ASFALTO TRIMÁTICO
Geraldino Carro, a despeito da idade avançada, não abandona seu arraigado hábito de leitura. Sempre encontra um livro novo. Dia desses, mesmo, falou-me sobre “A dança do condor”. Gostou imenso das narrativas de Lacordaire. Sobretudo, não deixa de ler os jornais e, muito menos, de acessar a internet. Adapta-se facilmente à tecnologia. Certamente por isso, discutia as condições das estradas pós-alcíname, o homem que negou o nome, pois deveria ser forte e dinâmico; mas foi fraco e inglório:
– Você leu uma crônica, ano passado, quando o “preguiça” tentava eleger seu sucessor? Aquela que falava das novas técnicas brasileiras e goianas de recuperação asfáltica. O autor chamou a nova pavimentação de “asfalto palintrimático”, pois a minúscula camada depositada sobre os buracos permitia aos passageiros sentirem-se como se estivessem com maleita, tamanho o tremor. Não há de ver que gastaram verdadeira fortuna e realmente o “asfalto metrísico” se confirmou. Apenas chegaram as primeiras chuvas, e os buracos se multiplicaram como as sementes da romã.
– Ora, Geraldino, é que o adjetivo “forte”, significado do nome do governador, à época, passou para os buracos ou crateras, pois, à semelhança dos vulcões, eles escancaram suas bocas devoradoras!
– Panglos, não sem razão alguém disse que você sabe tirar farinha. Mas, o adjetivo esburacado realmente é pouco para a tecnologia asfáltica empregada pela Agência Goiana de Transportes e Obras.
– Gerandino, pra mim, obra mal feita tem outro significado. Além disso, a estrada por que ela caminha também tem outro nome!
– Tenho “Carro” como sobrenome e sei bem o que é uma pista esburaquenta! Além de observador, sofro, por analogia, pois ando fervilhando em solo meteorítico. Não conheço os esgotos dessas obras, mas as diferenças são nenhumas. Veja, por exemplo, um trecho asfáltico, como o que vai de Santo Antônio de Goiás a Nova Veneza, ou de Goiânia a Aruanã! Gastaram-se, segundo notícias jornalísticas, que ainda tem crédito nestes brasis pinóquios, muitos milhões de reais para fazer aquele recapeamento.
– E os buracos tridentes voltaram a triturar pneus, a destruir amortecedores! Como se gasta impunemente os impostos dos contribuintes! Até as ruas de Goiânia são retapeadas!
– Ora, Pangloss, e eu não sei!? Realmente, neste Brasil Münchhausen, recapeação é retapeaçao é a mesma coisa! O inglório governo teve até coragem de inaugurar, com placa e tudo, uma tapeação asfáltica em uma cidade da grande Goiânia. E olha que gastaram mais de trezentos mil reais para um trechinho de nada! Será que o Tribunal de Contas do Estado vai aprovar as contas desse governo, felizmente findo e finado?
– Já que as contas públicas ficaram numa buraqueira danada, acho que tudo é trimático. Tudo é buraco! Será que é possível consertar todos os estragos?
– É difícil saber, Pangloss. Só sei que esse nome trimático, com significado de buraco é ótimo, pois podemos fazer uma adaptação para o português e, quando necessário, acrescentarmos algum número. Há estradas estaduais e ruas em Goiânia em que se encontram tetra, penta, hexa, eneadecamáticos. Se procurar bem, acha até penentamáticos e enenentamáticos, pois eles vão se colocando um dentro do outro, infinitamente, como se fossem caixa de pandora a espalhar desgraça aos quatro ventos.
– Pois é, Geraldino, ouvi dizer que naqueles paisinhos da Europa não se tampam buracos apenas jogando asfalto e deixando que os próprios veículos procedam à tarefa de comprimir as camadas para que elas se compactem. Eles, quando não procedem à recapagem total, atacam toda a extensão afetada e efetuam um trabalho, inclusive, com rolos compressores, para que o remendo dure, pelos menos, uns vinte anos. Aqui, desde que começou a chover, já vi rodovias e ruas serem remendadas a cada semana. E, sempre as mesmas crateras se avolumando e se multiplicando. Quando o político nega a semântica do próprio nome, a administração pública se torna um descalabro! Por isso, quando se vota, deve-se verificar se o candidato exercita e pratica o significado do nome.
– As pavimentações brasileiras não duram mais que uma chuva! O chamado mau-tempo, mesmo que esteja uma seca dos diabos, é sempre o culpado pela falta de brio, de vergonha, pela irresponsabilidade que vem de longe.
– Para consertar o mal-feito é mais difícil que fazer o bem-feito. Por que não se fazem as obras públicas para durarem?
– Eh! Por mais que os ufanistas gritem contra aqueles paisinhos, nós nunca chegaremos aos pés deles. Falta honestidade à maioria de nossos políticos! Disseram-me que até vereador ganha propina com tapeações e retapeações asfálticas.
– Falta ousadia para debelar os ludíbrios, as falcatruas, e começar a pôr os trens nos trilhos!
– Eh! Como não temos trens..., os ludibriosos se multiplicam!
– E, como brilham! Parece até pesca ao dourado com colher de isca! Mas, isso precisa acabar!... Miserere nobis, Domine!
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 1-2-2011, p. 10.
