O LIVRO DA DÉCADA
José Fernandes*
A arte se faz do nada. Mas, um nada que é tudo, porque a soma dos fazeres no tempo, desde os riscos do caos nos desenhos do verbo. É por isso que vemos, lemos e ouvimos obras de arte tocantes pelo que apresentam de inusitado, notadamente quando realizadas em linguagens em que os signos dançam coreografias aparentemente nunca pronunciadas nem pintadas pelo logos humano. As obras de arte que tem como matéria de estética a palavra, normalmente se realizam mediante a agregação de outros sinais e de outros símbolos que instalam aquela substância imprescindível às articulações da linguagem plena, instrumento por que o ser da personagem se revela. A busca de novas formas de utilizar a linguagem quase sempre redunda em obras de arte literárias em que ela se renova e, em decorrência, revela aspectos incomuns em nível sintático e, notadamente, semântico. Lacordaire Vieira é um destes contistas que não se contentam com o “déja-fait” e, sendo lingüista, não se atém apenas às estruturas estáticas da Língua Portuguesa; mas serve de seus conhecimentos para imprimir à linguagem aquele caráter metafísico que só a arte, mormente a literária, lhe confere. Se nos contos de “O corpo” procedeu à conjugação do ser das personagens com a linguagem, naquele nível descoberto por Heidegger, em que a língua é manifestação do estado de ser de quem a utiliza, em “A dança do condor” (Kelps, 2010 – Livraria Leart –), irá seguir aquele principio heideggeriano de que o escritor tem de violar a gramática e, portanto, recriar a língua e a linguagem a fim de instalar o estético. Não apenas isso; um escritor contemporâneo tem de empregar signos não verbais oferecidos pela simbologia cristalizada pelo tempo ou criá-los e recriá-los consoante instrumentalização cibernética, a fim de tornar a linguagem concreta, ao ponto de o objeto nomeado parecer-se tocado com o dedo, transformando também a narrativa em ciberficção.
A originalidade do livro inicia pelo título que envolve o conto homônimo e explora a polissemia do vocábulo dança, uma vez que ele aponta já para a ave, para a arte e para o ser sempre dançante na existência. Por isso, a dor de condor não se restringe ao pássaro; mas às dores do mundo vivenciadas de forma alegórica pelas personagens, sínteses da condição humana. Se há um jogo em que o vocábulo dança vai adquirindo semântica diversa, maiores agregados sêmicos ocorrem em torno da palavra pena, explorada praticamente em todas as suas acepções, pois vemo-la com o sentido de dó, de piedade; de castigo, de arte de escrever, de pássaro etc. Do mesmo modo, condor se reveste de tamanha extensão semântica que encerra as inúmeras formas de se padecer em existência, sendo e, sobretudo, existindo.
A conjunção de signos e sinais verbais ou icônicos, lingüísticos ou semióticos, produz um discurso verbivisual empapado de ironia, às vezes cruel, impiedosa e, às vezes, sutil, desprendida do humor, com um sorriso refinado e, muitas vezes, cínico. Assim, ao lermos os contos de Lacordaire, temos a impressão de estarmos lendo Sêneca, Stern, Voltaire e, sobretudo, Machado de Assis. Só que as narrativas tem tudo e nada a ver com eles. Tudo, porque se nota influência deles no “modus narrandi” do contista; nada, à medida que o estilo é inteiro Lacordaire. Um estilo novo, ousado, moderno; consciente de estar produzindo arte de primeira grandeza, em linguagem que, algumas vezes, lembra Guimarães Rosa.
Por fim, sobressai a figura ímpar do narrador, trazido dos contos piadas para estilar o humor e a ironia nas narrativas de Lacordaire. Ele narra como se estivesse contando uma piada; mas, à semelhança de Brás Cubas, gozando da própria desgraça de existir e, às vezes, de ser o que é, sempre à procura do que gostaria de ser. A diferença com os contos piadas, entretanto, ocorre a partir da sintomígrafe (resumo), que já condensa em gotas o riso que irá destilando ao longo da narrativa, enquanto na piada o riso ocorre apenas no desfecho do discurso. A escolha de terceira ou de primeira pessoa obedece às tonalidades impressas à dança e à dor, a fim de colher o riso na dosagem certa, consoante com as formas e fôrmas de linguagem com que o discurso se constrói e consoante com as formas e as fôrmas do riso de ser ente ou ser pleno nas dimensões ôntica ou ontológica da existência.
