tudo, porque a soma dos fazeres no tempo, desde os riscos do caos nos desenhos do verbo. É por isso que vemos, lemos e ouvimos obras de arte tocantes pelo que apresentam de inusitado, notadamente quando realizadas em linguagens em que os signos dançam coreografias aparentemente nunca pronunciadas nem pintadas pelo logos humano. As obras de arte que tem como matéria de estética a palavra, normalmente se realizam mediante a agregação de outros sinais e de outros símbolos que instalam aquela substância imprescindível às articulações da linguagem plena, instrumento por que o ser da personagem se revela. A busca de novas formas de utilizar a linguagem quase sempre redunda em obras de arte literárias em que ela se renova e, em decorrência, revela aspectos incomuns em nível sintático e, notadamente, semântico. Lacordaire Vieira é um destes contistas que não se contentam com o “déja-fait” e, sendo lingüista, não se atém apenas às estruturas estáticas da Língua Portuguesa; mas serve de seus conhecimentos para imprimir à linguagem aquele caráter metafísico que só a arte, mormente a literária, lhe confere. Se nos contos de “O corpo” procedeu à conjugação do ser das personagens com a linguagem, naquele nível descoberto por Heidegger, em que a língua é manifestação do estado de ser de quem a utiliza, em “A dança do condor” (Kelps, 2010 – Livraria Leart –), irá seguir aquele principio heideggeriano de que o escritor tem de violar a gramática e, portanto, recriar a língua e a linguagem a fim de instalar o estético. Não apenas isso; um escritor contemporâneo tem de empregar signos não verbais oferecidos pela simbologia cristalizada pelo tempo ou criá-los e recriá-los consoante instrumentalização cibernética, a fim de tornar a linguagem concreta, ao ponto de o objeto nomeado parecer-se tocado com o dedo, transformando também a narrativa em ciberficção. &lt;br /&gt;            A originalidade do livro inicia pelo título que envolve o conto homônimo e explora a polissemia do vocábulo dança, uma vez que ele aponta já para a ave, para a arte e para o ser sempre dançante na existência. Por isso, a dor de condor não se restringe ao pássaro; mas às dores do mundo vivenciadas de forma alegórica pelas personagens, sínteses da condição humana. Se há um jogo em que o vocábulo dança vai adquirindo semântica diversa, maiores agregados sêmicos ocorrem em torno da palavra pena, explorada praticamente em todas as suas acepções, pois vemo-la com o sentido de dó, de piedade; de castigo, de arte de escrever, de pássaro etc. Do mesmo modo, condor se reveste de tamanha extensão semântica que encerra as inúmeras formas de se padecer em existência, sendo e, sobretudo, existindo.&lt;br /&gt;            A conjunção de signos e sinais verbais ou icônicos, lingüísticos ou semióticos, produz um discurso verbivisual empapado de ironia, às vezes cruel, impiedosa e, às vezes, sutil, desprendida do humor, com um sorriso refinado e, muitas vezes, cínico. Assim, ao lermos os contos de Lacordaire, temos a impressão de estarmos lendo Sêneca, Stern, Voltaire e, sobretudo, Machado de Assis. Só que as narrativas tem tudo e nada a ver com eles. Tudo, porque se nota influência deles no “modus narrandi” do contista; nada, à medida que o estilo é inteiro Lacordaire. Um estilo novo, ousado, moderno; consciente de estar produzindo arte de primeira grandeza, em linguagem que, algumas vezes, lembra Guimarães Rosa.&lt;br /&gt;            Por fim, sobressai a figura ímpar do narrador, trazido dos contos piadas para estilar o humor e a ironia nas narrativas de Lacordaire. Ele narra como se estivesse contando uma piada; mas, à semelhança de Brás Cubas, gozando da própria desgraça de existir e, às vezes, de ser o que é, sempre à procura do que gostaria de ser. A diferença com os contos piadas, entretanto, ocorre a partir da sintomígrafe (resumo), que já condensa em gotas o riso que irá destilando ao longo da narrativa, enquanto na piada o riso ocorre apenas no desfecho do discurso. A escolha de terceira ou de primeira pessoa obedece às tonalidades impressas à dança e à dor, a fim de colher o riso na dosagem certa, consoante com as formas e fôrmas de linguagem com que o discurso se constrói e consoante com as formas e as fôrmas do riso de ser ente ou ser pleno nas dimensões ôntica ou ontológica da existência.&lt;br /&gt;            Para se sentir a grandeza desse livro, o inteiro “stupore” de suas narrativas, só por intermédio da leitura, pois se trata de um discurso singular, vanguardista, que insere a ficção brasileira na dimensão da cibernarrativa, da ciberliteratura. Sem dúvida, os leitores se sentirão diante de um livro que se transformará em referencial estético da arte literária nacional da primeira década desse século XXI. Por favor, abandonem o espírito provinciano, tendente a valorizar só o que vem do eixo ou da estranja, como dizia Mario de Andrade! Não sejam leitores difíceis! Leiam-no e, depois, me digam! Veni Creator Spiritus, mentes lectorum visita!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras – &lt;a href="mailto:thjfernandes@uol.com.br"&gt;thjfernandes@uol.com.br&lt;/a&gt; – &lt;a href="http://poetacriticojf.blogspot.com/"&gt;http://poetacriticojf.blogspot.com&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Artigo pulicado no Diário da Manhã do dia 11-1-2011, p. 18.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-3185770478859896820?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/3185770478859896820/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2011/01/o-livro-da-decada-jose-fernandes-arte.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/3185770478859896820'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/3185770478859896820'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2011/01/o-livro-da-decada-jose-fernandes-arte.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-19694784566305221</id><published>2011-01-04T03:45:00.000-08:00</published><updated>2011-01-04T03:47:23.110-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            A BURRICE POLITICAMENTE CORRETA – II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                 &lt;br /&gt;            – Como estávamos falando, caro Pangloss, para se ter uma idéia do disparate desses pseudo-educadores, os acalantos gregos e hindus de séculos antes de Cristo possuem sonoridade mântrica. A letra pertence às formas simples, cristalizada no imaginário de cada povo. Assim, querer mudar as letras de “Cuca”, do “Bicho-papão”, tal como o “Boi da cara preta” constitui um despautério, proferido por pessoas que pensam que o mundo começou com elas e que, por isso, deve fazer o que elas imaginam, sem qualquer fundamento. Ora, se todas as palavras referentes ao sono, em todos os idiomas provindos do hindu-europeu, carregam também a semântica de sonho, como imaginação, fantasia, fantasma, fantástico e, sintomaticamente, todas relacionadas com o deus Hipnos, pai de Morfeu, verificamos que música e imaginário se entrelaçam de tal forma no cancioneiro infantil que chegam a ser inseparáveis e, em decorrência, revestem-se de um caráter sagrado, porquanto inerentes à tradição. Assim, além de podermos responder aos insensatos de plantão mediante paródia a Michelangelo, quando Julio I, queria que ele vestisse Noé no teto da Capela Sistina, devemos também recomendar-lhes o estudo do folclore e, sobretudo, a audição das berceuses gregas que nos chegaram através da oralidade. Se Michelangelo não podia mudar a Bíblia, também não podemos mexer nas formas simples; a não ser para inserir o riso típico da paródia ou recriá-las em novas dimensões estéticas. Infelizmente, esta hipótese não se aplica aos “pedagogos” responsáveis, como diz George Gusdorf, pela desgraça imperante no ensino em todo o mundo, notadamente em terras de Pindorama.&lt;br /&gt;– Não sei bem o que é pior; mas, e as canções que dizem incitar à violência?&lt;br /&gt;– Ah! Caro Pangloss, as ilações a respeito destas preciosidades de infância são estarrecedoras. Dizer que “O cravo brigou com a rosa” dissemina a violência é simplesmente risível; mas aquele riso amarelo a que nos impõem as asneiras, as parvoíces! Nas mitologias e nas literaturas se encontram relatos inúmeros de ciúmes e desavenças entre irmãos – Caim e Abel, Polinice e Etéocles, Esaú e Jacó –, de deusas, notadamente Hera, que tudo faziam para eliminar as amantes de seus maridos, Zeus; o ciúme de Laio por Jocasta que o leva a tentar eliminar o filho Édipo; o ciúme de Otelo por Desdêmona que, a despeito de abordar vários temas condenados pelos interessados em criar aberrantes e abomináveis preconceitos, servem de lição à humanidade e, não, para impelir à violência contra a mulher. Se tivermos de eliminar do cancioneiro infantil esta ingênua canção, teremos de destruir as mitologias e as artes delas recriadas, notadamente as tragédias.&lt;br /&gt;– Não seria mais fácil eliminar a burrice? Não seria mais recomendável que estes “sábios” de plantão se inteirassem mais de toda a cultura da humanidade?&lt;br /&gt;– Sem dúvida, Pangloss! Veja, ainda, a canção “Atirei o pau no gato”, condenada por fazer apologia à violência contra os animais. Quem defende e acredita nesta hipótese é realmente um piadista de mau-gosto. Se nas canções de ninar interessam apenas a alternância tônica e a harmonia serena, a fim de provocar o sono, dispensando totalmente a semântica impressa à letra, nas chamadas cirandas, sobrepõem-se o ritmo, normalmente binário, a fim de que as crianças possam dançar ou executar momentos que lembram a dança e que são partes integrantes da brincadeira. É claro que segundo uma harmonia não mais calma e tranqüila; mas alegre e com brilho. O preconceito de que a letra de “Atirei o pau no gato” é vítima assemelha-se à tentativa inusitada de se querer censurar o livro infantil “Caçada de Pedrinho” e revela total desconhecimento de um arcabouço cultural que levou séculos para se cristalizar.&lt;br /&gt;– Se continuarem assim, logo vão se intrigar com a canção “Borboletinha”, por nada saberem sobre a metafísica da linguagem, necessária à criação do ritmo e importante para materializar estados de ser e de não-ser na literatura do absurdo. Já pensou quando tentarem entender “Poti poti/ Perna de pau/ Olho de vidro/ E nariz de pica-pau, (pau, pau)”!? Mas, o que eu acho, se o senhor me permite, é que estes “sábios”, além de acreditarem que tudo iniciou com eles, ainda desviam o foco das desgraças humanas para onde o objeto não está, ou seja, estão em um quarto escuro, à procura de uma cartola preta que não está lá. Todo efeito pressupõe uma causa; mas não a que pensam ser. As razoes da violência dos chamados humanos contra outros chamados humanos; mas que não verdade apenas pertencem à humanidade, ou contra a natureza, são mais profundas e de difícil solução. Por isso, preferem ver chifre em cabeça de cavalo! Educação, é melhor fingir que se está preocupado com ela; economia, para quê, se o povo se contenta com migalhas; cultura, ora, é melhor que o cidadão pense que tem cidadania e aprecie o supra-sumo da quinta essência da porcaria, porque não lhe é dado aprimorar o gosto! Se o povo pensar, o estado, tal como é concebido, corre perigo!&lt;br /&gt;– Pangloss! Você disse todas as verdades! Só lamento que uma cuca, um gato e outros entes de imaginário, de folclore, paguem o pato por tamanhas asnices! Senhor Deus, tenha misericórdia de nós!   &lt;br /&gt; Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 4-1-2011, p. 16.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;         &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-19694784566305221?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/19694784566305221/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2011/01/burrice-politicamente-correta-ii-como.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/19694784566305221'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/19694784566305221'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2011/01/burrice-politicamente-correta-ii-como.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-3796772604898101008</id><published>2010-12-29T03:26:00.000-08:00</published><updated>2010-12-29T03:29:11.136-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            A BURRICE POLITICAMENTE CORRETA – I&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;                                                                                 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Música não é arte apenas para ouvir, mas para sentir, para inebriar, para tocar as funduras do humano, para sustentar os fundamentos do ser. Por isso, ela surgiu antes da letra, com um caráter eminentemente encantatório, e, por isso, dispensa a palavra, pois sua linguagem possui uma dimensão teosófica, que ultrapassa o meramente humano e se insere na esfera do invisível e do indizível. Evidentemente, que estamos falando de música, no mais genuíno sentido de harmonia, mesmo que ela tenha cunho popular, folclórico, mitológico. Não sem razão, os gregos a definiram como, “monosiké tékne”, que traduz seu duplo caráter metafísico e hierofanico, sagrado, e técnico, que envolve o sentido pleno de sabedoria. Por longo tempo, ela visou a elevar o homem a aproximar-se do divino, a ascender aos deuses e, mormente, ao Deus, Iavé. Em decorrência, sua função primeira, além de louvar os deuses, seria impregnar o limitado ser do homem do sublime. Ao ouvirmos músicas sumérias, mesopotâmicas e, sobretudo, gregas dos séculos VI ao I a.C, temos a sensação de que alguma divindade nos incorpora através dos ouvidos; mas, para que isso ocorra, é necessário que se lhas sintamos com o espírito, com aquela qüididade que carregamos na fundura do ser.   &lt;br /&gt;            A magia e o encantamento percorreram toda a história, na chamada música clássica, e também se cristalizou em formas e fôrmas diversas dos ritos religiosos, dos rituais de passagem ou de iniciação, e dos folclores dos vários povos, como se vê no “Capricho italiano”, em que Tchaikovsky intertextualiza canções populares correlacionadas com o rito da colheita da uva, e nas inúmeras composições de Villa Lobas, verdadeiras recriações de nossas formas simples. Entre estas manifestações artístico-musicais pertencentes ao coração do todo se destaca, em todas as nações, a chamada música infantil, erudita, como as “Berceuses” ou “Wiegenlied”, “Lullabies”, de Brahms, Beethoven, Mozart, Chopin, Debussy, Tchaikovsky, também presentes entre nós com o nome de acalanto, criado e recriado por compositores da estirpe de Chico Buarque, com a composição erudita do “Acalanto para Helena”, e Dorival Caymmi, que reinterpreta o tradicional “Boi da cara preta”.&lt;br /&gt;            Em canções inúmeras do folclore criança de todos os humanos, interessam, sobremodo, o ritmo e a harmonia que se revestem de função mântrica,  não, para comover os deuses ou proceder à elevação espiritual; mas para exercerem o feitiço do sono, mediante o deleite, o enlevamento, proporcionados pela placidez, pela serenidade, pelo relaxamento. A letra, a despeito de referir-se ao imaginário do medo, existente na concepção do adulto, tem apenas a função do enlevo, de entorpecimento, tanto que, no momento em que se o conta em “bocca chiusa”, nasalizando a sonoridade, instaura-se o verdadeiro mantra, no sentido sânscrito da palavra, uma vez que nesse idioma, as palavras se compunham, em sua maioria, de fonemas nasais. Além disso, o reiteração do som “hum”, semelhante ao “om” mântrico, possui, desde tempos imemoriais, significado e simbolismo profundos, uma vez que se relacionava ao Absoluto, ao Sublime, caracterizado como o som do infinito, e, entre suas características, encontram-se exatamente o sono e o sonho.    &lt;br /&gt;            Em nosso repertório de cantigas de ninar, cremos, “Boi da cara preta”, além de ser uma variante do mito de bois indomáveis, como Barroso e Espácio,  apresenta todas as características de um mantra, materializado na própria canção, que produz a serenidade necessária à sonolência, ainda possui uma letra em que os fonemas se combinam integralmente com a harmonia. A repetição do vocábulo “boi”, formado por uma consoante bilabial, oclusiva sonora, acompanhada de duas vogais, média e alta, a despeito de não serem nasais, produz musicalidade semelhante à verificada em canções mantricas empregadas, inclusive, por cânticos religiosos, como o gregoriano, sobretudo porque entoado em uma língua sonora, como o é o idioma adotado pela igreja católica de ritos cristalizados pelo tempo. A felicidade de quem compôs esta canção está justamente na interação entre a magia e o encantamento musicais com o som inerente a palavras nada nasais; mas que encerram o ludismo rítmico imprescindível à instauração do poético naquela concepção grega, através do homeoteleuto e, pelos sumérios, por meio dos mantras.&lt;br /&gt;            – Professor, até agora não o ouvi referir-se ao tema de nosso convescote! Ou, para o senhor, toda esta análise faz parte da burrice politicamente correta?   &lt;br /&gt;            – Claro que não, Pangloss! Todos estes esclarecimentos são imprescindíveis para, agora, mostrarmos os absurdos da burrice politicamente correta praticada por alguns pseudo-educadores e por alguns pseudo-cientistas calçados com os saltos altos da incultura. Condenar uma canção como esta, porque o boi causa pavor à criança, é não conhecer os mínimos princípios que cristalizaram o cancioneiro infantil folclórico, é nada entender de psicologia infantil, porquanto ao infante não interessa a letra que será compreendida em uma fase bem posterior ao estar bebê, quando prescinde do ninar materno. É nada entender de música e seus mistérios que ultrapassam o ser meramente homem, pois importa à sua audição unicamente o encanto propiciado pelo arroubo mântrico da música.&lt;br /&gt;            – Estou começando a entender! Miserere nobis, Domine!                    &lt;br /&gt; Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 28-12-2010, p. 15.&lt;br /&gt;   &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-3796772604898101008?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/3796772604898101008/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/12/burrice-politicamente-correta-i-musica.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/3796772604898101008'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/3796772604898101008'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/12/burrice-politicamente-correta-i-musica.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-1896205209438782821</id><published>2010-12-22T04:52:00.000-08:00</published><updated>2010-12-22T04:54:21.043-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            CANTATA DE NATAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                           José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;               &lt;br /&gt;                “Já somos Natal: Yeshua Meshiach veio/da funda eternidade nesta noite, em tempo/de anjos e aleluias a entoarem adeste fideles,/laeti trinphantes, venite in refugium Patris/ e recebei o renascimento no Nome, na Palavra/e nas conjugações do Verbo tecendo mistérios/ e enigmas do invisível e do inapreensível,/ sem ascendente e sem aparência; mas é sempre/ e para sempre onipresente em toda parte/ e em parte alguma, impalpável, imperecível,/invisível; mas artigo de olho inteiro vendo,/cum stupore, o não-visto.”&lt;br /&gt;            O Natal não se passa apenas no nível do parecer e, sobretudo, no nível do ter: deslumbramento de cores para enfeitiçar os olhos do visto; ele tem de passar nas funduras do ser e, em decorrência, assumir uma dimensão que ultrapassa a simples matéria de homem. Ele deve ocorrer nas fimbrias da alma, no mais essencial do humano: o espírito. Nestes tempos de ilusão, de domínio do ter, à medida que o homem precisa sobreviver, abandona-se o permanente, relega-o ao esquecimento. Mesmo quem vai à igreja e ora todos os dias, movido pelas necessidades do terreno, não chega à percepção e à consciência da importância daquilo que se leva para o lado incorruptível do existir, daquilo que verdadeiramente importa ao ser do humano. O Natal seria um momento de renascimento; não do nascer de novo! Renascimento no sentido de recuperar, de revigorar e de aprimorar a plenitude do ser, aquela essência que nos faz sublimes e que nos aproxima da divindade.&lt;br /&gt;            É por isso que as Escrituras Sagradas, traduzidas em linguagens de homens, revelam que no momento ímpar do nascer-se Messias, anjos entoavam glórias às alturas. Ora, se entendermos a semântica do vocábulo glória como a manifestação de um estado de transfiguração hierofânica, operada em decorrência da viva presença do sagrado, o ato de cantar, sabiamente definido por Santo Agostinho como o rezar duas vezes, reveste-se de um significado inusitado, pois seria a repetição no tempo do mito e do rito da alegria e do “stupore”. A chamada Cantata de Natal, tradicional em outros países, encontra eco, no Brasil, segundo a entendemos e a conhecemos em outras culturas, praticamente só no sul, mormente em Curitiba. A despeito de estarmos em um País cada vez mais distante daquele substrato cultural cristalizado pelo ontem, acreditamos que podemos implantar processo parecido segundo nossa maneira de ver e sentir o Natal. Não como se vê em dezenas de vídeos brasileiros na internet, como se aqui só se cultivassem excrementos de cultura ou para a cultura; mas como se vê em centenas de vídeos de “Cantate de Noël”, de “Christmas cantata”, “Weihnachtskantate”, a exemplo das encantadoras e quase celestiais “Cantatas do Oratório de Natal”, em que Johan Sebastian Bach nos insere na atmosfera do sobrenatural, a ponto de nos sentirmos deuses em espírito, uma vez que sua música evoca magia e mistérios de anjos e divindades &lt;br /&gt;            Ao enfatizar a qualidade e a excelência destas cantatas, certamente receberemos a pecha de xenófilo. Cremos, entretanto, que a cultura não se constrói em um dia, nem em poucos anos. Temos de cultivar o belo, naquela acepção do deleite, do sublime, advinda da necessidade de nos aproximarmos do Divino, e isso só se consegue mediante a cristalização do costume por intermédio do aculturamento do povo. Mas, como conseguir o aprimoramento do gosto musical, se não há mais espaço na mídia para “Os canarinhos de Petrópolis”, coral que consegue o milagre da perfeição com vozes mutantes de crianças, tal como ocorre com “Os meninos cantores de Viena”? Por que o povo deve ser mantido nas trevas da ignorância e levados apenas a venerar o feio? Se fosse pelo menos o feio estético! Por que a mídia, as igrejas atendem às ideologias políticas reinantes e enfiam ouvidos adentro as piores produções musicais imaginadas, como se o povo tivesse gosto ditado apenas pelas negras águas podres do Cocito? Até mesmo a Igreja Católica, responsável pelo refinamento do gosto musical em outros tempos, com composições realmente sublimes, como o “Dies sanctificatus”, de Palestrina; a “Ode à alegria”, parte da “Nova sinfonia”, de Beethoven; o “Exsultate justi in Domino”, do Padre Ney Brasil, “Cantate Domino”, de Claudio Monteverdi, adotou, pelo menos nestes brasis, a pobreza e a mizéria artística. &lt;br /&gt;           Temos de cantar, de exultar, de explodir contentamentos pelo Menino nascente e nascendo no sempre do Deus; mas com arte, com o encantamento do belo estético, capaz de maravilhar anjos e santos, não, de afugentá-los das proximidades da manjedoura, das proximidades daquele espaço em que Ieshua, o Santo dos Santos, se revelou, a fim de divinizar a execrável humanidade. É com olhos de cultura e de espírito que a Academia Goiana de Letras idealizou a Cantata de Natal que se realizará amanhã, dia 22, às dezenove horas, na Casa de Cultura Altamiro de Moura Pacheco, na Avenida Araguaia. Os esforços hercúleos do Presidente, Dr. Hélio Moreira, da musicista, Elen Lara, e da Secretária, Márcia Escher Moura, sob o patrocínio divinal da Unicred, resultante da sensibilidade artística da “Promotor” Mônica Josi dos Santos, convertem-se em uma semente que, esperamos, chegue, no próximo ano, a outros recantos da Capital, inclusive ao Palácio das Esmeraldas, porque cantar o Natal, com a verdadeira arte musical, é elevar-nos, por alguns instantes, ao sublime, em que se ultrapassa a insignificante cidadania e se insere, por um piscar de olhos, no paradisíaco. Gloria in excelsis Deo: Noite Feliz! Nollaig Shona Dhuit! Gajan Kristnaskon! Feliz Natal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras – &lt;a href="mailto:thjfernades@uol.com.br"&gt;thjfernades@uol.com.br&lt;/a&gt; – &lt;/div&gt;&lt;a href="http://poetacriticojf.blogspot.com/"&gt;http://poetacriticojf.blogspot.com&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 21-12-2010, p.8. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-1896205209438782821?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/1896205209438782821/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/12/cantata-de-natal-jose-fernandes-ja.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1896205209438782821'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1896205209438782821'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/12/cantata-de-natal-jose-fernandes-ja.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-4186592110684951395</id><published>2010-11-30T03:27:00.000-08:00</published><updated>2010-11-30T03:29:58.330-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            CONTEMPLAÇÃO DO ESTÉTICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                       José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            A contemplação do belo estético compreende inteiração perfeita entre emoção e conhecimento. Viajar por dentro dos traços, das tintas e mergulhar no interior do som, da letra, da pedra, da palavra demanda saber todos os procedimentos utilizados para a elaboração do discurso artístico. Se este discurso se compõe de palavras, além de o leitor conhecer as técnicas, é bom também exercitar e praticar jogos de linguagem, pois o gosto, mais ou menos acurado, depende do grau de sabedoria que se tem das formas e das fôrmas da arte. Ora, se o prazer do texto revela o entendimento que o leitor tem daquela expressão artística, que se pode dizer do crítico, daquele que tem a obrigação de enxergar detalhes retóricos e estilísticos despercebidos às pessoas não inteiramente afeitas à arte de enfeitiçar linguagens com pormenores estruturais instauradores do estético?&lt;br /&gt;Se a crítica se propõe a desvendar discursos que, por algum motivo, suscitaram alguma empatia com o crítico, o arcabouço teórico normalmente se desprende da conjuntura lingüística utilizada pelo artista; mas já antevista pelo hermeneuta. Porém, quando se é convidado a escrever um prefácio, depara-se com estruturas muitas vezes inesperadas e que exigem versatilidade do prefaciador, como domínio das línguas-mães, das poéticas que serviram de base à elaboração do texto artístico. Em decorrência, a reunião de todos os prefácios escritos para obras diversas, em tempos diversos, encerra um ideário estético singular e plural, à medida que retrata a evolução do pensamento crítico do prefaciador e, ao mesmo tempo, a sua capacidade de caminhar por ramos e rumos vários do saber teórico, sustentáculo de suas posições atinentes aos valores sobre que erigiu sua visão crítica do discurso naquele momento.&lt;br /&gt;Não sem motivo, um raro compêndio da crítica literária brasileira se intitula “Discursos paralelos – A crítica dos prefácios”, em que Gilberto Mendonça Teles se mostra um crítico em estado de extinção, assassinado pelas linhas de pesquisa a que os mestres de hoje tem de se amarrar para não se perderem no labirinto desse monstro de infinitas faces: o discurso literário. Gilberto, professor de literatura que caminha por entre os inúmeros tentáculos dos textos poético e ficcional, sabe, como poucos, segurar-lhes as pontas e descobrir-lhes as direções por que elas procuram enredar o leitor, pois, além de conhecer as teorias, definidas como a arte de ver o invisível, também as exercita e as pratica ao produzir uma obra poética das mais consistentes da literatura brasileira contemporânea. Mediante um olhar apenas pelas vias, pelos trilhos e tritrilhos do sumário, o leitor verificará com quantas linhas se costura o seu pensamento crítico; por quantos atalhos e veredas ele caminha para desvendar este minotauro de palavras sempre a devorar os leitores que se perdem pelos seus labirintos.&lt;br /&gt;A contemplação dos compartimentos do Cnossos poético certamente o fascina, porque conhece os cantos e os recantos utilizados pelos poetas para multiplicarem as imagens e seus claros enigmas de palavras. Assim, empreende viagem serena pelos mistérios dos hífens, pelo corpo transitório, em que se ressalta o título pego a Propércio, “Oculi sunt in amore duces” – No amor, os olhos são soberanos” –, decorrência de o fazer poético de Paulo Galvão correlacionar-se diretamente com a semiologia oftalmológica, a ponto de criar um lirismo e uma poética dos olhos. Mas, conhecedor de todo o Cnossos literário, desvenda a crítica da crítica e a história literária, entendida como a evolução das formas, imprescindível ao entendimento das transformações por que passou o discurso literário ao longo do tempo.                                                                                                                                                                                                      &lt;br /&gt;            A despeito do privilegio involuntário concedido à poesia e à crítica, Gilberto transita com igual desenvoltura hermenêutica por todos os gêneros literários, desvendando o interior de todos os mistérios desse labirinto de linguagem sem se prender às cores e às espessuras das linhas que cada artista utilizou para enredar o discurso. Até mesmo romances de extremo realismo e de ferina ironia social, como “O destino da carne”, de Assis Brasil; “Jurubatuba”, de Carmo Bernardes, e “Lição de amor”, de David Gonçalves, foram visitados, de forma galante, pelos olhos profundos da crítica telesiana. E o conto, gênero que evoluiu em todos os sentidos nos últimos cem anos, a ponto de tomar emprestado construturas típicas do teatro, do cinema, da música, do jornalismo, da semiótica, a fim de materializar verdades em alto grau estético? E que dizer da crônica, gênero movediço que se abebera em tantas fontes, como a poesia, a história, a filosofia, a sociologia, a psicanálise, para fugir ao efêmero e realmente se tornar arte e vencer as turbulências do tempo?...  &lt;br /&gt;            A crítica dos prefácios se reveste de tamanho rigor que o crítico poeta o transforma em prazer lúdico no poema “Prefácio”, dedicado à poetisa Augusta Faro: “– Queria tanto que você prefaciasse/meu novo livro de poemas./– Desculpe-me, não escrevo mais prefácio:/Estou cuidando agora dos meus versos.//Dias depois eis um postal da Grécia: – Sabe quem vi de férias por aqui?/O velho Homero, ao lado de uma deusa,/Perguntou por você e lhe manda dizer/para não deixar de fazer o meu prefácio.//Ah musas! Ensinai-me algum remédio,/dai-me uma fúria de trovoes e brisas/para eu fugir do inteligente assédio/das belas poetisas.” É preciso mais? É só contemplar, também!  Deo gratias et Mariae!    &lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras – &lt;a href="mailto:thjfernandes@uol.com.br"&gt;thjfernandes@uol.com.br&lt;/a&gt; – &lt;a href="http://poetacriticojf.blogspot.com/"&gt;http://poetacriticojf.blogspot.com&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Artigo publicado no Diário da Manhã do dia 30-11-2010, p. 10.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-4186592110684951395?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/4186592110684951395/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/contemplacao-do-estetico-jose-fernandes.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4186592110684951395'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4186592110684951395'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/contemplacao-do-estetico-jose-fernandes.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-6558924914469055645</id><published>2010-11-30T03:25:00.000-08:00</published><updated>2010-11-30T03:27:14.691-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>CAÇA A PEDRINHO&lt;br /&gt;                                  &lt;br /&gt;Antigamente, caçavam-se tigres, leões, pombos...&lt;br /&gt;Hoje, cassam-se falas distraídas do silêncio&lt;br /&gt;nas cavernas em que se escondem letras,&lt;br /&gt;mistérios e enigmas em tons hieroglíficos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caçam também bruxas e seus vôos vassoura&lt;br /&gt;perdidos na memória menina dos crepúsculos&lt;br /&gt;avós sentados à beira do tempo com suas ruas&lt;br /&gt;de silêncio e faíscas a trepidarem alimárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cassam, ainda, livros, pois se lê demais&lt;br /&gt;no escuro das idéias torcidas pelos olhos&lt;br /&gt;de corujas e caburés, ou nas carapaças tatus&lt;br /&gt;enfurnadas nos fundos buracos do discurso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cassam até o imaginário azul de Pedrinho&lt;br /&gt;que vivia sítios  e inocências de árvores&lt;br /&gt;pingando verde e pintando manhãs e rios&lt;br /&gt;que os anos e o pouco siso não trazem mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve mesmo um czar naturalista que caçava&lt;br /&gt;borboletas e andorinhas. Quando lhe disseram&lt;br /&gt;que se cassam os poetas e suas criaturas de palavras,&lt;br /&gt;ficou muito espantado e achou uma barbaridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                               Refúgio do Poeta, 6-11-2010&lt;br /&gt;Poema publicado no Diário da Manhã - Suplemento Literário, 28-11-2010, p. 2&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-6558924914469055645?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/6558924914469055645/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/caca-pedrinho-antigamente-cacavam-se.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/6558924914469055645'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/6558924914469055645'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/caca-pedrinho-antigamente-cacavam-se.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-8786370399712309764</id><published>2010-11-23T02:42:00.000-08:00</published><updated>2010-11-23T02:45:45.908-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            GOIÂNIA E O FUTURO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                           José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            A concepção hindu impressa ao sentido sânscrito de administração se liga ao significado de organização, de desenvolvimento, obtidos mediante a sabedoria de quem idealiza e realiza ações que visam ao futuro da cidade e do estado. Não sem motivo o alfabeto sânscrito se chama “devanagari”, porque destinado à manifestação dos deuses, “deva”, e da cidade, “nagari”: escrita perfeita ou escrita da cidade dos deuses que, por isso, deveria ser administrada pelos devas, semideuses. Por quê? Simplesmente por enxergarem além do tempo e, em decorrência, poderem assegurar que tudo, nela, funcionasse consoante os princípios da ordem, da perfeição, do equilíbrio, da excelência.&lt;br /&gt;            As línguas são perfeitas; os homens, a despeito de as haverem criado, não as utilizam e não as compreendem como deveriam. Inteiramente conjugada à semântica impressa à palavra sânscrita, a designação latina daquele que governa a cidade ou o estado, etimologicamente quer dizer “feito, concebido além, adiante”, “prae-fectus”. Ora, o que se exige dos governantes, uma vez que o sentido não se atém apenas à cidade, senão que eles enxerguem além, que eles estejam adiante de seu tempo, como se fossem “devas”? Andando pelas ruas de Goiânia, a qualquer hora do dia ou da noite, temos a certeza de que seus governantes se estacionaram comodamente alguns lustros atrás. A cidade cresceu; mas sem a ação direta do “prae-fectus”, de alguém que estivesse à frente dela, que a enxergasse além das décadas e dos séculos. Basta verificarem-se ruas acanhadas, em que passam centenas de veículos por dia; mas que, muitas vezes, tem de parar, a fim de cederem espaço aos que vem à esquerda, pois, além de estreitas, ainda aceitam estacionamento nas duas direções. A cidade, que deveria ser governada com a visão de um “deva”, de um “prae-fectus” entupiu-se de carros sem que se houvesse pensado a lei de Newton ou o principio da exclusão de Pauli: “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. E agora? Até as ágoras, praças, estão atulhadas de veículos, e a polis crescendo, sem as ações eficientes antevistas pelos “devas”. Setores arranhando os céus, com ruas longas e estreitas dando passagem às lesmas e às tartarugas que se não podem mover. E os devas a olharem o ontem, satisfazendo-se com pequenos nadas que jamais serão tudo. Não é, Fernando Pessoa?  &lt;br /&gt;            A despeito de Goiânia ter sido governada por um prefeito que traz a pressa na essência conferida pelo nome e que prejudica os seus mandatos, verificamos que ela está parando. Logo poderá chegar à imobilidade, sem que nenhum “prae-fectus” faça valer o “além”, o “adiante”, conferido pela semântica latina de “prae”. De certo imaginam e praticam este “prae”, pensando que ele tem o sentido de nosso pré, antes, anterior. Aliás, são raros os políticos brasileiros que governam com os olhos e os atos voltados para o amanhã. Parece um estigma maligno: estamos sempre agarrados à cauda da história, como se estivéssemos sempre a subir uma grande montanha. Sempre “pré”, porquanto herdamos o sentido vulgar desse prefixo, em vez do culto, inserto em previsão.&lt;br /&gt;            Se não houver prefeitos que enxerguem adiante, que prevejam o vir-a-ser, em breve viveremos o que escrevemos em um conto intitulado “Panóletros”, em que imaginamos o absurdo de os semáforos desregularem-se e ficarem sempre verdes, levando a personagem cada vez para mais longe de seu destino. Jamais poderíamos pensar que aquela invenção do imaginário pudesse ocorrer na realidade. Entretanto, se verificarmos o fluxo de veículos em centenas de cruzamentos ao longo de todo perímetro urbano, logo nosso conto deixará de ser ficção. Que horror! Portanto, está passando da hora de o governo municipal, seja quem for, de que partido for, administrar a cidade segundo aquele entendimento de milhares de anos, antevisto pela criação da palavra administração; mas depositado nas cavernas da inércia, da irresolução, da incultura.&lt;br /&gt;            Para isso, talvez seja necessário verificarmos outra semia do vocábulo prefeito, em sua acepção latina: “aquele que está grávido”. Não é para rir, não! Prenhe de idéias, de criatividade, de visão penetrante; mas, sobretudo, da prática futurista do ato de governar. A cidade de Goiânia necessita de muitos prefeitos, no sentido amplo de governante, de administrador. Talvez, no próximo ano se inicie uma longa fase dos verdadeiros “prae-fectus”, dos verdadeiros devas em Goiás. Um, com nome de apóstolo, traz o significado de “pequeno”; mas como aquele que difundiu o cristianismo pelo mundo judaico-romano, poderá lançar as bases deste novo tempo. Sabe Deus! O outro, protegido por Marte, poderá ser um verdadeiro guerreiro em termos administrativos e transformar Goiás e Goiânia, preparando-os para atenderem às necessidades dos tempos novos, com a excelência que se requer. Esperamos que eles sejam verdadeiros “prae-fecti”, com aquele terceiro olho de Deva,  criador e transformador da polis, pois a administração pública não deve ter partido e, muito menos, míopes, estrábicas e hipemetrópicas ideologias. Propitius esto! Exaudi nos, Domine!                           &lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. &lt;a href="mailto:tjjfernandes@uol.com.br"&gt;tjjfernandes@uol.com.br&lt;/a&gt; – &lt;a href="http://poetacriticojf.blogspot.com/"&gt;http://poetacriticojf.blogspot.com&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 23-11-2010, p.2 .&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-8786370399712309764?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/8786370399712309764/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/goiania-e-o-futuro-jose-fernandes.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/8786370399712309764'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/8786370399712309764'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/goiania-e-o-futuro-jose-fernandes.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-1091637352606404194</id><published>2010-11-16T04:39:00.001-08:00</published><updated>2010-11-16T04:41:14.934-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            TRAIÇÕES E TRAIDORES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                       José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            A traição é própria das criaturas. Deus criou os anjos, e alguns se rebelaram e formaram a classe dos belzebus. Cristo, por ser o herói trágico por excelência, porquanto soubesse antecipadamente do destino a enfrentar, escolheu Judas Iscariotes como apóstolo, a fim de que ele o traísse, e as profecias se cumprissem. Parece-nos que os homens gostam dessa pérfida deslealdade, desses malditos ardis. À exceção dos primeiros ingratos, Lúcifer e Judas, a maioria daqueles que compõem a galeria dos maiores sacripantas da história está ligada a grupos e a interesses pessoais. Basta se conferir e se verá: eram espiões – Aldrich Ames – ;  generais – Cássio Longinus, Wang Jigwei, Augusto Pinochet –; mafiosos – Silvério dos Reis, Tommaso Buscetta – ; proprietários de sesmarias – Domingos Calabar; filhos adotivos – Brutus; filhos biológicos – Suzana Von Richtöfen e, mormente, políticos, sobretudo aqueles que são criaturas de algum deus “ex machina”, como ocorreu a Talleyrand Périgord e, sem dúvida, a Pinochet. Na trajetória histórica destes brasis, as traições entre políticos são freqüentes e, não se sabem as razoes, quase sempre caem no esquecimento, até do traído ou dos traídos.&lt;br /&gt;            O que leva alguém a adotar esta nefasta atitude normalmente é o estado de criatura, de dependência em relação ao criador. Em Goiás, temos um exemplo perfeito de ingratidão, semelhante àquelas bíblicas, pois o criado jamais chegaria a mandante do Estado, sozinho. Aliás, estas eleições se nos prestaram à verificação de que nós, eleitores, sopramos vida aos políticos, porquanto os elegemos, mas somos sempre traídos. Sempre dizíamos a um amigo que, mal passasse o pleito, os combustíveis, notadamente o álcool, seriam majorados. Pois, sequer aguardaram a passagem do engodo. No dia mesmo do primeiro turno, assustamo-nos com as placas apostas às entradas dos postos. Foi uma facada nas costas dos eleitores que ainda iriam conferir sopro a muitos “vitoriosos”. Depois, veio o segundo turno, realizado dia 31 passado. Três dias depois, uma pérfida punhalada perpetrada por centenas de mãos assassinas: a recriação da abominável CPMF para a saúde. Realmente, à época da primeira execrável Contribuição viu-se a saúde de muitos governantes ou de seus auxiliares em excelente estado. É só rememorarmos os múltiplos escândalos ocorridos entre os políticos nesta primeira década di século. Chegam a mais de duzentos. Isso mesmo! Infelizmente, no espaço desta crônica eles não caberiam! Os criadores desses malfeitores, os eleitores, aqueles que necessitam dos serviços oferecidos pelo sistema de saúde, continuaram como dantes na casa de Abrantes. Basta verificarmos o noticiário da época: filas quilométricas em frente a postos de atendimento, salários inomináveis aos médicos que gastam um terço da vida em estudos, pacientes – e como são pacientes! – em macas nos corredores, farmácias desprovidas de medicamentos. Os eleitores continuam naquela situação em que se emprega a semântica do vocábulo “pharmakós”, na tragédia grega: são imolados para purificar a polis, ou para purificar as finanças da maioria dos políticos que, longe de se aproximarem dos heróis trágicos, sempre se saem ilesos das artimanhas dessa esfinge devoradora de impostos.&lt;br /&gt;            A diferença entre a política de brasis e a tragédia grega reside no fato de que é o político que traça o seu destino, conscientemente, uma vez que seus próprios oráculos lhe direcionam à execução do ato que vitima àquele a quem deve o voto. Assemelha-se à maldição dos lambdácidas, notadamente se o “pai” e, sobretudo, a “mãe” estiver na classe média, que usa conta bancária para subsistir com o parco salário. Ou, pior, se a “mãe” for o estado que lhe oferece os instrumentos de imolação do contribuinte de forma a arregalar-lhe os olhos, como se vê mediante a ganância da CPMF, saúde certeira às suas ambições. Oh! Deus, como eles mamam!        &lt;br /&gt;            Se a arrecadação chegou a duas vezes ao que se arrecadava na primeira CPMF, a recriação dessa famigerada contribuição configura realmente uma abominável traição ao povo que elegeu estes governadores que se ouriçaram com a maldita idéia. Toda traição é execrável e, por isso, imperdoável; mas quererem calar a imprensa, agora com idéias de esquerda, é o supra sumo da quinta essência do contraditório: é traição! É uma emboscada com aviso prévio! Já não bastaram trinta anos de ditadura? Parece até que esses que se dizem perseguidos àquela época, gostaram da censura, gostaram que as verdades fossem escondidas nas fundas cavernas do silêncio. Certamente, por tanto a haverem apreciado, desejam adotá-la, agora, como norma de governo! Àquela época, tivemos de nos preocupar com os ouvidos das paredes! Será que, agora, depois de velho, teremos, novamente, de fechar-nos no nosso próprio silêncio e engolir espinhentas verdades? Amigo J. Veiga, você que soube tão bem retratar aqueles tempos de obscurantismo, abra-nos algum caminho, porque, infelizmente, há ruminantes e pecados em todas as tribos. Esperamos que não haja mais torvelinhos dia e noite nem objetos turbulentos neste novo mundo de vasabarros! Chega de cálice e de galos impertinentes! Miserere nobis, Domine!            &lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. &lt;a href="mailto:thjfernandes@uol.com.br"&gt;thjfernandes@uol.com.br&lt;/a&gt; – poetacriticojf.blogspot.com &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 16-11-2010, p. 8.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-1091637352606404194?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/1091637352606404194/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/traicoes-e-traidores-jose-fernandes.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1091637352606404194'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1091637352606404194'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/traicoes-e-traidores-jose-fernandes.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-8145496397695504618</id><published>2010-11-06T09:40:00.000-07:00</published><updated>2010-11-06T09:42:20.687-07:00</updated><title type='text'>CAÇA A PEDRINHO</title><content type='html'>Eis um rascunho de poema! Não o queiram cassar! Ou caçar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAÇA A PEDRINHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antigamente, caçavam-se tigres e elefantes.&lt;br /&gt;Hoje, cassam-se falas distraídas no silêncio&lt;br /&gt;das cavernas em que se escondem letras&lt;br /&gt;e seus mistérios gravados nos hieróglifos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caçam também bruxas e seus vôos vassoura&lt;br /&gt;perdidos na memória menina dos crepúsculos&lt;br /&gt;avós sentados à beira do tempo com suas ruas&lt;br /&gt;de silêncio e faíscas a trepidarem alimárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cassam, ainda, livros, pois o povo lê demais&lt;br /&gt;e pode descobrir idéias torcidas pelos olhos&lt;br /&gt;de alguma coruja ou de algum tatu&lt;br /&gt;enfurnado nos buracos do discurso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cassam até o imaginário de Pedrinho&lt;br /&gt;que vivia sítios e inocências de árvores&lt;br /&gt;pingando verde e pintando manhãs e rios&lt;br /&gt;que os anos e o siso não trazem mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve mesmo um czar naturalista que caçava&lt;br /&gt;borboletas e andorinhas. Quando lhe disseram&lt;br /&gt;se cassam os humanos e suas criaturas de palavras,&lt;br /&gt;ficou muito espantado e achou uma barbaridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                               Refúgio do Poeta, 6-11-2010&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-8145496397695504618?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/8145496397695504618/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/caca-pedrinho.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/8145496397695504618'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/8145496397695504618'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/caca-pedrinho.html' title='CAÇA A PEDRINHO'/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-480512522830023254</id><published>2010-11-05T05:18:00.000-07:00</published><updated>2010-11-05T05:21:35.891-07:00</updated><title type='text'>ABOLIÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Caros amigos, em decorrência da nefanda tentativa de censurar o livro A caçada de Pedrinho, de Monteiro Lobato, antecipo minha crônica que deverá sair na próxima terça-feira. Não podemos aceitar tamanho absurdo, tamanha inconsequência, tamanhço analfabetismo, TAMANHO PRECONCEITO INÚTIL E CEGO:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;ABOLIÇÃO DA LITERATURA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                           José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Estarreci-me com a possível censura à Caçada de Pedrinho. Pensei razoes de cunho ecológico que, também, seria cegueira, porque a arte é a expressão estética de uma época. Mas, não, elas eram muito mais ridículas, porque resultantes de preconceitos que mostram o apequenamento por que o homem está passando. Sobretudo, mostram uma total miopia literária. Se o tratamento conferido pelo narrador à simpática e querida Tia Nastácia se configura como racismo, teremos de abolir da literatura brasileira grande parte da lírica crioula, de Gregório de Matos que, em seus estilos maneirista e barroco entronizava a mulher negra e, às vezes, a rebaixava, quando ela merecesse ser satirizada. Teríamos de suprimir de nossa cultura literária, pelo menos, dois romances de Aluisio de Azevedo. O primeiro, por causa da personagem Rita Baiana, descrita como a própria sedução e, pior, por causa da Bertoleza, que fora nomeada com o nome de mula e que trabalhava como um animal, assim descrita pelo narrador impiedoso do naturalismo: ”Bertoleza é que continuava na cepa torta, sempre a mesma crioula suja, sempre atrapalhada de serviço, sem domingo nem dia santo: essa, em nada, em nada absolutamente, participava das novas regalias do amigo: pelo contrário, à medida que ele galgava posição social, a desgraçada fazia-se mais e mais escrava e rasteira. João Romão subia e ela ficava cá embaixo, abandonada como uma cavalgadura de que já não precisamos para continuar a &lt;a name="tx10"&gt;&lt;/a&gt;viagem.” E que dizermos de O Mulato, em que Raimundo realmente é vítima do racismo de Maria Bárbara? Mas, se o extinguirmos, como ficará cristalizada aquela época em linguagem, como saberemos das ideologias e filosofias que embasaram o naturalismo em toda a sua extensão estética? E A escrava Isaura, também passaria por algum tipo de censura, em decorrência dos sofrimentos a ela impostos pelo comendador Almeida e, sobretudo, pela sanha do indecoroso Leôncio? &lt;br /&gt;            Mas, e o nosso simpático Macunaíma, herói sem caráter, uma das principais produções do estilo modernista? Deveria ser extirpado de nossa cultura ficcional por que suas “malandragens” constituem a essência mesma do brasileiro irresponsável e brincalhão só pelo fato de ele fazer piadas aparentemente indecentes, como ao perguntar “em que lugar a negra tem os cabelos mais crespinhos”? E o estupendo poema de Jorge de Lima, Essa Nega Fulô, em que ele joga magistralmente com os sentidos vários de fulô, que pode ser flor e aquela que roubou? Deveria ser excluído da poética brasileira por que acusa a negrinha de roubar as jóias da Sinhá, ou por que roubara o Sinhô, decorrência de sua beleza exuberante? Coitado do poema Irene no céu, obra-prima de Manuel Bandeira – “Irene preta, Irene boa/Irene sempre de bom humor.//Imagino Irene entrando no céu?/ – Licença, meu Branco?//E São Pedro bonachão:/ - Entra, Irene! Você não precisa pedir licença!”?  Seria abolido só pelo fato de ela ser chamada de preta? E o ritmo do poema Monjolo, de Raul Bopp, banido, por que se refere à labuta dos escravos na fazenda?: “Fazenda velha./Noite e dia/Bate-pilão.//Negro passa a vida ouvindo/Bate-pilão.//Relógio triste o da fazenda./Bate-pilão.//Negro deita. Negro acorda./Bate-pilão.//Quebra-se a tarde./Ave-Maria./Bate-pilão.//Chega a noite./Toda a noite/Bate-pilão.//Quando há velório de negro/Bate-pilão.//Negro levado pra cova/Bate-pilão.”&lt;br /&gt;Mas, e Negrinha, que dá nome ao esplendoroso livro de contos do próprio Lobato? Que será dessa narrativa ímpar de nossas letras, se, para retratar os sofrimentos cruéis da personagem, inicia-se com uma descrição impiedosa da criança?: “Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.” Todo ele expeliria preconceitos em todas as direções, inclusive contra brancos, igreja, solteirice? Deveria ser banido da literatura por estilar ironia e sátira em todas as letras e palavras? E a inimitável trilogia de Antônio Olinto, seria visto nela algum tipo de preconceito contra os iorubás, por causa dos mitos e ritos sabiamente cristalizados em um processo intercultural singular? O fato de os ex-escravos e seus descendentes, ao voltarem para a África, terem de descer nus, ou enrolados em lençóis, como ocorre em A casa da água, não seria um tipo de constrangimento e de racismo imposto pelos próprios patriotas? E centenas de outras criações de nossa literatura que cristalizam verdades de humano, de história e de cultura que tem como personagens negros, índios, jagunços, favelados, garimpeiros?... Só se pode calar se se puder falar! Lobato, como os tempos mudaram, para pior! Querem calar-te! Querem cassar o Pedrinho! Como os professores estão analfabetos, meu caro! Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, se eu deliro... ou se é verdade tanto preconceito inútil perante os céus! Cálice!