Geraldino Carro, a despeito da idade avançada, não abandona seu arraigado hábito de leitura. Sempre encontra um livro novo. Dia desses, mesmo, falou-me sobre “A dança do condor”. Gostou imenso das narrativas de Lacordaire. Sobretudo, não deixa de ler os jornais e, muito menos, de acessar a internet. Adapta-se facilmente à tecnologia. Certamente por isso, discutia as condições das estradas pós-alcíname, o homem que negou o nome, pois deveria ser forte e dinâmico; mas foi fraco e inglório:
– Você leu uma crônica, ano passado, quando o “preguiça” tentava eleger seu sucessor? Aquela que falava das novas técnicas brasileiras e goianas de recuperação asfáltica. O autor chamou a nova pavimentação de “asfalto palintrimático”, pois a minúscula camada depositada sobre os buracos permitia aos passageiros sentirem-se como se estivessem com maleita, tamanho o tremor. Não há de ver que gastaram verdadeira fortuna e realmente o “asfalto metrísico” se confirmou. Apenas chegaram as primeiras chuvas, e os buracos se multiplicaram como as sementes da romã.
– Ora, Geraldino, é que o adjetivo “forte”, significado do nome do governador, à época, passou para os buracos ou crateras, pois, à semelhança dos vulcões, eles escancaram suas bocas devoradoras!
– Panglos, não sem razão alguém disse que você sabe tirar farinha. Mas, o adjetivo esburacado realmente é pouco para a tecnologia asfáltica empregada pela Agência Goiana de Transportes e Obras.
– Gerandino, pra mim, obra mal feita tem outro significado. Além disso, a estrada por que ela caminha também tem outro nome!
– Tenho “Carro” como sobrenome e sei bem o que é uma pista esburaquenta! Além de observador, sofro, por analogia, pois ando fervilhando em solo meteorítico. Não conheço os esgotos dessas obras, mas as diferenças são nenhumas. Veja, por exemplo, um trecho asfáltico, como o que vai de Santo Antônio de Goiás a Nova Veneza, ou de Goiânia a Aruanã! Gastaram-se, segundo notícias jornalísticas, que ainda tem crédito nestes brasis pinóquios, muitos milhões de reais para fazer aquele recapeamento.
– E os buracos tridentes voltaram a triturar pneus, a destruir amortecedores! Como se gasta impunemente os impostos dos contribuintes! Até as ruas de Goiânia são retapeadas!
– Ora, Pangloss, e eu não sei!? Realmente, neste Brasil Münchhausen, recapeação é retapeaçao é a mesma coisa! O inglório governo teve até coragem de inaugurar, com placa e tudo, uma tapeação asfáltica em uma cidade da grande Goiânia. E olha que gastaram mais de trezentos mil reais para um trechinho de nada! Será que o Tribunal de Contas do Estado vai aprovar as contas desse governo, felizmente findo e finado?
– Já que as contas públicas ficaram numa buraqueira danada, acho que tudo é trimático. Tudo é buraco! Será que é possível consertar todos os estragos?
– É difícil saber, Pangloss. Só sei que esse nome trimático, com significado de buraco é ótimo, pois podemos fazer uma adaptação para o português e, quando necessário, acrescentarmos algum número. Há estradas estaduais e ruas em Goiânia em que se encontram tetra, penta, hexa, eneadecamáticos. Se procurar bem, acha até penentamáticos e enenentamáticos, pois eles vão se colocando um dentro do outro, infinitamente, como se fossem caixa de pandora a espalhar desgraça aos quatro ventos.
– Pois é, Geraldino, ouvi dizer que naqueles paisinhos da Europa não se tampam buracos apenas jogando asfalto e deixando que os próprios veículos procedam à tarefa de comprimir as camadas para que elas se compactem. Eles, quando não procedem à recapagem total, atacam toda a extensão afetada e efetuam um trabalho, inclusive, com rolos compressores, para que o remendo dure, pelos menos, uns vinte anos. Aqui, desde que começou a chover, já vi rodovias e ruas serem remendadas a cada semana. E, sempre as mesmas crateras se avolumando e se multiplicando. Quando o político nega a semântica do próprio nome, a administração pública se torna um descalabro! Por isso, quando se vota, deve-se verificar se o candidato exercita e pratica o significado do nome.
– As pavimentações brasileiras não duram mais que uma chuva! O chamado mau-tempo, mesmo que esteja uma seca dos diabos, é sempre o culpado pela falta de brio, de vergonha, pela irresponsabilidade que vem de longe.
– Para consertar o mal-feito é mais difícil que fazer o bem-feito. Por que não se fazem as obras públicas para durarem?
– Eh! Por mais que os ufanistas gritem contra aqueles paisinhos, nós nunca chegaremos aos pés deles. Falta honestidade à maioria de nossos políticos! Disseram-me que até vereador ganha propina com tapeações e retapeações asfálticas.
– Falta ousadia para debelar os ludíbrios, as falcatruas, e começar a pôr os trens nos trilhos!
– Eh! Como não temos trens..., os ludibriosos se multiplicam!
– E, como brilham! Parece até pesca ao dourado com colher de isca! Mas, isso precisa acabar!... Miserere nobis, Domine!
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 1-2-2011, p. 10.

Professor José Fernandes,
ResponderExcluirTodos nós, professores ou não, deveríamos estar sempre gratos aos grandes escritores como o senhor, afinal são vocês que nos mostram os problemas com os quais convivemos(e nos acostumamos, como é o caso dos buracos nos asfaltos - ruas) de uma forma que nos incomoda. E aí está o valor de suas crônicas, pois esse "incômodo" nos faz revolver o terreno da ignorância e do comodismo. Muito obrigada!! Rosimeire - Rio Verde/Go