&lt;br /&gt;            Literatura não é para se ler com os olhos do corpo; mas com aquele terceiro olho que nos aproxima de Iavé e sua imensurável sabedoria. Quem não tiver olhos para ver, procure a luz! Estude! Conheça todas as literaturas de todos os povos, pelo menos dos ocidentais! Não se pode ser apenas curioso, mas conhecedor e produtor da arte de esfolar palavras e adorná-las com o húmus do boneco e o sopro capaz de nomear o caos! Fiat! Faça-se! Veni Creator Spiritus, mentes magistrorum visita!&lt;br /&gt;                      &lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. http://poetacriticojf.blogspot.com&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-480512522830023254?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/480512522830023254/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/abolicao-da-literatura-brasileira.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/480512522830023254'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/480512522830023254'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/abolicao-da-literatura-brasileira.html' title='ABOLIÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA'/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-6213041174429546919</id><published>2010-11-02T03:00:00.000-07:00</published><updated>2010-11-02T03:03:36.946-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            SÓ É POSSÍVEL CALAR SE SE PUDER FALAR!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                  José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                      A Batista Custódio, homem liberdade!&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;            Ainda pequeno, vivi o espaço dos alçapões e seus silêncios a escorrem claustros e paredes nuas. Dia e noite, olhos predadores me espiavam pelas frinchas de vento e dos pedregulhos doridos. Hoje, quando me penso viajando nas asas de araras e periquitos, além de brincar de estorvar pedras e limos, leio gaiolas fechando cantos e calando violinos. Quando pensei que só poderia me silenciar porque posso ouvir e cantar sereias melodiando sertões, revejo duros grilhões ditadores querendo engolir letras e palavras que voam rios e correm pássaros. Ora, se falar é articular a existência, mediante o diálogo com o outro e consigo mesmo, na medida em que se revela e se realiza a plenitude do humano, no momento em que se é privado da faculdade de falar, perde-se um dos elementos mais profundos, inerentes ao ser do humano: a liberdade. Será que é por isso que se canta tanto a “cidadania”, essa coisa incompleta que diz respeito apenas à identidade social do indivíduo? Cidadania, tal como é empregada, destituída da identidade ontológica do ser, é um canto de saci passarinho. Deve ser por isso que só se fala em cidadania, como se o homem falasse com a boca do estômago e pensasse com os chinelos; mas tivesse panarício no topo da cabeça! Cidadania concebida pelos olhos dos favores e, notadamente, pela visão vaporosa das brumas, é uma forma de oferecer aos outros as melodias dos avestruzes e de se reter os vôos beija-flores ao néctar da vida, porque aprisionados ao mundéu dos loucos. &lt;br /&gt;            Certamente, é por isso que se quer calar a imprensa, a única instituição séria ainda existente nesse país de brincadeira, de engodos, de empates combinados naquele que deveria ser o mais rigoroso dos poderes, a fim de manchar a ficha limpa, de pesquisas falaciosas destinadas os incautos com a própria imagem no espelho... A imprensa ainda é a única maneira de se falar pela maioria, de se mostrar à população os subterrâneos imundos das cavernas de morcegos e sanguessugas. Se falar é articular o ser, no mais profundo sentido de substância do humano, porque possibilidade de ele desvendar-se em verdades do existir, no momento em que se restringe ou se embarga a palavra, se está nulificando a essência mesma do falante; porque negar a palavra é negar a identidade e a verdade do outro. O silêncio só é possível a partir da existência do genuíno falar. Se não se puder falar, não se silencia; é-se silenciado!&lt;br /&gt;            Ser silenciado constitui o mais nefando assassinato da liberdade, definida como “estado daquele que faz aquilo que quer e não aquilo que outrem pretende que ele faça; é ausência de um constrangimento estranho” ao pensar, ao agir e à prática do livre arbítrio e da livre pronúncia da palavra falada ou escrita. Os brasileiros pertencentes à minha geração sabem o que é ser calado, sabem o que é ter medo das paredes e seus ouvidos. Os brasileiros da minha geração leram “Os Lusíadas”, inteirinhos, nas páginas do também hoje calado Estadão. Todos sabem que, supressas as liberdades e as garantias individuais, a fala se converte em um ato perigoso, e o humano é fechado na escuridão do silêncio, como bem sintetizou aquele tempo José J. Veiga, através das personagens Amâncio e Manuel Florêncio, em “A hora dos ruminantes”: “Amâncio parou de falar, chegou à janela, olhou o largo com interesse, como quem se despede de um lugar antes de uma viagem demorada, com o cavalo na porta arreado e o arrependimento de ir já doendo por dentro; e continuou falando para fora, indiferente à presença de Manuel Florêncio.&lt;br /&gt;– Quem havia de dizer que Manarairema ia mudar em tão pouco tempo... Antigamente a gente vivia descansado, sossegado, dormia e acordava e achava tudo no lugar certo, não era preciso pensar adiantado. Hoje a gente pensa até para dar bom-dia. O que foi que nós fizemos para acontecer isso? Manuel, estamos mal.&lt;br /&gt;Manuel olhou-o meio comovido, meio desconfiado. Aquele lado novo não esconderia  uma armadilha? Amâncio segurou-o pelo ombro e disse quase implorando:&lt;br /&gt;– Precisamos ficar muito unidos, compadre. Vamos atravessar uma quadra de muita dificuldade.&lt;br /&gt;– Mas Amâncio, por que agora? Ou você está assustado com alguma coisa?&lt;br /&gt;Amâncio baixou a cabeça e disse em voz mais baixa:&lt;br /&gt;– Você sabe o que é que eu estou dizendo. Não pensei que chegasse a esse ponto, mas chegou. Caímos na ratoeira e por enquanto não vejo saída.”&lt;br /&gt;Se já vimos o silêncio assassinar a verdade e tolher vôos águias e andorinhas, por que instalá-lo novamente através de espúrias comissões destinadas a cortar letras e palavras saídas das funduras do humano? Por que calar o verbo e suas conjugações de humano de homem na crista do tempo? Haverá ruminantes que se prestem a tão vis currais? Liberdade, jamais tardia, caro Melibeu-Títiro-Virgílio! Liberdade, sempre liberdade, Senhor Deus dos desgraçados! Que posso fazer se, para encantar o azul, uso o vôo dos pássaros, para cinzelar homens, pulo pedras e natureza: elegâncias de garças, gorjeios de árvores e sinfonia de vaga-lumes: desenhos de estrelas?! Que fazer se, para fugir à dança preta dos anus, dou asas à imaginação e seus fios: deixo a pena correr o branco e a folha que entendem cantos de árvores e rios correndo estrelas?! Não se podem calar os bem-te-vis! Veni Creator Spiritus, mentes politicorum visita!     &lt;br /&gt;                &lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. &lt;a href="mailto:thjfernandes@uol.com.br"&gt;thjfernandes@uol.com.br&lt;/a&gt; – poetacriticojf.blogspot.com&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 2-11-2010, p. 19.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-6213041174429546919?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/6213041174429546919/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/so-e-possivel-calar-se-se-puder-falar.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/6213041174429546919'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/6213041174429546919'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/11/so-e-possivel-calar-se-se-puder-falar.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-6658242700604307809</id><published>2010-10-29T07:25:00.000-07:00</published><updated>2010-10-29T07:27:16.849-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;INTERCULTURALIDADE EM A CASA DA ÁGUA&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                                           José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn2" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As fôrmas literárias não envelhecem. A criatividade de poetas e ficcionistas se traduz sempre em novas linguagens, que re-inventam o imaginário e tudo que ele encerra como resultado de um novo faça-se. Se o ficcionista trabalha com componentes culturais diversos, em contato ou não, que se mesclam e se fundem na tessitura do discurso artístico, obriga a crítica literária e o estudioso da literatura a instrumentalizarem-se para responderem aos desafios impostos pelo texto ficcional. Em decorrência, o crítico se vê na obrigação de empreender leituras que congreguem estes elementos inter-culturais e ofereçam respostas às novas construturas impostas pela riqueza de imaginários das culturas que se interagem no tecido do discurso estético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A arte literária, além de condensar todos os pensamentos filosófico, sociológico, psicanalítico, fenomenológico de uma época, estabelece também um contraponto com as culturas que se encontram em contato. O romance de Antônio Olinto, A casa da água, o primeiro de uma trilogia formada por Rei do Keto e Trono de vidro, intitulada Alma da África, constitui um desses repositórios da cultura a que dedicaremos nossa atenção nesse artigo, à medida que a narrativa, em uma espécie de contraponto, joga em sincretismo com culturas que se agregam, se substituem, se complementam ou se adquirem em decorrência do tempo em que se está em contato com pessoas e com o meio em que as culturas se desenvolvem. Como A casa da água conforma-se mediante um cadinho de culturas que se inter-influenciam em um verdadeiro processo alquímico, nossa análise percorrerá vários recantos do edifício de um discurso original e, portanto, singular, desse romancista de extrema criatividade.          &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            1 - Aspectos interculturais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              O texto artístico, como criação da subjetividade de um autor, conforme o sentimento e a técnica de tempos e de espaços determinados, com as idiossincrasias resultantes de sua enciclopédia pessoal e de uma disposição fenomenológica inerente ao processo criativo, imporá ao leitor, para proceder a sua integral compreensão e análise, um processo transdisciplinar e transcientífico, a que se chama interculturalidade ou transculturalidade. A interculturalidade seria a extensão do conceito de intertextualidade, à medida que a elaboração do texto artístico envolve cruzamentos de culturas que ultrapassam os mecanismos empregados na consecução da intertextualidade.  &lt;br /&gt;Em principio, a capacidade de se criar um discurso sobre outros discursos e, em conseqüência, de se ler em um texto uma série de textos cristalizados pelo tempo, parecia solucionar o problema da interculturalidade. Hoje, porém, a interculturalidade, ou seja, a possibilidade de se lerem outros discursos, como o da metafísica, da fenomenologia, da sociologia, da antropologia, da etnologia, da economia, da ética, da pólis e até de outras culturas em contato, na montagem de um único texto, torna-se a tônica da criação do discurso estético e, em conseqüência, também dos estudos literários.&lt;br /&gt;Esta interatividade cultural constitui a própria razão de ser do romance A Casa da Água, materialização de um processo por que passaram os países colonizados e passam, na atualidade, aquelas nações destituídas de tradição e, sobretudo, de orgulho cultural, em decorrência da globalização. Trata-se, assim, de um romance que transita entre práxis antropológicas e etnográficas dos dois últimos séculos, numa projeção ideológica futurista, uma vez que acompanha as culturas em movimentos sistólico e diastólico no espaço-tempo da história e da ficção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            1.1 –  Sincretismo religioso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                          A narrativa do romance inicia com uma viagem, mas ela não termina com a chegada dos viajantes ao seu destino. A despeito de a protagonista passar a vida toda sem retornar ao Piau e à Bahia, em todo momento decisivo da vida, ela rememora acontecimentos de infância relacionados, principalmente, com os rituais religiosos, seja mediante cultos católicos, seja por intermédio de cultos afros. Estando em África, Mariana incorpora inteiramente as crenças herdadas da avó Ainá, mantendo, porém, aquele sincretismo praticado no Brasil. Na Casa da Água havia o quarto dedicado a Ogum, a Xangô e um espaço especial para Santa Ana. Em ocasiões especiais, em que se achava em aflição, como à época do relacionamento entre o filho e Adolph, recorre a todos os meios que as religiões oferecem para separá-los. Primeiramente, vai a Fatumbi, uma espécie de vidente, a fim de verificar os procedimentos superiores necessários para dissuadi-los daquela união esdrúxula, segundo os seus princípios:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mariana contou a Fatumbi o que estava acontecendo com o filho, queria saber de Ifá de que maneira poderia sair da dificuldade, fizeram oferendas a Exu antes de tudo, depois Fatumbi colocou uma bandeja de madeira no chão, era redonda, tinha figuras entalhadas nas bordas, pegou numa quantidade de búzios e jogou-os sobre a bandeja, examinou a posição de cada um, disse alguma coisa em voz baixa, tornou a jogar os búzios na bandeja, um deles rodou pelo chão, Fatumbi apanhou-o e recolheu os outros búzios, no final pôs os olhos em Mariana e disse:&lt;br /&gt;                        — Não há nada que você possa fazer.&lt;br /&gt;                        — Nada?&lt;br /&gt;                        — Nada. A coisa terá de se resolver sozinha. (231)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O sincretismo se evidencia, quando as religiões interagem na busca da solução de um problema que foge ao entendimento da personagem e, sobretudo, às capacidades humana e racional de atinar com uma saída. Mariana, neste caso, apela a santos e a divindades iorubás, como o faz no dia seguinte à visita a Fatumbi, em que dirige seus rogos à Santa Ana, ao Espírito Santo e a Xangô:&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;Acordou com um mal-estar estranho, uma dor no coração, mas doía também do lado direito, um começo de febre, nunca tivera doença alguma, seria a primeira, Epifânia fez-lhe uma pergunta que Mariana mal ouviu, percebeu que responder representava um esforço muito grande, pegou na imagem de Santa Ana um momento, precisava de reagir contra a moleza, de vez em quando um brasileiro tinha malária, os da terra, não, pareciam acostumados, rezou à santa para não ser malária, manodu um bom pensamento ao Espírito Santo e outro a Xangô, lembrou-se de que tinha de oferecer sacrifício para Ifá (231).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Os acontecimentos marcantes na vida da família, como batizados e casamentos, quase sempre compreendiam uma cerimônia em uma igreja católica e uma, efetuada segundo os cultos às entidades africanas, a fim de satisfazer a todas as divindades protetoras do humano. Neste contexto, chama-nos a atenção o ritual do nome, que se compõe de um rito altamente simbólico, tanto pelos elementos que o compõem, quanto pelos gestos executados pelos oficiantes. No caso especifico do batismo de Sebastian, a avó Mariana, após a chegada dos avós paternos, coloca uma bacia com água no centro da sala. Ora, a bacia, ao incorporar o simbolismo da pia batismal, colocada no centro, transforma o batizando no centro do acontecimento, uma vez que ele recebe, naquele momento a essência de humano, conferida pelo nome e, por isso, precisa ser purificado através da água, matéria de vida e de existência.&lt;br /&gt;            Conjuntamente, Epifânia, aquela que manifesta, que faz aparecer, surge com uma bandeja sobre a qual havia três pires, um com sal, o segundo com o mel e o terceiro com azeite de dendê (165). O significado do nome de Epifânia se realiza neste momento, uma vez que o sagrado se manifestará na adoção do nome, mediante a utilização de matérias inerentes ao rito. Á exceção do mel, o sal e o óleo também fazem parte do ritual católico do batismo, operando uma interação entre culturas, que enriquece o ritual e o rito do nome, como podemos verificar pelas explicações do oficiante ao longo da cerimônia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...) quando Seu Justino e a mulher chegaram Mariana foi lá dentro e trouxe uma pequena bacia cheia de água, colocou-a sobre a mesa do centro, Epifânia surgiu com uma bandeja sobre a qual havia três pires, um com sal, o segundo com mel e o terceiro com azeite de dendê. Seu Justino pegou no menino, Mariana sentou-se ao lado dele, o homem mais velho pôs um dedo na água, molhou com ela os lábios de Sebastian, dizendo:&lt;br /&gt;— A água é a base de tudo, é a coisa mais importante do mundo, que a vida do menino seja calma e serena como a água.&lt;br /&gt;Pegou um punhado de sal, passou-o na boca do neto:&lt;br /&gt;— O sal limpa as coisas, que o menino seja limpo e justo.&lt;br /&gt;Apanhou um pouco de mel, esfregou-o nos lábios agora abertos:&lt;br /&gt;— O mel adoça a vida. Que o menino tenha uma vida cheia de doçura e de alegria.&lt;br /&gt;Mergulhou os dedos no azeite de dendê:&lt;br /&gt;— O óleo da palmeira é sinal do que comemos. Que durante toda a sua vida o menino tenha sempre o que comer e que nisto sinta alegria.&lt;br /&gt;Seu Justino fez uma pausa, antes de acrescentar:&lt;br /&gt;— Tu és Sebastian. (165)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Na cerimônia, o ritual e o rito convergem para o nome. Este episódio do romance estabelece uma estreita sintonia com as culturas egípcia, grega e hebraica, à medida que em todas elas o nome, além de conferir essência ao ser nominado, torna-o copartícipe das divindades da palavra. Em todas estas culturas, além de haver um deus da palavra, na hebraica Iavé é o próprio verbo que insere os entes na dimensão do Ser. Na cultura iorubá, o nome também se reveste de profundo simbolismo, porquanto constitui a consagração íntima do novo (164) ser. A festa e o ritual praticados pelo pai ou pelo avô, numa espécie de liturgia do nome, significam a conservação da família, mediante a continuidade da essência, substantivada pelo ato de nomear.&lt;br /&gt;Uma imagem síntese dessa inter-relação religiosa pode ser vista na descrição da pintura feita por Fadori, que a convivência com Mariana possibilitara-lhe incorporar, como se o seu sentimento de artista e seu modo de ser religioso espelhassem também a religiosidade do mestre, como observamos neste trecho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias depois Fadori apareceu com um desejo complicado, de noivos no altar, havia figuras ao redor, o padre é que usava máscara egungum, os santos da igreja surgiam com machados de Xangô nas mãos, no primeiro fim de semana em que Sebastian visitou o sobrado Mariana chamou-lhe a atenção para o desenho (299).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             A correlação que se estabelece é tamanha que os santos católicos interagem com os simbolismos das divindades africanas, como o machado, relacionado à união que pode ocorrer tanto em nível superior como em nível inferior. No caso, a união entre as entidades, uma vez que todas elas, no fundo, possuem uma mesma função: proteger ou castigar os humanos. Neste caso, entra ainda outro simbolismo do machado, o de raio, a estabelecer ligação entre o divino e o humano, como se reza em todas as religiões.&lt;br /&gt;            Ainda consoante o sincretismo religioso, os orikis se apresentam na narrativa consoante duas faces distintas: uma, ligada à interação entre as pessoas de um mesmo grupo e, às vezes, de grupos diferentes, constitui-se em uma saudação simpática a quem se encontra ou se visita, como o vemos na descrição feita propositalmente pelo narrador. Revela, neste caso, uma espécie de vaticínio, de bênção a quem se quer bem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...) fizera saudações bonitas, improvisara orikis de que ela não se esquecia, de vez em quando ouvia orikis em Lagos, principalmente em casa de gente da terra, que a recebia com uma saudação especial, ó tu que vens de saia vermelha e és dona das riquezas, que tenhas uma família forte e feliz, ó tu que vendes obis na rua, que tua riqueza se multiplique, ó generosa, dona dos inhames e dos peixes, que possam alimentar uma cidade inteira (109)&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;            A outra fórmula de oriki, de cunho eminentemente religioso, revela forte sincretismo, uma vez que se compõe de uma invocação, parecida com uma jaculatória, dirigida tanto a divindades cristãs quanto aos deuses de umbanda. O oriki revela o espírito religioso dos iorubás, em seu constante rogo às divindades e, sobretudo, a interculturalidade materializada na inexistência de limites entre as formas da práxis religiosa, como o percebemos nos orikis que Mariana dirige, ao mesmo tempo, ao Espírito Santo, a Xangô e à avó Ainá:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...) ó Nossa Senhora dos Prazeres, que sejas sempre minha protetora, ó Divino Espírito Santo do Piau, pássaro santo, santo pássaro, que tuas asas sejam belas e me ilumines a inteligência para que eu compreenda tudo o que deve ser compreendido, acudiam-lhe orikis para Xangô, ó dono do fogo e do trovão, que teu machado duplo nos faça sempre justiça, para as almas dos antepassados, para Ainá, ó desaparecida, ó morta, ó lavada, ó vestida, ó celebrada, ó enterrada, que sejas feliz onde estás e que, se voltares, que voltes mulher bonita ou homem rico (110)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            A invocação aos mortos se relaciona com a visão re-encarnacionista das religiões africanas que, ao conjugar-se aos outros orikis, conforma um processo sincrético típico encontrado no Brasil e praticado pelos brasileiros em terras de África. Verificamos, deste modo, que a interculturalidade religiosa constitui um dos elementos enriquecedores da narrativa e da personagem Mariana, que não coloca limites nos espaços do sagrado.           &lt;br /&gt;                    1.2– Usos, costumes e superstições&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                          A cultura operacionalizada entre povos pode passar por fases distintas, em que um momento de relevância cultural de uma nação sobre outra pode, com o tempo, reverter. Assim, se no início da escravidão, os iorubás trouxeram para o Brasil componentes culturais que compuseram uma espécie de sincretismo, com o retorno de ex-escravos e de seus descendentes para a África procedeu-se o reverso, à medida que levaram costumes aprendidos aqui para lá. Quando havia alguma querela entre os brasileiros e os nativos, expunham-lhes os costumes que eles aprenderam com o advento dos seus descendentes, como ocorre quando Epifânia fica intrigada com o fato de Mariana chamá-los de africanos, o que constitui também uma forma de ela afirmar a sua brasilidade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Nós somos brasileiros. Você chegou de fora e não sabe como são as coisas aqui. Somos gente civilizada, diferente dos outros. Fomos nós que ensinamos o povo daqui a ser marceneiro, a construir casas grandes, a fazer igrejas, trouxemos para cá a mandioca, o caju, o cacau, a carne-seca, o coco-da-baía. Eles têm olhos grandes na gente e não sabem se divertir. Só sabem atrapalhar nossas festas. É só sair um bumba-meu-boi animado e bonito que dá briga. (78-79)&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;            Aliada à reversão cultural, coloca-se a superstição denominada olho grande, relativa à inveja que as pessoas devotam às outras por algum motivo. No caso específico, aquelas que, por algum despeito, procuravam perturbar os momentos de descontração dos brasileiros, notadamente as festas de bumba-meu-boi.&lt;br /&gt;            As superstições cristalizadas nas culturas populares de cada nação entrelaçam-se de tal maneira que se repetem interculturalmente, a ponto de podermos falar de uma espécie de estrutura permanente dos elementos que, enfeixados, conformam o que se chama folclore. Uma superstição que se repete nas culturas brasileira e africana é o medo de se postar diante do espelho, como se ele retivesse a alma do espelhado e fosse capaz de influir em seu destino:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...) olhava o rosto num espelho pequeno que fora presente de Sebastian, não se lembrava de quem lhe dissera que espelho dava azar, muitas brasileiras de Lagos negavam-se a olhar para um, Dona Zezé afirmava que o espelho tirava a alma da gente ou, pelo menos, poderia tira-la aos poucos até que, depois de vários anos de se olhar no espelho, uma pessoa se sentisse vazia, sem alma, sem nada. (106)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;            A interculturalidade se estabelece não apenas com relação às duas culturas em contato, mas também com a cultura grega, à medida que o mito de Narciso mostra exatamente o ser subjugado pela aparência, daí o temor de que a pessoa vá sendo esvaziada em conseqüência do reflexo de sua imagem. O mais comum nas culturas não africanas é que espelho se liga ao azar, mas somente quando se tem a desdita de quebrá-lo. Ver-se nele e sentir-se diminuído não caracteriza o azar tão temido, a despeito de, no fundo, o temor possuir as mesmas fundamentações culturais, como o atesta a estrutura permanente dos mitos e da maioria das formas simples.&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;1.3 - Rituais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              A vivência religiosa das personagens de A casa da água, notadamente a protagonista Mariana, leva-as à prática de determinados rituais, ocorridos em momentos marcantes de suas existências. Nesses rituais, normalmente, é observado, não um conflito de culturas, mas a unidade na variedade, uma vez que os costumes não se excluem e, sim, se complementam, mesmo que, por vezes, não cheguem a se agregar, como observamos no uso das roupas durante o casamento de Sebastian:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo veio de fora um grande barulho, exclamações de alegria, gritos em iorubá que pareciam marcações de dança, e Sebastian entrou na sala, acompanhado de muitos amigos, estava com um terno de casimira inglesa, o colete sobressaia como um acréscimo de elegância, os amigos vestiam-se à africana, panos coloridos caindo pelo corpo, os filás na cabeça, havia roupas em azul, em vermelho, todos bateram palmas, Sebastian ajoelhou-se em frente a Epifânia, pôs a testa no chão, depois sentou-se para o interrogatório, todos riam ao redor (108).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O ritual de se ajoelhar diante da mãe da noiva e pôr a testa no chão revela absoluto respeito e reverência à pessoa da futura sogra, porquanto em ritos de outras culturas este ato só é praticado ao se postar diante de Deus. Além disso, o fato de Sebastian estar vestido de terno, feito de casimira inglesa, e as demais pessoas, com roupas típicas da cultura africana, concorre para se mostrar como os costumes ingleses, em decorrência da colonização, passam a conviver com a cultura iorubá. Todavia, o narrador ressalta o colorido das roupas africanas como elemento constituinte da identidade do povo. Identidade no sentido social e metafísico, como se deixar de usá-las naquele momento significasse também o abandono do rito do noivado. Por outro lado, a adoção de outros costumes por parte do noivo, como individuo diferenciado, materializa a identidade da diferença, do ser que inicia um processo de passagem.&lt;br /&gt;            A marcação dos passos, ao chegarem à casa da noiva, como se tratasse de uma dança, conforma um ritual que substantiva o estado de ser da personagem Sebastian e de seus amigos, copartícipes de sua mudança de estado. A relação entre a dança e o noivado se estabelece mediante o simbolismo da harmonia que ela representa. Harmonia entre os noivos e entre as famílias que se entrelaçam mediante a união de dois seres. &lt;br /&gt;            Por outro lado, o fato de o som da flauta crescer em variações, à proporção que o noivo adentra à casa, confere um sentido mágico ao ritual, pois a flauta se liga exatamente ao momento iniciático por que passa a personagem a partir desse momento que será confirmado pelo interrogatório a que o noivo é submetido.      &lt;br /&gt;O ritual do batismo talvez encerre um significo especial, diferente do casamento, porque, além de compreender a inserção do novo ser em uma dimensão cósmica, representada pelo sal, pelo mel, pelo óleo e, principalmente pela água, como já vimos, insere a personagem na própria identidade metafísica, conferida pela imposição do nome, sobre trataremos  no capitulo seguinte. &lt;br /&gt;            Os rituais relacionados à morte se constituem de festas e de lágrimas. Festas, quando o morto teve uma vida longa e feliz; lágrimas, quando se morre novo ou de forma trágica. A morte de Ainá obedeceu a todos os ritos de quem viveu intensamente e teve uma vida profícua. Primeiramente, Mariana se proveio de quantidade de búzios, a fim de que todos os participantes da festa devessem pensar na morta, uma vez que o pensamento, de certa maneira, materializa os sentimentos que se tem com relação à pessoa que parte, como o vemos nos gestos de Dona Zezé:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;── Vamos dar um banho no corpo e preparar a serenata. Você vai precisar de bebida, muito biscoito, pastéis, acarás, caruru, bolos, dois atabaquistas, um tocador de violão, um flautista, um clarinetista, mesas e cadeiras. E tem de matar uma cabra. O que você não tiver, eu empresto.&lt;br /&gt;Epifânia concordou, a outra foi em frente:&lt;br /&gt;── É a primeira pessoa do Esperança que morre. Dos outros navios todos já morreu muita gente. A serenata precisa ser animada. Vou arranjar búzios em boa quantidade para você ir dando a cada um que chegar; assim todos pensarão bem da morta. (89)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rito da serenata, um tipo de canção alegre e romântica, relaciona-se à regeneração, passagem do ser  para um novo estágio, para uma nova dimensão, a espiritual, que culmina com a ressurreição. Por isso, todos os cuidados devem ser tomados, principalmente quanto à quantidade e à qualidade dos instrumentistas.&lt;br /&gt;Os búzios, além de representarem a pureza com que se deve apresentar do outro lado, coloca o ser de Ainá no centro, conferindo-lhe a importância que ela teve para a família e para os vizinhos e, no lado espiritual, coloca-a como centro de referência para os familiares. Não é sem motivo, que uma de suas bisnetas também receberá o nome de Ainá, a fim de que ela continue como foco de atenção da família, pelo que ela significou em termos de luta e coragem existencial.&lt;br /&gt;O sentido primeiro do ritual é preparar o morto para a reencarnação, como se observa na preparação do corpo para o enterro, a fim de ele renasça puro, limpo, purificado. Para isso, procede-se uma espécie de mergulho, além de esfregarem todas as partes do corpo, a fim de que seja livre de todas as impurezas, como o vemos na recomendação feita pela velha Teresa a Mariana:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;── Vem ajudar a lavar o corpo de sua avó. Esfregue bem porque ela pode entrar na sua barriga e nascer de você, ser sua filha, voltar ao mundo por seu intermédio, e se isso acontecer será melhor que ela nasça limpinha. (90)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este ritual, aparentemente dissociado da cultura afro-brasileira, realiza-se consoante perfeita interação cultural, pois, os iorubás e outros grupos africanos que formaram a base cultural das religiões afro-brasileiras acreditam que a vida e a morte alternam-se em ciclos, de tal modo que o morto volta ao mundo dos vivos, reencarnando-se num novo membro da própria família. São muitos os nomes iorubás que exprimem exatamente esse retorno, como Babatundê, que quer dizer O-pai-está-de-volta.&lt;br /&gt;            O ritual de preparação para o enterro compreende, inclusive, a comprovação da santidade de Ainá, mediante a constatação da presença do ossu em sua cabeça. Ossu faz parte do rito, que compreende varias partes, como podemos verificar mediante este excerto: Existe uma força mágica e mística chamada ase (axé), sem a qual não pode haver rito, que pode ser bom ou mau. O bom é proveniente das divindades (orisa) e dos antepassados (óku órun), isso não quer dizer que os deuses e os antepassados não fiquem zangados com as pessoas, quando elas não andam corretas, daí se fazer consulta para se ter notícia disso, sua causa e o que fazer para acalmá-los. Na sua essência eles não fazem senão proteger as pessoas. O ase do mal é também de dois tipos. Um representando pelos ajoguns, que são considerados terríveis e destruidores das pessoas, sendo os mais importantes, iku, a morte; arun, a doença; ofó, dano, o prejuízo, a perda; égbá, paralisia; óran, o aborrecimento, o transtorno, a desgraça; epe, a praga, a maldição, a desgraça; ewon, a prisão, a detenção e ese diversas coisas ruins, que perseguem as pessoas. O outro ase do mal é Ajé, que é a destruição total da pessoa humana. Os ritos são feitos em cima dessas duas forças, os quais podem começar logo após o nascimento de uma pessoa, a depender de como a criança vem vindo ao mundo ou as circunstâncias em que isso ocorreu. Pode a criança do sexo feminino nascer com o ventre para baixo, aí todo cuidado é pouco, pois a mesma está sob a influência de Iya Mapo, logo os ebo devem ser feitos em função dessa divindade, para a criança ao nascer não se tornar lésbica. Pode nascer abiku (o que nasce para a morte), então os ritos começaram logo com o primeiro banho e água do mesmo. Também, dependendo de outras circunstâncias, os ritos podem começar com a coisa mais importante e vital do ser humano que é o ori. De um modo geral, ori quer dizer a cabeça, porém dentro do fundamento ori constitui uma parte da cabeça, porque ori é todo o ase que a pessoa tem. Toda força concentrada do corpo se chama ori e sua sede é na cabeça. A nossa divindade está segura em nós mesmos de acordo com a maior ou menor força do nosso ori, isto é, maior ou menor concentração de força que temos, enfim o ase que nós carregamos conosco. O ori de cada pessoa tem potencialidade a felicidade e a desgraça dessa pessoa, o sucesso e o fracasso, tudo que é bom e tudo que é ruim, daí ter sempre que se fortalecer o ori com ebo, chamado bori, que é todo ebo que se faz na cabeça, desde o simples omi tutu (água fria), consta de obi, ou o que for com água fria, com a finalidade de tranqüilizar a pessoa, isto é, esfriar o juízo e a pessoa passar a discernir as coisas, seguindo o caminho certo, inclusive o de procurar fortalecer o ori com outros ebo. A presença de nosso orisa em nós está dependendo do fortalecimento do nosso ori, ele está atrelado a essa força, a esse ase que temos na cabeça, daí quando se vai "fazer o santo" ele é firmado no centro da cabeça como ase que chamamos simbolicamente de ossu, porque ossu propriamente dito se chama a mecha de cabelo que se tira da cabeça para colocar o ase. Tudo que se reúne para preparar o ase tem uma finalidade, um fundamento, uma explicação para que serve e uma história pertencente a um denominado Odú. O ori é a parte mais importante existente em nossa ara (corpo), a nossa sobrevivência depende dele, daí o grande perigo que a gente se submete, quando alguém vai fazer uma obrigação em nosso ori.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rito do ossu comprovou a santidade de Ainá, uma vez que a mecha de cabelo retirada o revelou em toda a sua materialidade. Deste modo, a sobrevivência metafísica da personagem é confirmada, notadamente pelos cânticos que as mulheres executavam ao longo do ritual. Cantigas nunca ouvidas por Mariana, como se fosse uma espécie de iniciação aos mistérios da morte e, principalmente, do percurso por que terá de passar para atingir o estado de ser da avó.&lt;br /&gt;O estado de santidade, comprovado pela bondade praticada durante a existência,  confere à morta um caráter divino, uma espécie de deidade, como o lemos na advertencia de D. Zezé a Epifânia. Por isso, não se deve chorar os mortos em sua passagem para o ser santidade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            ── Morta que viveu bem sua vida não deve ser chorada. Fique alegre.&lt;br /&gt;            Em seguida a mulher ajoelhou-se e beijou a mão de Ainá, dizendo:&lt;br /&gt;            ── Os mortos são deuses. Sabem mais do que nós. (93)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conjunção de ritos no ritual da morte converge nas culturas brasileira e africana, estabelecendo um processo de interculturalidade pouco comum entre povos, mesmo entre colonizadores e colonizados. No caso específico das duas culturas, a aproximação se faz sem interferências ideológicas, porquanto não se trata de cultura de dominação, mas de uma relação natural em que se conserva a cultura antiga ou se complementam, mediante adaptações que se fazem durante o tempo em que elas se mantêm em contato.      &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      1.4 – Aspectos literários&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               A cultura, além de substantivar a identidade de um povo, objetiva a identidade das pessoas, individualmente, como se ela fosse uma extensão do nome, em sua concepção social, a ponto de, em determinados momentos, dividir o ser de Mariana, como se uma metade tivesse ficado no Brasil e a outra estivesse na África. Este processo pode ser percebido pelas leituras de livros da Literatura Brasileira. Se a leitura de O Guarani e de A Moreninha traz-lhe a infância ao presente, o romance Gabriela, Cravo e Canela fez com que ela revivesse o Brasil, como se ela, ao mesmo tempo, voltasse a avançasse no tempo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            (...) no dia seguinte Mariana começou a ler o livro, havia muito tempo que não abria um, desde que Fadori se fora que ela não lia muito, onde estaria O Guarani , talvez no palácio de Aduni, lembra-se de haver levado vários livros para lá, a história de Gabriela tinha um tom diferente, era o Brasil que voltava para ela depois de tantos anos, tentou ver como seria a moça do livro, talvez mulata como Ana, quando chegara da Bahia Ana fora linda, com uma cor que quase não se via em Lagos, uma cor amulatada que fazia pensar em coisas alegres, pensou no índio Peri do outro livro, Gabriela era menina e mulher, gostava de ir para a cama com os homens, compreendia o prazer da comida, e ela sentiu no livro uma quentura da terra que ela não vira mais (360).  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ficção, nos sentimentos afro-brasílicos de Mariana, funde-se com a realidade, à medida que ela imagina a personagem de Jorge Amado parecida com Ana, dona de uma cor inconfundível, inexistente em Lagos. Ao mesmo tempo ficção e ficção se conjugam e se interculturalizam, uma vez que Ana também se define como ser de imaginação e de linguagem.&lt;br /&gt;Ficção e realidade, realidade e ficção, ficção e ficção se interconectam de tal modo, que Mariana sente a quentura da terra, como se se sentisse a vida medrar novamente, através do erotismo do romance no romance, do erotismo da personagem Gabriela na personagem Mariana. Essa sensação do passado, da terra e da mulher em cios, é perceptível e significativa na ambigüidade, nas duas narrativas ─ a de Antônio Olinto e a de Jorge Amado ─, do vocábulo comida, uma vez que Gabriela faz e é comida., como já o demonstrara Affonso Romano de Sant’Anna, no ensaio Canibalismo amoroso.&lt;br /&gt;Do mesmo modo que Mariana, Maria Gorda, através de O Guarani, distrai-se no presente e recupera o tempo perdido, como se a ficção fosse capaz de reverter a existência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...) um livro brasileiro chamado O Guarani, que o Professor João Batista lhe havia dado, distraiu-a durante muitos dias, era a história de um índio e uma jovem branca, o índio faz tudo para agradar a moça, no final os dois ficam sozinhos numa palmeira que o rio leva, imaginou a enchente do Piau com o índio e a moça passando em frente à casa de tio Inhaim na velocidade da correnteza. (99-100).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            A literatura exercita até uma função social, à proporção que aproxima as personagens Mariana e Maria Gorda, além de transportar o leitor para fases distintas de visão de mundo e de ser, quando não demonstra certo fastio existencial, como ocorre a Mariana, após a leitura de A Moreninha.     &lt;br /&gt;            A interculturalidade literária não ocorre apenas entre a literatura brasileira e a cultura iorubá, mas também com outras literaturas, como a italiana. A interligação cultural opera também entre as artes, uma vez que Fadori, na qualidade de pintor, deseja conhecer os costumes de outros povos exatamente para melhor expressar a realidade-ficção em arte. Para issso, Sebastian lhe em envia um exemplar do romance Os noivos, de Manzoni. Trata-se de uma narrativa singular, em que o leitor não tem livre acesso ao imaginário, porquanto o narrador controla todas as ações e a própria ilusão, levando o leitor a enfocar o seu presente histórico.&lt;br /&gt;            As leituras feitas por Fadori e Mariana mostram uma espécie de contraste, à medida que o primeiro o acha triste e a protagonista não se sentia bem dentro do ambiente de que falava o livro, preferia uma clareza maior nas coisas, uma claridade em que tudo fosse visível, mas era bonito sem dúvida, um noivado que podia talvez ter acontecido no Brasil (298). Mariana, decorrência de sua ambientação cultural, estabelece a possibilidade de o noivado ter se passado no Brasil, como se as culturas se interagissem no subsolo da ficção e da mente da leitora.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 – A linguagem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              A linguagem, além de instrumento de inter-relação entre um ser e outro, constitui uma forma de o ser manifestar-se em essência e existência. Como instrumento de revelação do ser, a linguagem assume uma dimensão ontológica diferenciada de seu uso comum na fala diária, quando se atém apenas ao lado ôntico da comunicação. No discurso artístico, as potencialidades metafísicas da linguagem podem ser exploradas indefinidamente, dependendo do status quo das personagens. Em poucos romances brasileiros a língua e a linguagem são trabalhadas tão profundamente como em A Casa da Água. A linguagem na narrativa é progressiva, à medida que se desenvolve em crescendo. Se nos parágrafos iniciais ainda se nota a presença mais freqüente de pontos separando os períodos, à proporção que a narrativa avança, os parágrafos vão se alongando, e o ponto final quase só aparece ao final, sem que haja separação dos períodos, como verificamos no excerto a seguir (1999, p.312-313):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grupo voltou, homens e mulheres começaram a gritar ao mesmo tempo, havia opiniões sobre o que se devia fazer, o melhor seria uma comissão procurar o governador na manha seguinte, Mariana quase não falou, quando todos se retiraram entrou no quarto, esperou que o silêncio caísse sobre as coisas, depois saiu, atravessou a cidade quieta, sentou-se num banco da praça que ficava em frente à prisão, botou as mãos no colo e deixou que o tempo passasse, começou a pensar no que ouvira, a independência, muitos haviam achado que Sebastian se precipitara, ainda não era hora disso, os mais jovens tinham concordado com o filho, quanto mais cedo melhor, Mariana se sentiu ligada àquele chão, estava na África há tempo suficiente para saber que suas imagens eram daquelas terras, tornara-se africana antes de tudo, tanto de Lagos como da Casa da Água e de Aduni, não via muita diferença entre esses lugares, aqui, porém, era onde o filho mas próximo, o último, o que sempre lhe dera uma sensação de segurança, o que tinha o nome do marido, o que nascera depois da morte do pai, era onde ele trabalhava e morava, onde fora preso, aqui ficava sendo sua terá, como podia ser na Casa da Água ou em Lagos, na independência nunca pensara com atenção, talvez por se ter sempre achado independente, por ter vindo do Brasil que naquele tempo já era independente e nunca se haver sentido dependente de ingleses, alemães ou franceses. Pouco falara com eles, só se sentira dependente na ocasião em que os ingleses haviam exigido que todos os brasileiros de Lagos falassem inglês, e durante a guerra entre os franceses do Daomé e os alemães de Zorei mas o filho tinha razão, chegara o tempo de cada região tratar de seus próprios assuntos, lembrou-se de que era uma proprietária importante em três lugares da África, sua opinião teria de pesar, daí a uma hora a imobilidade do corpo fez com que se esquecesse de is mesma, os braços perderam o peso, todas as imagens se concentraram na espera, uma quase felicidade ia tomando conta de cada pedaço das pernas, depois o ventre, do peito, dos ombros, do pescoço, e a cabeça permaneceu virada para a porta da prisão, um cachorro chegou perto da mulher, cheirou-lhe os pés, deitou-se ao lado do banco, a luz da manhã começava a bater nas paredes quando o oficial branco saiu de casa, viu a mulher sentada, aproximou-se.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este processo lingüístico do mesmo modo que materializa a rapidez com que os fatos acontecem, substantiva a necessidade de os problemas serem solucionados imediatamente. Além, é claro, desvela o estado de ser da personagem Mariana, relacionado, em princípio, às ações rápidas desenvolvidas por ela, como se agisse mais que pensasse. Para compensar esta visão exterior da personagem, nesta linguagem crescente, o narrador introduz momentos de reflexão, em que presente e passado se fundem, se complementam e se justificam, mas, em sua maioria, sem explorar o lado essencial de Mariana. Isso confere uma aparência de superficialidade às ações, como se à personagem interessasse apenas a matéria, os lucros gerados pelo capital, a rápida solução dos problemas. Todavia, o fato de cada ação ser antecedida ou seguida por rituais religiosos sincréticos contribui para que a aparente inexistência de uma sustentação metafísica manifesta em linguagem se dirima. A linguagem, em decorrência, materializa a efervescência física e metafísica da protagonista, como se em sua existência não houvesse ponto final, mas um eterno recomeçar.&lt;br /&gt;O tom religioso impresso aos grandes acontecimentos da existência de Mariana e de sua família confere-lhe, graças à linguagem ritual e aos gestos e ritos empregados em sua execução uma dimensão ontológica, à medida que o ato religioso envolve o ser por inteiro. Esse envolvimento decorre da expressão típica da fé e, principalmente, da matéria lingüística que o substantiva e o torna manifestação de ser, de essência humana.   &lt;br /&gt;A seqüência de frases, sem a pausa do ponto, permite que a narrativa flua, uma vez que ela se coloca em uma posição de terceira pessoa, de um narrador demiúrgico, mas também se coloca dentro da história, como se fosse imanente aos fatos. Em decorrência, o fluir narrativo, como se operasse um heraclitiano panta rei, se torna necessário, a fim de que o fôlego não se interrompa. Observamos, em decorrência, que a palavra é pronunciada como se o narrador estivesse em uma situação de angústia em que o verbo se torna também manifestação de quem narra, como se esse eu que vez ou outra se revela, fosse o eu de Mariana. Neste sentido, a interrupção da linguagem pelo ponto final constituiria uma forma de romper as próprias dimensões do ser que se manifesta, notadamente o de Mariana que, mediante este tipo de linguagem, se materializa como se fosse um vulcão de revelações.    &lt;br /&gt;            Ainda neste parágrafo, verificamos que a língua e a linguagem, além do nome sobre que trataremos a seguir, conferem identidade ao ser falante. Não é sem forte motivo que a protagonista do romance sente subtraída sua independência quando é obrigada a falar inglês e, não, português. A Língua Portuguesa, para ela, seria aquele discurso consigo mesma de que falara Louis Lavelle em La parole et l’écriture(1942, p. 131-132) Le discours avec soi précède le discours avec autrui, qui n’en est que la forme manifestée.  Para Mariana, falar só inglês implicava, inclusive, a perda da identidade. Em conseqüência, se inseriria na identidade de uma outra nação, que nada tinha a ver com a sua cultura e, em conseqüência, com o seu ser. A língua é o ser em ação; o ser sendo.&lt;br /&gt;            A língua e a conseqüente linguagem, para a família de Catarina, significam a assunção da identidade africana, notadamente a iorubá. Por essa razão, no momento em que Epifânia pronuncia a palavra adupé, obrigado, a primeira em iorubá, ela passa a ser vista com outros olhos pela mãe e pela filha, que sente as transformações por que estão passando naquela viagem. Fala outra língua soa para ela como a passagem para um outro estado de ser, ainda mais que se trata de agradecimento a orikis (cf. 56) que funcionam como uma espécie de vaticínio, de antevisão do que será a nova vida na África.&lt;br /&gt;               As mudanças advindas com a língua se tornam mais percucientes, à medida que Mariana, mesmo sem perder a brasilidade, vai adquirindo as outras línguas a fim de poder se comunicar e manifestar-se às diversas pessoas com que teve de efetuar negócios. A língua, deste modo, confere identidade e cristaliza a cultura, propiciando a interculturalidade e, ao mesmo tempo, a realização plena do ser, à medida que possibilita às personagens a confirmação da identidade. Mariana tornou-se africana, sem deixar de ser brasileira, sem deixar de falar Português.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  2.1 – O modus narrandi&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;                           O narrador constitui, sem sombra de dúvida, um dos elementos mais importantes da ficção.  A própria narrativa impõe ao escritor a pessoa do narrador ─ homodiegético, heterodiegético, autodiegético ─, em decorrência do estado existencial das personagens, mormente do protagonista. Personagem sem densidade ontológica e, consequentemente, sem linguagem, não pode assumir a fala autêntica do discurso, pois falar e calar implicam a assunção da dimensão humana em toda a sua inteireza metafisica. Se uma personagem destituída de qüididade, de essência,  assumir a condição de narrador, de sujeito da própria história, a narrativa padecerá de verossimilhança, pois só pode falar quem dispuser de conhecimento e de domínio sobre a ontologia, tornando-o capaz de manifestar ou de conquistar a estatura do ser. A fala autêntica é a manifestação do ser que convive com o não-ser, sem se submeter à reificação ou à objetivação. Ela só é possível se a personagem possuir condições metafísicas de atender à subjetividade e à objetividade da história. A objetividade só será positiva se estiver intrinsecamente unida à subjetividade, à capacidade de gerir-se em essência e em linguagem.&lt;br /&gt;              Antônio Olinto, em A casa da água, como em toda a trilogia Alma da África, criou um tipo de narrador inteiramente original, onisciente, mas participante dos acontecimentos. Um narrador misterioso que pode se confundir com a protagonista, Mariana, que perpassa toda a narrativa, mas sem que se dê a conhecer integralmente. De qualquer maneira, inicia a narrativa lançando uma pista sutil, a fim de não empanar a figura de Mariana e sem se revelar. Para isso, joga com os pronomes de primeira e de terceira pessoas, para dizer que a história pertence aos dois, como se eles fosse pessoas iguais e diferentes. Trata-se de um jogo de egocidade e de alteridade que enriquece sobremodo a narrativa, à medida que instala um mistério pouco comum em narrativas do século XX:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                        Não sei côo surpreendê-la no começo de minha história ─ de sua história ─ mas vejo-a, naquela manhã de enchente, sendo arrancada da cama e do sono, ouvindo palavras de cujo sentido completo nem se dava conta, sabendo que imagino Mariana começando sua aventura, carregada por alguém, a luz ainda não viera de todo, um pouco de noite se prendia como água nas coisas (13)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Se a história é minha e sua, do narrador e da protagonista, sem que ele seja personagem, temos um narrador enigmático, que é Mariana, porque se insere em sua personalidade e em sua identidade, e é ele mesmo, porque se apresenta como sujeito do discurso. Trata-se de um narrador, segundo a filosofia de Platão, que é a protagonista e não é ao mesmo tempo, é ser e não-ser. Na verdade, uma forma singular de narrar pouco utilizada pelos romancistas da modernidade. E ele tem consciência plena desse fazer-se história e linguagem inusitadas, dessa fala que é, ao mesmo tempo, autêntica e inautêntica, à medida que a personagem se fala e se cala em uma linguagem que é sua e de outro. Esse narrador que é ser e não-ser em linguagem, para materializar-se em ficção e realidade simultaneamente, poderia ser chamado de narrador duplo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                   Ponho esse despertar com enchente como início das lembranças de Mariana, e pensei muito na melhor maneira de contar o que aconteceu com ela. poderia ter escolhido o sistema do narrador alheio, separado dos acontecimentos, mas de tal modo me é íntimo, conhecida, a história de Mariana, que só consigo transmiti-la colocando-me de dentro e narrando-a como se eu estivesse, a cada passo, acompanhando as cenas, ouvindo diretamente os diálogos e recebendo na cara as emoções da longa viagem da menina. Porque é de uma viagem que se trata e dela irei falar, a partir da manhã em que Mariana foi tirada da cama e levada para a rua, que ficava em plano mais alto do que a casa. (13-14) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Esse narrador que lança luzes sobre a sua identidade, mas, de repente, se coloca na sombra e projeta apenas o que ocorre com as personagens, notadamente a protagonista e com ela se confunde, contribui sobremodo para avultar a figura da “heroína”, como se ambos transitassem entre o real e o ficcional, sobretudo se considerarmos que o Piau representa o espaço existencial e vital tanto para um quanto para outro. O Piau, a partir daquele momento de partida passa para o espaço da memória que vai e volta na trajetória existencial de Mariana e do próprio narrador, à medida que ele incorpora as identidades ôntica e ontológica da filha de Epifânia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            As crianças gostavam da aventura, Epifânia sentia-se quebrar por dentro. Nunca abandonara o Piau a não ser para idas curtas a fazendas de gente conhecida, agora tinha de seguir a mãe, que insistira, teimara. Muitos anos mais tarde eu veria no retrospecto de Mariana o muito que Epifânia lhe dissera do sofrimento com que se afastava de tudo. (19)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             A singularidade do narrador de A casa da água se manifesta, inclusive, no modo de penetrar nos sentimentos da personagem Epifânia. Não o faz diretamente, como a maioria dos narradores que conhecemos. Ele afirma e nega ao mesmo tempo a sua participação metafísica na disposição do discurso e, sobretudo, na revelação do ser da personagem. Este procedimento narrativo parece diluir o sofrimento e a própria consciência existencial do ser de linguagem, como se não tivesse certeza de tudo que se passa em seu interior, como o vemos na seqüência que marca a partida de Epifânia do Piau:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Seu homem sumira, ela tivera aqueles três filhos com facilidade, nunca fora escrava feito a mãe, contudo trabalhara muito, ali estavam suas coisas, suas imagens, sua igreja, suas missas. Ficara olhando o lugar com a sensação de que talvez não fosse preciso continuar a viagem apenas iniciada. Talvez tudo o que ainda ia acontecer não acontecesse e ela fosse voltar com os filhos para a casa em que sempre morara. Mas o homem, que seguia na frente, soltou as rédeas, fez um barulho com a língua e o cavalo avançou. (19-20). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O mais inusitado, nesta narrativa, é que o narrador sem identidade estabelece a diferença, à medida que ele confere existência autêntica à personagem, mediante uma fala (in)autêntica, porque, ao mesmo tempo, que revela a existência dos outros, nega os próprios atributos de quem domina a linguagem e, em conseqüência, conforma uma narrativa em que se é e não é ao mesmo tempo. O fato de o narrador se esconder e se mostrar por trás dos acontecimentos contribui para engrandecer a personagem Mariana e, sobretudo, para lhe conferir liberdade em termos de existência e de constituição da essência, notadamente quando se torna confiante na execução dos próprios atos e das atitudes ontológicas, mesmo que para isso tenha de recorrer aos deuses.&lt;br /&gt;               A indefinição da identidade do narrador é um recurso que permite até conjugar a realidade com a ficção, sem que se crie impacto na narrativa e no leitor, como o vemos por ocasião dos oitenta anos da protagonista, quando o narrador a vê sentada na sala antes de uma visita chegar. O interessante é que este visitante é alguém que, juntamente com a esposa, junta as pontas do tempo e do espaço entre a Casa da água e o Piau:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                        Vejo-a no mês de seus oitenta anos, visitando a Casa da Água com a menina, sentava-se numa cadeira e ficava imóvel, escutando os barulhos do dia, os empregados na cozinha, as crianças no terreiro, o filho de Jean da Cruz dando ordens aos trabalhadores, o mar batendo na areia, vejo-a apoiada na janela para deparar com um automóvel que chegava, um homem baixo, de óculos, um livro na mão, saiu do carro e gritou em português:&lt;br /&gt;                                   ─ Ô de casa!&lt;br /&gt;                        Era assim que, no Piau, uma pessoa que se aproximasse chamava os moradores de uma casa, Mariana viu a mulher ao lado do homem, a outra sorria olhando para cima, para a janela, Mariana convivou:&lt;br /&gt;                                   ─ Tenham a bondade de subir.&lt;br /&gt;                        Era um casal de brancos, o sotaque do homem se assemelhava ao dos diplomatas que ela encontrara em Lagos, a mulher vestia uma roupa vermelha e branca, Mariana simpatizou com ela por causa disto, apertou-lhe a mão, o homem vinha logo atrás, sorriu ainda mais, as lentes dos óculos eram fortes, Mariana pediu que se sentassem, ele falou:&lt;br /&gt;                        ─ A senhora nos desculpe, mas viemos de muito longe só para vê-la.&lt;br /&gt;            Parou como se estivesse cansado de subir as escadas, ela esperou, o homem continuou:&lt;br /&gt;                        Eu e minha mulher ouvimos falar muito na senhora. Do Presidente Sebastian Silva, sabemos o que o mundo inteiro sabe e fazíamos questão de vir fazer-lhe uma visita. (358)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Percebemos, neste momento, que o autor entra na história e une a ficção à realidade. Em decorrência, o narrador também o vê chegar e o coloca em uma perspectiva singular em narrativa, à proporção que todo o narrado é também do conhecimento do visitante que, sabiamente, não revela como tomou ciência da vida de Mariana. A conseqüência, a união das pontas da narrativa, de que o narrador se mostra somente em instantes de suma importância e se esconde quando lhe apraz, a fim de conformar um modo singular de narrar.&lt;br /&gt;           Para inserir a personagem na oralidade e, sob certo sentido, na fala permanente do mito, o narrador-autor, em sua fala de personagem, diz que ele e sua esposa ouviram falar muito dos fatos importantes que envolvem a existência de Mariana. A inserção da história na fala do mito constitui uma forma de mitificar também o narrador que se torna voz coletiva. Deste modo, a narrativa nos aponta para um narrador não duplo, como disséramos ao início, mas um narrador múltiplo, que é o si mesmo, Mariana, o autor e o povo.&lt;br /&gt;          A consciência de que está construindo um narrador sui generis em ficção se confirma quando o autor-personagem, instado pela protagonista, sobre sua procedência, afirma:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                   ─ Li num jornal há muitos anos uma história sobre a senhora, que a senhora tinha nascido no Piau e sido criada na Bahia. (358)&lt;br /&gt;          &lt;br /&gt;           A noticia insere a personagem protagonista na História, mas, ao mesmo tempo, indetermina o tempo, à medida que ocorreu há muito tempo. Além disso, introduz a figura de um outro narrador, o do jornal. Se não bastasse a linguagem coletiva das narrativas populares de que Mariana passara a ser personagem, introduz-se também a fala da notícia.&lt;br /&gt;           A criação do narrador múltiplo, que assume todas as funções dos narradores conhecidos e mais a de confundir com o próprio autor, faz do narrador de A casa da Água um dos pontos altos da narrativa de Antonio Olinto, conterrâneo dessa grande personagem da ficção brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  2.2 – O nome&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                           A personagem Ainá, a avó, define, com poucas palavras, a substância do nome: coisa sagrada (88). Tão sagrado, que confere essência ao ser nominado. A essência está sempre relacionada ao significado, à medida que o ser age e é, segundo a determinação recebida pelo nome. A avó Ainá não sentia consonância entre o nome Catarina, que recebera no Brasil, e sua essência, à medida que, certamente, não se via em estado de pureza, pois em nenhum momento da narrativa é revelada a origem paterna de Epifânia. Mas exige que seja chamada, pelo menos entre seus familiares, de Ainá, porque, ao significar aquela que vomita pedras preciosas, estabelece relação direta entre ela e a família, porquanto todos, comandados por Mariana, irão tornar-se preciosos.  &lt;br /&gt;              Ainá significa, para ela, também o total rompimento com o passado escravo de que fora vítima. Por isso, se torna incisiva ao requerer que lhe chamem pelo nome antigo, aquele que adquirira nos rituais iorubás do nome. O nome é tão importante, visto sob uma ótica ontológica, que o narrador concede a palavra à própria personagem para que ela se manifeste em essência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não quero que me chamem de Catarina, mais. Meu nome é outro. Quero que todos me chamem pelo meu nome.&lt;br /&gt;— Pois não, mamãe. Será como a senhora quiser.&lt;br /&gt;A mulher tinha um travesseiro, segurava a extremidade do lençol com as mãos, olhou para cada um ao redor e declarou:&lt;br /&gt;                                   — Meu nome é Ainá.&lt;br /&gt;                                   — Como, mamãe?&lt;br /&gt;            — Ainá. Sempre me chamei Ainá. No Brasil é que trocaram meu nome, fiquei sendo Catarina, mas tenho nome: meu nome é Ainá.&lt;br /&gt;            Puxou a mão de Mariana, que estava perto, e continuou:&lt;br /&gt;            — Devia ser proibido trocar os nomes das pessoas. Meu nome é Ainá.&lt;br /&gt;            Fechou os olhos, descansou um pouco, quando os abriu de novo parecia ter esquecido o assunto de que falava, mas não, levou-o à frente como se não tivera havido interrrupção:&lt;br /&gt;            — Nome é coisa sagrada, não deve ser dito demais nem à toa e só as pessoas da família deviam saber o nome da gente. Para os de fora um apelido serve (88)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Esconder o verdadeiro nome deve ter sido uma tortura para Ainá, pois todo o tempo em que fora chamada de Catarina, deveria ter se sentido deslocada do próprio centro, porque ex-centrada da essência. Não é sem razão que Mariana irá se surpreender pela demora da avó em resgatá-lo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...) Mariana pensou no nome da avó, Ainá era bonito, mais do que Catarina, como pudera ela esconder durante tanto tempo aquele nome?, examinou o próprio nome, Mariana, não era feio de todo (89)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Ao contrario da avó, que não gostava do nome Catarina, Mariana, ao dizer que seu nome não era feio de todo, irá ser e agir em consonância com a essência que o nome lhe confere, será a Senhora de Lagos e de Zorei. Tanto é verdade que Seu Gaspar irá chamá-la de Sinhá. Ora, o que é Sinhá senão uma síncope de Senhora, usado pelos súditos: escravos e pessoas menos afortunadas. Mas, no caso de Mariana o nome Sinhá irá condizer com as transformações por que passou de filha e neta de escravas para a Senhora. Se não, vejamos o diálogo que se trava entre ela e Gaspar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                   — Não sabia que a Sinhá gostava de Xangô.&lt;br /&gt;            Era a primeira vez que alguém a chamava de Sinhá, Sinhá era gente importante, no Brasil toda mulher era iaiá, Sinhá só as grandes donas de casa, ricas, bem vestidas, a mulher de tio Inhaim, de quem sua avó fora escrava, era Sinhá. (128)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O espanto de Mariana se justifica, porque Iaiá é a redução do nome Senhora a uma única silaba reduplicada. Portanto, é a total redução da essência do ser. Enquanto Sinhá, a despeito de sincopar a silaba ra, conserva a semântica integral do nome, pelo menos nos meios mais simples da população de Língua Portuguesa.&lt;br /&gt;            Do mesmo modo, como Gaspar é chamado de Seu, não traz em si toda a importância de Senhor, uma vez que tem o nome sincopado. A síncope do nome sempre implica uma síncope física ou ontológica, como vemos, por exemplo, no conto de Bernardo Élis, em que Nhola é paralítica, pobre e destituída dos poderes que teria se se chamasse Senhora dos Anjos.&lt;br /&gt;            Ciente da importância do nome, Mariana irá colocar no filho o mesmo nome do pai: Sebastian que, apesar de augusto, venerável, é assassinado como o pai. Esta sina se deve talvez à sua devoção a Oxossi que, na mitologia iorubá, corresponde a São Sebastião, mártir do catolicismo. Oxóssi é o &lt;a title="Arquétipo" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Arqu%C3%A9tipo"&gt;arquétipo&lt;/a&gt; daquele que busca ultrapassar seus limites, expandir seu campo de ação, aplicadas ao Sebastian pai e, notadamente ao filho. Mas, enquanto metáfora da caça e expansão maior da vida, tanto o pai como o filho se assemelham ao santo e, por isso, são anulados em sua essência.         &lt;br /&gt;            O nome também constitui, no romance, a junção das culturas, à medida que as personagens, com o passar das gerações vão adquirindo nomes que demonstram o amalgama de culturas assimiladas forçosamente, por estarem em outro continente e entre outros povos e por se tratarem de povos colonizados. Forma-se, assim, um cadinho lingüístico que enriquece sobremodo o romance, além de torná-lo inusitado na arte literária brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 2.3 – Símbolos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                           O símbolo pode ser definido como um signo que envolve dois componentes inerentes à existência de um povo: a linguagem, à medida que ele se cristaliza mediante a fala permanente das formas simples, e a cultura, enquanto arcabouço semiológico que define, em muitos casos, uma nação, marcada pelas suas crenças e pelos seus mitos. Na exploração das religiões africanas, os símbolos contribuíram sobremodo para o enriquecimento da narrativa de A casa da Água, como o grande falo colocado em espaços determinados da cidade, para representar a figura de Exu, o deus da fecundidade, do poder gerador, princípio masculino ativo. Além disso, na mitologia iorubá, é o deus mensageiro que estabelece uma ponte entre os homens e o orixás. Com razão, Fatombi, antes de proceder a sua previsões, presta homenagem a Exu, a fim de que ele ajude Ifé a manifestar o futuro. Trata-se de um momento tão singular, que o narrador assume a primeira pessoa, colocando-se como sujeito da narrativa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo-a a caminho, esteve em Pobé, Fatumbi recebeu-a com alegria, cada um se acostumara com a presença do outro, ele prestou homenagem a Exu antes de fazer o jogo para ver o futuro, quando as correntes caíram na bandeja de madeira, quase fechou os olhos de tão atento, Mariana perguntou se havia novidades, o homem afirmou:&lt;br /&gt;─ Seus dois filhos passarão por dificuldades. Cuidado com eles. (211)&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;Se o falo representa Exu, fecundo detentor das mensagens dos deuses orixás, o carneiro encarnará o sacrifício, a libação ao grande deus Xangô. Não é sem motivo que chegando à casa, vai oferecer um, a fim de que ele proteja os seus filhos (cf. 212) Aliado ao carneiro, o sangue, quando em sacrifício, constitui uma forma de o ser humano aproximar-se da divindade e obter os seus raios benéficos.&lt;br /&gt;Não é sem motivo que Ainá, ao empreender a viagem de volta a Abeokutá, confia em Xangô, o deus do machado duplo, símbolo de poder, capaz de dominar as forças do mar e manter o barco em seu percurso, sem problemas. A lembrança do machado duplo (40) de Xangô materializa também a própria existência de Ainá, à medida que ela é separada de sua terra, mas passou por uma espécie de seleção e retorna, com suas pedras preciosas, à sua África, sob certo sentido,vitoriosa, uma vez que muitos não tiveram a mesma sorte.&lt;br /&gt;O machado duplo, ao encerrar a figura do Xangô, irá fazê-lo encontrar-se sempre próximo de Ainá e, em conseqüência, amainar o seu medo das ondas e dos bruscos movimentos do mar. Associado a Xangô, ele passa a simbolizar proteção, notadamente quando preso às mãos, como se fosse internalizado por todo o corpo, por todo o ser:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Catarina o medo não existia. As ondas podiam estar fortes e o navio podia sacudir-se à vontade que ela nem sequer sabia o que estava acontecendo. Xangô estaria por perto para ajudá-la, e ela pegava numa pedra em forma de machado duplo que trouxera da Bahia, apertava a pedra contra o peito, guardava-a no meio de suas roupas. (59-60)  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Os símbolos, além de enriquecerem as funções poética e metafísica da linguagem, conferem à narrativa uma dimensão estética incomum, uma vez que ela constitui o próprio substrato sobre que a personagem se materializa, como pudemos ver no modo inusitado de pontuar, a fim de substantivar a rapidez dos acontecimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            3 – A Viagem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 A Casa da Água abre-se com uma viagem iniciática, a travessia do Piau ao Rio de Janeiro e, depois, à Bahia. O tema da viagem é uma constante nas mitologias e na literatura, uma vez que toda viagem, seja nos relatos míticos seja no texto ficcional, implica uma transformação que se opera tanto em nível físico, quanto, sobretudo, em nível simbólico, metafísico. No nível metafísico, sempre ocorre uma travessia, uma passagem para um novo estado de ser. Esta transformação, nos casos de Catarina, Epifânia e Mariana, é constatada no fato de elas desembarcarem sem roupa, apenas envoltas em um lençol. No nível do simbólico, não se trata apenas de afastar a possibilidade de carregarem possíveis doenças para a nova terra, mas o abandono de tudo que fosse exterior, que constituísse empecilho à incorporação daquilo que representasse um novo modo de ser: a africanicidade. A nova e velha Catarina passa a ser vista imediatamente pela neta Mariana como se fosse outra avó, conforme conferimos neste excerto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catarina tirou a saia e os panos que lhe envolviam o pescoço. Seus peitas caiam ate o umbigo, Mariana ficou olhando para a avó, achando-a magra, perto do umbigo a pela estava mais preta, Epifânia arrancou o vestido e pensou no Padre José, seu corpo negro contra a cama do padre, as crianças ficaram nuas, Emilia e Antônio gostaram da brincadeira, correram pelo convés, Catarina cobriu-se com um lençol, amarrando-o embaixo dos braços, sobre os peitos, Epifânia colocou o seu sobre os ombros, Mariana também, desceram pela escada de cordas, o barco não parava num lugar, foi difícil colocar a avó dentro dele, dois homens negros, de marcas no rosto, peito nu, remavam, Mariana sentiu-se mal, estaria doente outra vez?, a distância entre o navio e a costa não era longa, mas como demorava, de repente a menina teve uma dor que lhe descia pelo ventre, uma dor e um calor, alguma coisa como que se rebentava dentro dela, o calor aumentou no sexo, Mariana pôs a mão e viu que estava molhada, levantoo lençol, havia sangue no fundo do barco e no branco do pano, Epifânia segurou a filha, o barco se aproximava da terra, a mulher e um dos remadores ajudaram a levar Mariana até um trecho de capim, sob uma árvore, a mãe pegou no lençol, abriu as pernas da filha, limpou-lhe cada lada da coxa, Mariana tornou a cobrir-se com o lençol, um cheiro forte e acre andava no ar, o sol batia na terra amarela que havia além do verde (69-70)   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            A avó Catarina vai materializar a sua travessia, no sentido de recuperação da identidade e da essência, quando exige que seja chamada pelo seu nome original, Ainá. O retorno ao nome, para ela, implica assumir o verdadeiro ser que houvera perdido, quando fora subtraída à terra de onde, metafisicamente, nunca saíra. As duas viagens empreendidas por Catarina se realizam em níveis distintos. A vinda, apenas em nível físico, com interferência apenas na identidade social; a metafísica se opera ao retornar, porque afeta a identidade ontológica, recuperada por intermédio do retorno ao nome e ao ser, como se nunca houvesse deixado Abeokutá. O Piau fora apenas um acidente em seu percurso existencial (cf. 27).  &lt;br /&gt;Mas, a verdadeira viagem foi empreendida por Mariana que além de atravessar o mar, passa também por um processo de amadurecimento corporal: deixa de ser criança e se insere na idade adolescente. A menstruação confere à travessia um especial e simultâneo simbolismo de passagem, porquanto marca a possível fertilidade, altamente significativa na vida e no ser de uma mulher, não só na cultura iorubá. A menstruação, nas circunstancias em que ocorreram, vestida com um lençol, confere-lhe a dimensão do sagrado, uma vez que o lençol se parece com uma túnica inconsútil:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...) Epifânia colocou o seu sobre os ombros, Mariana também, desceram pela escada de cordas, o barco não parava no lugar, foi difícil colocar a avó dentro dele, dois homens negros, de marcas no rosto, peito nu, remavam, Mariana sentiu-se mal, estaria doente outra vez?, a distância entre o navio e a costa não era longa, mas como demorava, de repente a menina teve uma dor que lhe descia pelo venre,uma dor e um calor, alguma coisa como que se arrebentava dentro dela, o calor aumentou no sexo, Mariana pôs a mão e viu que estava molhada, levantou o lençol, havia sangue no fundo do barco e no branco do pano, Epifânia segurou a filha, o barco se aproximava da terra, a mulher e um dos remadores ajudaram a levar Mariana até um trecho de capim, sob uma árvore, a mãe pegou no lençol, abriu as pernas da filha, limpou-lhe cada lada da coxa, Mariana tornou a cobrir-se com o lençol , um cheiro forte e acre andava no ar, o sol batia na terra amarela que havia além do verde. (69-70)   &lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;            O sangue em contato com o barco transfigura o instante sagrado da travessia e lhe confere uma dimensão ontológica inusitada. Do mesmo modo, o fato de levarem Mariana para baixo da árvore transforma-a inteiramente, à medida que ela incorpora o seu simbolismo de fecundidade que é confirmado pelo contato com a terra. Todos os elementos do ritual confluem para uma vida ímpar, tal como ocorrerá ao longo de sua existência, marcada pelo beneplácito das transformações essenciais.&lt;br /&gt;            Mariana empreende outra travessia quando entra no colégio e quando retorna, após passadas as festividades do Natal. Começa a aprender a falar inglês, um processo que implica revelar-se em uma língua diferente do português e que opera nela uma espécie de violação do ser. A transformação novamente tem no barco o símbolo da viagem, além do narrador que coparticipa do evento, como se este ver se transformasse em ato, e ele fosse ela, a pôr a mão na água (cf. 82) e purificar-se para uma nova etapa de ser e de existir.   &lt;br /&gt;            Toda viagem física simboliza uma viagem ao interior de si mesmo, a que os hebreus chamam nasa’. Em A casa da água, Mariana viajará muitas vezes de Lagos a Zorei e de Zorei a Lagos, mas a primeira viagem que ela empreendeu operou mudanças profundas em sua existência. Mudanças materiais em seus empreendimentos e, sobretudo, em seu interior, mediante a confiança que se estabeleceu entre ela e Fatumbi e a sabedoria que adquiriu a fim de direcionar o ser e o estar no mundo e orientar as existências de filhos, netos e amigos.&lt;br /&gt;            Nesta viagem existencial, o berro que proferirá durante o enterro de Sebastian, representa o desespero e a força de quem vence todos os obstáculos, menos o da morte, a viagem definitiva, a travessia para o mundo dos mortos, para o convívio com os deuses. A transfiguração por que ela passou, operada pela nasa’ pode ser sentida quando a multidão se ajoelhou à sua passagem, um respeito visual que, na verdade revela o invisível, a grandiosidade dessa personagem.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conclusão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dissemos que A casa da água é um cadinho de culturas que interagem na tessitura do discurso para conformar o estético. Nossa análise, a despeito de focar apenas algumas passagens da narrativa densas de interculturalidade e de transculturalidade, cremos, deve ter chamado a atenção para dados que o leitor, muitas vezes, deixa passar despercebidos em uma leitura menos atenta. De qualquer modo, dois elementos nos chegaram a nos intrigar no texto de Antonio Olinto: o trabalho consciente e a preocupação com a linguagem e com a língua. A linguagem, pelo modo de narrar e de manifestar o ser de Mariana; a língua, pelo que ela significa para a protagonista em termos de identidade, uma vez que, não obstante haver aprendido várias, não descura jamais da Língua Portuguesa, aquela que aprendera na infância e que lhe conferira a essência de ser social e de ser ontológico, e a Iorubá, a língua de seus ancestrais, notadamente da avó Ainá. Língua que lhe confirmará a africanicidade que ela traz como cultura e que lhe proporcionará uma segunda identidade que se amalgama à primeira.&lt;br /&gt;Além disso, o narrador onisciente e onipresente que vê Mariana, como se fosse , ou sendo ela mesma, sempre dentro dos acontecimentos, como se sentisse e vivesse a vida da protagonista, exerce uma função demiúrgica, como se fosse um deus que pairasse sobre Mariana e estivesse sempre interessado no que lhe acontece e no que ela faz e deixa de fazer. Um deus providencial, que sabe de tudo, mas que, sem ser providencialista, não interfere no curso dos acontecimentos. Tanto que, quando ela vai consultar Ifá, para saber como solucionar determinados problemas, temos a impressão de que o narrador já sabe qual seja a mensagem que ela irá receber, pois já estava ciente de tudo.    &lt;br /&gt;Para fechar, trata-se de um romance ímpar na Literatura Brasileira, que efetua uma visão de dentro para fora e de fora para dentro de um fato histórico, ficcionalizado com maestria, a ponto de se parecer convivendo com Mariana e de nos tornarmos um de seus companheiros de viagem existencial. Talvez porque ela seja demasiando humana e efetue uma travessia de vitórias que engrandecem o ser e o existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bibliografia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AMARAL, Adilson Rogério do. “Terreiro do São Domingos” – Relatos de sua história e do seu funcionamento ritualístico, místico e sincrético. http://www.ichs.ufop.br/coni-fes/anais/CMS/cms0203.htm. Acessado: 3-11-2007.&lt;br /&gt;CHEVALIER, Jean &amp;amp; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.&lt;br /&gt;EXISTE uma força mágica e mística chamada ase. http://www.maemartadeoba.com.br/orixas%20mitos%20e%20lendas/os%20rituais%202.htm. Acessado: 3-11-2007.&lt;br /&gt;FERNANDES, José. O existencialismo na ficção brasileira. Goiânia: UFG, 1987.&lt;br /&gt;───── O interior da letra. Goiânia: SMC-UCG, 2007a.&lt;br /&gt;───── As múltiplas faces culturais da poética. In JOACHIM, Sébastien org. II Cultural: Literatura e interculturalidade. Recife-Campina Grande: UFPE-UEPB, 2007b. 151-179.&lt;br /&gt;HEIDEGGER, Martin. Carta ao humanismo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967.&lt;br /&gt;JACOB, André. Introduction à la philosofie du langage. Paris: Gallimard, 1976.&lt;br /&gt;LAVELLE, Louis. La parole et l’écriture. Paris: L’Artisan du Livre, 1942.&lt;br /&gt;OLINTO, Antônio. A casa da água. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.&lt;br /&gt;SANT’ANNA, Afonso Romano de. Canibalismo amoroso. São Paulo: Brasiliense, 1985.&lt;br /&gt;TRADIÇÃO e tendências recentes dos ritos funerários no candomblé. http://www.olukotun.t5.com.br/asese.htm. Acessado: 3-11-2007.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; Texto pronunciado como conferência em Sessão de Homenagem a Antônio Olinto na Academia Goiana de Letras, no dia 6-9-2007.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn2" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;*&lt;/a&gt; Membro da Academia Goiana de Letras, Professor Permanente da Pó-Graduação em Letras da Universidade Federal de Goiás. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-6658242700604307809?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/6658242700604307809/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/10/interculturalidade-em-casa-da-agua-jose.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/6658242700604307809'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/6658242700604307809'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/10/interculturalidade-em-casa-da-agua-jose.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-7995327298154062481</id><published>2010-10-26T05:09:00.000-07:00</published><updated>2010-10-26T05:11:17.440-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;        COISAS RISÍVEIS, OU LAMENTÁVEIS?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                       &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;       Há algum tempo, os brasileiros recriminavam os americanos que diziam ser capital do Brasil, Buenos Aires. Entretanto, se os americanos olhavam e continuam olhando para o próprio umbigo, nós outros, brasileiros, nos encontramos em situação pior, pois a maioria pensa com o estômago e possui frieiras entre as orelhas. A cada dia, decorrência das deficiências do ensino e da maldita concepção que se instalou na sociedade de que o computador resolve todos os problemas culturais, verifica-se que as gafes em torno do conhecimento, em toda a sua extensão, assustam e, por vezes, estarrecem pelo menos aos parcos brasílicos capazes de discernir os limites entre o humor, a ironia, o picaresco e o siso. Se ouvir “assertiva” – situação “em que o locutor declara algo, positivo ou negativo, do qual assume inteiramente a validade” – em vez de “correto” ou coisa parecida, é terrificante. E o “submundo religioso”, se todas as religiões apontam para o sublime, para o divino que até na mitologia grega ficavam no Olimpo, nas alturas, uma vez que ele era a morada dos deuses dignos do panteão? Não confundir com a noção de Hades, que foi substituída pelo paraíso, na mitologia cristã, enquanto inferno passou a referir-se ao estado por que se submeterão os condenados. Será que o “submundo religioso” são as dores do existir, ou aquelas dores do amar de que sabiamente fala Santa Teresa de Ávila, quando diz: “É coisa estranha o amor apaixonado, que custa tantas lagrimas, tantas penitências e orações, tantos cuidados de encomendar o amigo às orações de todos os que possam valer junto de Deus!”? Infelizmente, não foi essa a acepção que empregou o eloqüente falante!&lt;br /&gt;            É preocupante quando o inusitado do grotesco, do jocoso, do hilário, perde o caráter burlesco e passa à normalidade, geralmente pela inépcia cultural do povo, tal como ocorre, por exemplo, em transmissões esportivas em que o parlante exorbita as características das toupeiras, pois asno só é néscio no nome. Experimente obrigá-lo a entrar em um pântano! Cheira, refuga, sofre as dores das esporas; mas não se complica jamais! Porém, o desinibido falante se atola na física, na geografia, na geometria, na aritmética, na zoologia, na anatomia, na pluviometria, na língua portuguesa...    &lt;br /&gt;            Mesmo assistindo a um jogo – quando não o posso ver em outra emissora - prefiro ater-me às imagens que me surpreender com Buenos Aires, capital do Equador, linha que divide o país em leste e oeste, ou Bruxelas, capital da Hungria. Se não se aceitam disparates de um locutor, como aceitá-los de autoridades? Há pessoas que antes de assumirem determinados postos, deviam decorar o carnavalesco soneto de Gregório de Matos, dedicado ao governante da Bahia, Senhor Antão de Sousa de Meneses, para não culparem indevidamente a imprensa de mal intencionada e, certamente, virem na cultura uma necessidade imprescindível ao humano. A menos que se queira cristalizar na história como bufão. Talvez fosse recomendável recriar-se a figura do bobo da corte, que de bobo só tem o nome, como se vê no Rei Lear, de Shakespeare, em que funciona como uma espécie de oráculo ou a moira da tragédia grega.&lt;br /&gt;            Se tivéssemos um povo culto, educado, não se ouviria alguém chamar o Corcunda de Notre Dame, de Corcunda de Amisterdã, como me ocorreu dia desses. Para não me opilar o fígado, disse ao cidadão responsável pelo impropério que, a estas alturas do tempo, já que Vitor Hugo publicou o famoso romance em 1831, ele se cansara de Paris e tomara o trem para Amisterdâ, pois, hoje, deslocar-se entre as cidades européias é extremamente rápido. Ou pode ser que fugira para a Holanda, a fim de abrir caminho para o amor desenfreado de Claude Frollo, como recompensa por havê-lo adotado como filho! Sabe Deus!...&lt;br /&gt;            Disse-lhe ainda que, se não forem estas as causas, talvez desejasse exatamente livrar-se das lembranças amargas da cigana Esmeralda, que o perturbam até hoje. Não sei se o criador deste novo Corcunda me entendeu. Também, parodiando Monoel de Barros, há determinadas coisas que não precisam ser entendidas, notadamente a arte, feita para ser sentida e incorporada, pois entender é procurar saber as razões de um beija-flor voar sem um motor nas costas. A arte, mormente a “Poesia não é para compreender, mas para incorporar”, uma vez que “Sapo é nuvem neste invento”, e as pessoas, infelizmente, não sabem alinhavar-se com água e, por isso, não sabem se desbravar pela poesia; mas pelo capim debruçado nos barrancos. O Brasil precisa sentir um abalo nos alicerces da cultura, a fim de, à semelhança de Fênix, renascer das cinzas para ser uma grande nação e, em decorrência, o brasileiro ser um grande povo! O pior cego é aquele que não se vê! Nosce te ipsum! Exaudi verba mea, Domine!     &lt;br /&gt;    &lt;br /&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 26-10-2010, p. 10.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-7995327298154062481?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/7995327298154062481/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/10/coisas-risiveis-ou-lamentaveis-ha-algum.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/7995327298154062481'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/7995327298154062481'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/10/coisas-risiveis-ou-lamentaveis-ha-algum.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-5880532285104371268</id><published>2010-10-21T15:16:00.000-07:00</published><updated>2010-10-21T15:17:16.617-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;PESQUISA ELEITORAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O telefone tocou, e Sônia o atendeu. Com medo de trote ou de fornecer dados a quem os deseja para a prática do mal, passou-me o aparelho. Também o atendi, às vinte e uma horas, com receio, pois nunca fui entrevistado por nenhum famoso órgão de pesquisa, desses que abarrotam o cidadão de informações duvidosas. Depois, já fui vítima de ligações feitas por bandidos que até se diziam meus sobrinhos; mas ao perguntar-lhes o nome da mãe, desligaram imediatamente. &lt;br /&gt;– Boa noite! Sou X, do Ibope, e gostaria de lhe fazer umas perguntas a respeito das eleições. Pode ser?&lt;br /&gt;– Desde que não haja nenhuma que me obrigue a revelar aspectos de minha vida particular, não há problema!&lt;br /&gt;– Certo! Você vota no Estado de Goiás? .&lt;br /&gt;– Sim! Acredito que o exercício do voto consciente constitui o pulmão da democracia! Acho, inclusive, que o candidato, uma vez eleito, deveria prestar contas aos eleitores, a fim de que eles pudessem aquilatar se ele deverá ser reeleito, se ele realmente  está representando o povo ou a si mesmo, os seus próprios interesses.&lt;br /&gt;– O senhor vota na cidade em que se encontra no momento?&lt;br /&gt;– Não! Aqui é uma chácara e pertence a Santo Antônio de Goiás, um município da chamada grande Goiânia. Eu voto na Capital, pois resido lá também.&lt;br /&gt;– Não tem problema! O importante é que você vote em Goiás. Qual é o seu grau de instrução?&lt;br /&gt;– Superior, em nível de doutorado!&lt;br /&gt;– Desculpe-me; mas você não se encaixa nos perfis de eleitores que nossa pesquisa procura retratar! Não tem ninguém aí com menor grau de instrução?&lt;br /&gt;– Felizmente, não há! &lt;br /&gt;– Boa noite! Obrigado pelas informações!&lt;br /&gt;Soltei uma sonorosa gargalhada e me senti sendo aquele palhaço do soneto “Acrobata da dor”, de Cruz e Souza: “Gargalha, ri, num riso de tormenta,/ Como um palhaço, que desengonçado,/Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado/ De uma ironia e de uma dor violenta.// Da gargalhada atroz, sanguinolenta,/ Agita os guizos, e convulsionados/ Salta, gavroche, salta clown, varado/ Pelo estertor dessa agonia lenta...// Pedem-te bis e um bis não se despreza!/ Vamos! Retesa os músculos, retesa/ Nessas macabras piruetas d’aço...// E embora caias sobre o chão, fremente,/ Afogado em teu sangue estuoso e quente,/Ri! Coração, tristíssimo palhaço.” Movido, certamente, por esta sensação de otário, demorei algum tempo para me recuperar da decepção. Não da decepção de não ser incluído no perfil; mas da desfaçatez, do dirigismo das pesquisas. Quem pensa, quem dispõe de conhecimento para discernir os limites existentes entre a conversa construtiva e a conversa fiada, entre o conveniente e o inconveniente, simplesmente é excluído do sistema e tem caladas as suas opiniões, negado o seu direito de revelar a sua verdade. “Pai, afaste de mim este cálice”!&lt;br /&gt;Este episódio ocorreu na terça-feira, dia 21 de setembro, antevéspera da primavera; mas me deixou intrigado toda a semana! Como vivo em um País em que não se leva nada a sério, em que tudo é brincadeira, fiquei me perguntando quais seriam as verdadeiras intenções dos chamados institutos de pesquisa. Quem os estaria financiando para escamotearem a verdade? Não sem motivo ouvi, há muito tempo, um de meus mestres dizer que “os números não mentem; mas os estatísticos mentem”! É a pura verdade!&lt;br /&gt;Voltou-me ao íntimo o soneto e comecei a sentir que as palavras do sujeito lírico se dirigiam a mim: “Gargalha, ri, num riso de tormenta”. E, por mais me incomodar com o futuro do País, com o meu futuro e com o de minha família, comecei a cantarolar “Pai,afasta de mim esse cálice/Pai,afasta de mim esse cálice/Pai,afasta de mim esse cálice/De vinho tinto de sangue”. Se era para me calarem, pois só posso calar se posso falar, por que me telefonaram? Acordei-me calado e fiquei refletindo sobre aquele provérbio latino: “Vox populi, vox Dei”. Mas, e na calada da noite, serei o que, se o povo possui voz apenas para dizer o que o poder quer ver e ouvir? Se for, “Ri. Coração, tristíssimo palhaço!” Punite mendaces, Domine, quia mendatium est negatio veritatis debitae! Senhor, puni os mentirosos, porque a mentira é a negação da verdade que me é devida! Amém!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 28-9-2010, p. 6.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-5880532285104371268?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/5880532285104371268/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/10/pesquisa-eleitoral-o-telefone-tocou-e.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/5880532285104371268'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/5880532285104371268'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/10/pesquisa-eleitoral-o-telefone-tocou-e.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-3903711196539261483</id><published>2010-10-19T03:10:00.000-07:00</published><updated>2010-10-19T03:12:43.355-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            SUA EXCELÊNCIA, O CLIENTE!&lt;br /&gt;                                                                       José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Meu amigo e compadre, Atanásio, retirou, pela internet, duas passagens pelo sistema de milhas. Infelizmente, por razoes alheias à sua vontade, teve de trocar a data da viagem. Foi ao Aeroporto, a fim de efetuar a mudança. Informaram-lhe, no balcão das Linhas Aéreas Inteligentes, que a mudança só se faria pelo número 4003-7001. Chegou a casa e ligou:&lt;br /&gt;            – For English, press one! Para español, marque dos! Para português, tecle três! Para Smiles, tecle um. Se você já é participante, tecle um! Se você ainda não é participante e deseja se inscrever agora, tecle dois! Digite o número de sua conta Smiles, com nove algarismos! Digite o número de sua senha! Reservas em vôos Gol, tecle um! Reservas em empresas parceiras, tecle dois!Sua ligação está sendo transferida para nosso atendimento especializado!&lt;br /&gt;            Coitado, tão especializado que ouviu música duas horas, no aparelho viva voz. Não suportando mais esperar, desligou! Ligou para o aeroporto. O aparelho tilintou vezes inúmeras; mas o atendimento se parecia com o filme “O jogo dos meninos” ou com o do filme “A última esperança da terra”. Ligou para a Infraero e esta lhe passou outros números que, acionados, demoraram a atender; mas disseram-lhe que nada poderiam fazer. Só o atendimento Smiles. Argumentou que lhe não atendiam. Impaciente, a atendente desligou-lhe, na cara. Ligou na Anac, alguém estava do outro lado da linha? Só Deus sabe. O Procon, era o que lhe restava; mas o “fale conosco” estava mudo. Só através de email. Ficou em dúvida se o inteiro não seria melhor. Uma vez a Policia Federal lhe solucionara um caso parecido, em Uberaba, com uma eficiência digna de todos os elogios. Ligou para a sede, no Setor Marista; mas, infelizmente, desta vez falhou. Também, o Aeroporto Santa Genoveva é tão ruim que nem posto da PF tem! Como a moça da Gol o acreditasse de SAC..., lhe dissera para ligar no 08007040465. Ligou. Mais duas horas. A analista o atendeu, finalmente! Encurtando a longa conversa:&lt;br /&gt;– Moça, já ouvi música durante duas horas! Você certamente está brincando comigo! Garanto-lhe que não está escrito “idiota” na minha testa! – Disse-lhe Atanásio.&lt;br /&gt;Voltou a ligar para o 4003-7001. A mesma irritante e impessoal gravação:&lt;br /&gt;For English, press one! Para español, marque dos! Para português, tecle três! Para Smiles, tecle um. Se você já é participante, tecle um! Se você ainda não é participante e deseja se inscrever agora, tecle dois! Digite o número de sua conta Smiles, com nove algarismos! Digite o número de sua senha! Reservas Gol, tecle um! Reservas em empresas parceiras, tecle dois! está sendo transferido para nosso atendimento especializado! &lt;br /&gt;– Mais duas horas de música pelo fone viva voz. Péssima música, diga-se de passagem! Aliás, é possível que, no mundo, não haja um povo de tão destemperado gosto musical quanto este. Música, com M maiúsculo, são poucos os brasileiros que apreciam. É a maldita incultura. Também, depois da “assertiva” para designar o que parece correto, e do “submundo religioso”, tudo é possível! – Dizia-me o inconsolável Atanásio.&lt;br /&gt;– Isso é porque o atendimento é especializado! Por que você não passa um email para o “fale conosco” do Smiles? Pode ser que eles lhe respondam! – Disse-lhe eu, apenas para consolá-lo, pois também já passei por esta desagradabilíssima experiência.&lt;br /&gt;– Ah! Compadre, na segunda vez que liguei para o 4003-7001 e não fui atendido, entrei no site do Smiles e lhes disse que tinha necessidade de trocar a data da passagem; você me respondeu? Se eu estou recorrendo a você que tem acesso a jornal é porque não tenho voz, não tenho ninguém para recorrer!&lt;br /&gt;– Compadre, se também passei pelos mesmos problemas é porque vivemos em um país de brinquedo, em que educação, cultura e, em decorrência, atenção ao outro, mesmo que ele seja necessário à existência e à permanência da empresa, não se leva em conta, pois ele é apenas um número e, não, aquele humano do romance “Grande Sertão: veredas”! As pessoas, a despeito de o diabo não existir, vêem o outro sempre como alguém que atravessa os trilhos do demo! Tente de novo!&lt;br /&gt;–Tentar de novo para ficar mais duas horas ouvindo aquela música, como, se minha pressão já está nas alturas?! Você não sabe que sou cardíaco? Só não morri ainda é porque sou Atanásio! Até para uma meia dúzia de 0800 passados pelas atendentes, liguei! Adiantou?&lt;br /&gt;– E olha que elas são linhas aéreas inteligentes!... Já pensou se não fossem!&lt;br /&gt;Fingindo-me ingênuo, perguntei-lhe, mas já rezando o meu “Miserere nobis, Domine”!&lt;br /&gt;– Talvez tenha lhe faltado um pouco de fidelidade, não?!&lt;br /&gt;– !!!....................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. &lt;a href="mailto:thjfernandes@uol.com.br"&gt;thjfernandes@uol.com.br&lt;/a&gt; – poetacriticojf.blogspot.com&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 19-10-2010, p. 19.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-3903711196539261483?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/3903711196539261483/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/10/sua-excelencia-o-cliente-jose-fernandes.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/3903711196539261483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/3903711196539261483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/10/sua-excelencia-o-cliente-jose-fernandes.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-516026862673623530</id><published>2010-09-10T13:27:00.000-07:00</published><updated>2010-09-10T13:42:13.019-07:00</updated><title type='text'>NATUREZA VIVA COM PONTOS</title><content type='html'>A Estellita Lamounier, que se sabe poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sangue do crepúsculo se deita no leito&lt;br /&gt;do rio para amar os peixes na brancura das águas&lt;br /&gt;e espalhar o viver pelas beiradas limosas&lt;br /&gt;do encanto e do húmus burburinhando alevinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A manhã arrasta o sol e se debruça sobre o verde&lt;br /&gt;para o fervor da ventania nas folhas e nos ramos&lt;br /&gt;que bebem água pelos barrancos emprumados&lt;br /&gt;de sua altivez de pedras mergulhadas no tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas escamas dos dourados o sol se enfeita de brilho&lt;br /&gt;e aguarda o lusco-fusco para se despedir da lua&lt;br /&gt;com as mãos estendidas pela abóbada celeste&lt;br /&gt;a fim de saciar a sede do dragão São Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada tuiuiú que pousa nas copas do vento&lt;br /&gt;sabe de cor as normas de todas as folhas do verão&lt;br /&gt;e viaja altaneiro nas estradas das chalanas&lt;br /&gt;que vencem os remansos todos do outono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas romãs, eu colho as sementes dos pássaros&lt;br /&gt;e caminho para o vermelho da tarde: repouso&lt;br /&gt;nos olhos dos sapos que intanham a noite&lt;br /&gt;e seus mistérios de rio e água indovoltandoindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poema publicado em &lt;strong&gt;Ponto X&lt;/strong&gt;. Goiânia: Kelps, 2007. p. 117 e em &lt;strong&gt;50 poemas escolhidos pelo autor&lt;/strong&gt;. Rio de Janeiro: Galo Branco, 2009. p. 50.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-516026862673623530?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/516026862673623530/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/09/natureza-viva-com-pontos.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/516026862673623530'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/516026862673623530'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/09/natureza-viva-com-pontos.html' title='NATUREZA VIVA COM PONTOS'/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-1265673174962187544</id><published>2010-08-24T08:12:00.000-07:00</published><updated>2010-08-24T08:17:18.967-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônica'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;             MINAS DO JAÓ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                             &lt;br /&gt;            A destruição da natureza visando à expansão das cidades tem se tornado uma prática e um exercício de crueldade e, muitas vezes, de insanidade, à medida que não se pensam em suas malévolas conseqüências. Goiânia, infelizmente, não se prepara para o futuro e, em decorrência, atropelam-se os traçados e os planos da cidade, além de se assassinarem o belo natural. Um exemplo inadmissível de desrespeito ao plano diretor é a favela Glória Pires às margens da rodovia que demanda a Nova Veneza. Quem liberou aquele loteamento ou é demente e usa cabeça apenas para separar uma orelha da outra, ou recebeu muita propina, ou se curvou diante das chamadas celebridades televisivas criadas pela incultura ou pelo bestiário nacional. Estes administradores formam aquela casta a que Sêneca chamou “cucurbitae capita” que, traduzido para o bom português, deu “cabeças de abóbora”. Esperamos que nenhum cabeça de abóbora destrua a minúscula matinha ainda restante daquele despautério, uma vez que, enquanto houver o chamado “homo asinus” aquele espaço jamais voltará a ser o que dantes era.&lt;br /&gt;            Fomos longe para chegarmos mais perto do centro de Goiânia e analisarmos o que se passou e se passsa no Setor Jaó. Primeiro, tivemos de ir até o STF, a fim de termos nossos direitos de vermos as garças, os martins-pescadores e, notadamente os beija-flores nos visitando todos os dias com suas penas verde-esperanças. Mas, até eleger-se um prefeito que transformasse o terreno serpentinoso, mosquitoso, pernilongoso, em parque, demoraram anos. Mas, este prefeito preferiu lançar-se ao escuro de uma caverna à procura de um chapéu preto que não se sabe se está lá. Durante os dias de amargurada espera, assassinaram inúmeras minas espalhadas pelos pântanos jaós. Algumas, à frente e na praça ao lado da Igreja de São Leopoldo. Elas poderiam estar lá formando lagos e fontes, a fim de nos aliviar esse ar seco de cada dia e a enfeitiçarem a vida jaó às casas, às paredes, às calçadas, como se vê na Roma eterna dos mártires e dos santos. Elas poderiam adornar salas e jardins com sua beleza de água e vida, como vê em determinadas mansões em Ribeirão Preto. Mas, muitos possuem os bolsos recheados de números e, no entanto, a cabeça vazia do belo, do bom gosto, como se Deus somente desse asas a quem não soubesse voar.&lt;br /&gt;            Mas. E as fontes existentes no terreno que se estende da J2 à Avenida Cristo Rei? Todas sufocadas pela desenfreada usura de homens que vivem apenas o hoje, ou melhor, o aqui e o agora. Todas exterminadas por mãos que pensam pés. Todas deletadas sem nenhuma chance de ataviarem os dia-a-dias dos goianienses ou de umedecerem o ar que respiram nesta época ingrata de seca, também causada pelas mãos nefandas de homens insensíveis à vida que brota água, lodo, húmus, pássaros e suas orquestras crepúsculos. Ouvimos dizer que, após muitas promessas polítiticas, irão construir parque neste terreno dengoso, muriçocoso, ofidicoso. Esperamos que as fontes sejam reativadas, revigoradas, restauradas, revivificadas e possam alimentar lagos peixes garças martins-pescadores e sinfonias de sabiás canários gaturamos beija-flores.&lt;br /&gt;            Mas! Mas, e a fonte existente no terreno a ser parque entre o posto e a Av. Sucuri, à frente da Conab, o que foi feito dela? Entupir uma fonte de quatro telhas d’água é um crime ambiental que, segundo nosso entendimento, deveria ser inafiançável. Os caminhões da Prefeitura se abasteciam nela para aguar os canteiros-flores no tempo dos encantos jardins. Depois, ela desapareceu. Não! Deram cabo dela mediante toneladas de entulhos que quase sufocaram as taboas que, milagrosamente, ressurgiram das pedras e ainda enfeitam aquele espaço úmido que roga a existência de um lago em que a mina possa cantar seu chuá, chuá, e a fonte a correr seu chuê, chuê. Ou apenas teremos de cantar, saudosos e melancólicos, a canção bucólica de Pedro de Sá Pereira e Ary Pavão: “Deixa cidade, formosa morena, Linda Pequena e volta ao sertão./Beber a água da fonte que canta/ E se levanta do meio do chão./Se tu nasceste cabocla cheirosa,/Cheirando a rosa no peito da Terra,/Volta pra vida serena da roça,/Daquela palhoça do alto da serra./E a fonte a cantar,/chuá... chuá.../E a água a correr, chuê... chuê...//Parece que alguém cheio de magoa deixasse quem há de dizer a saudade,/No meio das águas rolando também./A Lua Branca, de luz prateada,/ Faz sua jornada no alto dos céus/Como se fosse uma sombra altaneira/Da cachoeira fazendo escarcéu./Quando esta luz, lá na altura distante,/Loira ofegante do poente a cair,/Dá-me essa prova que o pinho dissera,/Que eu volto pra serra,/Que eu quero partir.// E a fonte a cantar... &lt;br /&gt;            Mas! Mas, como não podemos mais partir para a serra, uma vez que, para este José, Minas não há mais, esperamos ver-ouvir a fonte a cantar e as águas a correrem para receberem àqueles que moram e àqueles que visitarão os cantos jaós! Mas! Mas, e a fontes dos outros setores de Goiânia, cadê elas? Cadê a fonte orquídea da casa de Amália Hermano? Todas pantagruelicamente engolidas pelo lucro insano da exploração imobiliária! Veni, Creator Spiritus, mentes hominum asinoram visita!            &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 24-8-2010. p. 17.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;                  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-1265673174962187544?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/1265673174962187544/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/08/minas-do-jao-destruicao-da-natureza.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1265673174962187544'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1265673174962187544'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/08/minas-do-jao-destruicao-da-natureza.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-7266013993734734724</id><published>2010-08-12T14:15:00.000-07:00</published><updated>2010-08-12T14:19:53.861-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;As dores decantadas&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Se a poesia é definida, filosoficamente, como o diálogo do ser lírico com a pró-pria essência, nunca ela apresentou tão dialógica como na atualidade, pois esta conversa interior não manifesta apenas um estado de ser amoroso movido pela magia de Eros, mas uma relação profunda do sujeito lírico com as dores do existir. Aquele lirismo passional, em que se desvelavam as angústias do amar, vigente na poesia ocidental desde Anacreonte, hoje cede espaço para uma viagem em que o ser lírico caminha solitário dentro da náusea essencial. Este sentido profundo do gênero lírico pode ser lido e sentido em Poemas de dor &amp;amp; ternura, de Darcy França Denófrio, principalmente em sua segunda parte intitulada Dor decantada. O qualificativo de “dor”, “decantada”, a despeito de possíveis outras interpretações, materializa aquela dor depurada, que passou por um processo de decantação e que, em decorrência, permanece nas funduras do ser, porque provinda do recrudescimento daquela dor infiltrada e depositada no mais profundo do humano. Esta percepção metafísica de uma dor depositada no qüid, no cerne do ser pode ser percebida no texto denominado Poema da dor sem nome, em que ela transborda em palavras fortes, como mágoa, abismo interior, mundo e, notadamente, no verbo doer, expressão daquela tonalidade ontológica, assumida individual e solitariamente como signo e sinal dos limites extremos da condição humana. Por isso, trata-se de uma dor que perfura o abismo, uma dor que, apesar de sem nome, poderíamos batizá-la de dor essencial, porquanto atinge a qüididade, a quintessência mesma do ser. Só se pode compreender essa dor mediante uma ausência definitiva, capaz de substantivar a total impossibilidade de recuperação de um bem que encerra parte ou totalidade da existência, que compreende aquele “fio infinito/que se joga no abismo/até vomitar de vez/o início da ponta.”O vômito, na perspectiva da dor metafísica, advém da náusea, ato de vomitar a si mesmo, de conhecer-se em limites ou em superior dimensão. Em decorrência, opera-se no ser lírico uma travessia, uma passagem para uma substância semelhante ao que ocorre ao se transfigurar, ao atingir o próprio abismo e juntarem-se as pontas do ser e do não-ser. É o que lemos nas três últimas estrofes do poema, quando o ser lírico confessa: Depois, chegar/à íntima alegria/sem sentir a broca/perfurando a rocha/de meu poço artesiano. Ora, o que é esse poço, senão a qüididade do ser que, através da dor, descobriu-se na quarta margem, numa órbita outra do lírico, em que sujeito e objeto se fundem, porque purificados pela dor depositada no fundamento da essência do ser. A conseqüência é chegar À alegria de alcançar/as águas tranqüilas/minhas mais profundas/reservas humanas.//E ouvir o íntimo silêncio/águas entre rochas calcarias/sem nenhuma pressa/águas que não estremecem/nem trincam/o espelho da alma. Poema da dor sem nome não somente resume a profunda filosofia que perpassa Poemas de dor &amp;amp; ternura, para frente e para trás, considerando que ele se encontra quase no meio do livro; mas também a poética que perfaz seus versos, uma vez que as imagens líquidas, construídas pelo vocábulo “água”, repetem física e metafisicamente a decantação da dor. Não bastasse este símbolo forte de purificação, água, acresce-se-lhe ainda o de espelho, que reduplica o ato de decantar, na dupla profundidade vertical do ser, à medida que ele se volta para baixo, na ação de existir, e para cima, na viagem empreendida ao interior de si mesmo, mediante a terapia perigosa da dor. Perigosa, porque ela pode levar à decantabilidade e ao desespero. Neste caso, levou a uma peregrinação pelo sujeito lírico em decantação, que soube transformar o sofrimento em poesia, em palavra de ser e em ser de palavra, como poucos o sabem fazer. Parabéns, Darcy! Você sabe o verbo e suas conjugações de arte e poesia!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Artigo publicado no Diário da Manhã do dia 22-7-2010, p. 13.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-7266013993734734724?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/7266013993734734724/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/08/as-dores-decantadas-se-poesia-e_12.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/7266013993734734724'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/7266013993734734724'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/08/as-dores-decantadas-se-poesia-e_12.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-907310212632776298</id><published>2010-08-12T08:15:00.000-07:00</published><updated>2010-08-12T08:48:59.837-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;As dores decantadas&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se a poesia é definida, filosoficamente, como o diálogo do ser lírico com a pró-pria essência, nunca ela apresentou tão dialógica como na atualidade, pois esta conversa interior não manifesta apenas um estado de ser amoroso movido pela magia de Eros, mas uma relação profunda do sujeito lírico com as dores do existir. Aquele lirismo passional, em que se desvelavam as angústias do amar, vigente na poesia ocidental desde Anacreonte, hoje cede espaço para uma viagem em que o ser lírico caminha solitário dentro da náusea essencial. Este sentido profundo do gênero lírico pode ser lido e sentido em Poemas de dor &amp;amp; ternura, de Darcy França Denófrio, principalmente em sua segunda parte intitulada Dor decantada. O qualificativo de “dor”, “decantada”, a despeito de possíveis outras interpretações, materializa aquela dor depurada, que passou por um processo de decantação e que, em decorrência, permanece nas funduras do ser, porque provinda do recrudescimento daquela dor infiltrada e depositada no mais profundo do humano. Esta percepção metafísica de uma dor depositada no qüid, no cerne do ser pode ser percebida no texto denominado Poema da dor sem nome, em que ela transborda em palavras fortes, como mágoa, abismo interior, mundo e, notadamente, no verbo doer, expressão daquela tonalidade ontológica, assumida individual e solitariamente como signo e sinal dos limites extremos da condição humana. Por isso, trata-se de uma dor que perfura o abismo, uma dor que, apesar de sem nome, poderíamos batizá-la de dor essencial, porquanto atinge a qüididade, a quintessência mesma do ser. Só se pode compreender essa dor mediante uma ausência definitiva, capaz de substantivar a total impossibilidade de recuperação de um bem que encerra parte ou totalidade da existência, que compreende aquele “fio infinito/que se joga no abismo/até vomitar de vez/o início da ponta.”O vômito, na perspectiva da dor metafísica, advém da náusea, ato de vomitar a si mesmo, de conhecer-se em limites ou em superior dimensão. Em decorrência, opera-se no ser lírico uma travessia, uma passagem para uma substância semelhante ao que ocorre ao se transfigurar, ao atingir o próprio abismo e juntarem-se as pontas do ser e do não-ser. É o que lemos nas três últimas estrofes do poema, quando o ser lírico confessa: Depois, chegar/à íntima alegria/sem sentir a broca/perfurando a rocha/de meu poço artesiano. Ora, o que é esse poço, senão a qüididade do ser que, através da dor, descobriu-se na quarta margem, numa órbita outra do lírico, em que sujeito e objeto se fundem, porque purificados pela dor depositada no fundamento da essência do ser. A conseqüência é chegar À alegria de alcançar/as águas tranqüilas/minhas mais profundas/reservas humanas.//E ouvir o íntimo silêncio/águas entre rochas calcarias/sem nenhuma pressa/águas que não estremecem/nem trincam/o espelho da alma. Poema da dor sem nome não somente resume a profunda filosofia que perpassa Poemas de dor &amp;amp; ternura, para frente e para trás, considerando que ele se encontra quase no meio do livro; mas também a poética que perfaz seus versos, uma vez que as imagens líquidas, construídas pelo vocábulo “água”, repetem física e metafisicamente a decantação da dor. Não bastasse este símbolo forte de purificação, água, acresce-se-lhe ainda o de espelho, que reduplica o ato de decantar, na dupla profundidade vertical do ser, à medida que ele se volta para baixo, na ação de existir, e para cima, na viagem empreendida ao interior de si mesmo, mediante a terapia perigosa da dor. Perigosa, porque ela pode levar à decantabilidade e ao desespero. Neste caso, levou a uma peregrinação pelo sujeito lírico em decantação, que soube transformar o sofrimento em poesia, em palavra de ser e em ser de palavra, como poucos o sabem fazer. Parabéns, Darcy! Você sabe o verbo e suas conjugações de arte e poesia!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Artigo publicado no Diário da Manhã do dia 17-3-o009. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-907310212632776298?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/907310212632776298/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/08/as-dores-decantadas-se-poesia-e.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/907310212632776298'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/907310212632776298'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/08/as-dores-decantadas-se-poesia-e.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-1898776396102677200</id><published>2010-07-20T04:57:00.000-07:00</published><updated>2010-07-20T05:00:14.722-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;ESPÍRITO PRIMITIVO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                              &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estudei psicologia chamou-me a atenção o fato de a personalidade se revelar mediante o desenho de uma árvore, notadamente os traços típicos dos seres primitivos, pois realmente as pessoas que os pintavam se pareciam trogloditas. Embora a psicologia me pareça destituída de um substrato cientifico, acredito que, no Brasil, não se necessita de testes para se conhecerem os seres com caracteres primários. Basta verificarem-se as ações de determinadas pessoas, para se saber seu grau de parentesco com os homens que construíram os dolmens. As queimadas, nesta época do ano, são uma prova evidente de primitivismo. A semântica da palavra já o denuncia: “prática primitiva da &lt;a title="Agricultura" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Agricultura"&gt;agricultura&lt;/a&gt;, destinada precipuamente à limpeza do terreno para o cultivo de plantações ou formação de pastos, com uso do &lt;a title="Fogo" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fogo"&gt;fogo&lt;/a&gt; de forma controlada”.&lt;br /&gt;Os autores desta técnica, ainda na idade paleolítica, não tinham noção dos males causados à natureza, pois não havia espansão demográfica e nem a necessidade de se produzirem bens de consumo para se alimentarem multidões. Tudo se mantinha em equilíbrio, pois se desmatava e se queimava unicamente o espaço necessário ao plantio da sobrevivência. Hoje, sabe-se que se age em detrimento da natureza, que se coloca a vida na terra em perigo; mas o espírito de porco, arraigado na condição humana, fala mais alto e leva os verdadeiros paleolíticos da atualidade, chamados bípedes, à prática de atos inteiramente nefastos ao meio-ambiente, uma vez que, "além de diminuir  os processos de oxidação e transformação dos nutrientes normais, pela diminuição da vida microbiana, o fogo destrói também sementes, plantas jovens, raízes, eliminando vegetais que comumente não terão possibilidade de sobrevivência na área, a não ser por reintrodução posterior, através do homem, animais ou agentes físicos."&lt;br /&gt;Se a expressão espírito de porco se devia à crença de que se incorporavam os espíritos dos animais ao imolá-los para o consumo, atualmente não se exige tanto para se ser espírito de porco. A simples prática de ações agressivas à natureza, destacando-se o desmatamento e as queimadas, são a prova de que há pessoas que carregam em si aspectos suínos, entendidos já naquele sentido bíblico de sujeira, de coisa feita à maneira de quem olha apenas para o chão e, em decorrência, pensa com o focinho e a lama das próprias fezes. Não sem razão, essa preocupação com as queimadas é registrada até pelos poetas, uma vez que a literatura é a filosofia de quem enxerga além do tempo e, também, a fala de quem perscruta as mazelas humanas. Castro Alves já falara de seus efeitos devastadores em seu clássico poema, profeticamente intitulado “A queimada”, nos versos: “Meu nobre perdigueiro!vem comigo./Vamos a sós, meu corajoso amigo,/Pelos ermos vagar!/Vamos lá dos gerais, que o vento açoita,/Dos verdes capinais n'agreste moita/ A perdiz levantar!...//Mas não!... Pousa a cabeça em meus joelhos... /Aqui, meu cão! ... Já de listrões vermelhos/O céu se iluminou./Eis súbito da barra do ocidente,/ Doudo, rubro, veloz, incandescente,/O incêndio que acordou!//A floresta rugindo as comas curva.../As asas foscas o gavião recurva,/Espantado a gritar./O estampido estupendo das queimadas/Se enrola de quebradas em quebradas,/Galopando no ar.//E a chama lavra qual jibóia informe,/Que, no espaço vibrando a cauda enorme,/ Ferra os dentes no chão.../Nas rubras roscas estortega as matas..../Que espadanam o sangue das cascatas/Do roto coração!...//O incêndio — leão ruivo, ensangüentado,/A juba, a crina atira desgrenhado/Aos pampeiros dos céus!.../Travou-se o pugilato e o cedro tomba.../Queimado..., retorcendo na hecatomba/Os braços para Deus.//A queimada! A queimada é uma fornalha!/A irara — pula; o cascavel — chocalha.../Raiva, espuma o tapir!/E às vezes sobre o cume de um rochedo/A corça e o tigre — náufragos do medo —/Vão trêmulos se unir!//Então passa-se ali um drama augusto.../N'último ramo do pau-d'arco adusto/O jaguar se abrigou.../Mas rubro é o céu... Recresce o fogo em mares.../E após... tombam as selvas seculares.../E tudo se acabou!...”&lt;br /&gt;O verbo “acabou”, no pretérito perfeito, reflete bem o significado trágico do que seja uma queimada: destruir, arruinar, pôr fim, terminar. Todos significados de terminar, ou seja, chagar a um fim, sem possibilidade de retorno. Só um verdadeiro espírito de porco é capaz de, chafurdando nas próprias fezes, em vez da chamada massa cefálica, destruir as chances de vida, mediante a realização de desmatamentos e de queimadas de qualquer espécie. Ou se terá de adotar outra definição para queimada? Seria prática corrente no Brasil usada para limpeza de terrenos com vistas ao cultivo ou à formação de pastos, de forma descontrolada, utilizada por pessoas primitivas que incarnam os espíritos dos porcos, das hienas, sem se preocupar com os desastres causados à natureza e à vida na Terra. De spiritis porci, libera nos, Domine!  &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 20-7-2010, p. 9. &lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-1898776396102677200?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/1898776396102677200/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/07/espirito-primitivo-quando-estudei.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1898776396102677200'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1898776396102677200'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/07/espirito-primitivo-quando-estudei.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-908645347051340550</id><published>2010-07-13T04:15:00.000-07:00</published><updated>2010-07-13T04:18:52.667-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;         HOMO SAPIENS IRRESPONSABILIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Ângelo Bello ficou estarrecido ao tomar conhecimento de que o congresso nacional – como minúsculas, sim – aprovara um novo código florestal, em que se permite o exercício e a prática do trágico desrespeito à natureza. Ligou imediatamente para o amigo de idos tempos, Geraldino Carro, e me colocou em conferência: &lt;br /&gt;– Nem precisa dizer, compadre! Vivemos em um país de irresponsáveis, em que se brinca com tudo: um ministério dedicado à educação brinca com a Paidéia, motivo de preocupação e de interrogações do pensamento grego, como vemos nos últimos resultados verificados no ensino público. Brinca-se de formar professores, e eles brincam de ensinar, pois não aprenderam o que tem de ministrar aos alunos. Um ministério que brinca de cultura, uma vez que não existe incentivo algum a quem produz conhecimento, a quem cria o estético. Os prêmios literários são esporádicos e, normalmente irrisórios, e inexistem em nível de ministério. Um ministério brincalhão para defesa, uma vez que nossas fronteiras são totalmente desprotegidas. Por isso, entram no país todas as espécies de drogas que infestam as cidades, a ponto de se formarem poderes paralelos, admitidos pelo governo que nada faz para debelá-los. Um ministério do meio-ambiente inteiramente bufão, que não resiste às pressões políticas e, sobretudo, às pressões dos imortais produtores que pensam com as burras e seus números bancários.&lt;br /&gt;– Espera aí, compadre, por que você os chamou de imortais?&lt;br /&gt;– Ora, agem como se fossem imortais, como se fossem aproveitar-se eternamente dos bens produzidos pela terra. Por isso, desmatam, poluem o ar, os rios, os mares, o planeta. Ninguém pensa em preservar nada, nem na reabilitação da natureza que, certamente, cobrará caro pelo assassinato de árvores que demoraram séculos para atingirem o estágio em que se encontravam no momento do dendronicídio. Já pensou, compadre, na possibilidade de a Amazônia se transformar em um Saara?&lt;br /&gt;– É possível! Se havia um Código Florestal que previa sansões a quem o desobedecesse e, mesmo assim, riam dele, como se fosse uma piada, ou um instrumento de gozação, agora com a aprovação desse novo Código, redigido em linguagem que permite interpretações várias, ocorrerá, mais ou menos, o que Riobaldo diz no Grande sertão: veredas: Se Deus não existisse, tudo seria possível e nada teria importância. É o que ocorrerá daqui pra frente.&lt;br /&gt;– Eh! Realmente, compadre, desmatar 90%, sem necessidade de reflorestar é, ao pé da letra, o fim de picada. Entendendo picada, segundo definição de Houaiss, como “atalho aberto na mata a golpes de facão ou de foice para a passagem de pessoas, pequenos veículos” e, hoje, como derrubada de matas para plantação ou criação de pastagens, realmente é o fim da picada, compadre, pois não haverá mais matas para as pantagruélicas motosserras.&lt;br /&gt; – Acho que batizá-las pantagruélicas é pouco! Não são apenas comilonas, são dendronicidas diabólicas, mefistofélicas, pois não dispõem de qualquer limite!&lt;br /&gt;– Penso diferente, compadre! Acredito que os chamados ruralistas que legislaram em causa própria, é que são a matéria do capeta. Matéria, sim, porque pensam e agem o mal, a desgraça da humanidade, inclusive dos seus pósteros.&lt;br /&gt;– Exatamente isso! Carregam em si uma das piores desgraças de se ser homem – pois humanos, naquele sentido utilizado pelos existencialistas, de transcendência do ser, não são –, o egoísmo, coisa nefasta, contrária ao amor, naquele sentido utilizado por São Paulo: “Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como sino ruidoso ou como címbalo estridente. Ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, nada seria.Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse amor, nada disso me adiantaria. O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor.Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. Tudo desculpa,tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência também desaparecerá. Pois o nosso conhecimento é limitado; limitada é também a nossa profecia. Mas, quando vier a perfeição, desaparecerá o que é limitado. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança,raciocinava como criança. Depois que me tornei adulto, deixei o que era próprio de criança. Agora vemos como em espelho e de maneira confusa; mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido. Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor."&lt;br /&gt;– Eh! Compadre, quem aprovou e quem sancionar este código são também pantagruélicos: trazem o mundo na barriga. E, pior, enxergam apenas o próprio umbigo! Não gostam sequer de seus descendentes, pois não lhes proporciona esperança de vida na Terra! &lt;br /&gt;– Olha, compadre, gostar é próprio de animais! Amar não é de homem; mas de humano, de quem ultrapassa os limites da matéria, notadamente o dinheiro e a comida! O que o senhor acha, Professor?&lt;br /&gt;– Eu! Só escuto e rezo para Deus abrir os olhos dos “hominum asinorum stultorum”. Coitados dos asnos! Adjuvate nos, Domine et Domina!  &lt;br /&gt;    &lt;br /&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 13-7-2010, p. 20.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-908645347051340550?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/908645347051340550/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/07/homo-sapiens-irresponsabilis-angelo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/908645347051340550'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/908645347051340550'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/07/homo-sapiens-irresponsabilis-angelo.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-714535167709632775</id><published>2010-06-30T08:12:00.000-07:00</published><updated>2010-06-30T08:13:45.614-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;         HINO NACIONAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                               José Fernandes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Um país se compõe de um território, de pessoas, de ordenações legais e, principalmente, de símbolos cristalizados pelo tempo e incrustados na cultura que identifica este povo no mais genuíno sentido de identidade ontológica. O símbolo, assim entendido, se define como representação ideológica da concepção da nação. Compreende-se por ideologia, parodiando Schopenhauer, aquele grau fixo e determinado de objetivação da idéia que se tem de um ser enquanto essência, portanto, estranha à pluralidade; graus que se comportam, na verdade, para as coisas particulares como suas formas eternas ou como seus protótipos. Entre estas idéias eternas do Brasil, destaca-se o Hino Nacional, que sempre ouvi e cantei com a devida veneração que um símbolo merece e desperta no fundo ser do humano. Sempre senti em sua letra a pujança de um País de sonhos; porém, desejados no real da realidade. Infelizmente, ainda só desejo de humano ser pensante e sendo neste existir de incertezas e de ardis políticos. Mas, na última terça-feira, “dies Martis”, ouviu-o executado ao piano pela Professora Heloísa Barra Jardim, e ele me tocou realmente a substância do ser. Já o ouvira em execuções por bandas, corais, orquestras; porém, ninguém conseguira introjetar-lhe a alma e o espírito, como o fizera a pianista que colocara o sublime e o divino nas pontas dos dedos.&lt;br /&gt;         A despeito de se tratar de uma composição vibrante, em ritmo de marcha, como se requer a um hino que se destina a imprimir o sentimento de pátria no cidadão, há, por falta de conhecimentos poéticos, quem lhe desdoura a letra e, inclusive, proponha a sua mudança, com a justificativa de que o povo não a entende. Ora, se o Hino é um símbolo e, portanto, a única maneira de se revelar aquilo que não pode ser apreendido de outra forma, “jamais, nos diz Jean Chevalier, é explicado de modo definitivo e sempre deve ser decifrado de novo, do mesmo modo que uma partitura musical jamais é decifrada definitivamente e exige uma execução sempre nova”, como a que presenciei naquele evento promovido pela Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. Por isso, o símbolo incorpora o sentido do mistério, do enigma, mais ou menos como aquele da esfinge: decifra-me ou devoro-te.&lt;br /&gt;         O símbolo entendido como mistério e enigma inerentes ao imaginário, porque transcende o objeto representado, ultrapassa os limites semânticos do signo e do sinal: “transcende o significado e depende da interpretação que, por sua vez, depende de certa disposição”, a que podemos chamar emocional e, sobretudo, cultural. O entendimento de determinados vocábulos, da ordem indireta da sintaxe, está inteiramente ligado à cultura a que o povo tem de ascender. É evidente que esta ascensão implica também conhecimentos da composição do texto poético, marcado pelo uso de imagens, de símbolos e de enigmas, além de uma estrutura típica que lhe confere um estado de ser estético inerente à arte. Portanto, encomendar-se outra letra aos poetas atuais – poucos teriam capacidade de criá-la – constitui uma opinião e uma opção lamentável e desastrosa, uma vez que contrariaria a própria essência do símbolo. Além do mais, trata-se, sem dúvida, de uma sugestão que foge dos problemas nacionais, em vez de enfrentá-los. A incultura do povo permaneceria, e a letra do Hino, que encerra inúmeros outros símbolos de brasilidade, não tem culpa alguma de se brincar de educação, como se brinca nesses brasis. Portanto, tem-se de mudar o povo, convertê-lo em um povo culto e, evidentemente, capaz de compreender parte do imaginário dos símbolos pátrios. Parte, porque o símbolo não apenas representa; mas esconde, revela encobrindo e encobre revelando.&lt;br /&gt;         Para se sentir e entender o Hino e seus símbolos é necessário conhecê-los, pois ninguém pode amar o desconhecido. O que se vê, entretanto, é que aquela obrigatoriedade de se cantá-lo nas escolas, o cultivo daquele sentimento menino havido no “in illo tempore” morreu juntamente com a disciplina imprescindível à educação e ao processo de inserção na cultura e seus símbolos nacionais, pois em torno deles gravita toda a essência do que se compreende por nação. O símbolo, segundo Pierre Emmanuel, ao unir “o conteúdo de um comportamento, de um pensamento, de uma palavra, ao seu sentido latente”, exige que o indivíduo pensante o encare sempre como representação do real e, em decorrência, permanece na história, além de encerrar a dimensão do vertical, do cósmico. É preciso que os brasileiros, notadamente aqueles que têm entendimento destas verdades, vejam o Hino e seus símbolos como categorias transcendentes da inteligência e do espírito, entendidos como o olho que enxerga o infinito e exercita e pratica o sublime, uma vez que uma das finalidades do símbolo é uma tomada de consciência do ser em todas as suas dimensões social, cultural e metafísica. O Hino só existe em função da coletividade, cujos membros se identifiquem de modo tal que constituam um único centro. Todavia, não pode existir centro sem haver cultura, sem haver o culto dos símbolos, e símbolos intocáveis e irretocáveis; mas executados e entendidos com o corpo e com a alma, como o fez e o faz a Professora Heloisa Barra Jardim. Deo gratias et Mariae!    &lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 29-6-2010, p. 13.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-714535167709632775?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/714535167709632775/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/06/hino-nacional-jose-fernandes-um-pais-se.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/714535167709632775'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/714535167709632775'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/06/hino-nacional-jose-fernandes-um-pais-se.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-6301568101345121687</id><published>2010-06-22T14:41:00.000-07:00</published><updated>2010-06-22T14:47:50.861-07:00</updated><title type='text'>ASFALTO PALINTRIMÁTICO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;             Palimpsesto é um vocábulo grego composto de “palim”, que significa “de novo”, e do verbo “psao”, riscar. Designa uma técnica usada principalmente durante a Idade Média, a fim de economizar os pergaminhos e os papiros de elevados custos, à época. Assim, apagavam o que estava escrito e escreviam outro texto no mesmo espaço. Com o tempo, porém, podiam-se ler os dois textos, um sobre o outro. Esta palavra passou a ser utilizada, na modernidade, para discursos intertextualizados, em que se permitem ler passagens literárias de outros escritores, como no verso de Gilberto Mendonça Teles: “No meio das tabas há menos verdores”, em que se lê também verso do “I-Juca-Pirama” –  “No meio das tabas de amenos verdores” –, de Gonçalves Dias.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;            Seguindo esta técnica, a tecnologia asfáltica brasileira, inclusive a goiana, criou o asfalto palintrimático, palavra, também de origem grega, formada com o mesmo radical, acrescido do vocábulo “trima – trimatos”, que significa buraco. É uma técnica simples: tampam-se os buracos centenas de vezes; quando os veículos não suportarem mais a trepidação, passa-se uma camada asfáltica de, mais ou menos, meio centímetro e cobrem-se todas as imperfeições, mais ou menos como o antigo capinador de roça, chamado “amassa-mato”, que dava uma enxadada à frente e cobria o mato de trás, que crescia com maior ímpeto, porque revigorado pela nova terra; o asfalto muda de aspecto, mas conserva toda vibração, uma vez que não há nenhum procedimento que vise à planificação da camada. Trata-se de um asfalto a que se pode chamar pleuribus, popularmente conhecido como costela-de-vaca.             &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;              Depois, pintam-se as faixas centrais e as laterais, e se tem, a olhos nus, uma excelente estrada. Trata-se de uma tipologia de asfalto que, além de palintrimático, porque se dança de acordo com as protuberâncias advindas da sobreposição de buracos, poderia, também, se chamar “asfalto mecrísico”, que quer dizer “asfalto até”. Ele resulta de uma tecnologia tão eficiente que, ao contrário do que ocorreu com os palimpsestos de Arquimedes, “De rerum natura”, em que o texto do filósofo, para felicidade dos conhecimentos humanos, só pôde ser lido séculos depois que se lhe incrustaram as orações, sua leitura do tremor pode ser feita imediatamente. A sua eficiência é tamanha que ele faz honra ao nome que lhe confere essência: dura até as próximas chuvas. Por isso, “asfalto até”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;               Os especialistas apontam inúmeras outras vantagens advindas do asfalto palintrimático. Entre elas, permite ao governo e políticos do momento parecerem eficientes e simpáticos a determinadas comunidades contempladas com a monumental recuperação das estradas. Ainda mais quando eram elas consideradas transitáveis aos bandeirantes que descobriram os sertões e, agora, cabalam os votos dos eleitores que pensam com o calcanhar, mas não correm o risco de apanhar frieiras, uma vez que a cabeça certamente anda de chinelos. A agência encarregada da execução do asfalto mecrísico gasta pouco para obter volumosos resultados, notadamente aqueles que dizem respeito ao uso do dinheiro fácil arrancado aos contribuintes, considerados dementes, porquanto, pensam os políticos que confundem seis com meia dúzia e não sabem quando a carroça puxa o cavalo e querem dar as lições do cuco que engoliu a hera e esmagou a cabeça do filhote. Com isso, na próxima seca, esteja que no governo estiver no poder, tudo se repetirá, e se poderá lucrar com a escritura de um novo asfalto palintrimático que se lhe sobreporá.Outra grande vantagem deste asfalto é que o político, mesmo que nada tenha feito para merecê-lo, terá o nome posto em letras garrafais em faixas à entrada ou saída da cidade merecedora de tamanha generosidade, contendo frases pomposas de agradecimentos pela ação inusitada. Louvam-no prefeitos e eleitores, notadamente vereadores, que começam o prédio pelo telhado: desdenham os alicerces e dão conselhos, sem querê-los de volta, pois, além de trouxas, são bisonhos: fazem com o polegar o que deveriam fazer com a cabeça.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;          Quem desejar degustar “aquele” prato italiano, em Nova Veneza, poderá testar e comprovar a eficácia de um asfaltamento singular que encerra em sua essência os dois tipos ímpares criados pela AGETOP: o palintrimático e o mecrísico. A maioria dos eleitores da região por que se tem de passar está tremendamente satisfeita com esta obra de que desfrutarão até setembro, provavelmente, quando as chuvas, esperamos, deverão nos premiar com a renovação da natureza. A maioria está regozijante, sobretudo, por ver os impostos, pagos rigorosamente em dia, serem tão bem aplicados em asfalto tão duradouro. A maioria aguarda, ansiosa, a inauguração, pelos impudentes responsáveis por sua meteórica realização; até o festival... Depois..., tartaruga é mais rápida! Quando irá a agência estatal concluí-lo? Miserere nobis, Domine!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-6301568101345121687?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/6301568101345121687/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/06/asfalto-palintrimatico.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/6301568101345121687'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/6301568101345121687'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/06/asfalto-palintrimatico.html' title='ASFALTO PALINTRIMÁTICO'/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-3897795695744234387</id><published>2010-06-09T16:08:00.000-07:00</published><updated>2010-06-09T16:12:44.363-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;IMAGENS ALQUÍMICAS NA POESIA DE CORA CORALINA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                           José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A linguagem, para se transformar em arte, necessita passar por transformações que a elevem de um nível meramente físico para uma dimensão metafísica, em que as palavras ressurjam semanticamente recriadas, a fim de produzir o belo estético. Isto quer dizer que uma palavra pronunciada em um discurso poético, em que se processa o diálogo do ser com a própria essência, pode adquirir acepções inúmeras, impossíveis de serem obtidas quando se inscreve o verbo apenas à revelação do ente&lt;a style="mso-footnote-id: ftn2" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[1]&lt;/a&gt;. A imagem, um dos recursos estilísticos mais freqüentes nas composições poéticas da modernidade, opera uma verdadeira alquimia verbal, que permite ao poeta dilatar a semântica vocabular para que ela revele a essência do ser lírico transformada em linguagem. Este procedimento exacerbado de forma inusitada na poesia de Manoel de Barros é, a despeito de a crítica ainda não o haver pronunciado, uma marca do estilo da poetisa Cora Coralina, ainda pouco estudado em profundidade.  Ás vezes se ouve dizer que sua linguagem é pouco poética, desnuda de ambigüidade, que alguns de seus poemas se parecem crônicas poéticas, o que a deslustraria como artífice do discurso poético. Acreditamos que estes pareceres desnutridos de fundamentos retóricos necessitam de uma dose forte de um remédio chamado teoria e crítica literária, embasadas em uma visão filosófica da linguagem em que as imagens são o substrato sobre que se erige o belo estético, em que se instaura e se instala o poético.&lt;br /&gt;A palavra teoria, provinda do grego, Theoria, significa ação de observar, ver, não o facilmente visto; mas o invisível. O papel do leitor ideal, proposto pela estética da recepção, e, notadamente do crítico literário, é enxergar o invisível, as mensagens subliminares, as técnicas de composição do discurso literário, de modo especial o poético, mas que o leitor comum não vê. Talvez seja por isso que haja leitores que não verificam as ambigüidades dos poemas de Cora Coralina, os potes de ouro escondidos nas suas imagens, a alquimia dos seus versos. A função deste pequeno estudo é tentar mostrar estes aspectos importantíssimos de sua obra, encobertos pelas mais variadas imagens poéticas, a começar pelo seu pseudônimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 – Imagem onomástica&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A escolha do pseudônimo, Cora Coralina, por Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, obedece a um processo alquímico cósmico, porquanto Cora vem do grego Κόρη, que significa virgem, donzela, que tem tudo a ver com as imagens telúricas e genesíacas que perpassam os seus poemas. Ademais, Cora era o nome de Perséfone, deusa que, na mitologia grega, representa a sucessão das estações e das mudanças que se operam na natureza. Não é sem motivo que o ser lírico afirma no poema O cântico da terra (1980, p. 197): Eu sou a terra, eu sou a vida. Ora, a reiteração do primeiro nome no segundo traduz de forma inequívoca o significado deste verso, notadamente as palavras terra e vida, Cora, Cora.&lt;br /&gt;A correlação de Cora e Perséfone ocorre exatamente na confluência alquímica das imagens telúricas e genesíacas, uma vez que Пερσις, destruição, e Εφοδος, estrada, ao permitir a tradução de Perséfone como portadora da destruição, ou caminho da morte, revela, com precisão, o processo alquímico por que pauta a criação poética coralineana, pautado pela sucessão vida-morte-vida. Sendo Perséfone a deusa da destruição; mas também da primavera, da agricultura e da fecundidade, incorpora os semas de Cora, donzela, virgem, uma vez que, em alquimia, para haver vida é necessário que haja morte, tal como o vemos em outros poemas em que o ser lírico confirma esta correlação, uma vez que a terra se confunde com Perséfone-Cora e com Cora Coralina. A segunda parte do nome Coralina, do grego Λίνον, fio da vida, nos mostra que a escolha deste pseudônimo não foi ocasional, inconsciente, como já ouvimos dizer, vezes inúmeras, nos meios literários. A poesia de Cora é Coralina, ressurreição-morte-ressurreiçao, terra-semente-terra. As imagens o confirmam: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morta... serei árvore serei tronco, serei fronde e minhas raízes enlaçadas às pedras de meu berço são as cordas que brotam de uma lira. (2002, p. 106)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         O pseudônimo, Cora Coralina é uma imagem poética que direciona a elaboração dos poemas, mesmo aqueles narrativos, mas arquitetados com imagens alquímicas que conferem à linguagem uma dimensão ontológica e, em decorrência, a instauração do belo estético. O que mais poderemos dizer se não que acompanhem a análise que se segue para averiguarem esta afirmação maluca aos olhos de quem enxerga apenas o visível na tessitura do discurso e altamente coerente para quem lê o direito e o avesso das imagens!           &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 – Imagens litóficas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A criação de imagens poéticas está sempre ligada ao estado de ser do sujeito lírico, tanto que elas constituem, segundo Octavio Paz, a cifra da condição humana. Assim, um ser lírico voltado para o alto, que busca verticalizar-se, tende a usar imagens urânicas, enquanto um ser constituído de pedras, utiliza-se de imagens litóficas ou litográficas. As imagens erigidas sobre a palavra pedra e suas isotopias semânticas podem apontar para significados de duração, de imutabilidade, ou para dificuldades intransponíveis que angustiam o homem em sua conquista constante do humano. Esta última acepção pode ser percebida no poema Aninha e suas pedras (2001, p. 148), em que elas constituem o permanente em um sentido negativo, como se ajuntar pedras fosse a imagem da imobilidade, imagem de um ser que se destrói porque não se recria. E quem não se reconstrói, não recomeça todos os dias, não se realiza enquanto ser. Sequer fazer poemas, sem remover pedras, ou seja, sem transubstanciar o ser em essência, é ajuntar pedras, sem insuflar-lhes vida, sem adocicá-las com os doces do existir. O poema transfigura a vida mesquinha, efêmera, objetivada, e a transporta para a esfera do permanente, do eterno, substantivado em imagens:   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Não te deixes destruir...&lt;br /&gt;ajuntando novas pedras e construindo novos poemas. Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema. E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir. Esta fonte é para uso de todos os sedentos. Toma a tua parte. Vem a estas páginas e não entraves seu uso aos que têm sede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poema só transcende a pedra, quando for capaz de ultrapassar o estado de ente, de objeto existencial inerente à condição humana e convertê-lo em palavra, em linguagem, em substância de vida e de arte. Assim, ele matará a sede dos sedentos de ser e os ascenderá ao sublime, ao divino, pois linguagem é criação e recriação.&lt;br /&gt;O simbolismo da pedra convertido em imagens é tão forte e revela realmente o estado de ser do sujeito lírico na poesia de Cora, que em outro poema, intitulado Das pedras (2002, p. 11), revela o lado positivo de ajuntar pedras, mesmo que elas sejam a matéria tosca e bruta da dor. Agora, importa-lhe proceder, também com elas, uma operação alquímica e transformá-las na base da construção do ser e da poesia. As imagens litóficas permitem ao ser lírico, a partir do concreto, criar, primeiramente, um mundo onírico; depois, a estrada existencial, imagem estomiônica, em que entram quatro metonímias de alta simbologia: casa, leito, estrada e companheiro; tudo construído de pedra, de duração e de dor. A casa, espaço vital, imprescindível à totalização da existência, aliada aos outros três elementos, conformam, em sentido metafísico, o próprio ser, uma vez que o ato de conquista da essência, do humano, é contínuo e, em decorrência, realizado somente pelo ser que passa, sofre e experimenta pedras:        &lt;br /&gt;Ajuntei todas as pedras que vieram sobre mim. Levantei uma escada muito alta e no alto subi. Teci um tapete floreado e no sonho me perdi.&lt;br /&gt;Uma estrada, um leito,&lt;br /&gt; uma casa, um companheiro. Tudo de pedra.&lt;br /&gt;         Se a casa pressupõe padecimento em pedras, a poesia, à proporção que cristaliza e revela o ser em linguagem, também precisa crescer entre pedras para suportar o edifício da essência do ser lírico. Se crescer entre pedras pode apresentar o simbolismo de algo consistente, de raízes profundas crescidas entre frinchas, revela também as dificuldades de as palavras e os versos germinarem, uma vez que crescer entre pedras implica saber a direção do terreno onde se pode buscar a seiva que procederá ao xilema e ao floema da poesia:  &lt;br /&gt;Entre pedras cresceu a minha poesia. Minha vida... Quebrando pedras e plantando flores.&lt;br /&gt;         Se a elaboração do discurso poético pressupõe travessia por dentro das pedras e das palavras, ser, no exato sentido metafísico que o substantivo e o verbo ser encerram, pressupõe o estouro de todas as pedras que se colocam no percurso existencial, para que o eu lírico possa plantar flores, ser no exato sentido de esse, de ousia, essência, de conquista da própria parusia, como se o ser estivesse sempre retornando sobre si mesmo, porque sempre quebrando pedras. Não é sem razão que ser e poesia se identificam, ao se erguerem sobre pedras por que se é esmagado ou por que se atravessa, pois a poesia é a essência transformada em linguagem, é revelação, uma vez que parousia significa presença, ato de ser e de fazer-se (poiew) verbo, fazer poesia (poihsiς):   &lt;br /&gt;Entre pedras que me esmagavam Levantei a pedra rude dos meus versos.&lt;br /&gt;         Os dois últimos versos do poema, vistos sob a ótica das imagens litóficas, só podem configurar um grande gesto de humildade, ou uma singular ironia, pois sua Poesia só é rude para quem não enxerga o avesso das palavras e não sabe ler pedras, imagens e seus reflexos. A poesia se renova a cada pronúncia de um novo fiat, a cada vez que as palavras são vergastadas para dizerem o indizível. Este constante renascimento do mundo em linguagem exige que o poeta seja sempre um inovador, mesmo que não o pareça aos olhos da maioria dos leitores, como veremos em suas imagens telúricas.     &lt;br /&gt;3 – Imagens telúricas &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       A terra, apesar da sentença de Iavé, no Genesis, tu és pó e ao pó te tornarás, constitui, talvez, a imagem mais ambígua do discurso poético de Cora Coralina. Já no primeiro verso do poema O cântico da terra (1980, p. 197-198), observa-se sua identificação com a própria vida, em que se utiliza do simbolismo inerente a ela como um dos quatro elementos. Depois, no segundo verso, a interação observada entre a terra e o homem, à proporção que ele provém do limo, do barro, como o vemos no Genesis e na imagem bíblica que se imbrica à telúrica, eleva-a à esfera do cósmico. Se os dois primeiros versos são primorosos, ao operar a alquimia entre o sujeito lírico e a terra, no terceiro, a imagem se torna metafísica, à medida que a criação nasce da criação, personalizada na mulher e, sobretudo, no amor; todos desprendidos do barro de que se fez o boneco homem.&lt;br /&gt;Numa espécie de desdobramento da imagem telúrica, os dois últimos versos completam a criação com uma imagem genesíaca. Nesta imagem, a árvore, como símbolo da mater genitrix, representa toda a criação referente à flora e também à fauna, uma vez que se trata de uma árvore cósmica, símbolo de todas as formas de vida. Em conseqüência, a fonte que simboliza imagem biogênica, conjugada à árvore, conforma toda a vida que, a partir de um gene, se desenvolve em meio ao líquido amniótico, bem como a vida vegetal, através do floema e do xilema:    &lt;br /&gt;Eu sou a terra, eu sou a vida. Do meu barro primeiro veio o homem. De mim veio a mulher e veio o amor. Veio a árvore, veio a fonte. Vem o fruto e vem a flor.&lt;br /&gt;         A extensão semântica dos vocábulos fruto e flor, em decorrência da imagem genesíaca, não se prende somente à gênese da vida vegetal; estende-se a todo tipo de existência terrena e de recriação que se opera na e pela terra. Essa interpretação a partir da imagem genesíaca permite verificar que estes versos são mais polissêmicos do que parecem a uma leitura superficial, irrefletida, como se verifica no desdobramento das imagens telúricas que compõem toda a segunda estrofe do poema. O verso Eu sou a fonte original de toda vida reafirma a simbiose ocorrida em todo o processo por que a criação se efetua, numa verdadeira alquimia, pois nada desenvolve de forma autônoma, mas a partir da terra. Em decorrência, o vocábulo fonte, agora, não se refere apenas à água, mas ao cadinho alquímico de onde toda a vida emana: a vida e tudo que é necessário para que ela se desenvolva:&lt;br /&gt;Eu sou a fonte original de toda vida. Sou o chão que se prende à tua casa. Sou a telha da coberta de teu lar. A mina constante de teu poço. Sou a espiga generosa de teu gado e certeza tranqüila ao teu esforço. Sou a razão de tua vida. De mim vieste pela mão do Criador, e a mim tu voltarás no fim da lida. Só em mim acharás descanso e Paz.&lt;br /&gt;        &lt;br /&gt;        &lt;br /&gt;No processo alquímico produzido pelas imagens, a vida de um ser continua em outro, mediante o retorno à Grande Mãe. Assim, volta-se à terra para ser pó e transformar-se em outros seres. Por isso, no poema Meu epitáfio (2002, p. 106), o ser lírico afirma clara e alquimicamente: Morta... serei árvore /serei tronco, serei fronde/e minhas raízes/ enlaçadas às pedras de meu berço/são as cordas que brotam de uma lira. As imagens alquímicas destes versos se conjugam com as imagens telúricas presentes nas estrofes anteriores do poema em análise e também das que se seguem, notadamente esta     &lt;br /&gt;Eu sou a grande Mãe Universal. Tua filha, tua noiva e desposada. A mulher e o ventre que fecundas. Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.&lt;br /&gt;em que as imagens telúricas e genesíacas se revestem de tamanha densidade metafísica que a terra se transubstancia na mulher, ou a mulher, na terra, porquanto tudo se realiza sob as regras da alquimia. As imagens se sucedem de forma a criar um texto aparentemente denotativo que, no entanto, se reveste de uma polissemia intensa, porquanto, se na estrofe anterior, terra e mulher se conjugam, inclusive na ontologia do amor, na que se segue, a inserção de imagens ergônicas, em que o trabalho e seus instrumentos se tornam parte integrante do ser humano, além de marcar o processo alquímico por que as imagens se formam, inscreve os versos na dimensão do sublime, imprescindível à consumação da arte poética: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu. Teu arado, tua foice, teu machado. O berço pequenino de teu filho. O algodão de tua veste e o pão de tua casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         A identificação do ser lírico com a terra e, mediante uma redução conceitual, com a gleba, resultante da conjunção de imagens inteiramente alquímicas, transubstancia a terra em alimento por intermédio da imagem bromatórfica, em que o pão, à semelhança do que ocorre na oração símbolo do cristianismo, se torna uma palavra cósmica, metafísica, pois encerra todos os alimentos necessários à existência humana. O pão, na poesia de Cora, se revela por analogia à Grande Mãe como o Grande Alimento, imagem bíblica que acentua a polissemia do discurso poético. &lt;br /&gt;         Não bastassem estas imagens altamente polívocas, acrescem-se-lhes imagens referentes ao trabalho, ergônicas, ao vestuário, estetônicas, e ao descanso, axinésicas, a que poderemos chamar imagens hiparcônicas que estendem ainda mais a polissemia, uma vez que cada instrumento de trabalho não se restringe a si mesmo, mas adquire uma gama de semas que o faz significar todos os meios empregados na obtenção dos alimentos necessários à subsistência. &lt;br /&gt;         Apesar de se proceder uma simbiose da terra com o ser lírico, ou do ser lírico com ela, em perfeita alquimia, a sentença do Genesis, após a viagem existencial, confirma-se em estrofe composta por imagens tanatóficas, em que se destacam os verbos voltarás e dormirás, entremeadas por uma imagem telúrica singular, uma vez que, com relação ao corpo, ela vem confirmar o processo de verticalização. O retorno à Grande Mãe — E no canteiro materno de meu seio/ tranqüilo dormirás — possibilita a continuidade daquilo que define a essência da terra: a vida, entendida tanto no plano da perpetuidade física, mediante a transformação em outros seres, quanto no metafísico, retorno à mão do Criador: &lt;br /&gt;E um dia bem distante a mim tu voltarás. E no canteiro materno de meu seio tranqüilo dormirás.&lt;br /&gt;Em decorrência do processo alquímico de criação das imagens, a última estrofe se reveste de forte ambigüidade, pois os cuidados que se seguem, relativos à terra, podem ocorrer enquanto se é integrante da Grande Mãe, estando em existência, ou depois de haver se tornado pó, quando o ser lírico passa a alimentar a gleba e todas as formas de vida que ela encerra:&lt;br /&gt; Plantemos a roça. Lavremos a gleba. Cuidemos do ninho, do gado e da tulha. Fartura teremos e donos de sítio felizes seremos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       Neste sentido as imagens ergônicas presentes em cada verso são lapidares, uma vez que elas são conjugadas às imagens bíblicas genesíacas, em que o homem é condenado a sustentar-se com o suor de seu rosto. Além disso, o sentido alquímico do trabalho, aliado à terra, confere às imagens uma dimensão semântica dilatada, proporcionando à linguagem uma função metafísica, imprescindível à revelação do ser lírico. Estas verdades poéticas demonstram o nível estético por que pauta o processo imagético da poetisa, uma vez que a poesia, considerada como conformação do ser à linguagem, constitui um diálogo do ser consigo mesmo, em que se desvelam os estigmas de se ser humano. Esta necessidade de revelação e de plenitude do ser pode ser percebida na elaboração das imagens urânicas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4 – Imagens urânicas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       As imagens telúricas, caracterizadas pela alquimia do ser lírico com a terra, em que a linguagem assume um grau metafísico, suscitam o uso de outras imagens, notadamente as urânicas, decorrentes da natural verticalização do ser lírico ao se transubstanciar em palavra e transfigurar-se em poesia. Na poética de Cora Coralina é intrigante como, ao mesmo tempo em que se observa a identificação do ser lírico com a terra, obedecendo à linha horizontal da vida, verifica-se também a existência de um fio vertical que conduz o ser à sua configuração ontológica. Para materializar este processo de ascensão, de elevação do ser ao humano e ao divino, ela, notadamente no poema Não conte pra ninguém (2002, p. 101-102), cria imagens urbânicas que interligam o ser lírico com a cidade, como se ela fosse a sua extensão, uma vez que também é terra. Mas, para que o ser não fique no nível do pó, ajuntam-se às imagens urbânicas as urânicas, numa harmonia perfeita entre o horizontal e o vertical, imprescindíveis à realização do ser lírico. Assim, as imagens Namoro a lua./Namoro as estrelas elevam o ser à transfiguração, ao sublime, substantivando os lados físico e metafísico, imprescindíveis à totalização da existência em essência:     &lt;br /&gt;Eu sou a velha mais bonita de Goiás. Namoro a lua. Namoro as estrelas. Me dou bem com o rio Vermelho. Tenho segredo como os morros que não é de adivinhá.&lt;br /&gt;         Consoante esta interpretação, o rio Vermelho, ao refletir em si lua e estrelas, conforma, com elas, imagens urânicas e se torna vertical, do mesmo modo que os morros e os becos. As imagens hídricas, também freqüentes na poesia de Cora, têm muito a ver com as urânicas, uma vez que ambas possuem em comum o reflexo, a luminosidade. Ora, a luz, ao se irradiar pelos morros e becos, como que insere o ser lírico na esfera do sagrado, do sublime. A transfiguração operada por objetos que produzem reflexo, a despeito de ser um recurso estilístico muito usado no Maneirismo, é inteiro moderno na poesia de Cora Coralina, uma vez que ela imprime ao procedimento poético uma conotação metafísica diferente daquela maneirista, porquanto operacionaliza o vertical a que o ser lírico tende ao dialogar com o poético e sua conjunção de verbo na conjugação dos espaços e da vogais agudas nasalizadas da palavra Rintintim, como a expandir os becos até as estrelas:   &lt;br /&gt;     Sou do beco do Mingu,        sou do larguinho        do Rintintim.&lt;br /&gt;Tenho um amor que me espera na rua da Machorra, outro no Campo da Forca. Gosto dessa rua desde o tempo do bioco e do batuque.&lt;br /&gt;          A intersecção das imagens urânicas e urbânicas por imagens metalônicas que transferem o brilho para o interior da terra, e em forma de morro, opera uma simbiose entre os elementos que se prolongam na estrofe seguinte mediante a utilização, novamente, de objetos que refletem luz, como a reiteração do ouro e, sobretudo, da água e sua extensão no Poço da Carioca e seu [o] aberto à imensidão de uranos. No discurso coralineano, tudo se transubstancia no tempo e na linguagem, inclusive o ser lírico e as matérias de poesia. Trata-se de um processo raro e original, uma vez que a substância se transfigura, a ponto de sua duração se efetuar em uma nova forma de ser objeto ou essência: &lt;br /&gt;Já andei no Chupa Osso. Saí lá no Zé Mole. Procuro enterro de ouro. Vou subir o Canta Galo com dez roteiros na mão.&lt;br /&gt;Se você quiser, moço, vem comigo: Vamos caçar esse ouro, vamos fazer água --- loucos no Poço da Carioca, sair debaixo das pontes, dar que falar às bocas de Goiás.&lt;br /&gt;Já bebi água do rio na concha da minha mão. Fui velha quando era moça. Tenho a idade de meus versos. Acho que assim fica bem. Sou velha namoradeira. Lancei a rede na lua, ando catando as estrelas.&lt;br /&gt;Não é sem razão que, nos dois versos finais, o eu narrador do poema se metamorfoseia de tal modo que é capaz de lançar rede à lua e catar estrelas. Duas imagens singulares que materializam a alquimia em seu sentido mais profundo, pois, em essência, o ser lírico se encontra e é o fundamento e a matéria da linguagem poética. Na poesia obtém-se não apenas o elixir da vida, mas, sobretudo, o da linguagem que é sempre outra sendo ela mesma.&lt;br /&gt;         O ser e o estar no mundo, segundo esta visão alquímica da existência, estão ligados ao tempo. Ele é o móbil das transformações, tal como ocorre com as estações persefônicas ou coralínicas materializadas em imagens cronóticas.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         5 – Imagens cronóticas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                O processo alquímico por que pauta a formação das imagens criadas por Cora faz com que às imagens telúricas e urânicas se conjuguem imagens cronóticas, conformadoras da interação do ser com o tempo, com o sempre, pois, sendo-se terra, se está sempre se transformando em terra e em linguagem. No poema Cora Coralina, quem é você? (2002, p. 81-82), a imagem cronótica materializa esta simbiose com o tempo, notadamente no terceiro verso, em que o ser lírico se funde a todas as idades, num processo alquímico consciente, porque convertido em arte, e arte poética. A interação da essência do sujeito lírico com o nome, como se estivesse sempre indo e voltando, tal qual Perséfone, se realiza de forma perfeita por se tratar de um ser feminino, que pode trazer dentro de si o outro, pare de si mesma. Trazer em si todas as idades é ser sempre, é estar sempre presente no outro, sendo-se o que se é, pelo menos naquele momento do estar no mundo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou mulher como outra qualquer. Venho do século passado e trago comigo todas as idades.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em decorrência de se ser todas as idades, o ser lírico sente necessidade de se expandir. Por isso, sente fobia ao ver-se fechado entre serras. Para proceder à sua realização, recorre a imagens oníricas, em que o vôo se transforma na matéria do imenso e da liberdade. Em decorrência da expansão espacial, ocorre também a extensão do tempo, como se no sonho ele escapasse aos seus limites. Aliás, o tempo não tem limite; o ser lírico é que passa por ele, materializando os contornos rígidos da condição humana, bem delineados nos versos coralineanos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos meus anseios respondiam as escarpas agrestes. E eu fechada dentro da imensa serrania que se azulava na distância longínqua. Numa ânsia de vida eu abria o vôo nas asas impossíveis do sonho.                   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A angústia existencial não se desfaz, hoje, uma vez que o ser lírico sabe serem as asas impossíveis do sonho, embora à época ele se apresentasse como solução, uma vez que a cor azul da serra materializa, em imagem onírica, o imaginário e os desejos de expansão do ser lírico. A percepção de mundo presente na poética de Cora faz dela uma poetisa diferente no tempo da literatura e no tempo da existência. Por isso, até os alimentos transmudam-se em matéria de poesia, em substância de linguagem, convertida em imagens bromatóficas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6 – Imagens bromatóficas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A imagem é um processo lingüístico, eminentemente poético, que visa a transubstanciar a linguagem na própria essência, a fim de estender seus significados à esfera ontológica, para que ela realmente revele o humano do homem. Na poesia de Cora Coralina, as imagens bromatóficas, extraídas da composição dos alimentos, ou da própria comida, constituem um rico recurso estilístico para condimentar a poesia e o discurso poético. Consoante aquele principio alquímico que perpassa a composição de seus versos e sua íntima relação com a figura de Perséfone-Cora, procede-se, inclusive, com as comidas aquela simbiose necessária ao eterno morrer-se e renascer-se, como o observamos em estrofe do poema Todas as vidas (1980, p. 35-36). O ser lírico, nas imagens poéticas, confunde-se, em essência e existência, com os alimentos e a atividade de cozê-los, pois afirma claramente: Vive dentro de mim. Ora, este dentro não pode ser entendido como uma extensão física, mas como um mutualismo metafísico, em que se adquire alteridade sem perder a própria densidade ontológica; processo possível unicamente na alquimia das palavras no leito da poesia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vive dentro de mima mulher cozinheira.Pimenta e cebola.Quitute bem feito.Panela de barro.Taipa de lenha.Cozinha antigatoda pretinha.Bem cacheada de picumã.Pedra pontuda.Cumbuco de coco.Pisando alho-sal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ser lírico, ao transformar-se em um cadinho alquímico, por intermédio das imagens bromatóficas, encerra em sua essência todas as mulheres simples que trabalham a cozinha, os alimentos, as vasilhas e o espaço vital necessário à elaboração da atividade cozinheira. Trata-se, portanto, apenas do uso aparente da linguagem denotativa; uma espécie de engana-bobo, pois cada palavra assume uma dimensão em que o significado e o ser são inteiramente outros. Se não o fosse, por que se identificar exatamente com uma Cozinha antiga/toda pretinha. O adjetivo pretinha, no diminutivo, traduz bem este estado de ser relativo à cozinha e as razões de se ser esta cozinha. Alquimicamente falando, ela é ouro para as lembranças e para a essência do ser lírico.      &lt;br /&gt;O processo alquímico na poesia de Cora é tão consciente que no poema Oração do milho (1980, p. 141-142), ele assume a pessoa do discurso e revela a própria essência, como se milho e eu lírico fossem um mesmo ser, a fim de operar, na alquimia das imagens bromatóficas, a conjunção das substâncias na transposição do grão do milho para os diversos tipos de alimento em que ele se converte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão do eito&lt;br /&gt; Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante&lt;br /&gt; Sou farinha econômica do proletário&lt;br /&gt;Sou a polenta do imigrante e miga dos que começam a vida&lt;br /&gt;em terra estranha&lt;br /&gt;Alimento de porcos e do triste um de carga&lt;br /&gt;O que me planta não leva comércio, nem avantaja dinheiroSou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis&lt;br /&gt;Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.&lt;br /&gt;Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos ninhos.&lt;br /&gt;Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor.&lt;br /&gt;Sou o cocho abastecido donde rumina o gado&lt;br /&gt;que me fizeste necessário e humilde&lt;br /&gt;Sou o milho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na interação das imagens, inclusive a simbiose operada entre as espécies vai além dos limites biológicos, pois o milho transmuda-se no canto dos galos e no cacarejo das galinhas. As imagens transubstanciam as palavras e os seres por elas nomeados, a fim de que milho e homem, e gado, e animais se tornem um mesmo ser na humildade do necessário alimento que se é, sempre.&lt;br /&gt;As imagens no discurso poético coralineano têm a singular função de restringir e de elevar a semântica dos vocábulos ao infinito. Função singular porque, em uma leitura despretensiosa, se tem a impressão de que seu discurso é inteiro unívoco, pobre, como ouvimos de vários leitores ingênuos de sua poesia. Em um poema, como O cântico da terra (1980, p. 197-198) pode-se perceber este engodo da palavra provocado pelas imagens bromatóficas, notadamente na quarta estrofe, em que a semântica de quase todos os vocábulos não se atém aos limites do termo pronunciado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou a fonte original de toda vida. Sou o chão que se prende à tua casa. Sou a telha da coberta de teu lar. A mina constante de teu poço. Sou a espiga generosa de teu gado e certeza tranqüila ao teu esforço. Sou a razão de tua vida. De mim vieste pela mão do Criador, e a mim tu voltarás no fim da lida. Só em mim acharás descanso e Paz.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt; A imagem genesíaca montada com a palavra fonte, a despeito de parecer desgastada, na verdade re-atualiza o sentido sagrado que se lhe aderiu, uma vez que ele aponta para o significado de sêmen, de fonte arquetípica de tudo que nasce e vive da terra. Do mesmo modo, chão, ao constituir a base sobre que se erige a casa, passa a simbolizar não apenas a terra em si e por si, pronta a fazer germinar a semente, mas também o espaço vital, o espaço seguro imprescindível ao desenvolvimento do humano em essência e existência. Com significado semelhante, telha constitui uma imagem reduzida de toda a casa e, em conseqüência, de todo abrigo necessário ao homem, mas, sobretudo, ao estado de ser entendido em sua extensão metafísica.&lt;br /&gt;Já espiga, a despeito de destinada ao gado, encerra um simbolismo impar, à medida que representa todo tipo de alimento reservado ao desenvolvimento e à manutenção da vida. A imagem bromatófica alquímica, neste caso, transforma os dois versos – Sou a espiga generosa ao teu gado/e certeza tranqüila ao teu esforço – em um cadinho de vida, pois gado encerra todo tipo de alimento e de trabalho de tração necessários ao sustento do ser humano, como o leite, símbolo não só de alimento ao recém-nascido; mas de toda uma gama de produtos reservados à subsistência humana. As imagens coralineanas são realmente sui generis, pois faz de uma palavra um cadinho de significados, uma composição alquímica que chega ao metal preciso da linguagem poética.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7 – Imagens genesíacas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A ligação do nome Cora com a vida, além de lhe ser inerente por emanar de sua própria essência, manifesta-se ao longo dos poemas na alternância infinita vida-morte-vida. Em decorrência, as imagens genesíacas perpassam a obra da criadora de Meu livro de cordel, tanto com rerência ao existir humano, quanto à origem da poesia, forma de se permanecer no tempo transubstanciado em linguagem. Utilizando esta técnica, o poema As espigas de Aninha (2001, p. 149-150) apresenta uma estrutura imagética impar, à medida que a poetisa joga com vida, semente e espiga, colocadas em situações poéticas singulares: estrada, imagem odótica ligada ao percurso existencial, não necessariamente metafísico, e Páscoa, uma travessia necessariamente teosófico-metafísica, em que a gênese importa sobremodo, pois a existência da espiga implicou a morte-nascimento de uma semente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrada da vidapode ser longa e áspera.Faça-a mais longa e suave.Caminhando e cantandocom as mãos cheias de sementes.A um jovem distanteo Pai deu uma gleba de terra,e disse: trabalha, produz.Era no tempo e ele plantou...E me mandou no tempo quatro espigas de sua planta,enfeitadas com os selos caros do correio.Como o Leitor receberia este presente?Era abril na minha cidade.Páscoa.Sempre, abril é Páscoa.Recebi as espigas resguardadas em meia palha dourada,símbolo de um trabalho fecundo.Preparando sua terraplantando e produzindo,ele estava esquecendo angústiasdo presentee enchendo a tulha do futuro.Eu o abençoei de longecom a ternura dos meus cabelos brancos.&lt;br /&gt;         As imagens poéticas da gênese e, de certa maneira, da morte, tanatóficas, se conjugam de maneira tão singular e tão plural, que o presente da espiga ocorre por parte de um jovem a uma senhora de cabelos brancos: o começo e o fim, que é início, na semente e na mulher. A recepção das espigas no dia da Páscoa se reveste de inusitado simbolismo, uma vez que, se a espiga encontra-se em estado de vir a ser comida ou nova plantação, ambas se correlacionando com a vida, Páscoa é a materialização desta travessia em sentido teológico-metafisico, em que a passagem implica sempre uma transformação no ser ou na matéria; mas sem transmudar a substância. Consoante esta interpretação, o preparo da terra e plantio se revestem, na imagem genesíaca que o envolve, de significados vários, ligados tanto às transmutações por que passam as sementes, quanto as por que passa o humano, uma vez que esta atividade física implica uma mudança ontológica, operada mediante o esquecimento da angústia, um fenômeno essencialmente existencial que envolve a passagem pela terra ou na terra.&lt;br /&gt;         Aliada à gênese das plantas e do ser lírico situam-se as imagens referentes ao nascimento da poesia, inerente ao humano, uma vez que ela, sendo um trabalho de linguagem, implica também o re-nascimento de quem poetisa, de quem recria o mundo através da palavra. Neste sentido, o poema Mãe Didi (2002, p. 104-105) introduz uma palavra poética inteiramente relacionada à vida aplicada à poesia e que, em conseqüência, lhe imprime inusitado significado, pois a semente do poético se confunde com a semente das plantas e, sobretudo, do ser lírico:     &lt;br /&gt;Alguns perguntam pela minha vida, pelo embrião primário, de como veio e se encontrou comigo a minha poesia, a presença primeira do meu primeiro verso, eu respondo:&lt;br /&gt;Ela cascateia há milênios. Minha Poesia... Já era viva e eu, sequer nascida. Veio escorrendo num veio longínquo de cascalho. De pedra foi o meu berço. De pedras têm sido meus caminhos. Meus versos: pedras quebradas no rolar e bater de tantas pedras.&lt;br /&gt;         Ao dizer que a poesia cascateia há milênios, compõe uma imagem hídrica, para mostrar que a poesia medra como medram todos os componentes do criado, na figura mítica de Perséfone. Conforme este entendimento, a poesia dela existia antes de ela haver nascido, porque ligada a sementes passadas. Por outro lado, sendo a poesia a expressão do humano por excelência, ela não surge das alegrias de ser, mas das dificuldades de se existir e, notadamente, de se ser em essência. Por isso, ela escorre em veio de cascalho e nasce e vive e cria-se em berço de pedra, numa perfeita imagem litófica que substantiva todas as dificuldades existenciais. O uso da palavra caminho feita de pedras, em imagem diabasífica, conforma àquele eterno retorno, àquela travessia coralínica presente também em seus versos coralíneos: pedras quebradas no rolar e bater de tantas pedras.&lt;br /&gt;         As imagens litóficas além de marcarem a dureza dos versos, impressa em verdades pedregosas, em que as dores do existir e do ser constituem o substrato de uma linguagem também impiedosa, em que figuram substantivos e adjetivos seixosos, como dura, dolorida, ausente, ausência, distância, cruéis, impiedosos. Uma linguagem inteiramente litográfica, para materializar uma existência e uma poesia de pedras, uma poesia de uma poetisa que conhecia muito bem o significado de fazer, poiew, naquele sentido grego de produzir, gerar, criar:  &lt;br /&gt;Dura foi a vida que me fez assim. Dura, sem ternura. Dolorida sem sentir a dor. Ausente sem sentir a ausência. Distante tateando na distância. Tudo cruel. Todos cruéis. Impiedosos.&lt;br /&gt;Em torno, o abandono. Aninha, a menina boba da casa.&lt;br /&gt;         As conseqüências destas imagens e deste ser litófico são as imagens paidéicas, ligadas à infância marcada pelo abandono, pelo desprezo, como se vê nos dois versos ¾ Em torno, o abandono. Aninha, a menina boba da casa ¾, em que o vocábulo boba encera uma semântica inteiramente negativa, cruel. Esta imagem omotéfica perpassa as duas estrofes seguintes, mormente a segunda, em que a assunção da essência de Borralheira chega a ser doída até ao leitor, considerando-se que o eu lírico traduz o sentido e o sentimento do ser menina abandonada e criada pela ex-escrava:  &lt;br /&gt;Foi uma ex-escrava que me amamentou no seu seio fecundo. Eram os  seus braços prazenteiros e generosos que me erguiam, ainda rastejante, e Aninha adormecia, ouvindo estórias de encantamento.&lt;br /&gt;Minha madrinha Fada... Eu era Aninha Borralheira. Era ela que me tirava da cinza e me calçava sapatinhos de cristal. Me vestia. Me carregava na Procissão. Eu dormia na cadeirinha de seus braços. E sonhava que era um anjo de verdade aconchegada na nuvem macia do seu xaile.&lt;br /&gt;         A crueldade das imagens omotéficas se desprende até do prazer impresso às imagens do imaginário infantil, como ocorre às crianças quase odiadas. As imagens oníricas que se misturam às omotéficas também se tornam cruéis, uma vez que se passam apenas no nível do sonho. A contraposição dos vocábulos Fada, sapatinhos de cristal, anjo e nuvem macia a Aninha Borralheira imprime ao sonho uma notação de pesadelo, decorrência da efemeridade do instante. Assim, até imagens que poderiam marcar a felicidade, imagens eudaimônicas, carregam uma impressão dorida:  &lt;br /&gt;Toda a melhor lembrança da minha puerícia distante está ligada a essa antiga escrava.&lt;br /&gt;No tarde da minha vida assento o seu nome na pedra rude do meu verso: Mãe Didi.&lt;br /&gt;Para você, Mãe Didi, esta página sem brilho do Meu Livro de Cordel.&lt;br /&gt;A consciência do ser lírico de estar elaborando um poema sem brilho, porque cruento, chega a causar espanto, uma vez que o nome de Mãe Didi é inscrito na pedra dura dos versos. Versos que demonstram um amor infeliz, provindo da adversidade infantil. As imagens genesíacas não poderiam deixar de se conjugarem a imagens tanatóficas, uma vez que o nascimento e a infância pressupõem a velhice e, com ela, as transmutações que ocorrem na esfera alquímica do ser, demonstrando, cada vez mais, um fazer poético consciente, com uma arquitetura adrede pensada e pratica com esmero. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8 – Imagens bíblicas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       A imagem exerce a função de transmudar a semântica das palavras ou de estendê-las ao infinito, a fim de que a linguagem ascenda ao metafísico, transcenda o seu estado de dicionário e revele a essência do ser. Neste sentido, as imagens bíblicas, decorrência de sua conformação meta-teosófica, assumem no discurso poético coalineano uma dimensão singular, porque, às vezes, transferem a linguagem para o nível do sublime, do divino, em que Iavé se torna matéria e substância de poesia. No poema Israel... Israel... (2002, p. 43-44) as imagens possibilitam uma leitura singular dos elementos teológicos, pois o sujeito lírico, de forma sutil, fala do Deus único, da Virgem Maria e de outras figuras bíblicas, para exaltar o cristianismo; mas, antes de tudo, para mostrar a realidade do povo judeu. É uma técnica sábia, à proporção que fala de uma coisa para dizer outra, mais grave, mais tocante e mais cruel:&lt;br /&gt;O débito universal jamais quitado.&lt;br /&gt;Perseguidos. Espoliados. Rejeitados. Discriminados.Escravizados, Gaseados Redivivos.&lt;br /&gt;Povo Heróico.&lt;br /&gt;De tua crença indômita veio o Deus único. De teu povo veio o Cristo. Veio a Virgem Maria. Vieram os Profetas. Os evangelistas. E os grandes ensinamentos dos Evangelhos.&lt;br /&gt;No Decálogo orienta-se toda a Civilização do Ocidente.&lt;br /&gt;Ainda não existiam os códigos dos povos civilizados e já os princípios imutáveis da Lei e da Justiça estavam inseridos nas páginas remotas do Pentateuco e deles serve-se o Direito Contemporâneo.&lt;br /&gt;Judeu, meu irmão.&lt;br /&gt;         Além de as imagens dimensionarem a importância do povo judeu, sob o aspecto religioso, incluindo as passagens bíblicas e, indiretamente, a Torá, mediante a referência ao Deus único, o poema revela fortes ilações ideológicas, fazendo com que se explicite o sentido duplo de passagens das escrituras, com o processo de formação e regulamentação da civilização ocidental. A consciência da conformação de um arcabouço de leis imprescindíveis à existência em comunidade revela a interação do ser lírico com o mundo, confirmando aquele sentido renovador de Perséfone, incluso no pseudônimo de Cora. Se a imagem não ocorre no nível vocabular ou frasal, ela se realiza na dimensão metafísica. É uma técnica sui generis da poetisa Coralina, pois, ao chamar o judeu de irmão, está procedendo à simbiose alquímica com a humanidade.&lt;br /&gt;         A alquimia operada entre as imagens no poema Meu pequeno oratório, graças à simplicidade da linguagem utilizada, torna o discurso de uma riqueza semântica tamanha, mas pouco percebida pelo leitor ingênuo. Nesta simplicidade reside a astúcia da poetisa, pois transforma Nossa Senhora das Graças nas graças de toda a natureza, como se ela fosse colocada na esfera do sagrado, cravejada de milagres:&lt;br /&gt;Minha Nossa Senhora das Graças toda minha. Das raízes e dos troncos. Das florestas e das frondes. Dos rios que correm para o mar e dos corguinhos sem destino. Dos altares, dos montes e das grunas. Dos pássaros sem vôo e das rolinhas bandoleiras.&lt;br /&gt;         A utilização da palavra corguinhos em sua conformação popular, em imagens telúricas e hídricas, contraposta ao regionalismo baiano, gruna, mostra a perspicácia com que a poetisa trabalha a linguagem: simples, mas sempre acompanhada de algo inesperado que causa uma espécie de estupor em quem sorve os seus versos. O sublime, nas imagens usadas pela poética, apresenta-se com a face do sagrado, do divino e com a face das coisas aparentemente sem importância, como os corguinhos sem destino, os pássaros sem vôo e as rolinhas bandoleiras.  &lt;br /&gt;Nossa Senhora das cigarras imprevidentes que morrem de cantar e das formigas previdentes que morrem sem cantar.&lt;br /&gt;         A imagem bíblica e intercultural, em que se alude de forma sutil à fábula de La Fontaine, torna os versos da estrofe supra realmente singulares, pois a Nossa Senhora, ao tornar-se protetora das imprevidentes cigarras cantantes e das mudas formigas previdentes, estende suas graças ao infinito das coisas da natureza, em que tudo tem importância. &lt;br /&gt;         A imagem bíblica ligada à vida, através das abelhas e dos pólens, confere a Nossa Senhora das Graças a ligação direta com a renovação da vida, mediante um processo alquímico típico em que o amor assume uma dimensão altamente metafísica que não se prende apenas à vida vegetal. A reiteração do vocábulo flor complementada pela imagem segredando de amor transpõe o ato da criação para a esfera do sublime, pois tudo se realiza mediante a proteção e a graça de Nossa Senhora:&lt;br /&gt;Das abelhas rufionas que vão de flor em flor segredando de amor e acasalando os pólens Das cobras e dos tigres que também têm direito à vida.&lt;br /&gt;         A multiplicação das Graças de Nossa Senhora, a fim de que ela seja também a Senhora Das cobras e dos tigres/que também têm direito à vida, produz um efeito imagético raro, pois as graças não se restringem apenas ao que parece bom. Assim, aquele preconceito de que o bem se liga apenas ao bom se desfaz ao conceder a Nossa Senhora também a graça de se ligar aos animais considerados maus, notadamente a serpente, que carrega a maldição bíblica, pois é dela a cabeça de quem a Mãe de Deus tem de amassar:  &lt;br /&gt;Nossa Senhora dos maus e dos bons. Profundamente minha porque de todos os anônimos bichos e gentes.&lt;br /&gt;         A simbiose alquímica ocorre inclusive entre o ser lírico e Nossa Senhora, à medida que ocorre a identificação dela com todos os anônimos e, de modo especial, com bichos e gentes. A imagem bíblica é inusitada, porque, longe de ocorrer um panteísmo, ocorre a extensão das graças de Nossa Senhora a todos os seres que vivem sobre a terra.&lt;br /&gt;         Nossa Senhora nas imagens bíblicas, aliadas às telúricas e genesíacas, se transmuta em sementes. A conciliação das mitologias cristã e grega eleva a ambigüidade dos versos ao nível do sublime, pois lhes confere uma riqueza estilística e semântica incomum e que proporciona a seus versos, astuciosamente simples, uma dimensão ontológica excepcional:    &lt;br /&gt;Nossa Senhora da custódia das sementes, lançadas ao léu da vida germinando, crescendo, florescentes ou morrendo perdidas na raleira.&lt;br /&gt;Nossa Senhora das sementes... Ajudai todas elas — boas e más a cumprir seu destino de sementes, lançando do seu pequenino coração vital o esporo à raiz fálica que as confirmarão na terra e na seqüência das gerações através do tempo.&lt;br /&gt;Nossa Senhora das raízes...&lt;br /&gt;Eu sou a raiz ancestral, perdida e desfigurada no tempo obscura na terra onde lutam, sobrevivem e desaparecem todas no esquecimento e no abandono. Vigia para mim e guarda em vida longa todas as raízes novas que vivem enleadas às minhas já gastas e amortecidas.&lt;br /&gt;         A partir do momento em que Nossa Senhora das Graças se torna a Senhora e a guardiã das sementes, todas, processa-se entre Ela, Perséfone e Cora, uma interação que envolve a própria essência, pois se estabelece a conjunção das mitologias relativas à criação através de um processo que envolve o imaginário e, não, o real, as imagens e, não, a realidade lingüística. A pronúncia do verbo, no caso, transfere a essência da palavra para a esfera do sagrado, entendido como a manifestação do divino, de um poder que se encontra fora do homem.&lt;br /&gt;         Em decorrência, a poetisa elabora o poema à semelhança das orações católicas ou dos hinos aos deuses, como os vemos em Homero e, de forma mais lírica, em Safo. A oração constitui um rogo a Nossa Senhora, mediante o uso da imagem hierofânica, para proceder à proteção aqueles seres que, pelo processo alquímico, se transubstanciam na árvore e pela árvore que os alimenta:&lt;br /&gt;Abençoai, minha Nossa Senhora, todos aqueles que se foram e que se desfizeram na obscuridade e no esquecimento da árvore ingrata que os alimentou.&lt;br /&gt;         Os procedimentos estilísticos empregados pela poetisa da Casa Velha da Ponte demonstram consciência e planejamento do discurso poético, uma vez que tudo se cria e se constrói a partir do seu pseudônimo. Ele é o guia que conhece todos os caminhos, árvores e raízes a serem percorridos. Aquela autodidata que fazia os poemas pelo rumo não existe. Basta ler seus poemas em profundidade para perceber uma inteligência criadora e organizadora da linguagem. Basta a verificação dos recursos imagéticos utilizados, em que entram elementos vários da cultura ocidental, para nos darmos conta da perspicácia de Cora Coralina, que se fazia de ingênua para enganar os leitores desavisados da profundidade lingüística de seus vesos.&lt;br /&gt;9 – Imagens tanatóficas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       A morte na poesia de Cora não representa o fim de um estado de ente, ou de ser, mas a passagem para outra forma de ente ou de ser, segundo um processo alquímico singular de composição dos versos, dos poemas e da linguagem. Em decorrência, as imagens tanatóficas sempre são acompanhadas de imagens genesíacas, uma vez alquimicamente, a existência da primeira implica o nascimento da segunda. Assim, o que se vê no poema Meu epitáfio (2002, p. 106), longe de ser o sentido definitivo do verbo jazer, é a transformação do ser em outros entes que transpõem o sentido da morte em vida, por intermédio do processo alquímico da transformação de um elemento em outro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morta... serei árvore serei tronco, serei fronde e minhas raízes enlaçadas às pedras de meu berço são as cordas que brotam de uma lira. (2002, p. 106)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Aquela busca pelo metal nobre, típica da alquimia, aqui se converte em poesia, em linguagem. Neste sentido, o lado metafísico do ser e da palavra se conjuga, pois ascender ao poético corresponde à ascensão ao ouro, naquele sentido esotérico processado no cadinho alquímico. Além disso, confirma-se a consciência da escolha do pseudônimo, Cora Coralina, aquela que efetua as mudanças da natureza ao início da primavera ou do ser em poesia através de um fio condutor de vida: a linguagem.&lt;br /&gt;         As imagens tanatóficas estão sempre em consonância com a vida. É raro o poema em que elas se liguem apenas à destruição, porque impedidas de continuar em outro ser ou em outro modo de vida pelas maldades da própria existência. Assim, no poema Meu pequeno oratório, a grande raiz deve receber a ajuda de Nossa Senhora para que as pequenas raízes continuem a se enlaçar em torno da Grande Raiz, a fim de que se lhe restabeleçam as energias vitais:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou a raiz ancestral, perdida e desfigurada no tempo obscura na terra onde lutam, sobrevivem e desaparecem todas no esquecimento e no abandono. Vigia para mim e guarda em vida longa todas as raízes novas que vivem enleadas às minhas já gastas e amortecidas.&lt;br /&gt;         O processo alquímico se processa, e a vida exangue tende a se fortalecer através da proximidade com as raízes novas. As imagens tanatóficas conjugadas às genesíacas tornam os versos plenos de significados a serem lidos nos interstícios das palavras.&lt;br /&gt;         Pelo pouco que pudemos analisar, acreditamos que uma leitura nova do discurso da poetisa da Casa Velha da Ponte pode ser percebida por leitores de poesia, notadamente professores e estudantes de literatura que precisam valorizar mais os escritores goianos, tão bons quanto outros das várias ilhas culturais desse país que tem o grande defeito de só acreditar naquilo que vem de fora; seja do país, seja o estado. Esta visão provinciana pode ser vista até por vários escritores que só acreditam na crítica superficial e louvaminha dos prefaciadores e articulistas de outras ínsulas brasileiras. Já é tempo de se enterrar este espírito de província. Cora é um exemplo, pois traz todas as vidas dentro de si, sobretudo a goiana e a vilaboense.   &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; BIBLIOGRAFIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALLEAU, René. A ciência dos símbolos. Lisboa: Edições 70, 1976.&lt;br /&gt;BURGOS, Jean. Pour une poétique de l’imaginaire. Paris: Seuil, 19782.&lt;br /&gt;CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Allain. Dicionário de símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.&lt;br /&gt;CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Goiânia: UFG, 1980 .&lt;br /&gt;¾¾¾ Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. São Paulo: Global, 2001.&lt;br /&gt;¾¾¾ Meu livro de cordel. São Paulo: Global, 2002.&lt;br /&gt;DURAND, Gilbert. Las estructuras antropológicas de lo imaginario. Madrid: Taurus, 1982.&lt;br /&gt;¾¾¾ O imaginário. Trad. Renée Eve Levié. Rio de Janeiro: Difel, 2001.&lt;br /&gt;¾¾¾ As estruturas antropológicas do imaginário. Trad. Helder Godinho. São Paulo: Martins Fontes, 2002.&lt;br /&gt;DURAND, Yves. L’exploration de l’imaginaire. Paris: Bibliotheque de L’imaginaire, 1988. &lt;br /&gt;FERNANDES, José. O poeta da linguagem. Rio de Janeiro: Presença, 1983.&lt;br /&gt;¾¾¾ O existencialismo na ficção brasileira. Goiânia: UFG, 1986.&lt;br /&gt;¾¾¾ A loucura da palavra. Barra do Garças: UFMT, 1987.&lt;br /&gt;¾¾¾ Dimensões da literatura goiana. Goiânia: CERNE, 1992.&lt;br /&gt;¾¾¾ O poema visual. Petrópolis: Vozes, 1996.&lt;br /&gt;¾¾¾  O selo do poeta. Rio de Janeiro: Galo Branco, 2005.&lt;br /&gt;¾¾¾ O interior da letra. Goiânia: Secretaria Municipal de Cultura/UCG, 2007.&lt;br /&gt;FERRYN, Patrick; VERHEIDEN, Ivan. As pedras e a escrita. Lisboa: Edições 70, 1981. &lt;br /&gt;FRIEDRICH      , Hugo. A estrutura da lírica moderna. São Paulo: Duas Cidades, 1978.&lt;br /&gt;HEIDEGGER, Martin. El ser y el tiempo. México: Fondo de Cultura Econômica, 1962.&lt;br /&gt;¾¾¾ Carta ao humanismo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967.&lt;br /&gt;PAZ, Octavio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1979.&lt;br /&gt;SPALDING, Tassilo Orpheu. Dicionário de mitologia Greco-latina. Belo Horizonte: Itatiaia, 1965.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Professor Titular aposentado da UFG e Membro da Academia Goiana de Letras.&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn2" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;[1]&lt;/a&gt; Entende-se por ente qualquer coisa viva ou não, em estado de objeto, de coisa. O ser se aplica ao humano em plenitude, ou seja, aquele que tem consciência da travessia e da verticalidade enquanto ser em conquista da essência.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-3897795695744234387?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/3897795695744234387/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/06/imagens-alquimicas-na-poesia-de-cora.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/3897795695744234387'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/3897795695744234387'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/06/imagens-alquimicas-na-poesia-de-cora.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-4155514106852623578</id><published>2010-06-09T15:20:00.000-07:00</published><updated>2010-06-09T15:22:52.510-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;         O POSITIVISMO EM OS SERTÕES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                 &lt;br /&gt;          Resumo: Este estudo visa a mostrar a sintonia existente entre a filosofia positivista e a concepção do romance Os sertões, perceptível na definição antropológica do sertanejo, como uma espécie de sub-raça e, notadamente, de sua relação com o meio em que vive, a ponto de se confundir com ele, tornando-se pedra, árvore, caatinga. Isso mostra que o expedicionário não afeito àquela terra teve de lutar contra o homem, contra o meio, contra a paisagem, contra o clima, o que justifica as perdas das vidas humanas não afeitas àquele espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Palavras-chave: 1. Meio; 2. Raça; 3. Momento histórico; 4. Positivismo    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abstract: This study aims to show the harmony existing between the positivist philosophy and design of the novel Os sertões, seen from the anthropological definition of swing, as a kind of sub-race and, especially, their relationship with the environment they live in point to be confused with it, becoming stone, tree, savanna. This shows that the expeditionary not accustomed to that land had to fight man against the environment, against the landscape, to the climate, hence the loss of human lives is not akin to that space.&lt;br /&gt;Keywords: 1. Environment 2. Race 3. History; 4. Positivism&lt;br /&gt;         &lt;br /&gt;A crítica literária brasileira sofre de um erro intrínseco de principio, à medida que rotula estilística ou filosoficamente a maioria dos escritores, sem proceder a um estudo profundo em que os postulados da estética ou do sistema filosófico sejam cotejados com a obra, a fim de se comprovar, peremptoriamente, e, não, a priori, a característica determinante do estilo e do pensamento que sustenta o discurso artístico. Nosso intuito com este artigo, longe de mostrar o dejá-vu, é revelar as razões do rótulo que costumamos ler e ouvir a respeito de Os sertões, de Euclides da Cunha, romance centrado, segundo a crítica, nos princípios do positivismo. Para isso, escolheremos aspectos marcantes relativos às três partes por que o romance se divide e procuraremos nos filósofos que criaram o cientificismo positivista as bases sobre que o ficcionista teria erigido a narrativa de Os sertões.  &lt;br /&gt;Além disso, verificaremos em que medida o estético se conjuga ao científico e ao filosófico, a fim de comprovarmos que, ao contrário do que propala a maioria dos críticos literários, existe uma coesão perfeita entre as partes do romance, aparentemente independentes. O meio, a raça e o momento histórico interagem de modo tal que existe um crescendo narrativo em que todos eles se manifestam nas ações, no temperamento e no ser das personagens histórico-ficcionais. Vamos à terra, ao homem e à luta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         1 – A TERRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                A crítica literária e o leitor menos afeito à filosofia consideram a primeira parte, intitulada A terra, uma excrescência em Os sertões. Se considerarmos os princípios científicos e filosóficos que nortearam a estrutura e, de modo especial, o discurso sobre que o romance se erige, ela é imprescindível, pois exatamente ela determinará o tipo de homem que habita o sertão e, sobretudo, a capacidade de luta, centrada exatamente na semelhança que se estabelece entre ele e a terra. Ao contrário do que se propaga, sabendo-se as razões filosóficas que levaram o ficcionista a proceder à estruturação desse histórico romance, tem-se uma leitura agradável, pois toda esta parte funciona como uma espécie de índice, de antevisão do que se passará ao longo da narrativa.&lt;br /&gt;          A descrição científico-imaginária feita pelo romancista-cientista a partir do planalto central e que se aterá, de modo especial, ao sertão, onde os fatos transcorrerão, obedece aos princípios positivistas traçados por Herbert Spencer (1880, 96), quando diz É talvez ir um pouco longe dizer que ele  compreende não somente estas combinações definidas de mudanças simultâneas e sucessivas em um organismo, que correspondem à coexistência de estruturas e seqüências no meio, mas também arranjos de estrutura que permitem ao organismo acomodar suas ações às do meio. Ora, a descrição do solo, da vegetação, à beira dos caminhos que demandam aos lugarejos por que as tropas têm de passar para chegar a Canudos determinam o tipo de pessoas que os habitam e as diferenças internas e externas entre eles e os componentes das expedições. Procedendo ao necessário casamento entre a ciência e a arte, intitula o item Em caminho para Monte-Santo e assim procede à descrição do inóspito agreste a partir de Queimadas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Estas lagoas mortas, segundo a bela etimologia indígena, demarcam obrigatória escala ao caminhante. Associando-se às cacimbas e caldeirões, em que se abre a pedra, são-lhe recurso único na viagem penosíssima.(...)&lt;br /&gt;                   Algumas denotam um esforço dos filhos do sertão. Encontram-se, orlado-as, erguidos como represas entre as encostas, toscos muramentos de pedra seca. Lembram momentos de uma sociedade obscura. Patrimônio comum dos que por ali se agitam nas aperturas do clima feroz, vêm, em geral do remoto passado. (1940, 14-14).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Caminhando junto com o narrador, verificamos que, as vias que se seguem a Quirinquinguá apresentam nuances que as tornam cada vez mais irregulares e custosas à presença humana, notadamente a pessoas estranhas ao meio exterior. Sobressaem, neste meio, a Serra de Monte-Santo e o sítio do Caldeirão, entradas do sertão adusto. A despeito de a crítica julgar os detalhes geológicos desnecessários à seqüência da narrativa, se estabelecermos a ligação dos nomes Monte-Santo e Caldeirão com as dificuldades para se chegar a Canudos e com o insucesso das expedições e a morte de centenas de sertanejos, a identidade do discurso artístico se instaura, à medida que eles trazem na essência simbolismos afectos à negatividade: calvário e inferno. Assim interpretada, constatamos que há um crescendo na interação determinística dos fatos, de tal modo que a seqüência das ações desencadeadas na terceira parte do romance tem suas raízes fincadas nas peculiaridades do solo.&lt;br /&gt;          Até os rios, como o Vasa-Barris, inseridos na paisagem agreste, substantivam as agruras por que passa o homem daqueles espaços, como o vemos mediante a descrição da paisagem próxima a Geremoabo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   É uma onda tombando das vertentes da Itinha, multiplicando a energia da corrente no apertado dos desfiladeiros e correndo veloz entre barrancos, ou entalada em serras, até Geremoabo. (1940, 24).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aparente tranqüilidade encontrada nas várzeas, acentuada por morros de altura enganosa, decorrência da vasta extensão das terras, quebrada, de imediato, pelas antíteses do que viam, demonstra que o meio exterior, detalhado pelo narrador, funciona como uma   espécie de refletor, que incidirá sobre o exterior e o interior do homem, amálgama dessa terra, sempre igual e diferente de si mesma.   &lt;br /&gt;          Ao definir a vida como a acomodação contínua das relações internas às relações externas, Herbert Spencer (1880, 96) nos fornece elementos para analisar a preocupação do narrador com o clima, à medida que ele conformará o estado de sequidão inerente ao sertanejo e interferirá no desempenho das tropas do governo, formadas por homens não integrados ao meio. Se as temperaturas elevadas durante o dia e, baixas, à noite, revelam a inteireza das peculiaridades por que a vida tem de passar para medrar naquelas caatingas, a descrição dos corpos insepultos além de funcionar como índice dos acontecimentos a serem narrados na terceira parte, obedece a um preceito positivista, ressaltado pelo autor de Principes de biologie (1880, 97) e confirmado no momento da luta: (...) as estruturas do organismo adulto que, sob a influência de uma mudança de clima, de uma mudança de ocupação, de uma mudança de alimentação, produz lentamente certo rearranjo na balança orgânica, devem paralelamente ser olhadas como acomodações contínuas entre relações internas e externas.&lt;br /&gt;          O discurso dessa primeira parte do romance, dominado pelo espírito científico, torna-se também literário, uma vez que suas informações são imprescindíveis ao entendimento da interação homem-natureza que se operará na terceira parte. Se o solo e o clima interferem nas conformações interna e externa do homem, também a seca e as caatingas constituem-se antagonistas e aliados do sertanejo, em que se realiza a interação do interior com o exterior, a ponto de se processar uma simbiose com a natureza, o seu meio. A descrição das caatingas como que materializa nossa interpretação, pois, a despeito de inóspita, é aliada do sertanejo e imensamente agressiva a quem lhe é estranho, como o vemos neste índice narrativo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Então, a travessia das veredas sertanejas é mais exaustiva que a de uma estepe nua.&lt;br /&gt;                   Nesta, ao menos, o viajante tem o desafogo de um horizonte largo e a perspectiva das planuras francas.&lt;br /&gt;                   Ao passo que a caatinga o afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o; enlaça-o na trama espinescente e não o atrai; repulsa-o com as folhas urticantes, com o espinho, com os gravetos estalados em lanças; e desdobra-se-lhe na frente léguas e léguas, imutável no aspecto desolado; árvores sem folhas de galhos estorcidos e secos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço e ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora agonizante... (1940, 37-38).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          O meio, definido por Spencer (1880, 103), como todo espaço ambiente com as coexistências e seqüências que lhe são contínuas, marcará personagens, como Pajeú, uma espécie de homem sertão, homem natureza, a ponto de podermos dizer que, nele, o exterior se sobrepõe ao interior. A descrição que dele faz o narrador, como veremos, realmente estabelece uma simbiose entre ele e o sertão, ou os sertões, tal como o vemos ao defini-los, quando se dedicar às caatingas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Ajusta-se sobre os sertões o cautério das secas; esterilizam-se os ares urentes; empedra-se o chão, gretando,  recrestado; ruge o Nordeste nos ermos; e, como um cilício dilacerador, a caatinga estende sobre a terra as ramagens de espinhos... (1940, 39).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Se Spencer direciona o pensamento euclideano na descrição do meio, Claude Bernard lhe oferece as bases imprescindíveis à experiência e ao determinismo por ele operado nos indivíduos e na sucessão dos acontecimentos. Assim, ao falar do homem, situa-o em seu meio, pois ele determinará os tipos humanos que habitam cada região do Brasil, notadamente a de Canudos. Assim, ao descrever a paisagem, composta por formações rochosas e pela caatinga, em que os fatos relativos á luta acontecerão, processa-se uma verdadeira simbiose entre homem e natureza, uma vez que ela se torna aliada do homem, como podemos ver neste momento em que o narrador revela a sensação do meio, como se também fosse atingido por ele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   (...) as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em luta. entram também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. trançam-se, impenetráveis, ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multivias, para o matuto que ali nasceu e cresceu. (1963, 23)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          No momento em que os acontecimentos e, notadamente, o homem sertanejo se  conjugam de forma intrínseca ao meio, na terceira parte do romance, verificamos que, segundo a concepção do romance, rastreando os conceitos positivistas de Taine, nada pode ser dispensado em sua estrutura. Uma leitura apenas de A luta não traduz toda a força filosófica que perpassa a narrativa e, sob certo sentido, a justiça, como bem o demonstra o trecho acima. O mesmo procedimento se aplica à segunda parte, quando o narrador se atém às características do homem que habita aquele meio, porquanto as idéias positivistas de Spencer, Taine, Darwin e Comte as sustentam em sua totalidade.           &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         2 – O HOMEM&lt;br /&gt;        &lt;br /&gt;                À caracterização do homem sertanejo, ou jagunço, temos a impressão inicial de que o narrador está elaborando um tratado de história antropológica da formação do homem brasileiro. Entanto, se buscarmos a razões de Euclides de Cunha ater-se a um discurso eminentemente científico, encontramo-la já na Introdução de Histoire de la littérature anglaise, de Taine (1866, IV), quando ele intitula o item I: Os documentos históricos não são senão índices por meio dos quais é preciso reconstituir o individuo visível. Ora, como se trata de um romance histórico-científico-ficcional, elaborado segundo uma filosofia que lhe direciona o pensamento e, em decorrência, a estrutura, as referências a estudiosos do meio, da raça, da história, são imprescindíveis ao determinismo que envolve as personagens e os acontecimentos.&lt;br /&gt;         O homem de Os sertões, restrito à região em que os fatos acontecem, é definido como sub-raça, em clara influência do pensamento de Taine (1866, XXV), quando afirma que um clima e uma situação diferentes conduzem a necessidades diferentes; por outro lado, a um sistema de ações diferentes, por outro lado ainda, a um sistema de hábitos diferentes, por outro lado, enfim, a um sistema de atitudes e de instintos diferentes. A seqüência de gerações necessárias para se chagar ao jagunço, a partir de emigrantes paulistas, influenciadas pelo meio, como o próprio narrador o reconhece, encontra eco no pensamento do autor de A filosofia da arte; mas também no pensamento de Spencer e, notadamente, de Claude Bernard, uma vez que meio e determinismo se conjugam:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raça forte e antiga, de caracteres definidos e imutáveis mesmo nas maiores crises – quando a roupa de couro do vaqueiro se faz a armadura flexível do jagunço – oriunda de elementos convergentes de todos os pontos, porém diversos das demais deste país, ela é inegavelmente um exemplo de quanto importam as reações do meio. (1940, 100)&lt;br /&gt;         &lt;br /&gt;         A contraposição entre os traços físicos de resultantes étnicos idênticos habitando o litoral e o sertão demonstra a aplicação dos preceitos positivistas à determinação da raça e dos nortes filosóficos por que pauta a narrativa. A ação do meio, entendido como terra, notadamente a região de Vasa-Barris, opera o chamado determinismo que, segundo Claude Bernard (1865, 166), exige que os fatos sejam comparativamente determinados, como o faz o narrador ao contrapor, mediante a observação, os dois tipos de mestiços, o do sertão e o do litoral:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...) hoje, quem atravessa aqueles lugares observa uma uniformidade notável entre os que os povoam: feições e estaturas variando ligeiramente em torno de um modelo único, dando a impressão de um tipo antropológico invariável, logo ao primeiro lance de vistas distinto do mestiço proteiforme do litoral. Porque enquanto este patenteia todos os cambiantes da cor e se erige ainda indefinido, segundo o predomínio invariável dos seus agentes formadores, o homem do sertão parece feito por um molde único, revelando quase os mesmos caracteres físicos, a mesma tez, variando brevemente do mameluco bronzeado ao cafuz trigueiro;cabelo corredio e duro ou levemente ondeado; a mesma envergadura atlética, e os mesmos caracteres morais traduzindo-se nas mesmas superstições, nos mesmo vícios, e nas mesmas virtudes.&lt;br /&gt;A uniformidade, sob estes vários aspectos, é impressionadora. O sertanejo do norte é, ligeiramente, o tipo de uma subcategoria étnica já constituída. (1940, 107-108).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Embora consideradas excrescências dentro do romance por críticos, como Afrânio Coutinho, as ponderações do narrador sobre as diferenças que se estabelecem entre os tipos de mestiços são respaldadas, principalmente, pelos dois cientistas do positivismo, Bernard e Spencer. Não sem motivo, uma afirmação do autor de Principes de biologie (1880, 501) atribui estas mudanças ao meio, mais especificamente, à terra: O poder que as ações geológicas possuem de modificar em todos os lugares as circunstâncias nas quais os vegetais e os animais são colocados, é evidente. &lt;br /&gt;         Logo após o texto citado, o narrador euclideano abre parêntese singular na narrativa, a fim de emitir parecer essencialmente positivista sobre a evolução das raças. Certamente, a condenação da miscigenação, tal como ocorreu no Brasil, encontra respaldo nas idéias que Taine emitiu em sua excelente Histoire de la littérature anglaise (1866, XXVI), quando diz que a cada momento pode-se considerar o caráter de um povo como o resumo de todas suas ações de todas as suas sensações precedentes, quer dizer como uma quantidade e como um peso, não infinito, pois que toda coisa na natureza é limitada, mas desproporcional ao resto e quase impossível de se erguer, pois cada minuto de um passado quase infinito tem contribuído para pesar, e que, por elevar a balança, necessitará acumular em outro plano um número de ações e de sensações ainda maiores. Ora, segundo se depreende do pensamento do narrador, o caráter do povo brasileiro não pode ser considerado um resumo de todas as ações, por se tratar de um povo multirracial:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mistura de raças mui diversas e, na maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo, ainda quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior, despontam vivíssimos estigmas da inferior. A mestiçagem extremada é um retrocesso. O indo-europeu, o negro e o brasílio-guarani ou o tapuia, exprimem estádios evolutivos que se fronteiam, e o cruzamento, sobre obliterar as qualidades preeminentes do primeiro, é um estimulante à revivescência dos atributos primitivos dos últimos. De sorte que o mestiço – traço de união entre as raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares – é, quase sempre, um desequilibrado. Foville compara-os, de um modo geral, aos histéricos. Mas o desequilíbrio nervoso em tal caso é incurável: não há terapêutica para este embater de tendências antagonistas de raças repentinamente aproximadas, fundidas num organismo isolado. (1940, 108).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Todo o item a que denominou Um parêntese irritante constitui uma espécie de monólogo interior, em que o narrador abandona a seqüência narrativa e discorre sobre o que pensa da formação do mestiço. O discurso, entretanto, não perde sua característica estético-científica, porquanto as considerações antropológico-filosóficas reveladas pelo narrador constituem o principal índice que norteará o determinismo na definição do caráter das personagens e no desenrolar dos fatos na terceira parte.  &lt;br /&gt;         As circunstâncias típicas do meio irão criar inclusive uma religião mestiça, resultante da inter-credulidade, detalhada pelo narrador, uma vez que os seguidores do Conselheiro, consoante a visão positivista de Euclides, será determinante do messianismo desenvolvido em Canudos. A religiosidade, sob a ótica de Taine (1866, XLIII), decorre de necessidades metafísicas e de condições relacionadas à raça, ao meio e ao momento, pois Tudo que desenvolve a credulidade, ao mesmo tempo que as visões poéticas de conjunto, engendra a religião. É assim que as coisas chegaram, é assim que elas chegarão ainda. Sitot que sabemos qual é a condição suficiente e necessária de uma destas vastas aparições, nosso espírito tem a ver mais com o futuro que com o passado. Podemos dizer com segurança que naquelas circunstâncias ela deverá renascer, prever sem temeridade várias partes de sua história próxima, e esquisser com precaução quaisquer traços de seu desenvolvimento ulterior. Sem o radicalismo de Comte, Euclides, com registra uma visão sincrética das religiões:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insulado deste modo no país, que o não conhece, em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária, nômade ou mal fixo à terra, o sertanejo não tem, por bem dizer, ainda capacidade orgânica para se afeiçoar à situação mais alta.&lt;br /&gt;O circuito estreito da atividade remorou-lhe o aperfeiçoamento físico. Está na fase religiosa de um monoteísmo incompreendido, eivado de misticismo extravagante, em que se rebate o fetichismo do índio e do africano. É o homem primitivo audacioso e forte, mas ao mesmo tempo crédulo, deixando-se facilmente arrebatar pelas superstições mais absurdas. Uma análise destas revelaria a fusão de estádios emocionais distintos.&lt;br /&gt;A sua religião é como ele – mestiça. (1940, 139)&lt;br /&gt;                           &lt;br /&gt;         A fusão do homem com o meio, ao propiciar o surgimento de uma religião mestiça, torna-o presa fácil de crendices e de imaginários em uma terra em que se necessita de lenitivos às agruras do viver. Por isso, ao caracterizar o Conselheiro, mostra, antes, aspectos que determinam transformações no seu temperamento, em seu modo de ser, advindos notadamente das frustrações ocorridas na juventude. Além disso, aliam-se ao meio os atavismos da raça, a ponto de o narrador defini-lo, na esteira de Darwin (2009, 428-429), como uma subespécie,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apareceu como integração de caracteres diferenciais – vagos, indecisos, mal percebidos quando dispersos na multidão, mas enérgicos e definidos, quando resumidos numa individualidade. (1940, 149)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Como resultado, seus caracteres são descritos de forma a carregar todas as marcas do homem primitivo,  atendendo à noção de atavismo proposta por Spencer (1880, 305-306), quando afirma que O atavismo é o nome que se dá ao retorno aos traços ancestrais, provado por fatos numerosos e variados. Nas galerias de quadros de velhas famílias, e sobre mesas de bronze monumentais conservadas em igrejas vizinhas, vemos freqüentemente tipos de fisionomia que, de tempos em tempos, se repetem nos membros destas famílias. Todo mundo pode perceber que certas doenças constitucionais, como gota ou a loucura, após haver desaparecido em uma geração, se mostra na seguinte.&lt;br /&gt;         Verificamos que estas observações de Spencer se quadram perfeitamente às descrições que Euclides faz do Conselheiro, que se torna messiânico, sob a ótica dos sertanejos, e diabólico, sob a perspectiva do governo e das forças armadas, derrotadas por não conhecerem o meio e as circunstâncias de se ser sertão e de se ser primitivo, consoante a visão positivista.            &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         3 – A LUTA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         O evolucionismo constitui um dos caracteres do positivismo e uma das linhas mestras do pensamento que conduziram alguns ficcionistas brasileiros de final do século XIX e início do XX. Euclides da Cunha figura, sem sombra de dúvida, como os caudatários deste sistema que procurou eliminar a metafísica da filosofia, substituída pelo empirismo cientifico. Se na primeira parte de Os sertões, a ciência se torna imprescindível à perfeita descrição de pormenores relativos à terra em que a história real e fictícia irá se desenrolar, a segunda, decorrência da visão antropológica de Euclides da Cunha, também será marcada por aspectos científicos ligados, sobretudo, ao homem, ator e personagem real e imaginário desta obra de ficção que também é registro e relato históricos. &lt;br /&gt;                Assim, o narrador de Os sertões, ao descrever as personagens, notadamente os jagunços, adota postura essencial do pensamento de Comte, à medida que as descreve como seres primitivos, que carregam instintos que as fazem inferiores aos animais. Ora, Comte (1983, 5), em seu Curso de filosofia positiva, recrimina exatamente as idéias exageradas da importância do homem no universo, que a filosofia teológica faz nascer e que a primeira influência da filosofia positiva destrói para sempre. Pajeú, uma das personagens que comandará os seguidores de Conselheiro, antes de ser um nome de pessoa, é nome de rio e de planta. Mas, sobretudo, ele é nome de sertão e, por isso, carrega todas as características de um ser primitivo, quase um antropóide, descrito segundo os princípios da filosofia positivista, como observamos na passagem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capitaneava-os, agora, um mestiço de bravura inexcedível e ferocidade rara, Pajeú. Legítimo cafuz, no seu temperamento impulsivo acolchetavam-se todas as tendências das raças inferiores que o formavam. Era o tipo completo do lutador primitivo – ingênuo, feroz e destemeroso – simples e mau, brutal e infantil, valente por instinto, herói sem o saber – um belo caso de retroatividade atávica, forma retardatária de troglodita sanhudo aprumando-se ali com o mesmo arrojo com que, nas velhas idades, vibrava o machado de sílex à porta das cavernas... (59-60).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         A interação entre raça e meio, concebida por Taine (1944, 309-310), como forma de determinismo, de perpetuidade dos caracteres hereditários, é materializada não somente pela dualidade de comportamento de Pajeú; mas, sobretudo, pela descrição da personagem como um belo caso de retroatividade atávica, demonstrando que o ser, além de não haver se transformado mediante as gerações, ainda passou por um retrocesso nos elementos determinantes da raça. A reiteração semântica do caráter involutivo, mediante uma linguagem dura, concreta, conformadora da personagem — forma retardatária de troglodita sanhudo aprumando-se ali com o mesmo arrojo com que, nas velhas idades, vibrava o machado de sílex à porta das cavernas — como um ser pouco ou nada diferente do pitecantropo. A personagem Pajeú, ao contrário das pessoas que se desenvolvem ou mantêm o seu modo ser, mesmo mudando-se para um meio primitivo, como Taine o expõe, ao referir-se aos franceses e ingleses, conserva-se em estado troglodita, determinado pelas circunstâncias de se ser e de se estar em sertão, pois, conforme o afirma em sua Filosofia del arte (1944, 309), quando um ser primitivo se encontra entregue às mãos da natureza, esta o envolve, transforma-o, modela-o; e a argila moral, porém branda e flexível, conforma-se e prega sob a pressão do meio físico que o circunda, e do qual não defende o seu passado.&lt;br /&gt;         O pensamento positivista guiará o narrador inclusive na descrição e narração que fará dos comandados de Pajeú e suas ações guerrilheiras em torno da expedição que pretendia derrotá-los. O meio e o homem se inteiram na paisagem, a ponta de comporem um todo sinistro, em que um não pode se desfazer do outro na conjunção de uma imagem morto-viva que se forma mediante a união do homem com a terra, como observamos neste excerto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma variante apenas: de bruços ou de supino sobre as pedras, desenlapando-se à boca das furnas, esparsos pelas encostas, viam-se os jagunços vitimados na véspera.&lt;br /&gt;Os companheiros sobreviventes passavam-lhes, agora, de permeio, parecendo uma turba vingadora de demônios entre caída multidão de espectros...&lt;br /&gt;Não arremetiam mais em chusma sobre a linha, desafiando as últimas granadas: flanqueavam-na, em correrias pelos altos, deixando que agisse, quase exclusiva, a sua arma formidável — a terra. (60).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         A identificação do sertanejo com a terra e da terra com o sertanejo é tamanha que se estabelece uma verdadeira união entre os dois, como aquela descrita por Claude Bernard entre o médico e a doença, a ponto de se determinarem as causas da vitória dos jagunços sobre as milícias. O curiboca que tivera a lazarina partida, ao olhar em volta, via a montanha como um arsenal de que se utilizaria para destroçar as tropas. O princípio positivista, entretanto, serve também para as tropas, como se procedesse a uma simbiose entre sertanejo e soldado, notadamente quando se encontram em situação em que o humano perde o seu status de ser superior e realiza ações semelhantes as que os animais praticam, como o ato de devorar a carne sapecada para matar três dias de fome:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...) uma hora depois, acocorados em torno a fogueiras, dilacerando carnes apenas sapecadas — andrajosos, imundos, repugnantes — agrupavam-se, tintos pelos clarões dos braseiros, os heróis infelizes, como um bando de canibais famulentos em repasto bárbaro... (62)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         O rebaixamento do humano, na seqüência do romance, interage, inclusive com o momento histórico e determina, inclusive, os defeitos do chefe da próxima expedição, que leva o nome de Moreira César. Os heróis euclideanos, ao contrário de Ulisses que, segundo Taine, mesmo no alvorecer da civilização grega, encerra todas as qualidades que o distinguem como herói — enganador, sutil e ardiloso —,  carregam sempre o estigma de anti-heróis. Inclusive Moreira César, bravo combatente da campanha federalista. Movido por circunstâncias históricas relativas ao governo republicano, o narrador, ao compará-lo com Jean Pierre Bayard, criado por Alfred Neumann, que lhe acresce as astúcias de Fra Diávolo, coloca-o em posição inferior ao servidor de Luís XI, como caracterização determinista do que lhe acontecerá durante a expedição:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moreira César estava longe da altitude do primeiro e mais longe ainda da depressão moral do último. Não seria, entretanto, imperdoável exagero considerá-lo misto reduzido de ambos. Alguma coisa de grande e incompleto, como se a evolução prodigiosa do predestinado parasse, antes da seleção final dos requisitos raros com que o aparelhara, precisamente na fase crítica em que ele fosse definir-se como herói ou como facínora. (72)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         A caracterização da personagem real-fictícia funciona, estruturalmente, como um índice; mas sustentado por uma postura cientificista que tem por fundamento o empirismo, uma vez que a narrativa ocorre depois de os acontecimentos haverem transcorrido. Em decorrência, o lado temperamental de Moreira César descrito pelo narrador, mesmo que tenha ocorrido a participação do imaginário e do imaginado, se dá mediante os olhos da experiência, da observação a posteriori das ações anteriores e posteriores à expedição. Portanto, aquele lado prático, exposto por Comte (1983, 102-103), guia a conduta narrativa, seja para expor a psicologia racional da personagem, seja para expor o desencadeamento dos fatos. A seqüência do excerto anterior é fulcral para o entendimento da filosofia que caminha paralela aos acontecimentos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, era um desequilibrado. Em sua alma a extrema dedicação esvaia-se no extremo ódio, a calma soberana em desabrimentos repentinos e a bravura cavalheiresca na barbaridade revoltante.&lt;br /&gt;Tinha o temperamento desigual e bizarro de um epiléptico provado, encobrindo a instabilidade nervosa de doente grave em placidez enganadora. (72)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         O espírito positivista revela sua intensidade na concepção de que as variações comportamentais de Moreira César possuem uma causa biológica, resultante da epilepsia de que era vítima, considerada pelo narrador como uma fatalidade biológica. Esta fatalidade biológica e suas conseqüências físicas e psíquicas são descritas com pormenores científicos que nos levam a questionar, inclusive, o caráter ficcional do romance que se mostra demasiado tênue em momentos vários da narrativa. Todavia, a fusão do real com o imaginário segue a concepção de arte positivista, uma vez que Taine (1939, 7) afirma claramente que a arte tem por fim manifestar algum caráter essencial ou notável, mais completa e claramente do que o fazem os objetos reais. Assim entendido, o artista, ao revelar as manifestações típicas da epilepsia, o faz a partir da idéia deste caráter, e, de acordo com sua idéia, transforma o objeto real: este objeto assim transformado se acha concorde com a idéia, noutros termos, ideal. O que faz o narrador ao discorrer sobre a doença e suas manifestações na personagem histórico-ficcional Moreira César?:  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realmente, a epilepsia alimenta-se de paixões; avoluma-se no próprio expandir das emoções subitâneas e fortes; mas, quando, ainda larvada, ou traduzindo-se em uma alienação apenas afetiva, solapa surdamente as consciências, parece ter na livre manifestação daquelas um derivativo salvador atenuando os seus efeitos. De sorte que, sem exagero de frase, se pode dizer que há muitas vezes num crime, ou num lance raro de heroísmo, o equivalente mecânico de um ataque. Contido o braço homicida, ou imobilizado, de chofre, o herói no arremesso glorioso, o doente pode surgir, ex-abrupto, sucumbindo ao acesso. (75)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A atenção científico-ficcional dispensada pelo narrador à doença e suas conseqüências faz da personagem um ser misto de história e ficção, à medida que a narrativa se erige sobre três discursos distintos: o discurso da ficção, o discurso da ciência e o discurso da história. Esta consciência de estar também fazendo história não elimina, segundo a filosofia positivista, o caráter intrínseco à obra de arte; antes, torna-o singular, porque denso de informações, pois, na concepção de Comte (1983, 97), a ciência final, ainda mais do que cada uma das ciências preliminares, não pode desenvolver seu verdadeiro caráter sem uma exata harmonia geral com a arte correspondente. A consciência de estar fazendo arte, ciência e história é verificada no fecho das considerações sobre a epilepsia, momento em que, de forma metalingüística, suas idéias se conjugam à missão fundamental do positivismo: generalizar a ciência real e sistematizar a arte social, como bem o define Auguste Comte (1983, 98). O excerto que prepara o leitor para adentrar aos acontecimentos relativos à Primeira expedição regular, comandada por Moreira César, conforma-se a nossa interpretação do pensamento positivista eucludeseano:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabe à sociedade, nessa ocasião, dar-lhe a camisa de força ou a púrpura. Porque o principio geral da relatividade abrange as mesmas paixões coletivas. Se um grande homem pode impor-se a um grande povo pela influência deslumbradora do gênio, os degenerados perigosos fascinam com igual vigor as multidões.&lt;br /&gt;Ora, entre nós, se exercitava o domínio do “caput mortuum” das sociedades. Despontavam, efêmeras individualidades singulares; e entre elas o coronel César destacava-se em relevo forte,como se a niilidade do seu passado salientasse melhor a energia feroz que desdobrara nos últimos tempos.&lt;br /&gt;É cedo ainda para que se lhe defina a altitude relativa e a depressão do meio em que surgiu. Na apreciação dos fatos o tempo substitui o espaço para a focalização das imagens: o historiador precisa de certo afastamento dos quadros que contempla. (76)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, fica claro, para nós, que o discurso da literatura é, segundo o ideário positivista, também o discurso da ciência e da história, encerrados na figura histórico-ficcional de Moreira César.&lt;br /&gt;                   A caracterização das personagens no meio e no momento histórico ocorre, no romance, como parte integrante de A luta. Todavia, preferimos analisar aspectos relacionados à personalidade e ao temperamento de determinadas personagens, notadamente Moreira César, porque eles constituem, consoante a concepção filosófica e estética do positivismo, a razão dos desdobramentos tomadas pelas expedições e, sobretudo, da resistência dos sertanejos, reconhecidamente inferiores em aparatos bélicos. A expedição que apresentava todas as condições de desbaratar Canudos iniciou, entretanto, com as manifestações da doença de que o comandante era acometido. Guiado pelo ideário determinista de Claude Bernard (1965, 7) ao afirmar que, Se um fenômeno natural é dado, nunca um experimentador poderá postular que haja uma variação na expressão do fenômeno sem que, ao mesmo tempo, tenham sobrevindo condições novas na sua manifestação. Além disso, ele tem a certeza, a priori, de que essas variações são determinadas por relações rigorosas e matemáticas. Ora, aplicado este princípio ao comandante das tropas, verificamos que, além de outros determinantes, a epilepsia se transforma em uma das razões do desastre e do embotamento relativo às tomadas de decisões e às estratégias a serem empregadas no combate aos sertanejos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegara, porém, mal auspiciada. Um dia antes a inervação doentia do comandante explodira numa convulsão epileptiforme, em plena estrada, antes do sítio de “Quirinquinquá”; e fora de caráter tal que os cinco médicos do corpo de saúde previram uma reprodução de lastimáveis conseqüências. Os principais chefes de corpos, porém, bem que cientes de um diagnóstico, que implicava seriamente a firmeza e as responsabilidades do comando geral ante as condições severas da luta, forraram-se, cautelosos, e tímidos, à menor deliberação a respeito.&lt;br /&gt;O coronel Moreira César abeirava-se do objetivo da campanha condenado pelos próprios médicos que comandava. (1963, 77).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         A situação por que passava o comandante das tropas do governo instalou, mesmo que de forma sutil, certa desconfiança nos chefes comandados, contrariando um dos princípios básicos do positivismo, tal como o colocara Herbert Spencer (s.d., 163),   quando afirma que a preservação da vida social exige, sob determinado conjunto de condições, a extrema subordinação a um chefe e a mais completa confiança nele, estabelecer-se-á a doutrina de que a subordinação e a confiança são úteis e mesmo obrigatórias. Todavia, esta desconfiança com relação aos chefes também produz fugas no meio dos sertanejos, como que a estabelecer um equilíbrio entre as forças: uma, avultada pelo número de combatentes; a outra, pelo poderio das armas. Toca-nos a fidelidade à ideologia filosófica que perpassa a narrativa. &lt;br /&gt;         A epilepsia não é apenas a doença de Moreira Cesar, é a doença sobre que Spencer (1880, 305) emitiu parecer que se quadra à personagem e aos acontecimentos de Os sertões, quando ele afirma que (...) as ações nervosas religadas parecem que constituem um acesso, produzem no sistema nervoso mudanças de estrutura, que as ações nervosas da mesma espécie religada parecem que vem após, seguem-se com uma facilidade que vai aumentando. O fato de a hereditariedade deste hábito epiléptico prova de uma maneira concludente que modificações de estrutura produzidas pelas modificações de função, são impressas sobre o organismo inteiro de maneira a afetar os centros reprodutivos, e a fazer que eles se desenvolvam em organismos que apresentam as mesmas modificações.&lt;br /&gt;        &lt;br /&gt;         Observando o insucesso dessa expedição, marcada pela morte de Moreira César a que se seguiram desfechos semelhantes, como os do Capitão Salomão e do Coronel Tamarindo, podemos afirmar que realmente a epilepsia, segundo o pensamento de Spenser, contribuíra para que se operassem transformações também nos comandados, estendendo-se o conceito de organismo à tropa. Assim, além da interferência do meio a favor dos jagunços, também o determinismo biológico irá coadjuvá-los na empreita contra o poderio das armas.      &lt;br /&gt;         Se a doença constitui o primeiro determinante dos revezes que estavam por vir, a sintonia entre o sertanejo e a terra, o meio, revela o lado primitivo dos jagunços; mas, ao mesmo tempo, uma espécie de simbiose com a natureza avoenga, que os protegeria contra o poder de quem nada tinha a ver com aquela terra. Observamos que, aliada ao meio, ou determinada por ele, aquela experiência responsável pela revelação dos limites, segundo o positivismo de Taine (1864. 51), levou os sertanejos a prepararem-se segundo os meios de que dispunham e, posteriormente, a deserção verificada entre eles. Verificamos, assim, que até estas ações desencadeadas no romance estão sustentadas pelas concepções positivistas relativas à experiência: A experiência limita a carreira que nos abre; dá-nos nosso fim; também nos dá nossos limites. Não o fosse, e os soldados conheceriam técnicas de guerrilhas para lutar nos becos entre os casebres e, sobretudo, certificarem-se de que não poderiam se retirar da luta na forma como foi feita.&lt;br /&gt;         A quarta expedição será dirigida por uma nova ideologia positivista, o momento histórico, predominantemente marcado pelas idéias da nascente República, pretexto para se justificar o empenho de todos os estados para debelar aquele “foco monarquista” que se formava na Bahia. Os aspectos políticos relatados pelo narrador, em um misto de ironia e de seriedade, seguem o princípio proposto por Taine (1866, XXIX) ao dizer que Quando o caráter nacional e as circunstâncias circundantes operam, não operam sobre uma tábua rasa; mas sobre uma tábua onde as impressões estão já marcadas. Ora, o episódio de Canudos constituía esta tábua onde as impressões dos republicanos estavam mais marcadas. Valeram-se dele para mover a população e as forças armadas para destruir aquela aparente resistência à República e até para criarem heróis que, na verdade, nunca existiram, uma vez que a derrota da terceira expedição fora a própria matéria da discordância entre homem e meio.&lt;br /&gt;         A quarta expedição, a despeito de numerosa, sob o comando de vários generais, alguns experientes, não logrou êxito imediato exatamente pela falta de sintonia dos soldados, graduados ou não, com o meio. Quando tentaram utilizar alimentos próprios da região, muitos encontraram até a morte, por desconhecerem os tubérculos típicos e seus efeitos sobre o organismo, como o vemos neste excerto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como os retirantes infelizes, os soldados apelaram para a flora providencial. Cavavam os umbuzeiros em roda, arrancando-lhes os tubérculos túmidos; catavam cocos dos ouricuris, ou talhavam os caules moles dos mandacarus, alimentando-se de cactos que a um tempo lhes disfarçavam ou iludiam a fome e a sede. Nãos lhes bastava, porém, este recurso, que para os mais inexpertos mesmo era perigoso. Alguns morreram envenenados pela mandioca brava e outras raízes, que não conheciam. (1963, 197)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os episódios relacionados à quarta expedição, a despeito da vitória das forças do governo, mostram que o romance inteiro se erige sobre o pensamento positivista, notadamente as noções de raça, meio e momento histórico definidas por Taine na Introdução de sua Histoire de la litérature anglaiese, como mostramos em diversas passagens deste artigo. Cremos que, embora tenhamos provado o que os críticos já afirmaram, este artigo oferece ao leitor elementos pouco acessíveis, como se pode verificar pela bibliografia, necessários à afirmação exata do que a crítica literária entende por positivismo. Ao tempo em que se mostra que o romance Os sertões se apega à história, sem ser inteiramente história, à medida que a narrativa segue um plano determinado, uma vez que as partes por que se divide são coesas e complementares. Tanto é verdade que os insucessos da quarta expedição não seriam entendidos se não houvesse toda aquela explanação sobre a terra e o homem, que mostra, como que com o dedo, a interação do sertanejo com o sertão, a ponto de se confundirem nos momentos mais cruciais da luta. Portanto, quem diz que o romance devesse se resumir à terceira parte não deve ter percebido a coesão existente entre o pensamento positivista e a estruturação da narrativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                               Refúgio do Poeta, 9 de dezembro de 2009.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;BIBLIOGRAFIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BERNARD, Claude. Introduction à l’étude de la médicine experimentale. Paris: Delagrave, 1865.&lt;br /&gt;BÜCHNER, Luiz. Força e matéria. Porto: Livraria Geardron, 1911.&lt;br /&gt;COMTE, Auguste. Sistème de politique positive. Paris: Librairie Positiviste, 1912. 4 v.&lt;br /&gt;COMTE, Auguste. Catecismo positivista. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil, 1894.&lt;br /&gt;COMTE, Auguste. Importância da filosofia positiva. Lisboa: Inquérito, 1939.&lt;br /&gt;COMTE, Auguste. Problemas sociais, sua solução positiva. Rio de Janeiro: Emiel, 1940.&lt;br /&gt;COMTE, Auguste. Curso de filosofia positiva. Discurso sobre o espírito positivo. Discurso sobre o conjunto do positivismo. Os pensadores. São Paulo: Victor Civita, 1983.&lt;br /&gt;CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Porto: Lelo&amp;amp;Irmão, 1923.&lt;br /&gt;CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1940.&lt;br /&gt;CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1963. 2 v.&lt;br /&gt;DARWIM, Charles. A origem das espécies. São Paulo: Escala, 2009.&lt;br /&gt;KOLLMANN, Max. La biologie. Paris: Albin Michel, [s.d.]&lt;br /&gt;LAHR, P. Ch. Cours de philosophie. Paris: Gabriel Beauchesne 1916. 2 v.&lt;br /&gt;MOURA, Clóvis. Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.&lt;br /&gt;SPENCER, Herbert. O indivíduo contra o estado. São Paulo: Publicações Brasil, [s.d.]&lt;br /&gt;SPENCER, Herbert. Principes de biologie. Paris: Livrairie Germer Baillière, 1880.&lt;br /&gt;SPENCER, Herbert. Do progresso, sua lei e sua causa. 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México: Editorial Nueva España, 1944.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-4155514106852623578?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/4155514106852623578/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/06/o-positivismo-em-os-sertoes-resumo-este.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4155514106852623578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4155514106852623578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/06/o-positivismo-em-os-sertoes-resumo-este.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-5931391349105087648</id><published>2010-06-08T17:56:00.000-07:00</published><updated>2010-06-08T17:58:07.758-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;TRÂNSITO I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cidadão eleito para administrar a cidade, o estado ou a nação, deve direcionar suas ações e atos administrativos no presente; porém com os olhos inteiramente voltados para o futuro. Administra-se o agora, não para ontem, como se vê em quase todas as práticas políticas nestes brasis. Para se construir o futuro é necessário que se tenha conhecimento e experiência do passado. Se não se encontrar a prática do tempo vindouro no próprio país, tem-se de buscá-la em outras regiões, em outras nações, notadamente as desenvolvidas. A visão tacanha de que se não está em nível de desenvolvimento é um dos principais empecilhos para se desenvolver.&lt;br /&gt;Na década de sessenta, estava em Curitiba, e pude presenciar o início da preparação da cidade para o século XXI, mediante a construção de viadutos, alargamento das vias que demandavam e que demandariam mais movimento, melhoria do sistema de transporte coletivo, criação de parques e jardins, início das ciclovias etc. Essa era a administração Ivo Arzua. Nas décadas de setenta, oitenta e noventa, vieram as administrações de Jaime Lerner e de outros que se pautaram pela visão futurista lerneriana. Houve continuidade de projetos governistas e, não, aquela atitude canhestra de repudiar o que o prefeito anterior fez. O resultado é a Curitiba de primeiro mundo que todos os prefeitos destes brasis deveriam conhecer para aprender, aplicar e praticar em suas cidades.&lt;br /&gt;Em 1983, vim para Goiânia. Era uma cidade de largas avenidas que se foram entupindo de rótulas, de cruzamentos e, sobretudo, entupindo-se de carros. E nada de obras que a preparassem para o século XXI. Ultimamente, alguns viadutos. Um, inteiramente inútil, obra míope de uma administração inteiramente constituída de cataratas, de uma visão embaçada do tempo. Basta passar pela Independência para averiguar. Os outros, necessários; mas inteiramente insuficientes. Alguns políticos poderão dizer que é o começo. Claro, tudo tem de começar; só que são começos tardios, nascidos para o ontem. É o caso da marginal Botafogo; já se intoxica de carros em horários de pique. Por que já não se fizeram os necessários viadutos nos pontos que se tornariam críticos? Por que não pensaram em pistas mais largas? Já que se está gastando o suor do contribuinte, que se gaste bem? Por que não se lançaram os focos da administração para os séculos? Os administradores têm de abandonar seus discursinhos de superfície e mergulharem nas profundezas do conhecimento, desde Aristóteles, notadamente a ética, a política e a administração, para realmente enxergarem o fundo do tempo. Sim! Talvez até antes! Por que não desde Hesíodo, com o seu “Trabalho e os dias”? Ou desde os faraós, com suas pirâmides? Não se constrói o futuro sem se saber o passado. Os computadores, ao contrário do que imaginam, não têm tudo? Se não houver quem recrie a ciência no tempo e a anexe à máquina, ela nada produzirá.&lt;br /&gt;Mas, hoje, apenas três aspectos urgentes! Primeiro, uma cidade tem de atender às necessidades de seus habitantes; proporcionar-lhes, na medida do possível, as melhores condições de vida. Em uma metrópole empanturrada de veículos, é imprescindível que haja estacionamentos rotativos em frente às farmácias, aos hospitais... Urge que se criem horários para o trânsito de veículos pesados pelo centro. Não se concebe que, a qualquer hora, caminhões estejam carregando ou descarregando em qualquer ponto da capital.&lt;br /&gt;         Goiânia é uma cidade jovem, governada por um prefeito novo que poderá iniciar administrações futuristas, após as ações paliativas que estão sendo executadas no momento. Sinaleiros em vias várias da capital são ações emergenciais; mas é necessário que a administração municipal tome atitudes corajosas que apaguem a péssima administração petista anterior e realmente apontem rumos futuros para Goiânia. Para começar, viadutos ou trincheiras, dependendo das conformações do solo, nos pontos mais cruciais da cidade. E são muitos! Mas que sejam obras do presente com um zoom que atinja, pelo menos, a estrela mais próxima da terra. Vai gastar, vai custar caro? Vai! Então, que se faça bem feito, para durar e, sobretudo, atender às necessidades do tempo. Essa palavra necessidade parece abstrata; mas é tão forte, que soa satisfação. Lembra-se daquela propaganda de final de ano feita por Geraldinho Nogueira?! Claro que se lembra! Não é sem motivo que Necessidade, na mitologia grega, era uma deusa tão cruel que era temida pelo próprio Zeus! Veja que droga aquele viaduto sobre a Marginal Botafogo, passagem do Setor Nova Vila para a Rodoviária! Tão novo e tão desatualizado! Sempre empanturrado! Por que o não pensaram, à época tão próxima, já duplicado? É preciso pensar grande e enxergar longe! “Éfeta!” “Veni Creator Spiritus, mentem Garciae visita!”     &lt;br /&gt;        &lt;br /&gt; Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 8-6-2010, p. 17.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-5931391349105087648?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/5931391349105087648/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/06/transito-i-o-cidadao-eleito-para.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/5931391349105087648'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/5931391349105087648'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/06/transito-i-o-cidadao-eleito-para.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-112104744912480244</id><published>2010-06-01T05:52:00.000-07:00</published><updated>2010-06-01T05:54:42.341-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;         O GRITO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Ângelo Bello leu a manchete – “Quase já se pode afirmar, que o Brasil é um país de classe média”. Arregalou bem os olhos e clicou, a fim de averiguar se não estava sonhando. A reportagem deixou-o intrigado, pois a realidade que ele conhece nada tem a ver com as afirmações oníricas do Ministro da Fazenda. Ligou, imediatamente, para o amigo e malungo de final do século XIX, Geraldino Carro:&lt;br /&gt;– Por acaso você já leu os jornais de hoje, compadre?&lt;br /&gt;         – Li e até posso adivinhar as razões de sua pergunta! Eu também fiquei estarrecido com a afirmação do Ministro. Acho que ele deveria ler a famosa história inventada por Mark Twain, O príncipe e o mendigo, pois me parece que ele é um príncipe que jamais saiu das dependências de seu castelo.&lt;br /&gt;         – O pior, compadre, é que, ao contrário de Edward, príncipe de Wales, ele não deseja conhecer o mundo exterior!&lt;br /&gt;         – Eh! Precisa sair, andar pelas periferias das cidades, pequenas e grandes, que ele encontrará muitos Tom Canty!&lt;br /&gt;         – Encontrará, mesmo com o engodo da bolsa família, que institucionalizou a preguiça no Brasil, muita gente passando fome e morando em casebres! Se ele andar pelas ruas das grandes cidades, então, certamente se assustará, ao se deparar com as contradições entre o mundo imaginado e o real. A quantidade de moradores de rua, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, bem próximo àquele hotel chique, que ele deve conhecer bem, sem dúvida jogará suas palavras impensadas por terra.&lt;br /&gt;         – E se ele permanecesse, pelo menos uma meia hora, em uma rodoviária, destas em que as pessoas se amontoam à espera da viagem? Quantas caras de fome, nunca vistas, o assombrariam? Ontem, mesmo, meu sobrinho me contou que teve de ir ao Shopping Araguaia, a suntuosa rodoviária de Goiânia – só o Shopping –, a fim de pegar a carteira de habilitação e, quando resolveu tomar uma água-de-coco, viu uma mulher desesperada pedindo à atendente do quiosque que lhe concedesse um pedaço de gelo, a fim de refrescar a água torneiral. Ela e o marido iriam para Gurupi e não tinham um centavo para se alimentar todo o dia e toda a noite. A mulher, coitada, carregava no rosto as conseqüências de um câncer uterino! Como que o príncipe saberá desta realidade cruel se viaja a brigadeiro de nossos impostos? Quando que estes miseráveis vão chegar a estar classe média? Ser, nem digo! &lt;br /&gt;         – Ele tem de andar a pé pela orla das praias de Recife! Verificará que, a cada dez metros, três pedintes, daqueles do soneto de Ronsard, estender-lhe-ão as mãos súplices por um centavo!&lt;br /&gt;         – Soneto de Ronsard!... Como que é isso, compadre?&lt;br /&gt;         – É um texto que retrata a existência de todos os humanos; mas, em especial, estes que carregam o não-ser na própria essência. Veja: “Eu tenho apenas ossos, um esqueleto — pareço,/Descarnado, denervado, desmusculado, depolpado,/que o traço da morte sem perdão golpeou,/não ouso ver os meus braços, senão de medo não tremo.//Apolo e os seus fios, dois grandes mestres soberanos,/não me saberiam curar, seu ofício me tem enganado;/Adeus, agradável Sol, o meu olho é tapado com estopa,/Meu corpo aqui vai descer onde tudo se desmonta.//Qual amigo me vendo neste ponto contado/não ganha acaso um olho triste e molhado,/que me consola à cama e que me beija a face,//Limpando os meus olhos pela morte adormecidos?/Adeus, caros companheiros, adeus, meus caros amigos,/Eu vou primeiro a preparar-vos o lugar.”&lt;br /&gt;         – Creio que ele realmente não conhece a cruel realidade dos mortos-vivos destes brasis! Também, para que conhecer? Há um Tom Canty que afirma tê-la conhecido e até vivenciado; mas, agora, que se tornou príncipe Mataiotes, chora lágrimas de crocodilo; apenas para enganar os trouxas e encantar-se com o próprio umbigo.&lt;br /&gt;         – Eh! Compadre, e se ele for almoçar em algum daqueles restaurantes de turistas da cidade de Natal, verá que, à calçada, homens desfigurados pelas dores do nada-ter fitam-no com os olhos da desgraça que lhes escorre pelas faces, como se fossem a personagem de O grito, de Edward Munch!&lt;br /&gt;         – Para que ele realmente pudesse ver a miséria chorando as sobras dos pratos fartos de bom gourmet, teria realmente de encarnar o Tom Canty!&lt;br /&gt;         – Sabe quando isso vai acontecer, compadre? Nunca! Para ele andar pelas ruas, teria de se mascarar mais do que se fazia no teatro, antigamente! Jamais deixará de ser Edward! O poder é uma cachaça da cabeça, um vício de que jamais se deseja libertar!&lt;br /&gt;         – Eh! Só nos resta rezar: Miserere nobis, Domine! – Tenha misericórdia de nós, Senhor! &lt;br /&gt;          &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 1º de junho de 2010, p. 6.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-112104744912480244?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/112104744912480244/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/06/o-grito-angelo-bello-leu-manchete-quase.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/112104744912480244'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/112104744912480244'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/06/o-grito-angelo-bello-leu-manchete-quase.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-8085941112830678359</id><published>2010-05-25T05:29:00.000-07:00</published><updated>2010-05-25T05:32:26.716-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;ul&gt;&lt;li&gt;&lt;div align="justify"&gt;         ESTARRECIMENTO II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                              &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Treze de maio, apesar de ser o dia de Nossa Senhora de Fátima, foi, para mim, estarrecimentos. Antes mesmo de adentrar ao aeroporto e sentir na alma o desprezo pelas artes que se fazem em Goiás, vivi uma nova faceta do maravilhoso Santa Genoveva. Maravilhoso, pelo nome da Santa padroeira de Paris e mãe do desprendido imortal, Altamiro de Moura Pacheco, que doou aquelas terras e, hoje, sequer recebe resposta da Infraero sobre a possibilidade de a Instituição contribuir para a preservação dos documentos que se encontram em Casa de Cultura que leva o seu nome. O nome confere essência à coisa nominada; mas não maravilha a matéria e, muito menos, a torna sublime. A ascensão do objeto ao belo, ao prático e ao funcional só acontece mediante a interferência artística ou nefasta do homem.&lt;br /&gt;         Infelizmente, em nosso aeroporto só encontramos o feio, o disfuncional. Deveria haver uma placa à sua entrada, como os franceses colocam diante das máquinas avariadas: “ne marche pas!” Basta-se dizer que, àquele dia, tive de estacionar na Avenida Sucuri, uma vez que não havia espaço algum disponível nos lugares possíveis à estada de um veículo. Ora, na qualidade de idoso e de cardiopata, não pude fazer valer os meus direitos, uma vez os locais reservados por lei estavam ocupados. Para maior estarrecimento, àquela hora da manhã já havia um exército de “multadores” à disposição da Infraero para punir quem ousasse parar fora do estacionamento pago, mesmo sem interferir no fluxo normal dos veículos que conseguiam chegar próximo aos terminais de embarque ou desembarque. O amigo a que fora buscar é bem mais idoso que eu, e tivemos que andar até a Avenida Sucuri, nome apropriado às circunstâncias a que fôramos obrigados a nos submeter. Só faltou sermos abraçados por uma!&lt;br /&gt;         Mas, nosso aeroporto não é deficiente apenas em cultura para os diversos tipos de turismo hoje praticados e em estacionamentos: os espaços para a permanência dos passageiros são exíguos. Não oferecem o mínimo de comodidade. As toaletes, imundas, colocam-se quase no nível daqueles banheiros construídos sobre fossas antigamente. Ora, qualquer residência, ou instituição, pode ser avaliada pela higiene desta dependência, imprescindível às nossas necessidades de animais humanos. Se elas estiverem sujas, malcheirosas, que dizer do resto, notadamente dos alimentos ali encontrados?&lt;br /&gt;         As salas de espera, apertadas, não dispõem de conforto algum. A maioria dos passageiros tem de ficar em pé, mesmo tendo passado dos sessenta, uma vez que, hoje, inexiste aquele princípio básico de educação que vinha do berço e era aperfeiçoada nas escolas. Que saudade daquele tempo, em que me levantava para oferecer o assento a um idoso, a um professor, a uma senhora grávida! Hoje, os mocinhos se assentam nas poltronas reservadas e se fingem dormindo, a fim de não serem incomodados por aquelas pessoas que conquistaram com a vida os direitos de serem velhos. Mas, se os sanitários exteriores são repugnantes, que dizer daqueles destinados unicamente aos passageiros? São asquerosos, nauseabundos!&lt;br /&gt;         Mais sórdidas, nauseantes, são as razões do desleixo, da vergonha por que passo a cada amigo ou parente que vou receber. À pergunta “por que uma cidade do porte de Goiânia, tão próxima da capital da República, não dispõe de um aeroporto à altura de sua importância econômica?”, sou obrigado a explicar que suas obras estão paralisadas há anos em decorrência do super faturamento, da corrupção desbragada que corrói todo o País, inclusive Goiás! Sou obrigado a ruborizar-me por causa da irresponsabilidade de nossos administradores, de nossos políticos, eleitos para governarem e, na verdade, desgovernam, pois, quando fazem, fazem para ontem, além de mal feito e, como acham que hiper é mais que super, hiper faturam.&lt;br /&gt;         E ainda sonham trazer algum jogo do ópio de 2014 para Goiânia! Não basta a humilhação que passamos com os brasileiros que desembarcam no Santa Genoveva?! Será que teremos de nos aviltar moralmente também diante dos estrangeiros que viriam se embriagar com a heroína futebolística?! Sei que os ouvidos moucos fingirão desconhecer esta crônica, como desconheceram a da semana passada sobre a inexistência de literatura em Goiás – os escravos da incultura –; mas continuarei clamando no deserto até aparecer alguém sensível ao PLB, ao PCG, ao PCBF, ao PPN ou ao PV – Partido da Literatura Brasileira, Partido da Cultura Goiana, Partido das Coisas Bem Feitas, Partido da Probidade Nacional, Partido da Verdade. Miserere nobis, Domine!                &lt;br /&gt;               &lt;br /&gt;          Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 25-5-2010, p. 8.&lt;br /&gt;  &lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-8085941112830678359?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/8085941112830678359/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/05/estarrecimento-ii-treze-de-maio-apesar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/8085941112830678359'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/8085941112830678359'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/05/estarrecimento-ii-treze-de-maio-apesar.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-919075497376175323</id><published>2010-05-18T11:32:00.000-07:00</published><updated>2010-05-18T11:35:17.203-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>ESTARRECIMENTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ontem fui ao Aeroporto Santa Genoveva. Era treze de maio. Uma véspera de sexta; provavelmente sem os mistérios que envolvem o número e o dia, pois não acredito em dias e, muito menos, em números aziagos. Como estava frio àquela manhã, fui obrigado a fugir à minha costumeira bermuda e, inclusive, usar um paletó. Estava a caráter, como se passageiro fosse. Verifiquei no painel os horários de chegada e constatei que o voo de meu amigo-irmão estava atrasado. Fui imediatamente à livraria, mesmo sabendo que a literatura lá seja escassa ou inteiramente substituída por livros de auto-ajuda e outras enganações típicas deste século materialista ou de fugas para religiões consumistas, resultantes do esquartejamento do cristianismo.Cada vez que entro naquela livraria, ao contrário do que verifiquei em aeroportos dos Nordeste, em que as universidades e as secretarias de cultura instalam postos de venda que visam a valorizar os escritores locais, fico me pensando turista e a perguntar-me, pelo que lá vejo, se existe em Goiás quem se dedique à literatura. Como houvesse pessoas sapeando as notícias frescas do dia, um diabinho me tentou e resolvi satisfazer a minha curiosidade: - Moça, por favor, poderia me informar se há escritores aqui em Goiás?! - Por que o senhor pergunta? - Por que sou aficionado em literatura e não vejo nenhum livro publicado por editoras daqui do Estado! - Não, moço! Em Goiás não existem escritores! Não tem literatura! - Senhor, eu não sou daqui! Sou paulistano; mas tenho certeza de que há escritores aqui, sim!- Por acaso o senhor sabe o nome de algum? Gostaria de adquirir seus livros, pois gosto de me inteirar dos diversos matizes culturais deste País!- O senhor me permite entrar na conversa? Eu sou goiano e sei que há escritores aqui; mas não me recordo de nenhum. - Eu já li, em São Paulo, obras de Bariani, de Gilberto Mendonça Teles, de Bernardo Élis e de José J. Veiga! Aliás, o Bariani é um paulista que mora aqui há muito tempo. O Gilberto, disseram-me, mora no Rio de Janeiro; mas nasceu em Goiás!- E o senhor, é goiano? - Sou! Posso lhe afiançar que aqui há escritores. Só me lembro do Carmo Bernardes, por causa da televisão; mas já ouvi falar de vários outros!- Se o senhor se lembrasse de mais alguns, eu ficaria muito grato! Gosto imenso de ler, de verificar as relações interculturais que existem nas diversas obras literárias!- Infelizmente, só me lembro do Carmo! O senhor já deveria estar contente! Sabe o nome de cinco, graças à minha informação e à do paulistano! Como é mesmo o seu nome?- Davi! Davi Camargo! Viajo muito, por causa da minha profissão, e trago sempre um livro comigo, a fim de aproveitar o tempo e alimentar o espírito! É por isso que conheço escritores de todos os estados brasileiros!  Anunciaram a chegada do vôo, e tive de concluir a pesquisa. Saí dali preocupado com os rumos da verdadeira cultura goiana. Se existem instituições estatais criadas com o objetivo de amparar e de divulgar as criações artísticas produzidas por escritores e artistas goianos, como explicar a inexistência de um livro sequer, de uma obra de arte sequer, em terminais de passageiros, inclusive rodoviários? Se há um sistema de educação, monitorado pelo estado, como se explica que uma funcionária de uma livraria afirme categoricamente a inexistência de escritores em Goiás? Por que esta e outras livrarias instaladas em Goiânia não se interessam pela arte literária que aqui se produz? Não seria o caso de a Secretaria de Educação fazer as instituições goianas de ensino cumprirem lei que dispõe sobre a obrigatoriedade do ministério da literatura goiana? Se há várias editoras em Goiânia, como se explica que nenhuma delas coloque os livros dos autores goianos na livraria do aeroporto? Editora não é para editar o livro e entregá-lo ao autor para que ele o faça chegar ao leitor. Qual editora de Goiás possui uma biblioteca em que se encontrem os livros por ela publicados, como se vê ainda hoje na José Olympio, no Rio? Como se explica que um paulistano conheça mais autores goiazes que os goianos?Mas, como os escravos da incultura estão em todos os níveis, ao chegar a casa, recebo um telefonema desesperado de uma professora formada em Letras numa destas faculdadezinhas de ponta de rua e que faria um concurso, no domingo: - O senhor tem algum comentário, principalmente resumo, do Tronco e dos Cavalinhos do prato plano? Como é mesmo? - perguntou a uma colega! - Eh! Cavalinhos do prato plano!- Como?! Não seria Os Cavalinhos de Platiplanto? Depois, resumo, eu não tenho! Tenho análises que pressupõem a leitura dos livros!    Face à gravidade da saúde cultural de nosso Estado, gostaria imenso de ver estas perguntas respondidas, não através de uma reportagem, de uma entrevista concedida por alguém da Secretaria de Educação ou de Cultura; mas em ação e em ato, mediante decisões e criação de mecanismos que ofereçam ao turista e, sobretudo, aos goianos o conhecimento da verdadeira arte que aqui se faz! Por favor, não confundam arte com artifício. O artifício é divulgado e exaltado pela mídia, a fim de manter o povo na ignorância. Arte é o eterno ressuscitar do artista, do povo, da nação, como ocorre hoje, quando nos referimos a Homero, a Ésquilo, a Aristóteles, aos gregos. Ajudai-me, Senhor, para que não passe mais por tamanho estarrecimento, que meu amigo J. Veiga possa descansar em paz e que abolamos a escravatura cultural! Amém!&lt;/strong&gt;   &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 18-5-2010. p. 7.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-919075497376175323?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/919075497376175323/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/05/estarrecimento-ontem-fui-ao-aeroporto.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/919075497376175323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/919075497376175323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/05/estarrecimento-ontem-fui-ao-aeroporto.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-5662062934306494064</id><published>2010-05-12T04:15:00.000-07:00</published><updated>2010-05-12T04:18:23.608-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O PRAZER DO TEXTO&lt;br /&gt;                                              José Fernandes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         A arte literária, além de ser um cadinho de mistérios e enigmas, é também uma arte de surpresas, sempre agradáveis. Surpresas pelo prazer da leitura, sempre nos revelando o desconhecido, recriado pela palavra e cristalizado em linguagem; surpresas, às vezes, pelo fato de o texto, em ótimo nível estético, vir de quem professa outra fé, como ocorre à historiadora Lena Castelo Branco. Ela que entende de História e registra os fatos em sua concretude, de repente também faz história, ficção, escreve contos e encanta pela disposição dos acontecimentos do imaginário e pela tessitura do enredo, surpreendente. Sua fé de historiadora se alia ao ofício e ao rito da arte literária, e temos como resultado o encanto das narrativas de Novilha de raça e outros contos.&lt;br /&gt;O conto que empresta nome ao livro se reveste de uma densidade metafísica inusitada, ao dissociar e ao fundir simbolicamente a figura de Alice à de uma novilha de raça. A dissociação se dá na dimensão da matéria, e a fusão, na analogia possível no discurso poético de que o poema de Ronsard funciona como espelho, a fim de Alice se revelar e, principalmente, de o professor valer-se de sua experiência para não se deixar dominar pelos instintos. Não é sem razão que o conto termina com a notícia em torno da vaca Preciosa, como se o nascimento de seu bezerro correspondesse à morte da novilha Alice; pelo menos no sentimento do professor. A escolha dos versos de Ronsard para proceder à insinuação perpetrada por Alice e ao contraponto entre a jovem e o maduro mestre, demonstra rara inteligência da narradora, uma vez que o poeta francês prima pelo pessimismo maneirista. A arquitetura da narrativa mostra que a fé literária convivia, há muito tempo, com a histórica, pois materializa sobriedade, condensação do conteúdo e um sábio jogo simbólico, responsável pela estética e pela dinâmica do discurso pautado sobre a estética especular do maneirismo que se reflete nos bons escritores da modernidade.     &lt;br /&gt;         A maioria dos contos apresenta um forte tônus realista em que se destaca a frieza do ser humano, notadamente quando provinda do desmando, como se vê em Domingo de agosto, ou na necessidade de sobrevivência, em que se pode eliminar o outro a fim de garantir-se na existência, como ocorre em História da seca. A arquitetura da narrativa torna o ato intempestivo mais desumano, à medida que ele ocorre de forma abrupta e sem maiores explicações, típico deste gênero literário na modernidade. Em decorrência,  o desfecho, a despeito de se desprender da sequência lógica dos acontecimentos, ocorre de forma inesperada, normalmente obrigando o leitor a refletir e, em decorrência, a operar uma espécie de anacefaleose, recapitulação de toda história.&lt;br /&gt;         A ironia, quase imperceptível, que percorre as narrativas, confere-lhes uma qualidade estética singular, pois é percebida somente no desfecho do discurso e, mesmo assim, mediante uma leitura desenvolvida nas entrelinhas. Mais que ironia, às vezes dá-se conta de um refinado humor, como ocorre no conto que nomina o livro, pois o nascimento do bezerro, ao final, fecha a narrativa, ao mesmo tempo, com a sintonia do animal dominado, em parte, e do amor experiente que se transfere para o filho, ante um pedido irrecusável. Leituras várias se podem fazer a partir dos símbolos e do humor neste conto.  Do mesmo modo, o humor negro impresso ao fecho do conto História da  seca transforma a ação de eliminar o semelhante para matar a fome em um ato impregnado de um riso cruel, chocante, mas imprescindível à consumação da narrativa aos moldes do que se faz contemporaneamente face à banalização do absurdo.    &lt;br /&gt;         Singular o humor negro de Cabeças contra cabeças, pelo inesperado da solução e, sobretudo, pela naturalidade com que o feitor procedeu à explicação ao cumprimento da ordem dada pelo coronel. Uma técnica que nos leva a perguntar por que Lena Castelo Branco não nos contemplou com suas narrativas há mais tempo? Este riso nascido da crueldade nos leva a compará-la com o Machado de Assis do conto Pai contra mãe, em que a desgraça de um é necessária para a felicidade do outro. Este tipo de humor leva-nos, inclusive, à piada a que se chama de humor negro, pois o leitor ri da desgraça, da capacidade única do homem de ser cruel.&lt;br /&gt;         Se urdir o discurso da História requer uma perfeita sintonia com os fatos tecidos pelos homens, urdir o texto estético requer técnicas narrativas sofisticadas que a contista Lena também domina com maestria. A criação do imaginário faz desta cronista uma contista que só enriquece a literatura goiana, porque utiliza o ethos, a physys, a wentanchaund e os leitmotivs deste Estado que deve ser a morada das musas, tamanha a inspiração que aqui se sente. Parabéns, Professora Lena! &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Artigo publicado no Diário da Manhã do dia 12-5-2010. p. 17.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                               &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-5662062934306494064?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/5662062934306494064/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/05/o-prazer-do-texto-jose-fernandes-arte.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/5662062934306494064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/5662062934306494064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/05/o-prazer-do-texto-jose-fernandes-arte.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-5680530716052873863</id><published>2010-05-04T06:49:00.000-07:00</published><updated>2010-05-04T06:51:52.969-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;             SPIRITUS DISCORDIAE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Sintélia, pessoa no mais genuíno sentido da palavra, entendida como alguém que se realiza enquanto ser social e ontológico, ficara radiante pela vitória de Eridóia no concurso. Sentia-se só naquele meio em que todas as setas apontavam direções diversas daquelas que planejava agarrar-se para atravessar bosques de signos e símbolos. Aguardou a colega, pressurosa. No princípio, Eridóia era só gentilezas, amabilidades. Depois, sentido o chão firme, sobretudo pelo seu fácil trânsito entre os homens, transformou-se em serpente, ao ponto de, um dia, Sintélia ligar, aos prantos, para Eritélia, amiga que o destino pusera em seu caminho de pedras imerecidas.&lt;br /&gt;         O que poderia Eritélia dizer-lhe, senão que se acalmasse, porque o destino lhe reservava agradáveis surpresas que viriam no certo momento que Deus julgasse oportuno? Foi o que fez. Inclusive, leu-lhe um poema que parecia feito para ela, tamanha as semelhanças entre o ser lírico e a realidade enfrentada pela vida profissional. Não sem motivo, o poeta o intitulara, de forma bem simbólica, “Serpente”: “Há sempre um serpente enroscada/no meu pé, envenenando o meu tronco,/bafejando a maçã que sempre lhe cai à cabeça./Mas ela não se emenda: volta a seu posto/e começa a lamber as delícias de meu paraíso/que dura o momento da mordida imprevista/na palavra distraída da árvore do mal.//Há sempre uma serpente à espreita do que faço/ou deixo de fazer, como se fosse obrigado/a pecar por ações e comichões./De vez em quando, rezo o Credo;/ mas, em vez de afugentá-la, prende-me/com mais força, querendo arrebentar-me os ossos.//Nenhum argumento a convence de minha graça./Acredita que morderei o pecado/mesmo protegido pelo Anjo da guarda/que me vigia dia e noite, sem despregar/os olhos das maldades dessa Eva atávica.” &lt;br /&gt;         Realmente, depois de algum tempo de provação, como se Deus tivesse posto aquele “spiritus discordiae” para fazê-la compartilhar as velhas experiências de Eritélia, veio a grande notícia: fora transferida para a cidade de sonhos. Agora, poderia realizar seus projetos de vida e vingar-se do “spiritus discordiae” com o poema “Bobos da corte”, de seu colega Filófilo que, quando o escreveu, se encontrava em situação angustiante, igual à de Sintélia: “Antigamente, lia os bobos da corte nas máscaras/dos signos e dos sinais:queria cavalgar a verdade/sem raspar a cabeça dos dois lados, para ficar/sempre algo no meio e não deixar-me esmagar/pelo cuco nem ficar inteiramente no escuro.//Lia o interior da imagem e da boba loucura,/a sombra e os mistérios escondidos no riso:/se o cérebro estivesse no calcanhar, homem/algum correria o risco de apanhar frieira,/mas a cabeça certamente andaria de chinelos.//Lia na demência da palavra e seu despautério/que deveria ter um olho em cada lado do nariz/a fim de que espie antes o que puder cheirar/e descobrir as razões por que as sete estrelas/não são mais que sete e nem envelhecem o tempo.//Hoje, ouço uma corte de bobos que pensa/uma platéia de mente oblíqua, rastejante,/que vive o silêncio dos ossos e dos túmulos,/adestrada pela lavagem de um cristel cerebral.//Ouço uma corte de bobos que confundem seis/com meia dúzia e não sabem quando a carroça/puxa o cavalo; mas querem dar as lições do cuco/que engoliu a hera e esmagou a cabeça do filhote.//Ouço uma corte de bobos que tropeçam na língua/e engolem os esses e os erres, além do espaço/entre o pé e as asas do deus que sopra o verbo,/como se a palavra do homem viesse dos calcanhares.//Ouço uma core de bobos que começam o prédio/pelo telhado:desdenham os alicerces e dão conselhos/sem querê-los de volta, pois, além de bobos, são patifes:/fazem com o polegar o que deveriam fazer com a cabeça.//Ouço uma corte de bobos que amassam barro/e rodeiam o tronco, sem nunca soprarem alma/ao boneco, mas querem tornar a todos os ouvintes/bobos e loucos e, preciosos, piolhos sem cabeça.//Todos os dias,viajo azul, pássaros e estrelas:/fujo da demência: não confio na língua dos bobos,/no presente da serpente, no sorriso da raposa,/no bafejo da catástrofe, no profeta de plantão.”&lt;br /&gt;– Não se preocupe, Sintélia! – dizia-lhe Eritélia – a maioria dos que se dizem humanos é assim mesmo: pensa com os pés, quando deveria pensar com a cabeça. É por isso que há os chamados “spiritus discordiae” que estão sempre inoculando veneno onde deveriam inocular amor e amizade, naquele sentido de grego de “eucaristia”, herdado pelo cristianismo. A discórdia, que lhes é inerente, é própria de seres mal-amados e, muitas vezes, mal armados.&lt;br /&gt;O que dizer perante a angústia que sinto só de me lembrar dos sofrimentos causados pelos espíritos da discórdia, senão “Libera nos, Domine,  spiritibus discordiae”!? – rezava Eritélia para a sua amiga.   &lt;br /&gt;             &lt;/div&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 4-5-2010, p. 10.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-5680530716052873863?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/5680530716052873863/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/05/spiritus-discordiae-sintelia-pessoa-no.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/5680530716052873863'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/5680530716052873863'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/05/spiritus-discordiae-sintelia-pessoa-no.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-8226113491270560210</id><published>2010-04-28T03:08:00.000-07:00</published><updated>2010-04-28T03:10:00.662-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;         A INTEIRAMENTE OUTRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                        José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Olegária arregalara os olhos como se estivesse diante de um fantasma. A moça, ao vê-la, abraçou-a como se fossem amigas de longa data. Mesmo com uma memória de elefante, não se recordava de havê-la visto antes; mas tinha de fingir-se amável até conseguir descobrir-lhe o nome e restaurar a imagem perdida. Mas, o diabo da pergunta costumeira veio sem que ela esperasse:&lt;br /&gt;– A senhora não se lembrar de mim? Fui sua aluna no curso de Letras!&lt;br /&gt;Olegária sentia-se traída. Acreditava que a face daquele ser se perdera nos espelhos das águas. Via-se uma mulher revoltada contra os próprios limites e, principalmente, por ter de se manifestar, pela primeira vez, incapaz de reconhecer uma ex-aluna.&lt;br /&gt;– Não se preocupe, Professora! Até meu namorado, que estava na Europa, ficou meio perturbado com as minhas transformações. Passei por uma série de cirurgias estéticas, pois me sentia envelhecida. Eu sou Alélia. Tinha quarenta anos e consegui voltar aos vinte, com a experiência de uma mulher madura!&lt;br /&gt;– Menina! – Olegária engolia palavras, com medo de ofendê-la!&lt;br /&gt;– Eh! Fiz omatoplastia e blefaroplastia nos olhos e retirei aquelas olheiras roxas e rejuvenesci as pálpebras. Meus olhos, que eram castanhos receberam uma lente azul, mediante uma oftalmoplastia. Realizei meu sonho. Meus cabelos, antes pretos, receberam implantes, ficando com luzes permanentes. Meu nariz, extremamente chato, passou por uma rinoplastia e ficou afilado e arrebitado, como o da Angelina Jolie. Meus lábios, finos e roxos, receberam um enchimento em uma queiloplastia e se transformaram nos lábios da Aline Moraes. Aquelas orelhas grandes e cabanas, semelhantes ao Esminteu da mitologia, sabe, harmonizaram-se com a face. Foi uma dolorida otoplastia; mas pagou a pena, já que minha alma não é pequena! A face, já meio enrugada, sofreu uma ritidoplastia, a fim de recuperar o rosto de ontem, impossível ao ser lírico do poema Retrato. Lembra-se?  Minhas mamas, pesadas e em queda vertiginosa, adolesceram-se. É o milagre da mamoplastia. Os rapazes dizem que estou dez!  &lt;br /&gt;         A minha barriga, protuberante, cheia de estrias, passou por três lipoaspirações e por uma dermolipectomia, e adquiri esta barriguinha da Vênus de Milo. O bumbum, caído e cheio de estrias, recebeu uma carboxiterapia especial. Uma cicatriz, decorrente do tombo de uma árvore, pois eu era muito traquina, desapareceu por intermédio de uma bioplastia. Ficou tudo parecido com aquele dos tempos em que Brigitte Bardot era a tentação personalizada. As pernas, cobertas de varizes, foram atentamente modificadas por raios lazer, mediante uma quirsostomia, ao ponto de, agora, assemelharem-se com as da Sharapova.&lt;br /&gt;         Olegária, muito pudica, olhava ao redor. Meu Deus, essa mulher ficou louca. Quem te viu e quem te vê! Durante todo o curso a tive como mulher de bom-senso! Até onde vai a vaidade? Além disso, perdeu a vergonha. Onde já se viu falar, em público, de coisas tão pessoais? Que horror! Ainda bem que ela passou do bumbum para as pernas. Se ela disser que fez modificações em partes intimas, vou desmaiar de vergonha. Será que ela não vê que já passei dos... Bem, não gosto de revelar minha idade. Nem para mim mesma!&lt;br /&gt;– Os dedos dos pés, tortos, por causa de um reumatismo que sofri logo que me casei, tiveram de ser retificados. Fiz uma datiloplastia que os tornaram capazes de excitar os podófilos. Igualmente, aconteceu com os dedos das mãos, pois sempre quis ter dedos iguais aos da Sofia Loren. Olhe só como elas estão! Causa admiração aos queirófilos! Você sabe que me separei e tenho de provar para o meu ex que não estou de jogar fora. Estou namorando sem parar. Estou vivendo momentos de paraíso!&lt;br /&gt;Credo! Ela não mudou só de aparência! A cabeça também deve ter passado por uma cefaloplastia, ou por uma amnestoplastia, pois perdeu todo o recato que uma mulher deve ter.&lt;br /&gt;– Pois é, Professora. Para isso, submeti-me a uma ninfoplastia e até a uma himenoplastia para recuperar sensações de que havia me esquecido. Depois, se não estiver tudo no lugar, como dizem, a meninada nem olha pra você! Como me envaideço, quando pensam que tenho vinte e poucos anos! Não há melhor alimento para o ego!&lt;br /&gt;Santo Deus, creio que ela se submeteu até a uma logoplastia, porque decorou todas os termos cirúrgicos possíveis; mas perdeu o sentido da pudicícia. Tenho a impressão de que passou também por uma pneumoplastia ou uma psiqueplastia; mas está necessitando mesmo é de uma psicoterapia. Posso estar engnada, mas se levantar as pernas, fecham-se os olhos!...&lt;br /&gt; – Alélia, você faz jus ao nome que tem! “Kyrie, eleison”! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 28---4-2010. p. 10&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-8226113491270560210?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/8226113491270560210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/04/inteiramente-outra-jose-fernandes.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/8226113491270560210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/8226113491270560210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/04/inteiramente-outra-jose-fernandes.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-4246097991301933437</id><published>2010-04-22T03:44:00.000-07:00</published><updated>2010-04-22T03:49:09.457-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;         A VOLTA ÀS PICADAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                        Jose Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Há documentos antigos que mostram a presença dos chineses em Antioquia, no Egito, na Grécia, na Itália e até em Portugal. Era a chamada rota da seda. Se naquela época eram usadas bestas nas rotas terrestres e navios, nas marítimas, a partir de 1992, este comércio de muitos séculos antes de Cristo passou a ser feito através da famosa linha férrea Almaty-Urumq. Com a expansão do mundo moderno, as relações econômicas entre as nações se tornaram objeto de sobrevivência de todos os povos, levando ao aprimoramento de estradas, rotas aéreas e marítimas, além da tecnologia voltada para os diversos tipos de veículos.&lt;br /&gt;         As razões do desenvolvimento deste aparato técnico e, em alguns lugares, altamente sofisticado, devem-se, também, à ampliação das necessidades básicas da humanidade, materializadas em um número crescente de mercadorias que inclui, sob certo sentido, o próprio homem, através dos diversos tipos de turismo. Há países, mesmo, que tem no turismo uma de suas principais fontes de divisas. Estes países dão especial atenção aos pontos turísticos e ao sistema de transporte que propicia acesso do maior número de pessoas, pois, quanto mais turistas, mais arrecadação.&lt;br /&gt;         Os mesmos procedimentos são empregados em relação à produção de bens de consumo, sejam agrícolas, sejam industrializados. Sem transporte adequado, nenhum comércio se sustenta, porque os produtos não chegam ao destino no tempo requerido pelas necessidades dos consumidores. O governo brasileiro optou por um único meio de transporte de cargas feito mediante estradas de rodagem, quando deveria ter imitado, no bom sentido, países que o possui de forma diversificada, notadamente através de linhas férreas. Um país continente, como o nosso, jamais vai se resolver integramente, sem a implantação do transporte ferroviário.&lt;br /&gt;         Decorrência da visão míope de determinados governos, o povo, notadamente as pessoas que produzem, está pagando caro pela cegueira administrativa do poder público. Todos os anos são mostrados caminhões e caminhões carregados, atolados em estradas ainda bandeirantes. Produtos e produtos se perdem por negligência dos governantes que não exercitam e nem praticam o papel para que foram eleitos. São raros os estados eminentemente agrícolas que dispõem de estradas de rodagem que permitem viajar ou trabalhar sem preocupação com segurança e, sobretudo, com o objetivo para que foram construídas: possibilitarem o real trânsito das mercadorias e das pessoas que praticam alguma modalidade de turismo.&lt;br /&gt;         Em Goiás, não precisamos empreender viagens longas para passarmos pelo desconforto de rodovias que estão voltando à condição de picadas bandeirantes. Nova Veneza, uma cidade distante apenas 47 km.de Goiânia, encontra-se ilhada há muito tempo. Não se pode sair para Nerópolis, nem para Inhumas e, muito menos, para Santo Antônio de Goiás, também em processo de insulamento. Todos os acessos a Nova Veneza são crateras. Será que o povo simpático de uma cidade tão acolhedora, em que se fazem os melhores pratos italianos em Goiás, merece tamanho desprezo só pelo fato de o prefeito ser de partido oposto ao do governo? Governo se elege para o partido ou para administrar o país, estado, a cidade e atender às necessidades da população? Governo se elege sozinho ou pelos eleitores? Ser Pinochet com colegas de política até poderia ser compreensível; mas com o eleitor, enganado pelas promessas de campanha, não.&lt;br /&gt;         E a cidade de Goiás, com todas as suas belezas históricas e naturais que atraem turistas de todo o mundo, não mereceria especial atenção? Além de buracos perigosos ao longo de toda a pista, o trecho entre Itauçu e Itaberaí parece que recebeu uma chuva de meteoritos. Como pode uma cidade turística não ter acesso agradável ao cidadão que vai admirá-la? Como pode uma cidade que se torna capital do Estado uma vez por ano ter seus acessos bloqueados pelo desleixo governamental? Como pode uma região próspera, em nível industrial e agrícola, ser abandonada pelo poder executivo? Uma estrada por que se tem de passar para se chegar a outros pontos turísticos, banhados pelo rio Araguaia, símbolo de Goiás, intransitável?! É muito estranho! Se fossem só essas, até...&lt;br /&gt;         Se houvesse trem, ter-se-ia uma alternativa; mas ele é visto como bicho de sete cabeças. A culpa pelos buracos é sempre da chuva, como se ela não fosse imprescindível à existência dos humanos. Nunca se mostram as verdadeiras razões das deficientes vias de transporte. Nunca se diz a verdade: elas são mal construídas, mal estruturadas, recebem asfalto casca de ovo. Se fizerem um trabalho duradouro, à semelhança dos países sérios, como ficarão as propinas? Como beneficiar as empresas dos amigos; aquelas que desembolsaram doações para a eleição do governante? Aquelas que possuem caixas dois, três, quatro, a fim de atender aos Arruda, aos Dirceu, aos Genuíno, aos Delúbio, aos Valério, aos Gushiken “et caterva”? E os corruptos desconhecidos que estão abarrotando os corredores dos palácios, dos ministérios, das secretarias, do congresso, das assembléias, das câmaras, a fim de sugar sofridos impostos pagos pela população? Será que nós, povo, merecemos tamanha desgraça? Será que estamos voltando às picadas Anhangüera, Fernão Dias, Borba Gato?! Miserere nobis, Domine!&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 22-4-2010, p. 7.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-4246097991301933437?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/4246097991301933437/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/04/volta-as-picadas-jose-fernandes-ha.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4246097991301933437'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4246097991301933437'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/04/volta-as-picadas-jose-fernandes-ha.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-4980769124009731574</id><published>2010-04-13T04:09:00.000-07:00</published><updated>2010-04-13T04:11:25.001-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;         OS VALORES GOIANOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                               José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os valores constitutivos de um povo, que o singularizam em relação a outros povos de outras regiões, não nascem por geração espontânea, nem por um faça-se como aquele dos sete dias. Eles são cristalizados pelo tempo, consoante as predisposições culturais das inteligências criativas ou preservacionistas. O fato é que eles, como bem os define Ortega y Gasset, “aparecem fundidos e indiferenciados em outros problemas, ou pelo contrário, se deslizarão disfarçados sobre algumas de suas formas particulares”. Como vivemos um presente de inversão de valores ou de valores nenhuns, aquela preocupação que tivera Gasset com relação à crise do Ocidente, refletida na razão, na civilização e no sentido da vida, toca-nos o fundo pensamento axiológico do momento. Se o sentido das tradições de tudo que se construiu e se cristalizou até o presente se esboroa, em decorrência do completo desconhecimento da evolução do saber por parte de quem deveria cultuá-lo, tudo é possível e nada tem importância.&lt;br /&gt;Vivemos em Goiás o fenômeno maldito do salto alto, resultante da imaginação de quem pensa que sabe tudo, de quem pensa que pode mudar a história, sem, entretanto, possuir as bases em que as ciências se sustentam e se permitem renovar e lançar novos rumos para o futuro. Se uma universidade estadual, criada para manter, cultivar e contribuir para a re-descoberta dos valores científicos e artísticos goianos, despreza o que aqui se faz, nomeadamente em relação às artes, sobretudo a literatura, ela não está exercendo o seu verdadeiro papel no Estado e na região. Ouvimos, dia desses, a um oráculo que, na UEG, os coordenadores do curso de Letras reformularam as planilhas e retiraram a disciplina Literatura Goiana do currículo. Depois de alguns professores manifestarem-se contrários à imposição, colocaram-na como disciplina optativa. Sim! Optativa! Faz quem quiser e quando for oferecida. Pela experiência que temos das instituições por que passamos em nossa vida acadêmica, isso dificilmente acontece! Será que estamos em Goiás? Será que este Goiás realmente nomeia e confere essência a essa universidade? Fazemos estas perguntas, porque, parodiando Gasset nós somos nós e nossas circunstâncias, e se não salvamos a elas, não salvamos também a nós. E nossas circunstâncias existenciais e essenciais é a literatura, pois nela nos transformamos em linguagem e nos revelamos verdadeiramente humanos e sublimes ao tornarmo-nos co-participantes da criação.&lt;br /&gt;Mas a desfaçatez dos coordenadores não se ateve apenas ao desdém dispensado à literatura que aqui se faz, certamente por desconhecê-la totalmente, uma vez que atingiu também a própria Língua Portuguesa que, segundo sabemos, é nosso meio de comunicação e matéria de ser e de arte literária. Não há de ver que diminuíram as aulas a ela dispensadas e transferiram-nas para uma disciplina chamada Lingüística em que se estuda tudo, menos a Língua Portuguesa. Aliás, a partir do surgimento dessa maldita disciplina, decorrência, não dela, mas de sua péssima interpretação, é que se iniciou, no Brasil, o descalabro de nosso idioma, pois seus mestres se atêm apenas às teorias sem saberem aplicá-las à língua, uma vez que desdouram a arte de escrever no próprio idioma. A maioria sabe bem o inglês e o toma como língua mãe de todas as línguas. Esquecem-se de que estamos no Brasil e que aqui se fala uma língua neo-latina e que, para aprendê-la em sua essência, é imprescindível que se tenha excelentes relações com o latim e com o grego. Mas, o mesmo acinte aplicado à literatura, não somente a goiana, reservam à Língua Portuguesa. Do mesmo jeito que não estão em Goiás, também não estão no Brasil. Os responsáveis, politicamente, pela educação e pela cultura de nosso Goiás têm de tomar providências a este respeito.&lt;br /&gt;Para quem não sabe, dissemos “tem de” e não “tem que”! O primeiro implica a semântica de “obrigação”, de algo que tem de ser feito, doa a quem doer; o segundo, o significado de opção, como aquela a que destinaram a literatura e, pior, a Língua Portuguesa. Não é sem motivos que há professores que não ensinam redação, porque não a sabem corrigir. Duvidam?! Testem e verão! Talvez isso explique o analfabetismo funcional de mestres que depositam livros no aterro sanitário, de professores aprovados em concursos com nota cinco! Observem as correspondências, os planos pedagógicos de algumas universidades, algumas leis emanadas dos poderes legislativo e jurídico, e até do próprio MEC e verão que a desgraça lingüística se encontra em quase todos os níveis da incultura nacional. É preciso que se abandonem as notícias mentirosas relacionadas à excelência do ensino, e se abram as cortinas da verdade; mesmo que ela seja dura de engolir! Abbagnano, resumindo o pensamento de Dewey, reitera bem o que esperamos em relação aos valores goianos, pois eles não são somente a preferência ou o objeto da própria preferência, mas são o preferível, o desejável, o objeto de uma antecipação ou de uma espera normativa. Mais; eles são a razão da existência de nosso estado de ser Goiás em artes de língua e de linguagem. Adjuva nos, Domine! &lt;br /&gt;              &lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 13-4-2010. p. 19.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-4980769124009731574?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/4980769124009731574/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/04/os-valores-goianos-jose-fernandes-os.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4980769124009731574'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4980769124009731574'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/04/os-valores-goianos-jose-fernandes-os.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-1981685834036463565</id><published>2010-03-30T04:25:00.000-07:00</published><updated>2010-03-30T04:29:00.153-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            A CULTURA NO ATERRO SANITÁRIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                  José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            No início do século III a.C., sob a influência de Ptolomeu, foi criada a Biblioteca de Alexandria, infelizmente destruída pelo fogo. Sua existência, entretanto, mostra o quanto a antiguidade valorizava as criações do intelecto, ao ponto de ela encerrar cerca de quatrocentos mil papiros. Durante a história da humanidade, criaram-se inúmeras outras bibliotecas, a fim de preservar o conhecimento e permitir sua evolução ao longo dos séculos. Em todos os países desenvolvidos, como França, Itália, Portugal, Alemanha, Estados Unidos elas constituem uma espécie de templo do saber, uma vez que mesmo os processos cibernéticos necessitam dos livros para empreender a travessia a outros mecanismos utilizados para leitura.&lt;br /&gt;            No Brasil temos apenas umas duas bibliotecas que se aproximam de algumas européias, uma vez que, infelizmente, somos um povo nada afeito a livros. Sequer nossos escritores são lidos como deveriam ser. Não temos, lamentavelmente, aquele culto que os argentinos têm a Borges, a Cortazar; que os chilenos dedicam a Neruda e, sobretudo, que os espanhóis dispensam a Cervantes; os franceses, a Molière, a Gide, a Raymond Queneau; os alemães, a Goethe, a Rilke; os italianos, a Dante, a Umberto Eco; os ingleses, a Shakespeare; os irlandeses, a Shaw, Wilde, Yeats, Joyce, Beckett. A cada dia, constatamos o recrudescimento da inversão de valores e, em decorrência, do desprezo aos livros, anulando os esforços de muitos escritores que insistem em publicar suas obras, mesmo conscientes de que elas vão alimentar as lombrigas dos que pensam com os intestinos e as minhocas dos aterros sanitários. Coitadas das minhocas!&lt;br /&gt;            Este contraponto, infelizmente, pôde ser visto e ouvido em plagas goiazes. Primeiro, um inédito lançamento de cento e trinta e seis mil livros de escritores diferentes, em um só dia. Um acontecimento digno de figurar no Guinness Book. Todavia, nenhum canal de televisão o noticiou, nem mesmo em Goiânia. Mas, a desgraça e a miséria cultural foram mostradas ao mundo todo; e com razão; sem, entretanto, pagar o pecado mortal pelo desprezo a evento tão singular. Uma cidade berço de escritores goianos, como Emanuel Dias dos Santos, Cairo de Souza Castro, Lázaro Faleiros, Carlos William, Pio Vargas e Edval Lourenço, Presidente da UBE-GO, depositar doze mil livros no lixão parece noticia arrancada às obras de Kafka, Beckett, Ionesco, Fassbinder. Ou seria alguma coisa parecida com uma peste, aquela retratada por Camus? Seriam os livros, para quem os descartou, um caminhão de ratos em putrefação? Se o for, esta pessoa se assemelha aos cegos, de Saramago, ou aos rinocerontes, de Ionesco! Mas, como a pessoa que determinou a execução de tamanho ato insano, trabalha exatamente na educação, materializa bem o nível das universidades brasileiras, notadamente certas particulares que fingem tão completamente a formação de profissionais, notadamente professores, que temos como conseqüência este miserável ensino de quem não sabe o que e o como ensinar, de quem sequer sabe repassar os conhecimentos que se encontram nos livros. Por isso, vêem neles a matéria do inútil, uma vez que pensam com a sujeira depositada sob as unhas dos dedões. &lt;br /&gt;            Aquele velho ditado latino, “Nemo dat quod non habet”, “Não se dá o que não se tem”, se converte em coisa sensível e perceptível entre nós. Como a maioria das pessoas alfabetizadas se revela analfabetos funcionais, parece-nos que a pessoa de quem emanou ordem tão esdrúxula leu ao pé-da-letra a indignação que o poeta Aidenor Aires colocou nas entrelinhas da expressão “aterro sanitário”. Tudo isso resulta também da inconseqüência política que nomeia uma analfabeta funcional para cuidar de uma biblioteca só porque ela, certamente, é bem apadrinhada.&lt;br /&gt;            Se a cidade de Iporá abriga um campus da UEG, parece que ela não está exercendo a sagrada função de preservar e de produzir conhecimentos. Esta aberração cultural, inclusive, resulta de recomendações dos conselhos Federal e Estadual de Educação para figurarem nas bibliografias dos cursos a serem submetidos às suas aprovações somente livros de publicações recentes, como se os livros antigos não passassem de velharias. Mas, pelo que pudemos ver na filmagem, a maioria deles se encontrava em excelentes condições de manuseio. Daí o estarrecimento que sentimos ao visualizarmos o trator enterrando a cultura. Pensando bem, talvez, este ato quisesse “homenagear” os bibliófilos e estabelecer um contraponto, “in réquiem”, com o nosso mega-lançamento. Eh! Mindlin, esperamos que você não se revolva no túmulo por esta ação paquidérmica, e você, Kleber, não se sinta desmotivado para realizar outras façanhas culturais! Caros amantes dos livros, só nos resta implorarmos a Deus para nos livrar daquelas pessoas que enxergam apenas os limites do trono de louça, com a porta fechada, e se deliciam com a própria essência que escorre pelos esgotos. Miserere nobis, Domine!                     &lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 30-3-2010, p. 17.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-1981685834036463565?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/1981685834036463565/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/cultura-no-aterro-sanitario-jose.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1981685834036463565'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1981685834036463565'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/cultura-no-aterro-sanitario-jose.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-1237158366051481274</id><published>2010-03-23T10:25:00.000-07:00</published><updated>2010-03-23T10:26:40.951-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            AÇÕES E ATOS CULTURAIS, SEMPRE!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                           José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Os políticos são eleitos pelo povo para administrarem a cidade, o estado, independentemente de partidos, de ideologias, como reza o significado do termo grego “politikós”. Este é o princípio por que pauta o governo da polis desde a antiguidade. Se isso não acontecesse, não teríamos obras marcantes da cultura arquitetônica, inclusive da pré-história, como os dolmens, os menires, as cavernas. Não teriam ficado para nosso deleite inúmeras edificações, tipo panteão, pirâmides, muralhas da China... Se os políticos e religiosos não imprimissem continuidade às construções iniciadas por inúmeros administradores, não teríamos as belas catedrais da Idade Média, construídas durante centenas de anos; não teríamos os coliseus de Arles e Nimes; a petra, da Jordânia, os monumentos de Machu Picchu, o Taj Mahal, o Cristo Redentor. No campo político, no Brasil, infelizmente a maioria dos governantes não valorizam e não continuam as obras de seus antecessores. Em decorrência, o povo não venera as raízes culturais cristalizadas no tempo e pelo tempo nos templos das artes. Imagino que, se os menires aqui estivessem já teriam se transformado em britas; os dolmens, então, coitados, que seria deles?&lt;br /&gt;            Brasília, por exemplo, se Juscelino não a houvesse construído toda em seu governo e inaugurado, operando a conseqüente transferência da capital, poderia não ter se convertido em cidade. Mesmo assim, governos nada sensíveis aos caracteres das artes modernas deformaram-na e transformaram-na naqueles monstros pintados por Giuseppe Arcimboldi em estilo maneirista. Basta verificar os famosos anexos aos ministérios, erguidos sem o cuidado do estilo, das linhas e pontos iniciados por Niemayer, Lúcio Costa, Joffre Parada... E os bairros, tipo Samambaia, criados pelo maldito interesse eleitoreiro de um cego do belo, da estética das curvas niemayerianas?&lt;br /&gt;            Pior ainda, a atitude dos governantes que acreditam que a história da humanidade começou com eles e se esquecem de que a cultura e tudo que se lhe adere, inclusive a economia e o pensamento futuro, decorrem de um processo que vem sendo elaborado pedra a pedra, tijolo a tijolo, argamassa a argamassa desde o aparecimento do homem nos confins do mundo. Aliás, o pensamento futuro é o menos cultivado pelos administradores eleitos unicamente para este fim, pois, em um País das dimensões desses brasis, é inadmissível a inexistência de linhas férreas cortando-o em todas as direções, a fim de encurtar os caminhos com a rapidez e a economia necessárias à modernidade. Mas, corremos o perigo de as obras iniciadas por um governo não prosseguirem em outro, até mesmo coligado ao anterior, ou de extrema confiança, uma vez que os Lúcifer, os Judas, os Brutus, os Talleyrand Périgord,  os Calabar, no meio político, constituem uma peste, pior que aquela retratada por Camus em romance homônimo.&lt;br /&gt;            Em Goiás, estado pleno de idéias e de ações criativas, manifestas na literatura, no teatro, nas artes plásticas, na música, inclusive aquela de mau-gosto, criada e mantida pela mídia televisiva, rádio-difundida e até na propaganda, as coisas, infelizmente, não são diferentes, como se as artes tivessem partido, fossem apenas reflexo de uma pessoa ou de um partido político. O clássico exemplo foi constatado no teatro inacabado, em que a própria denominação revelou o quão pobres eram as pessoas que poderiam ter trabalhado para o culto à arte dramática. E o Centro Cultural Oscar Niemayer, monumento e revelação de uma vontade política que poderia agregar, em um só local, todas as artes goyazes, por que se encontra às moscas e seus sinais fecálitos pelos vitrais e paredes que deveriam abrigar os mitos, os rituais e os ritos das artes? Por que a peste dos Aldrich Ames, dos Pinochet impossibilita aos artistas revelarem ao povo, notadamente, o que tem acesso ao belo e, em conseqüência, possui os graus necessários de cultura para captá-lo e entendê-lo como ele se manifesta desde as mais remotas criações empreendidas pela inteligência humana?&lt;br /&gt;            A verdade, no entanto, é que há governantes que se inscrevem e se cristalizam na História pelo apoio e pelo incentivo às realizações estéticas de todas as fôrmas e formas de repetição do ato divino de criar. Outros, por serem pequenos, míopes, daltônicos e enxergarem-se no tempo apenas pela frincha distorcida das idéias minúsculas e anêmicas da insensatez e, pior, por preferirem atingir um homem em detrimento dos homens, um ser em detrimento dos seres. O Centro Cultural Oscar Niemayer precisa funcionar, precisa exercer os objetivos por que fora construído! É dever e obrigação do Estado! É a continuidade necessária, independente de partido e ideologia, de gratidão e deslealdade, de fidelidade e traição... Miserere nobis et artibus, Domine!                          &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras.&lt;/div&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã de 23-3-2010, p. 10.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-1237158366051481274?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/1237158366051481274/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/acoes-e-atos-culturais-sempre-jose_9627.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1237158366051481274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1237158366051481274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/acoes-e-atos-culturais-sempre-jose_9627.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-4108382577021942908</id><published>2010-03-23T10:22:00.000-07:00</published><updated>2010-03-23T10:23:31.176-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>AÇÕES E ATOS CULTURAIS, SEMPRE!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                           José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Os políticos são eleitos pelo povo para administrarem a cidade, o estado, independentemente de partidos, de ideologias, como reza o significado do termo grego “politikós”. Este é o princípio por que pauta o governo da polis desde a antiguidade. Se isso não acontecesse, não teríamos obras marcantes da cultura arquitetônica, inclusive da pré-história, como os dolmens, os menires, as cavernas. Não teriam ficado para nosso deleite inúmeras edificações, tipo panteão, pirâmides, muralhas da China... Se os políticos e religiosos não imprimissem continuidade às construções iniciadas por inúmeros administradores, não teríamos as belas catedrais da Idade Média, construídas durante centenas de anos; não teríamos os coliseus de Arles e Nimes; a petra, da Jordânia, os monumentos de Machu Picchu, o Taj Mahal, o Cristo Redentor. No campo político, no Brasil, infelizmente a maioria dos governantes não valorizam e não continuam as obras de seus antecessores. Em decorrência, o povo não venera as raízes culturais cristalizadas no tempo e pelo tempo nos templos das artes. Imagino que, se os menires aqui estivessem já teriam se transformado em britas; os dolmens, então, coitados, que seria deles?&lt;br /&gt;            Brasília, por exemplo, se Juscelino não a houvesse construído toda em seu governo e inaugurado, operando a conseqüente transferência da capital, poderia não ter se convertido em cidade. Mesmo assim, governos nada sensíveis aos caracteres das artes modernas deformaram-na e transformaram-na naqueles monstros pintados por Giuseppe Arcimboldi em estilo maneirista. Basta verificar os famosos anexos aos ministérios, erguidos sem o cuidado do estilo, das linhas e pontos iniciados por Niemayer, Lúcio Costa, Joffre Parada... E os bairros, tipo Samambaia, criados pelo maldito interesse eleitoreiro de um cego do belo, da estética das curvas niemayerianas?&lt;br /&gt;            Pior ainda, a atitude dos governantes que acreditam que a história da humanidade começou com eles e se esquecem de que a cultura e tudo que se lhe adere, inclusive a economia e o pensamento futuro, decorrem de um processo que vem sendo elaborado pedra a pedra, tijolo a tijolo, argamassa a argamassa desde o aparecimento do homem nos confins do mundo. Aliás, o pensamento futuro é o menos cultivado pelos administradores eleitos unicamente para este fim, pois, em um País das dimensões desses brasis, é inadmissível a inexistência de linhas férreas cortando-o em todas as direções, a fim de encurtar os caminhos com a rapidez e a economia necessárias à modernidade. Mas, corremos o perigo de as obras iniciadas por um governo não prosseguirem em outro, até mesmo coligado ao anterior, ou de extrema confiança, uma vez que os Lúcifer, os Judas, os Brutus, os Talleyrand Périgord,  os Calabar, no meio político, constituem uma peste, pior que aquela retratada por Camus em romance homônimo.&lt;br /&gt;            Em Goiás, estado pleno de idéias e de ações criativas, manifestas na literatura, no teatro, nas artes plásticas, na música, inclusive aquela de mau-gosto, criada e mantida pela mídia televisiva, rádio-difundida e até na propaganda, as coisas, infelizmente, não são diferentes, como se as artes tivessem partido, fossem apenas reflexo de uma pessoa ou de um partido político. O clássico exemplo foi constatado no teatro inacabado, em que a própria denominação revelou o quão pobres eram as pessoas que poderiam ter trabalhado para o culto à arte dramática. E o Centro Cultural Oscar Niemayer, monumento e revelação de uma vontade política que poderia agregar, em um só local, todas as artes goyazes, por que se encontra às moscas e seus sinais fecálitos pelos vitrais e paredes que deveriam abrigar os mitos, os rituais e os ritos das artes? Por que a peste dos Aldrich Ames, dos Pinochet impossibilita aos artistas revelarem ao povo, notadamente, o que tem acesso ao belo e, em conseqüência, possui os graus necessários de cultura para captá-lo e entendê-lo como ele se manifesta desde as mais remotas criações empreendidas pela inteligência humana?&lt;br /&gt;            A verdade, no entanto, é que há governantes que se inscrevem e se cristalizam na História pelo apoio e pelo incentivo às realizações estéticas de todas as fôrmas e formas de repetição do ato divino de criar. Outros, por serem pequenos, míopes, daltônicos e enxergarem-se no tempo apenas pela frincha distorcida das idéias minúsculas e anêmicas da insensatez e, pior, por preferirem atingir um homem em detrimento dos homens, um ser em detrimento dos seres. O Centro Cultural Oscar Niemayer precisa funcionar, precisa exercer os objetivos por que fora construído! É dever e obrigação do Estado! É a continuidade necessária, independente de partido e ideologia, de gratidão e deslealdade, de fidelidade e traição... Miserere nobis et artibus, Domine!                          &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras.&lt;br /&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 23-3-2010, p. 10.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-4108382577021942908?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/4108382577021942908/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/acoes-e-atos-culturais-sempre-jose_4385.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4108382577021942908'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4108382577021942908'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/acoes-e-atos-culturais-sempre-jose_4385.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-808949630079191590</id><published>2010-03-23T08:44:00.000-07:00</published><updated>2010-03-23T08:46:00.907-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            AÇÕES E ATOS CULTURAIS, SEMPRE!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                           José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Os políticos são eleitos pelo povo para administrarem a cidade, o estado, independentemente de partidos, de ideologias, como reza o significado do termo grego “politikós”. Este é o princípio por que pauta o governo da polis desde a antiguidade. Se isso não acontecesse, não teríamos obras marcantes da cultura arquitetônica, inclusive da pré-história, como os dolmens, os menires, as cavernas. Não teriam ficado para nosso deleite inúmeras edificações, tipo panteão, pirâmides, muralhas da China... Se os políticos e religiosos não imprimissem continuidade às construções iniciadas por inúmeros administradores, não teríamos as belas catedrais da Idade Média, construídas durante centenas de anos; não teríamos os coliseus de Arles e Nimes; a petra, da Jordânia, os monumentos de Machu Picchu, o Taj Mahal, o Cristo Redentor. No campo político, no Brasil, infelizmente a maioria dos governantes não valorizam e não continuam as obras de seus antecessores. Em decorrência, o povo não venera as raízes culturais cristalizadas no tempo e pelo tempo nos templos das artes. Imagino que, se os menires aqui estivessem já teriam se transformado em britas; os dolmens, então, coitados, que seria deles?&lt;br /&gt;            Brasília, por exemplo, se Juscelino não a houvesse construído toda em seu governo e inaugurado, operando a conseqüente transferência da capital, poderia não ter se convertido em cidade. Mesmo assim, governos nada sensíveis aos caracteres das artes modernas deformaram-na e transformaram-na naqueles monstros pintados por Giuseppe Arcimboldi em estilo maneirista. Basta verificar os famosos anexos aos ministérios, erguidos sem o cuidado do estilo, das linhas e pontos iniciados por Niemayer, Lúcio Costa, Joffre Parada... E os bairros, tipo Samambaia, criados pelo maldito interesse eleitoreiro de um cego do belo, da estética das curvas niemayerianas?&lt;br /&gt;            Pior ainda, a atitude dos governantes que acreditam que a história da humanidade começou com eles e se esquecem de que a cultura e tudo que se lhe adere, inclusive a economia e o pensamento futuro, decorrem de um processo que vem sendo elaborado pedra a pedra, tijolo a tijolo, argamassa a argamassa desde o aparecimento do homem nos confins do mundo. Aliás, o pensamento futuro é o menos cultivado pelos administradores eleitos unicamente para este fim, pois, em um País das dimensões desses brasis, é inadmissível a inexistência de linhas férreas cortando-o em todas as direções, a fim de encurtar os caminhos com a rapidez e a economia necessárias à modernidade. Mas, corremos o perigo de as obras iniciadas por um governo não prosseguirem em outro, até mesmo coligado ao anterior, ou de extrema confiança, uma vez que os Lúcifer, os Judas, os Brutus, os Talleyrand Périgord,  os Calabar, no meio político, constituem uma peste, pior que aquela retratada por Camus em romance homônimo.&lt;br /&gt;            Em Goiás, estado pleno de idéias e de ações criativas, manifestas na literatura, no teatro, nas artes plásticas, na música, inclusive aquela de mau-gosto, criada e mantida pela mídia televisiva, rádio-difundida e até na propaganda, as coisas, infelizmente, não são diferentes, como se as artes tivessem partido, fossem apenas reflexo de uma pessoa ou de um partido político. O clássico exemplo foi constatado no teatro inacabado, em que a própria denominação revelou o quão pobres eram as pessoas que poderiam ter trabalhado para o culto à arte dramática. E o Centro Cultural Oscar Niemayer, monumento e revelação de uma vontade política que poderia agregar, em um só local, todas as artes goyazes, por que se encontra às moscas e seus sinais fecálitos pelos vitrais e paredes que deveriam abrigar os mitos, os rituais e os ritos das artes? Por que a peste dos Aldrich Ames, dos Pinochet impossibilita aos artistas revelarem ao povo, notadamente, o que tem acesso ao belo e, em conseqüência, possui os graus necessários de cultura para captá-lo e entendê-lo como ele se manifesta desde as mais remotas criações empreendidas pela inteligência humana?&lt;br /&gt;            A verdade, no entanto, é que há governantes que se inscrevem e se cristalizam na História pelo apoio e pelo incentivo às realizações estéticas de todas as fôrmas e formas de repetição do ato divino de criar. Outros, por serem pequenos, míopes, daltônicos e enxergarem-se no tempo apenas pela frincha distorcida das idéias minúsculas e anêmicas da insensatez e, pior, por preferirem atingir um homem em detrimento dos homens, um ser em detrimento dos seres. O Centro Cultural Oscar Niemayer precisa funcionar, precisa exercer os objetivos por que fora construído! É dever e obrigação do Estado! É a continuidade necessária, independente de partido e ideologia, de gratidão e deslealdade, de fidelidade e traição... Miserere nobis et artibus, Domine!                          &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 23-3-2010, p. 10.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-808949630079191590?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/808949630079191590/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/acoes-e-atos-culturais-sempre-jose_23.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/808949630079191590'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/808949630079191590'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/acoes-e-atos-culturais-sempre-jose_23.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-7292510056974659269</id><published>2010-03-23T05:05:00.000-07:00</published><updated>2010-03-23T05:06:59.164-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            AÇÕES E ATOS CULTURAIS, SEMPRE!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                           José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Os políticos são eleitos pelo povo para administrarem a cidade, o estado, independentemente de partidos, de ideologias, como reza o significado do termo grego “politikós”. Este é o princípio por que pauta o governo da polis desde a antiguidade. Se isso não acontecesse, não teríamos obras marcantes da cultura arquitetônica, inclusive da pré-história, como os dolmens, os menires, as cavernas. Não teriam ficado para nosso deleite inúmeras edificações, tipo panteão, pirâmides, muralhas da China... Se os políticos e religiosos não imprimissem continuidade às construções iniciadas por inúmeros administradores, não teríamos as belas catedrais da Idade Média, construídas durante centenas de anos; não teríamos os coliseus de Arles e Nimes; a petra, da Jordânia, os monumentos de Machu Picchu, o Taj Mahal, o Cristo Redentor. No campo político, no Brasil, infelizmente a maioria dos governantes não valorizam e não continuam as obras de seus antecessores. Em decorrência, o povo não venera as raízes culturais cristalizadas no tempo e pelo tempo nos templos das artes. Imagino que, se os menires aqui estivessem já teriam se transformado em britas; os dolmens, então, coitados, que seria deles?&lt;br /&gt;            Brasília, por exemplo, se Juscelino não a houvesse construído toda em seu governo e inaugurado, operando a conseqüente transferência da capital, poderia não ter se convertido em cidade. Mesmo assim, governos nada sensíveis aos caracteres das artes modernas deformaram-na e transformaram-na naqueles monstros pintados por Giuseppe Arcimboldi em estilo maneirista. Basta verificar os famosos anexos aos ministérios, erguidos sem o cuidado do estilo, das linhas e pontos iniciados por Niemayer, Lúcio Costa, Joffre Parada... E os bairros, tipo Samambaia, criados pelo maldito interesse eleitoreiro de um cego do belo, da estética das curvas niemayerianas?&lt;br /&gt;            Pior ainda, a atitude dos governantes que acreditam que a história da humanidade começou com eles e se esquecem de que a cultura e tudo que se lhe adere, inclusive a economia e o pensamento futuro, decorrem de um processo que vem sendo elaborado pedra a pedra, tijolo a tijolo, argamassa a argamassa desde o aparecimento do homem nos confins do mundo. Aliás, o pensamento futuro é o menos cultivado pelos administradores eleitos unicamente para este fim, pois, em um País das dimensões desses brasis, é inadmissível a inexistência de linhas férreas cortando-o em todas as direções, a fim de encurtar os caminhos com a rapidez e a economia necessárias à modernidade. Mas, corremos o perigo de as obras iniciadas por um governo não prosseguirem em outro, até mesmo coligado ao anterior, ou de extrema confiança, uma vez que os Lúcifer, os Judas, os Brutus, os Talleyrand Périgord,  os Calabar, no meio político, constituem uma peste, pior que aquela retratada por Camus em romance homônimo.&lt;br /&gt;            Em Goiás, estado pleno de idéias e de ações criativas, manifestas na literatura, no teatro, nas artes plásticas, na música, inclusive aquela de mau-gosto, criada e mantida pela mídia televisiva, rádio-difundida e até na propaganda, as coisas, infelizmente, não são diferentes, como se as artes tivessem partido, fossem apenas reflexo de uma pessoa ou de um partido político. O clássico exemplo foi constatado no teatro inacabado, em que a própria denominação revelou o quão pobres eram as pessoas que poderiam ter trabalhado para o culto à arte dramática. E o Centro Cultural Oscar Niemayer, monumento e revelação de uma vontade política que poderia agregar, em um só local, todas as artes goyazes, por que se encontra às moscas e seus sinais fecálitos pelos vitrais e paredes que deveriam abrigar os mitos, os rituais e os ritos das artes? Por que a peste dos Aldrich Ames, dos Pinochet impossibilita aos artistas revelarem ao povo, notadamente, o que tem acesso ao belo e, em conseqüência, possui os graus necessários de cultura para captá-lo e entendê-lo como ele se manifesta desde as mais remotas criações empreendidas pela inteligência humana?&lt;br /&gt;            A verdade, no entanto, é que há governantes que se inscrevem e se cristalizam na História pelo apoio e pelo incentivo às realizações estéticas de todas as fôrmas e formas de repetição do ato divino de criar. Outros, por serem pequenos, míopes, daltônicos e enxergarem-se no tempo apenas pela frincha distorcida das idéias minúsculas e anêmicas da insensatez e, pior, por preferirem atingir um homem em detrimento dos homens, um ser em detrimento dos seres. O Centro Cultural Oscar Niemayer precisa funcionar, precisa exercer os objetivos por que fora construído! É dever e obrigação do Estado! É a continuidade necessária, independente de partido e ideologia, de gratidão e deslealdade, de fidelidade e traição... Miserere nobis et artibus, Domine!                          &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 23-4-2010, p. 19.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-7292510056974659269?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/7292510056974659269/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/acoes-e-atos-culturais-sempre-jose.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/7292510056974659269'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/7292510056974659269'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/acoes-e-atos-culturais-sempre-jose.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-7902002629891826673</id><published>2010-03-17T13:24:00.000-07:00</published><updated>2010-03-17T13:28:43.204-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>MEMÓRIA E CULTURA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                           José Fernandes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Como seria a história do pensamento ocidental, se não houvessem preservado as obras de Heráclito, Platão, Aristóteles, Sêneca, Cícero? A poesia épica, sem Homero e Virgílio? A poesia lírica, sem Anacreonte, Safo, Píndaro, Teócrito, Virgílio, Horácio? A dramaturgia, sem Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Menandro, Aristófanes, Plauto, Terêncio, Sêneca? E as inúmeras obras de arte, notadamente, esculturas, como seria o mundo sem elas? Teríamos, como ocorreu durante o renascimento, todas as transformações verificadas nas ciências, notadamente na física, na astronomia, na geociência? E as influências da metafísica aristotélica na filosofia e, especialmente, na teologia, não existiriam. Toda a evolução observada nestes dois campos essenciais do pensamento, impossível ter acontecido. As artes, todas, não teriam passado pela explosão criativa e formal por que passou. Impossível imaginar a humanidade sem as fontes cultuais greco-latinas. O que seria de Dante, Ariosto, Camões, Milton, sem as epopéias greco-latinas? E Shakespeare, Goethe, Molière, Corneille, Racine, sem o teatro da antiguidade? E Michelangelo, Da Vinci, Bernini, sem a escultura grega? Até mesmo escritores da modernidade, como Samuel Becket, Jean Anuille, Chico Buarque, como fariam as intertextualizações necessárias para a instalação da ironia, da sátira necessárias às críticas às insanidades humanas do novecentos? Nada disso teria existido, porque só renasce o que deixou vivas sementes.&lt;br /&gt;            Infelizmente, entre nós, brasileiros, as bases da cultura, da identidade do povo são consideradas velharias, inutilidades que, muitas vezes, são destruídas, colocadas no lixo, enquanto em outros países são objetos de luxo, como se verifica às visitações feitas ao Louvre, ao Prado, ao Vaticano, só para enumerar alguns museus. Se algum louco, destes que vivem o letes cultural, aventurar-se a denegri-las, como ocorreu à Fontana de Trevi, ou à Gioconda, é imediatamente excluído do convívio com as manifestações do sublime produzido por algum humano mais próximo do divino. Aqui, obras de arte são raptadas e vendidas a colecionadores, sem que nada aconteça; insanos as destroem mediante a maldita pichação; outros, mediante potentes marretas, e eles nunca são encontrados para pagarem o preço por se distanciarem dos fascinantes feitiços inerentes ao belo. O desprezo a documentos, matéria e essência de história, de povo e de nação, é alarmante, sobretudo se considerarmos que há pessoas que dirigem instituições públicas, que não tem noção do significado de determinadas informações para a construção do futuro, sempre fincando em alicerces pretéritos.&lt;br /&gt;            Para se ter uma idéia da travessia diária das instituições públicas pelo Letes, rio do esquecimento, basta verificar a fundação de Brasília, ocorrida ontem, se comparada com cidades e monumentos de outros espaços habitados por humanos, acostumados à cristalização dos fatos pela memória escrita em telas, pedras, papiros e celuloses. Brasília completa meio século, e vejo a dificuldade de pesquisadores para conseguirem material para se registrarem detalhes de sua elevação em meio ao planalto central. Sequer aquele que anteviu a cidade no mapa, Joffre Parada, possui dados registrados na instituição em que trabalhou. Quando as pesquisadoras brasilienses, Nina Tubino e Tânia Gomes, me disseram que iriam à Faculdade de Engenharia da UFG, antes de irem à Casa de Cultura Altamiro de Moura Pacheco, pensei logo que iriam perder tempo; mas com a esperança de que estivesse errado, de que se tratasse apenas de uma má impressão que tivera quando um amigo português viera pesquisar sobre Bernardo Élis, escritor e professor da UFG, morto bem mais recentemente. Infelizmente, também nada encontraram sobre a figura tão importante do engenheiro que tivera seu mapa apossado por um colega carioca nada escrupuloso. Felizmente, José Mendonça Teles instara com Dr. Altamiro para doar sua casa à Academia Goiana de Letras, a fim de que sua maravilhosa biblioteca e os inúmeros documentos lá existentes fossem devidamente preservados. Se isso não ocorresse, como encontrariam o mapa com a assinatura de Jofre, a fim de cotejá-lo com o outro, falsificado? Onde estariam os preciosos recortes de jornal, cartas e bilhetes do Presidente Juscelino ao desprendido Altamiro, imprescindíveis à memória da capital da República?&lt;br /&gt;            Realizou-se, quinta-feira, dia onze, uma sessão de homenagem aos cento e quatorze anos de nascimento desse homem importantíssimo para a história de Brasília e que tanto fez para Goiás e os goianos, desse homem que efetuou tantas doações a órgãos federais, estaduais, municipais e a instituições goiazes. A minha grande pergunta, entretanto, se deve às dificuldades enfrentadas pela Academia para preservar aqueles livros e documentos que necessitam ser digitalizados para não se diluírem em decorrência do manuseio efetuado pelos pesquisadores. Se os governos e os órgãos beneficiados com suas doações e outros atos de desprendimento e de visão histórica, como a Infraero, a SGPA, tivessem memória cultural e, também, gratidão, certamente a diretoria da Casa de Cultura Altamiro de Moura Pacheco não precisaria mendigar verbas para realizar todos os procedimentos necessários à conservação do acervo cultural nela existente. É preocupante saber que o futuro cobrará caro de quem poderia fazer para cristalizar a cultura e não o fez. Do mesmo modo, sentir-se-á gratificado, como o sentimos, hoje, com gregos, latinos e franceses que cultuam o passado, imprescindível à construção do presente. Adjuva nos, Domine!                        &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã no dia 17-3-2010.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-7902002629891826673?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/7902002629891826673/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/memoria-e-cultura-jose-fernandes-como.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/7902002629891826673'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/7902002629891826673'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/memoria-e-cultura-jose-fernandes-como.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-4792953458409757219</id><published>2010-03-09T03:04:00.000-08:00</published><updated>2010-03-09T03:05:40.208-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            CULTURA E PROVINCIANISMO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                      &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Quando vim para Goiânia já conhecia uma vintena de escritores goiazes, movido pela necessidade profissional que, segundo eu imaginava, obrigava-me a conhecer realmente a literatura brasileira. Felizmente, ainda não havia a cruel enfermidade das linhas de pesquisa, responsáveis pela formação de conhecimentos encasulados e de profissionais míopes, daltônicos que enxergam a literatura como um ponto cego, de onde não se irradia a criatividade e transforma tudo em gatos noturnos. Talvez haja professores nas universidades de Goiás que vêem os escritores goianos apenas como gatos pardos ou, movidos pelo desconhecimento do que se faz ao seu redor, estejam sofrendo de cegueira múltipla e, em decorrência, de esclerose, também múltipla. Por isso, encerram-se em um quarto escuro à procura de uma cartola preta que não está lá. Preferem, portanto, quartos e cartolas de outras cavernas platônicas aos signos, sinais e símbolos do mundo real em que vivem.&lt;br /&gt;            Não gosto de criticar colega algum; mas como minha primeira experiência na UFG foi extremamente frustrante, pois eu imaginava que os estudantes de letras conhecessem obras produzidas nos gerais sertões zebebelinos; mas isso não acontecia. Depois de um interregno auspicioso, em que se fizeram seminários sobre a literatura goiana, tudo volta como era antes no quartel Abrantes, e minha decepção se acentua. Infelizmente, há professores que sofrem de xenofilia: só valorizam o que é de fora. Eu mesmo, quando cheguei aqui, fui recebido regiamente pelos colegas, que me faziam sentir útil, reconhecido; não sei se pela necessidade de alguém que conseguisse sustentar o mestrado ou se porque viera dos longe próximos matos-grossos. O fato é que, depois que me tornei goianiense e goiano, com coragem para defender a literatura, a música clássica e a popular – a sertaneja, não, porque é o supra-sumo da quintessência do mau gosto – que aqui se cria e recria, perdi os desvelos dos xenófilos.&lt;br /&gt;            Mas o fato é que, ao chegar à sala de aula, conhecendo José J. Veiga como conhecia, pois fizera minha dissertação de mestrado sobre ele, além de analisar “Sombras de reis barbudos” em minha tese de doutorado, verificar que ninguém sequer ouvira falar em seu nome, como ocorrera também com os destacados Gilberto, Bariani, Bernardo, Eli, Afonso, José, Hugo, Yêda, Brasigóis, Ursulino, José Godoy, Rosarita, Miguel, Heleno..., fiquei estarrecido. Perguntava-me: será que estou mesmo em uma universidade situada em Goiás, que tem este nome substantivo, em uma universidade que visa a preservar e a cultivar o saber em todas as suas esferas, assoberbando as inteligências goianas? Trinta anos se passaram e pouca coisa mudou. Pouca, porque, pelos menos estão começando a cumprir a lei Ursulino Leão, que obriga o ensino da literatura goiana nas escolas. Mas, a universidade desconhecer o que aqui se produz, deixa-me intrigado. Pior, horripila-me o desprezo dispensado às letras, à música clássica, à pintura, às artes plásticas que aqui se fazem.      &lt;br /&gt;            Vasculhando as listas de livros para os vestibulares, observei que há universidades de determinados estados, e não são poucas, que privilegiam os escritores locais, tão bons quanto os de Goiás. Figuram quatro ou cinco autores do estado entre os escolhidos. Outras, uma meia dúzia, mais voltadas para o presente, à medida que é ele que alicerça o futuro, preferem apenas escribas do próprio estado. Algumas, ainda, os seleciona apenas dentro da região a que a universidade se circunscreve. Em Goiás, além de a UFG manifestar claro espírito provinciano, clara adesão ao “In patria natus nemo est propheta vocatus”, e, em decorrência, “Nemo propheta in patria sua acceptus est”, ainda disseminou este daimon maligno pela UEG e outras instituições de ensino goianas; mas não realmente goiazes. As universidades que carregam o nome de Goiás ou de seus municípios, tem de ser instituições genitivas – com significado de “natural”, “que gera”, funções do complemento nominal, e, não, dativas, como o são algumas particulares instaladas há pouco entre nós, que desconhecem e menosprezam nossos valores culturais, pois interessa-lhes apenas o lucro, sacado aos alunos e aos irrisórios salários dos docentes. Nada investem em conhecimento e, em conseqüência, nada produzem e, às vezes, até impedem de criar cultura, como se o globo cultural não se compusesse do que se arranca ao imaginário típico de cada região.&lt;br /&gt;            As universidades que levam no nome Goiás precisam repensar a sua goianidade. Não negamos que elas sejam “universitas”; mas não podemos nos esquecer de que a “universitas” existe à medida que o regional se aprimora, se desenvolve, para dar sustentabilidade ao mundial, ao global. Se não houver este culto ao profeta local – muitos tão bons quanto os endeusados de outras plagas –, realmente o mega lançamento do próximo dia dezoito, caro Aidenor, deveria ocorrer no aterro sanitário, a fim de estercar as culturas daqueles que pensam apenas com o estômago ou com os... Ajudai-nos, Deus das palavras permanentes, pois sois Verbo e Inteligência desde os fundos tempos!          &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 9-3-2010, p. 5.     &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-4792953458409757219?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/4792953458409757219/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/cultura-e-provincianismo-quando-vim.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4792953458409757219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/4792953458409757219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/cultura-e-provincianismo-quando-vim.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-1555410596801024809</id><published>2010-03-08T06:36:00.000-08:00</published><updated>2010-03-08T06:39:51.697-08:00</updated><title type='text'>HOMENAGEM AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER</title><content type='html'>AMOR EM BRAILE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                            A todas as mulheres que pungem o amor e seus sinais&lt;br /&gt;                            de evas, maçãs e árvores na eterna idade de homem e paraíso.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dai-me uma punção com seu bico&lt;br /&gt;e seus sinais de árvore. Com ela iluminarei&lt;br /&gt;a noite e a mulher com seu traje&lt;br /&gt;de Eva e maçã. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dai-me uma folha e bicarei a mulher.&lt;br /&gt;Seus olhos verdes beijarei, a rosa pequena&lt;br /&gt;do sorriso vermelho abrasando o momento.&lt;br /&gt;Folha quase invisível, mas com a marca&lt;br /&gt;da reglete nos seios, com o signo lúbrico&lt;br /&gt;do ciúme  na boca. Seus olhos verdes, beijarei&lt;br /&gt;e iluminarei a noite com seus trajes de árvore.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criar? Eternamente criar na folha&lt;br /&gt;sinais de árvore e serpentes. Descansar o sol...&lt;br /&gt;Uma mulher, com quem beberei o verde&lt;br /&gt;e sorverei os olhos no leito da folha&lt;br /&gt;para atravessar a ave e seu grito matutino&lt;br /&gt;e os olhos com seus raios de nuvem. Molhar o verde&lt;br /&gt;palpitante de água acessível e casta&lt;br /&gt;no paraíso e suas serpentes a comerem a maçã&lt;br /&gt;e sua eva com bicadas de pecado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A folha arderá sua punção sobre a árvore&lt;br /&gt;presa por flores e beijos verdes de água marinha!&lt;br /&gt;Ah! Em cada trocarte há uma mulher abrasando&lt;br /&gt;o sinal, enquanto o beijo navega o verde sob os olhos.&lt;br /&gt;Busco os olhos no sinal e no espelho da prancheta&lt;br /&gt;que me olha da fundura da mulher. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poema publicado no livro 50 poemas escolhidos pelo autor. Rio de Janeiro: Galo Branco, 2009.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-1555410596801024809?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/1555410596801024809/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/homenagem-ao-dia-internacional-da.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1555410596801024809'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1555410596801024809'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/homenagem-ao-dia-internacional-da.html' title='HOMENAGEM AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER'/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-8296061326242966512</id><published>2010-03-02T03:38:00.001-08:00</published><updated>2010-03-02T03:40:04.755-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            ANIMAIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;            Sempre ouvi dizer que conversa de salão gira sempre em torno de futilidades, ao ponto de haver até as chamadas piadas de salão, geralmente caracterizadas pela simplicidade e mau-gosto. Mas, como toda regra tem exceções, mesmo raras, hoje, à passagem de um veículo engenhado com infernal equipamento de som, Sebastião disparou:&lt;br /&gt;– Esse povo de hoje está surdo antes do tempo! Onde já se viu uma desgraça dessas! Ninguém mais ouve o canto dos pássaros, não ouve a sinfonia das águas; não aprecia o silêncio!&lt;br /&gt;– O senhor tem razão, papai, disse Luciana! As pessoas, hoje, não conversam consigo mesmas. Não mergulham no próprio eu, só ouvido nas cavernas do silêncio. Elas só têm casca. O cerne, construído nas falas mudas das viagens às sombras do iu, do ego, naquela concepção egípcia dos hieróglifos, depois adotada pelos existencialistas, não existe!&lt;br /&gt; – Os animais estão emigrando para a cidade, seu Sebastião. Os sabiás estão cantando nas árvores das praças, dos quintais citadinos. Os canários cabeça-de-fogo também lhes fazem coro juntamente com os bem-te-vis. Até juriti está correndo dos agrotóxicos; mas ninguém os vê, nem os ouve, ninguém vive a natureza. Só querem saber de tecnologia, de ruído, de barulho, como este animal que passou por aqui há pouco. &lt;br /&gt;– Mas, isso só está acontecendo depois que foram criadas leis protegendo o meio-ambiente. Lá na Embrapa há seriemas que vêm comer milho perto da cozinha, na mão do funcionário. E olha que elas eram extremamente ariscas.&lt;br /&gt;– Na minha casa, seu Darcy, há ninhos de beija-flores e canarinhos por todos os beirais da casa. Dia desses, um casal de galo-da-campina fez um ninho na mangueira que me deixou admirado pela engenharia empregada pelos bichinhos. Fiquei me perguntando: como puderam enrolar o fio pelo galho afora, a fim de que ele sustentasse toda a estrutura, considerando a fragilidade das palhas e o peso da galinha e seus filhotes? Era uma obra de engenho e arte. Além disso, dezenas de rolinhas e pássaros pretos também fazem ninho pelas árvores e beiral da casa. É a vida se multiplicando em panta rei, brigando contra a extinção das espécies.    &lt;br /&gt;– Os animais estão aprendendo a conviver com os homens, Hegião!&lt;br /&gt;– Pelo contrário, seu Leo, são os homens que estão começando a aprender a conviver com os animais! Desapareceram os malditos estilingues com que os meninos os infernizavam e, muitas vezes, lhes tiravam a vida. Imagina você que a meninada brincava de mira em tizius, rolinhas, canários, papa-capins. Até porfiavam, para verem quem tinha melhor pontaria. Depois, vieram as certeiras e poderosas espingardinhas de pressão, com chumbinho e tudo, a fim de, indiscriminadamente, ceifar a vida aos pássaros e a outros animais silvestres. Havia, também, os assassinos profissionais que caçavam só para verem os animais rodopiarem ao receberem balaços pela testa, como vi muitos treinando pontaria no meio dos olhos dos jacarés.&lt;br /&gt;– O senhor parece um homem estudado, Hegião! Realmente, são os homens que estão aprendendo a conviver com os animais; mas falta muito aprendizado ainda, para termos uma perfeita harmonia. Com freqüência se vêem e se ouvem noticias relacionadas à apreensão de animais silvestres, mormente pássaros, aprisionados unicamente para atender ao egoísmo humano. Eu mesma vi, em um apartamento, várias gaiolas com sabiás, curiós, canarinhos e gaturamos. Compunham um verdadeiro coral que me soava a réquiem, pois cantavam mais ou menos como a Sinfonia Herman und Dorothea, em que Schumann intertextualiza a “ Marselhesa”, a fim de advertir os alemães da necessária liberdade conquistada pelos franceses. Mas, o grito da araponga, também parte daquele “ornitófilo” – o melhor seria ornitófobo – soava como o quadro de Edward Munch: era o próprio desespero.&lt;br /&gt;– Pois é, Nazareth, a prova maior de que os homens mal começam a conviver pacificamente com os animais, pode ser percebida pelas notícias de pescas predatórias, de caças insanas, feitas unicamente pelo desejo mórbido do sangue, como se os caçadores fossem vampiros. Qual animal caça os humanos apenas pelo insólito prazer da morte? Já viu algum, seu Leo? Sequer os leões, os tigres, as hienas ou os leopardos praticam este tipo de maldade!&lt;br /&gt;– Eh! O senhor está certo, seu Hegião, são os homens que têm de se acostumar com os animais!  Nós somos os verdadeiros bichos!&lt;br /&gt;– Eh! Hegião, instiguei-o por causa do barulho daquele irracional e vi que o senhor sabe das coisas. Fomos longe. Foi um prazer imenso conhecê-lo!&lt;br /&gt;– Igualmente, seu Sebastião! E que Deus tenha misericórdia de nós e nos ensine a preservar e a multiplicar a vida! &lt;br /&gt;   Crônica publicada no jornal Dário da Manhã do dia 2-3-2010, p. 10. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-8296061326242966512?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/8296061326242966512/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/animais-sempre-ouvi-dizer-que-conversa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/8296061326242966512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/8296061326242966512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/03/animais-sempre-ouvi-dizer-que-conversa.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-7175367063838058824</id><published>2010-02-23T02:34:00.000-08:00</published><updated>2010-02-23T02:39:17.555-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;             INGRATIDÃO&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Se há uma atitude humana que irrita Ângelo Bello, é a ingratidão. Julga-a própria de pessoas desalmadas e, provavelmente, também mal amadas e mal armadas. Dia desses, ficou estarrecido ao ouvir alguém ir longe demais: fazer apologia da deslealdade, uma face diabólica da ingratidão. Sempre teve certeza de que a humanidade se encontra em processo de decadência; mas jamais esperou que ela chegasse a estes extremos. Foi aí que, em conversa com Epistêmio, começou a analisar fatos históricos a fim de verificar se ela tem se acentuado nos últimos tempos ou se é realmente uma parte dos limites que o homem carrega desde que lambuzou a árvore de pecado.&lt;br /&gt;– A gratidão, para mim, confunde-se com a amizade. Uma existe à medida que a outra existe. Como não existe meio amigo, também não existe meia gratidão. Não é sem motivo que no grego antigo, língua formada mediante um processo quase matemático, amizade e amor são uma mesma palavra: “filia”, substantivo feminino, derivada de “filos”, amigo. Os gregos iam mais longe, em termos lingüísticos, pois possuíam seis vocábulos para designar o nosso, atual, pobre amor, exatamente pelos diferentes modos por que ele se mostra. Para se ter uma idéia da profundidade semântica de gratidão, ela conforma um vocábulo extremamente importante na liturgia cristã: a eucaristia que, em grego, é “eukaristikos”, com o significado de gratamente e gratidão, é exatamente “eukaristia”. Ora, a “akaristia”, a ingratidão, segundo o pensamento grego, contraria o maior ato de amor, ato de amizade devotado ao ser humano: a transubstanciação eucarística, operada no ritual da consagração, quando o sacerdote repete o rito criado pelo Cristo.&lt;br /&gt;– O senhor foi fundo, seu Ângelo! A ingratidão, a deslealdade, segundo a semântica de “akaristia”, corresponde àquela ação praticada por Judas que cumpriu o destino trágico que lhe fora designado por Deus desde as funduras do tempo. O ingrato conforme sua concepção é pior que o Judas, porque tem consciência de sua maldade, enquanto o traidor é apenas uma personagem conformada à moira, responsável pela instauração e pelo desencadeamento do trágico de que Cristo é representante por excelência, à medida que ele, ao contrário dos heróis das tragédias, sabia de tudo que lhe aconteceria.&lt;br /&gt;– É exatamente o que penso, pois a prática da ingratidão, hoje comum em todas as esferas da sociedade, até em instituições em que ela seria incompreensível, dado o suposto grau de inteligência de seus participes, é abominável. Ela reflete a gana de poder, câncer encontrado em todos os níveis sociais, notadamente o político, como se observa, já na antiguidade, com o assassinato de Júlio César, pelo ingrato Brutus, ao ponto de o imperador, estarrecido, interrogar: “Tu quoque, Brute, fili mi?” “Até tu, Brutus, meu filho?”&lt;br /&gt;– Concordo, inteiro, com sua preocupação e, sobretudo, com o seus argumentos, seu Ângelo! Há um poema de um poeta amigo meu, chamado “Ingratidão”, a que sempre leio, quando me sinto injustiçado, ou melhor, vítima de algum tipo de deslealdade. Embora, ela me choque mais quando a vejo em prática contra algum amigo, pois eu também entendo a gratidão como “eukaristia”. Mas, gostaria que o senhor ouvisse o poema: “A ingratidão sempre bateu à minha porta./Bateu à porta nada. Entra em minha casa,/sem pedir licença, lê meus livros, come/em meu prato, põe mau-olhado em tudo./Os marimbondos que o digam: ouriçam-se,/saem da caixa; mas nada podem fazer.//A ingratidão é o meu Judas Iscariotes./Pensei que se houvesse enforcado pelas barbas,/ou tivesse sido comida pelas piranhas,/ou tivesse se mudado em três pontinhos e reticências...//Pensei que se tivesse perdido nas águas/pantanis e se afogado nos mares xaraés,/ou se enrolado nas enfiaduras do tempo./Que nada! Ave (in)dócil, ela se mascara de serpente e entorta até o fundo do poema.//Um dia hei de empedernir o coração,/não me condoer de nada, nem acreditar/ em ninguém, muito menos em Cruela e seus “probremas”.//Que se danem as bolsas, as balsas,/as palavras torpes e tortas,/as vírgulas prostitutas,/os degenerados dois pontos.”&lt;br /&gt;– Eh! Epistêmio, estamos vivendo um tempo de Judas! Judas, no trabalho; Judas, na política; Judas, nos clubes; Judas, nas associações; Judas, nos...; Judas, nas....&lt;br /&gt;– O pior é que, enquanto a lealdade aumenta em progressão aritmética; a deslealdade o faz em progressão geométrica.&lt;br /&gt;– Essa coisa só vai terminar quando desaparecer o último homem da face da terra! Até o Cristo foi vítima dela!... O que mais poderemos dizer se não “Miserere nobis, Domine”, pois és amor, és gratidão, és eucaristia, sem necessitares de ser, e experimentas a ingratidão e a deslealdade desde criaste a humanidade!   &lt;br /&gt; Crônica publicada no jornal Diário da Manhã do dia 23-2-2010, p.7.&lt;br /&gt;    &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-7175367063838058824?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/7175367063838058824/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/02/ingratidao-se-ha-uma-atitude-humana-que.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/7175367063838058824'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/7175367063838058824'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/02/ingratidao-se-ha-uma-atitude-humana-que.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-1587517318845683810</id><published>2010-02-16T04:10:00.000-08:00</published><updated>2010-02-16T04:12:43.952-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            O SAPO&lt;br /&gt;                                   José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Vinte e três horas! Cansado! Quinze aulas dadas naquele dia-noite! Manter quarenta “anjinhos” em silêncio e com as antenas ligadas ao que ele falava, não era fácil. À noite, responder às perguntas capciosas da mulher do major sobre as obras de Amando Pontes, Graciliano Ramos, Jorge Amado... Qualquer palavra mal pronunciada representaria a cabeça a prêmio no dia seguinte; mesmo sem se preocupar com qualquer ideologia que não fosse a sua carreira universitária. Dela, tinha certeza, dependeria o seu futuro e o da família iniciante.&lt;br /&gt;            Chegara à casa, finalmente. A mulher cuidava da filha, no quarto, com medo de baratas d’água e cobras voadoras. As baratas, imensas, horripilantes, eram reais. Vinham atraídas pela luz. As serpes eram criação de alguma colega de magistério que queria vê-lo longe da concorrência. Principalmente aquela que separava o sujeito do verbo por vírgula e era professora de português. Aqueles avisos aos estudantes de Letras – “Os alunos de teoria da literatura, deve ir para a sala de número quatro” –  ficavam-lhe na garganta. Como ensinaria a língua materna, se não sabia escrever? Como gozava a confiança integral da direção? Tinha de engolir as suas dúvidas, pois terminara de chegar àquelas bandas. Mesmo comendo as palavras sem mastigar, era alvo de críticas. Achavam seus métodos revolucionários. Enxergava demais. Via coisas nos poemas que não existiam! Onde já se viu aquela interpretação de “A casa”, de Vinicius de Moraes! É louco!&lt;br /&gt;            Estava exausto. Premido pelas perseguições! Ouvira um barulho de água. Correra à cozinha! Tudo em ordem. Tentou comer alguma coisa para amainar aquela dor. Afinal, jantara antes das dezoito. Jantara, não! Lanchara, porque o calor não lhe permitia trabalhar com estômago cheio. A água continuava seu chape-chape inexplicável. Subiu as escadas. Entrou no banheiro. Levantou a tampa do trono de louça. Arrepiou-se. Tremeu dos pés à cabeça. Sempre ouvira falar em feitiços, em magias negras e brancas; mas sequer pensava que houvesse quem fosse capaz de praticá-los. Imaginava-os coisas da antiguidade, como lera em um livro que os copila de papiros egípcios. Um sapo com a boca costurada tentava inutilmente sair do vaso liso. Que horror! Como viera parar ali, na patente, no segundo piso da casa? Alguém o trouxera. Mas, como entrara sem que ninguém o visse? Ou será que a magia o fizera voar ao seu destino, movido por algum espírito do mal?&lt;br /&gt;            Mil hipóteses passaram-lhe pela cabeça naquele momento. As razões daquele disparate, apesar de tudo, não lhe pareciam claras. Alguém queria amarrar-lhe o destino, ou desamarrá-lo para que limpasse a área e deixasse o campo livre para a cegueira cultural e lingüística. Que fazer, àquela hora, com aquele pobre animal? O que estaria dentro daquela boca, seguro apenas pela linha que lhe continha os lábios inchados pelo objeto mágico? Como pôr a mão naquele ser nauseabundo, em decorrência do que lhe fizera algum ente que não chegara e não chegará à condição de ser? Ouvira ou lera em algum lugar que o contato com objeto enfeitiçado pode contribuir para que ele realmente se desencadeie e afete até pessoas que nada teriam a ver com a finalidade negra da magia. Urgia que tomasse uma decisão. Quanto mais olhasse para aquela coisa mais ela lhe impregnaria as retinas e lhe tocaria a alma ainda inexperiente das maldades humanas.&lt;br /&gt;            Pensou em chamar a mulher para lhe sugerir uma atitude; mas achou que seria melhor livrá-la daquela péssima impressão do lugar e, sobretudo, das pessoas. Se as baratas e as cobras já lhe atordoavam, o que poderia acontecer ao ver aquele sapo a costurar-lhes o caminho? Depois, era forte e teria de enfrentar o feitiço sozinho. Achou melhor rezar o Credo, em latim, como aprendera no seminário, pois achava que Deus o atenderia com mais presteza e lhe ajudaria a espantar os espíritos do mal.&lt;br /&gt;            E se desse a descarga? Mas, o sapão não se entalaria na curva do vaso e tornaria as coisas ainda mais difíceis? Se o mal estava ali, à sua frente, a desafiá-lo, Deus é maior e imprimiria força à água para que ela levasse aquele pesadelo para os fundos da terra. Apertou a válvula. O jato saía com potência. Diferente do normal das vezes anteriores. O animal resistia ou era a cavidade muito estreita para tanto feitiço? Deus deveria desfazer aquela magia antes que a água da caixa terminasse. O vaso enchia e nada de o bruxedo descer. Era obrigado a pausas, a fim de que a água não inundasse todo o banheiro. Enquanto isso, não sabia como, o sapo tomava fôlego e resistia com mais ímpeto. Será que as forças do mal o estavam ajudando? Outro Credo era necessário; mas repetia, em forma de mantra, “Credo in unum Deum Patrem omnipotentem, factorem coeli et terrae...” À terceira vez, a água levou o desencanto e lavou-lhe o destino.&lt;br /&gt;            Hoje, depois de atravessar rios de todas as bandas, inclusive o Rubicão, ele fica sorrindo e pensando: “Como aquele feitiço me fez bem!” Reza, sempre: “Deo gratias et Mariae!” E lamenta a sorte do inocente sapo por ter pagado o pato!             &lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no jornal Diário da Manhã do dia 16-2-2010, p. 8 &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-1587517318845683810?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/1587517318845683810/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/02/o-sapo-jose-fernandes-vinte-e-tres.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1587517318845683810'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/1587517318845683810'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/02/o-sapo-jose-fernandes-vinte-e-tres.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-3255706449081114804</id><published>2010-02-09T13:11:00.000-08:00</published><updated>2010-02-09T13:12:42.184-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;FUGIR DA CIDADE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                               José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Adepto do “fugere urbem” criado pelos gregos e latinos, passa todo tempo possível à sombra das faias, bebendo o verde Títiro na écloga virgem de relvas e prazeres melibéicos. Números de ruídos, só para falas amigas, familiares às soleiras do templo Ceres, palco de concertos curiós canarinhos gaturamos; orquestras de água e silêncio e vôos beija-flores a bicarem sombras e mel no milagre das cores e das sementes a germinarem ventos vidas indovoltandoindo.&lt;br /&gt;Mesmo escondido no paraíso, vivendo anjos e querubins a voarem árvores ou a correrem tapetes pelos jardins edênicos, encontra-se algum diabinho queimando maldades, sufocando melodias de vozes veludosas e de violinos Mozart Beethoven ravelando o silêncio. São aqueles capetinhas prontos a serpentearem o bem, a picarem maçãs de pecado e vilania, a temperarem o éden com algumas pimentas daquele inferno das paredes nuas. &lt;br /&gt;– Me chama o João! Ele não saiu ainda?&lt;br /&gt;– Chamar, como, se ele partiu para o paraíso?&lt;br /&gt;– Partiu! Mas nem saímos ainda! Estamos esperando que ele chegue, para começarmos a viagem. Ele nunca se atrasou!&lt;br /&gt;– Estou lhe dizendo que ele partiu para o paraíso!&lt;br /&gt;– Você é o José, filho dele?&lt;br /&gt;– Sou! Por quê?&lt;br /&gt;– Você está querendo dizer que o João morreu...&lt;br /&gt;– Sim! Morreu!&lt;br /&gt;– Morreu, como, se ontem preparamos tudo para a pescaria, e ele estava ótimo, animado como nunca? O José está dizendo que o João morreu!&lt;br /&gt;– Não! Isso é brincadeira de mau gosto!&lt;br /&gt;– É o José que está falando. Você acha que um filho pode mentir que o próprio pai morreu?&lt;br /&gt;– Deixe-me falar com ele! Se ele estiver brincando, vou falar com o João para lhe dar uma boa sova. Onde já se viu uma coisa dessas! Estamos para sair; as traias prontas, e José vem estragar a nossa alegria...&lt;br /&gt;– José, que história é essa? Brincadeira tem hora!&lt;br /&gt;– Eu sei disso; mas como posso negar as evidências.... Quem me dera poder ressuscitar o meu pai! &lt;br /&gt;– O que vamos fazer agora?&lt;br /&gt;–Eu acho que o melhor é rezarmos pela sua alma! Antes, vamos decidir o que fazer da pescaria.&lt;br /&gt;– Não podemos sair agora, sem levarmos nossas condolências à família; sem participarmos do velório.&lt;br /&gt;– Se éramos amigos nos momentos de laser, nós temos de ser também neste instante de dor! Ainda mais que o João nunca mais vai pescar conosco...&lt;br /&gt;– Espera aí... Aquela camioneta não é do João?&lt;br /&gt;– É! Mas quem desceu dela foi o José! Cadê o João?&lt;br /&gt;– O pai já está vindo. Ele se lembrou de comprar um litro de Whisky! Vocês não sabem que é a bebida de que ele mais gosta?&lt;br /&gt;– Mas, antes, tenho de lhe dar um corretivo! Como que você teve a coragem de mentir pra nós que seu pai morreu?&lt;br /&gt;– Eu?! Tão ficando doidos?! Jamais faria uma coisa destas com o meu pai!&lt;br /&gt;– Está aqui o telefone... Faça o recall e ligue na sua casa!&lt;br /&gt;– Alô! Quem está falando?&lt;br /&gt;– Já lhe disse que sou o José!&lt;br /&gt;– Como, se eu sou o José e estou aqui com o pessoal à espera do meu pai que está vivinho da silva!&lt;br /&gt;– O seu amigo perguntou se o João estava. Eu lhe disse que ele atravessou a quarta margem do rio. E atravessou mesmo. Está morto, infelizmente! Acho bom você verificar o número para que seu amigo ligou, porque brincar com a dor da morte é crueldade!&lt;br /&gt;– Que número é o seu?&lt;br /&gt;– Olha o João ali... Terminou de chegar...&lt;br /&gt;– Tenho a certeza e as dores do que estou falando! Hoje faz exatamente dez anos que ele faleceu!&lt;br /&gt;– Desculpe-me! Foi engano!&lt;br /&gt;– Oh! Teócrito! Oh! Virgílio, como “fugere urbem”, hoje, e viver realmente em “locus amoenus”?! Só me resta aproveitar o momento e rezar: Requiescat in pace Domini, Joannes, pater mei! &lt;br /&gt;&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;*&lt;/a&gt; José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Crônica publicada no Jornal Diário da Manhã do dia 9-2-2010, p. 7.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-3255706449081114804?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/3255706449081114804/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/02/fugir-da-cidade-jose-fernandes-adepto.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/3255706449081114804'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/3255706449081114804'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/02/fugir-da-cidade-jose-fernandes-adepto.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-2137152314297734363</id><published>2010-02-02T02:43:00.000-08:00</published><updated>2010-02-02T02:45:02.505-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            ANTIGAMENTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                               José Fernandes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Antigamente, as crianças entendiam os lábios e os olhares dos pais e deixavam qualquer conversa ou atividade pelo meio, sem inquirirem os porquês. Qualquer deslize, cortavam um doze, até provarem que focinho de porco não é tomada. Se não se explicassem, dizia-se que se meteram em camisa de onze varas, pois, querendo ou não, chutara o balde. Para se emendarem e compreenderem bem a linguagem dos olhos e não recalcitrarem, eram obrigadas a ouvir e sentir o sibilar da vara de marmelo.&lt;br /&gt;Na roça, para os meninos não fazerem bizarria nem reinarem pela casa, sempre tinham tarefas a executar: candiar bois, recolher bagaços do engenho, juntar cana no picador, trazer o gado para o curral, separar os bezerros, arrancar guaxuma. As meninas, nada de brincarem com bonecas. Também tinham suas atividades, porque ociosidade em fazenda é coisa impensável, uma vez que labuta não falta: lavar vasilhas, arear panelas, cuidar dos bordados. Além disso, menina tinha de ter recato. Se não, poderia levar a pecha de sirigaita. Meninos e meninas se estivessem falando alto, mandava-se calarem o bico para não importunarem. Se, por acaso, intrometessem nas conversas dos mais velhos para emitirem algum parecer, dizia-se para não meterem a colher de pau onde não deviam.  &lt;br /&gt;            Antigamente, quando se adquiria um produto barato, dizia-se que o comprara por preço de bananas, pois elas custavam apenas alguns centavos a dúzia, quando não eram distribuídas de graça, tamanha a produtividade. Se alguém pedia algo emprestado, quando deveria tê-lo plantado em sua propriedade, perguntava-se: “Por acaso você mora em cima de pedra?”   &lt;br /&gt;            Quando ocorriam tempestades, a despeito de a natureza ser muito mais equilibrado do que hoje, dizia-se que chovera canivete, ou que caíra um toró, ou ainda, que São Pedro abrira as torneiras das nuvens. Se despencasse uma nuvem em algum lugar, abrindo crateras e levando tudo que houvesse pela frente, dizia-se que caíra uma tromba d’água.&lt;br /&gt;            Aos idosos e ascendentes próximos – pais, avós, tios –, crianças e adultos sempre tinham obrigação de pedir a bênção. Usar o pronome você, quando se falava com os pais, com os avós, com os tios, com os professores e até com pessoas idosas, era um desrespeito imperdoável. Quem o fizesse era chamado na chincha; estivesse onde estivesse. Quando o professor ou alguma autoridade entrasse em sala de aula, todos os alunos tinham de pôr-se em pé, imediatamente, e em absoluto silêncio. Se não cedessem o assento aos idosos ou portadores de deficiência física, eram considerados mal-educados e levavam sovas de varas para aprenderem o respeito e a deferência a quem de direito. Qualquer ação indevida era motivo para se solicitarem mil desculpas e, às vezes, pedidos de perdão, como fazem os franceses até hoje.&lt;br /&gt;            Ao se comprar a crédito, não se exigiam documentos. A loja apenas anotava o número de prestações, a data de pagamento e o endereço do cliente. Valia o fio de barba, de real substância identitária. Porém, se o fulano fosse mau; mas mau de não ter jeito, dizia-se que era o cão chupando manga.&lt;br /&gt;            Se a barra da calça não cobrisse bem os tornozelos, falava-se: sicrano usa calça de pular brejo, ou de pegar frango. Quando se praticava algum delito não muito grave, mas que chamava a atenção, notadamente porque o actante não era dado àqueles costumes, afirmava-se que ele pulara o “corguinho”.         &lt;br /&gt;            Na igreja, não se podia conversar, a não ser com Deus, a quem se devotava profunda reverência. Não se podia atravessar a nave central do templo, sem se proceder à genuflexão diante do Santíssimo Sacramento. Os padres eram chamados reverendos; os bispos, vossa excelência reverendíssima; os cardeais, vossa eminência. Adentrar à igreja com chapéu na cabeça era inadmissível, porque diante de Deus os homens tinham de prestar profundo respeito, e as mulheres deveriam cobrir a cabeça em extremada humildade.&lt;br /&gt;         Ao encontrar-se com pessoas idosas, tinha-se de cumprimentá-las, retirando o chapéu. Ao se passar por alguém à janela, ao alpendre, ou ao parapeito, o mesmo procedimento era obrigatório. Se o não fizesse, podia-se gerar até inimizade, pois este ato era considerado pouco-caso, grave afronta ao conhecido, tanto que, a este respeito, Drummond escreveu o belo poema &lt;a href="http://gustavofichter.blogspot.com/2008/02/cortesia.html"&gt;Cortesia&lt;/a&gt;: “Mil novecentos e pouco./Se passava alguém na rua/sem lhe tirar o chapéu/Seu Inacinho lá do alto/de suas cãs e fenestra/murmurava desolado/- Este mundo está perdido!/Agora que ninguém porta/ nem lembrança de chapéu/e nada mais tem sentido,/que sorte Seu Inacinho/ já ter ido para o céu.” Hoje, Poeta, o câncer de pele está fazendo o chapéu voltar; mas sem a mística dos tempos de ontem! Infelizmente! Adjuva nos, Domine! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            &lt;br /&gt;            &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-2137152314297734363?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/2137152314297734363/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/02/antigamente-jose-fernandes-antigamente.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/2137152314297734363'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/2137152314297734363'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/02/antigamente-jose-fernandes-antigamente.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-5434094770155079544</id><published>2010-01-26T11:30:00.000-08:00</published><updated>2010-01-26T11:36:32.503-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>SOLIDARIEDADE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;          Olegária recebeu uma dezena de e-mails em que pessoas, com um vocabulário carregado pela semântica da dor, da compaixão pelos outros, imploravam doações para amenizar a desgraça dos já miseráveis haitianos. Mesmo sendo ingênua, com relação aos legados da nossa miséria, começou a suspeitar, pois, quando a esmola é demais, até os santos desconfiam. Mas, já era tarde! Um hacker, mais pobre que os atingidos pela tragédia, porque destituído dos mínimos predicados do humano, adentrara à sua conta e transferira quantia razoável para uma organização inexistente. Neste momento, ela entendeu o pessimismo de Brás Cubas e tentou aliviar a decepção ao abrigar-se nos ombros da amiga Jurema. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;          – Como pode, Olegária, você, uma mulher atenta às maldades humanas, desde que a maçã picou Eva, acreditar em e-mails de quem não conhece?! Você se lembra de que De Gaulle já dissera: “Le Brésil n’est pas un pays sérieux”(O Brasil não é um país sério). Se a nação é governada por homens corruptos, a sociedade inteira padece de princípios morais. Se entre as chamadas organizações não-governamentais há quem se valha da desgraça alheia em proveito próprio, que dizer dos bandidos que vêem o mau exemplo nas altas camadas dos poderes? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;           – Sempre ouvi desautorizarem os ideais positivistas de que o homem é fruto do meio e do momento histórico; mas analisando bem certas passagens de Princípios de biologia, de Herbert Spencer, e da famosa introdução de Taine à História da literatura inglesa, verificamos que há muitos brasileiros, nos últimos anos e, sobretudo, hoje, influenciados pelos acontecimentos que envolvem a classe política, por que a população não deveria se espelhar.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;         – Você tem razão, Olegária! Hippolyte Taine afirma claramente que a cada momento pode-se considerar o caráter de um povo como o resumo de todas suas ações de todas as suas sensações precedentes, quer dizer como uma quantidade e como um peso, não infinito, pois que toda coisa na natureza é limitada, mas desproporcional ao resto e quase impossível de se erguer, pois cada minuto de um passado quase infinito tem contribuído para pesar, e que, por elevar a balança, necessitará acumular em outro plano um número de ações e de sensações ainda maiores. Ora, como se vêem falcatruas, corrupção e descaramento nos níveis considerados superiores da sociedade, as classes menos aguilhoadas pelos bens culturais e, notadamente, pelos bens necessários à subsistência e ao bom viver, também se sentem no direito de praticar as mesmas ações verificadas em instâncias que deveriam ser modelares. É por isso, Olégaria, que se vêem pessoas se enriquecerem à custa de verbas destinadas a vítimas da seca, no Nordeste; a vítimas das enchentes, em vários estados da federação; a vítimas da fome, no país inteiro. A prova é que continuamos a presenciar pedintes nas ruas e sem-tetos dormindo nas calçadas, como vi em Copacabana, dias atrás. – Eh! Jurema, como pude cegar-me e não desconfiar de que poderiam haver pessoas sem alma que se valem da desgraça alheia para tocar o sentimento de quem ainda conserva em si aquele espírito cristão do “pedi e recebereis”!  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;              – Você se lembra do final do conto “O enfermeiro”, de Machado de Assis? No Brasil vale o teologismo do narrador machadiano: Bem-aventurados os que possuem! Sobretudo os que possuem sem qualquer escrúpulo, como o fez a personagem do conto! A classe política é culpada por isso, pois, como afirma Hélio Jaguaribe, muito bem citado pelo jornalista Hélio Rocha, “O Brasil tem uma classe política muito inferior ao que merece. Nosso sistema eleitoral não é seletivo. Qualquer um vira deputado, senador, governador.” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;           – Tudo isso resulta da incultura do povo, da impunidade, da desvergonha generalizada, ao ponto de se perder o escrúpulo, o bom-senso e, pior, aquele mínimo sentimento que caracteriza o humano! Também, se há até quem esquarteje o Cristo para se enriquecer, o que mais se pode esperar? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;           – Meu avô sempre me dizia que seguisse os bons exemplos em todas as circunstâncias em que me encontrasse, a fim de construir uma vida de respeito e cristalizar o nome nas rochas da moralidade. Hoje, porém, o que se vê é exatamente o contrário: não se preocupam com o respeito e, muito menos, com a moralidade, ao ponto de os honestos terem medo de praticar o bem, porque poderão ter roubados a boa-fé, o sentido da solidariedade e, sobretudo, aquele caráter próprio do humano do homem, como se Deus deixasse de ser, e tudo perdesse a importância! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;           – Eh! Jurema! Só nos resta implorar: “Miserere nobis, Domine”! &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Crônica publicada no Jornal Diário da Manhã, do dia 26-1-2010, p. 5.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/739850180141439545-5434094770155079544?l=poetacriticojf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/feeds/5434094770155079544/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/01/solidariedade-olegaria-recebeu-uma.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/5434094770155079544'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/739850180141439545/posts/default/5434094770155079544'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetacriticojf.blogspot.com/2010/01/solidariedade-olegaria-recebeu-uma.html' title=''/><author><name>Blog do Crítico José Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10543692894811834189</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_CJ3DiEUTS0E/SmswY3ZEV3I/AAAAAAAAAAM/JdppzmmIORI/S220/Jos%C3%A9+Fernandes.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-739850180141439545.post-2427887311520017807</id><published>2010-01-20T14:46:00.000-08:00</published><updated>2010-01-20T14:51:34.552-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>As múltiplas faces culturais da Poética&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                     José Fernandes&lt;a style="mso-footnote-id: ftn1" title="" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=739850180141439545#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;                                                                       &lt;br /&gt;                                                                        Agora, como sempre,&lt;br /&gt;                                                                       com outro é que se obtém perícia:&lt;br /&gt;                                                                       pois não é fácil alcançar&lt;br /&gt;                                                                       a porta das palavras nunca ditas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                            BAQUÍLIDES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                       Era uma vez: diz mestre La Fontaine,&lt;br /&gt;                                                                       Que lho dissera Fedro seu amigo,&lt;br /&gt;                                                                       Que lho dissera um grego corcovado...&lt;br /&gt;                                                                       Pois tudo neste mundo vai por ditos,&lt;br /&gt;                                                                       Tudo se diz porque outros o disseram...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                           ALMEIDA GARRET&lt;br /&gt;         Resumo: Através do estudo de poemas que tem por tema o retrato, seja do próprio poeta, seja da amada, pretendemos demonstrar que existe uma espécie de correlação cultural que se estabelece entre eles, a ponto de se formarem vários aspectos culturais capazes de comporem uma poética. Para se proceder a um estudo que realmente se sustente, serão analisados poemas marcantes de estilos e épocas diversas de várias culturas que, por motivos distintos, estiveram ou estão em contato, como a brasileira, a portuguesa, a espanhola, a francesa e a italiana. Tentar-se-á mostrar, também, o que leva o ser lírico, em todos os tempos, a preocupar-se com a própria imagem. Seria uma espécie de narcisismo ou uma necessidade de afirmação ontológica?  &lt;br /&gt;Palavras-chave: 1. Interculturalidade; 2. Intertextualidade; 3. Carpe diem; 5. Ironia; 6. Humor; 7. Necessidade ontológica. &lt;br /&gt;Résumé : À travers l'étude de poèmes qui ont par sujet le portrait, soit du poète lui-même, soit de l'aimée, nous prétendons démontrer qu’il y a une espèce de corrélation culturelle qui s'est établi entre eux, à point de se former de plusieurs aspects culturels capables de composer une poétique interculturel. Pour se procèder à une étude qui réellement se soutienne, seront analysées des poèmes de styles marquants et à des temps divers de plusieurs cultures qui, par des raisons distinctes, ont été ou sont en contact, comme la culture Brésilienne, la Portugaise, l'Espagnole, la Française et l ‘Italiaine. On essayera de montrer, aussi, ce qui amène l'être lyrique à s'inquiéter avec l'image elle-même. Ce serait une espèce de narcissisme ou une nécessité d'affirmation ontologique ?&lt;br /&gt; Mots-clé : 1. Interculturalité ; 2. Intertextualité ; 3. Carpe diem ; 5. Ironie ; 6. Humeur ; 7. Nécessité ontologique.&lt;br /&gt;Resumen: A través del estudio de poemas que tiene por tema el retrato, sea del propio poeta, sea de la amada, pretendemos demostrar que existe una especie de correlación cultural que se establece entre ellos, a punto de formarse varios aspectos culturales capaces de componer una poética. Para procederse a un estudio que realmente se sostenga, serán analizados poemas expresivos de estilos y épocas diversas de varias culturas que, por motivos distinguidos, estuvieron o están en contacto, como la brasileña, la portuguesa, la española, la francesa y la italiana. Se intentará mostrar, también, lo que lleva el ser lírico, en todos los tiempos, a preocuparse con la propia imagen. Sería una especie de narcisismo o una necesidad de afirmación ontológica?&lt;br /&gt;Palabras-llave: 1. Interculturalidad; 2. Intertextualidad; 3. Carpe diem; 5. Ironía; 6. Humor; 7. Necesidad ontológica.&lt;br /&gt;Abstract: The aim of this study is to demonstrate through the analysis of poems, which have as subject the portrait of either the poet or of his beloved one, that a kind of cultural correlation can be established between them, setting up a series of cultural aspects capable of composing a poetics. In order to proceed to a study that upholds itself, significant poems of different styles and periods and from various cultures which for some reason were in contact, such as the Brazilian, the Portuguese, the Spanish, the French and the Italian culture, will be analyzed. The motive that makes the poetic voice, throughout the times, worry about his own image will also be discussed. Would it be a kind of narcissism or the need for an ontological assertion? &lt;br /&gt;Keywords: 1. Interculturality; 2. Intertextuality; 3. Carpe diem; 5. Irony; 6. Mood; 7. Ontological need.&lt;br /&gt;Sommario: Con lo studio del poèma che ha per l'oggetto l’immagine, una del poet adeguato, uno della amava uno, noi intende dimostrare che una specie di correlazione culturale esiste quello se stabilisce fra loro, il punto di se formando alcune funzioni culturali capaci per comporre poético. Per continuare in se ad uno studio che realmente se il supporto, sarà poeme analizzati dei marcantes degli stili e periodi vari di alcune colture che, per i motivi distinti, erano state o è in contatto, come il brasiliano, portoghese, spaniard, francese ed italiano. Per provarsi esso per mostrare, anche, che cosa prende avere luogo lyric, in tutte le volte, essere preoccupato per l'immagine adeguata. Sarebbe una specie di narcissism o una necessità di affermazione di ontológica?  &lt;br /&gt;Parola-chiave: 1. Il interculturalidade; 2.Il Intertextualidade; 3. Carpe diem; 5. L’ironia; 6. L’umore; 7. La necessità di ontológica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A crítica literária, decorrência de poetas e ficcionistas estarem sempre recriando as estruturas do discurso e da linguagem poética, está sempre a instrumentalizar-se e a criar novos mecanismos para melhor ler, analisar e interpretar o texto artístico, sempre renovado. Ler aqui não é passar os olhos sobre as palavras; é o uso do verbo no sentido latino de legere, ler, escolher, recolher, e no sentido grego de ερμηνεύω, interpretar. Para interpretar e colher a essência do que se lê, cristalizado em formas e fôrmas diversas, é necessária uma gama de conhecimentos que envolvem ciências de áreas afins ou, às vezes, distantes da literatura, mas que são indispensáveis à execução do ato crítico. A perfeita ação crítica compreende segundo esta perspectiva um exercício e uma práxis poética intercultural abrangente e concreta, mas variável consoante as exigências estruturais, lingüísticas, semiológicas, estéticas e metafísicas do texto literário.&lt;br /&gt;            O texto artístico, como criação da subjetividade de um autor, conforme o sentimento e a técnica de um tempo determinado, com as idiossincrasias resultantes de sua enciclopédia pessoal e de uma disposição fenomenológica inerente ao processo criativo, imporá ao leitor, para proceder a sua integral compreensão e análise, um processo transdisciplinar e transcientífico, a que se chama interculturalidade ou transculturalidade. A interculturalidade seria a extensão do conceito de intertextualidade, à medida que a elaboração do texto artístico envolve cruzamentos de culturas que ultrapassam os mecanismos empregados na consecução da intertextualidade.  &lt;br /&gt;Em principio, a capacidade de se criar um discurso sobre outros discursos e, em conseqüência, de se ler em um texto uma série de textos cristalizados pelo tempo, parecia solucionar o problema da interculturalidade. Hoje, porém, a interculturalidade, ou seja, a possibilidade de se lerem outros discursos, como o da metafísica, da fenomenologia, da sociologia, da antropologia, da etnologia, da economia, da ética, da pólis e até de outras culturas em contato, na montagem de um único texto, torna-se a tônica da criação do discurso estético e, em conseqüência, também dos estudos literários. Para procedermos a análise deste tema evidentemente teremos de nos servir de textos em que ela 