Para se sentir a grandeza desse livro, o inteiro “stupore” de suas narrativas, só por intermédio da leitura, pois se trata de um discurso singular, vanguardista, que insere a ficção brasileira na dimensão da cibernarrativa, da ciberliteratura. Sem dúvida, os leitores se sentirão diante de um livro que se transformará em referencial estético da arte literária nacional da primeira década desse século XXI. Por favor, abandonem o espírito provinciano, tendente a valorizar só o que vem do eixo ou da estranja, como dizia Mario de Andrade! Não sejam leitores difíceis! Leiam-no e, depois, me digam! Veni Creator Spiritus, mentes lectorum visita!
* José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras – thjfernandes@uol.com.br – http://poetacriticojf.blogspot.com
José Fernandes*
A arte se faz do nada. Mas, um nada que é tudo, porque a soma dos fazeres no tempo, desde os riscos do caos nos desenhos do verbo. É por isso que vemos, lemos e ouvimos obras de arte tocantes pelo que apresentam de inusitado, notadamente quando realizadas em linguagens em que os signos dançam coreografias aparentemente nunca pronunciadas nem pintadas pelo logos humano. As obras de arte que tem como matéria de estética a palavra, normalmente se realizam mediante a agregação de outros sinais e de outros símbolos que instalam aquela substância imprescindível às articulações da linguagem plena, instrumento por que o ser da personagem se revela. A busca de novas formas de utilizar a linguagem quase sempre redunda em obras de arte literárias em que ela se renova e, em decorrência, revela aspectos incomuns em nível sintático e, notadamente, semântico. Lacordaire Vieira é um destes contistas que não se contentam com o “déja-fait” e, sendo lingüista, não se atém apenas às estruturas estáticas da Língua Portuguesa; mas serve de seus conhecimentos para imprimir à linguagem aquele caráter metafísico que só a arte, mormente a literária, lhe confere. Se nos contos de “O corpo” procedeu à conjugação do ser das personagens com a linguagem, naquele nível descoberto por Heidegger, em que a língua é manifestação do estado de ser de quem a utiliza, em “A dança do condor” (Kelps, 2010 – Livraria Leart –), irá seguir aquele principio heideggeriano de que o escritor tem de violar a gramática e, portanto, recriar a língua e a linguagem a fim de instalar o estético. Não apenas isso; um escritor contemporâneo tem de empregar signos não verbais oferecidos pela simbologia cristalizada pelo tempo ou criá-los e recriá-los consoante instrumentalização cibernética, a fim de tornar a linguagem concreta, ao ponto de o objeto nomeado parecer-se tocado com o dedo, transformando também a narrativa em ciberficção.
A originalidade do livro inicia pelo título que envolve o conto homônimo e explora a polissemia do vocábulo dança, uma vez que ele aponta já para a ave, para a arte e para o ser sempre dançante na existência. Por isso, a dor de condor não se restringe ao pássaro; mas às dores do mundo vivenciadas de forma alegórica pelas personagens, sínteses da condição humana. Se há um jogo em que o vocábulo dança vai adquirindo semântica diversa, maiores agregados sêmicos ocorrem em torno da palavra pena, explorada praticamente em todas as suas acepções, pois vemo-la com o sentido de dó, de piedade; de castigo, de arte de escrever, de pássaro etc. Do mesmo modo, condor se reveste de tamanha extensão semântica que encerra as inúmeras formas de se padecer em existência, sendo e, sobretudo, existindo.
A conjunção de signos e sinais verbais ou icônicos, lingüísticos ou semióticos, produz um discurso verbivisual empapado de ironia, às vezes cruel, impiedosa e, às vezes, sutil, desprendida do humor, com um sorriso refinado e, muitas vezes, cínico. Assim, ao lermos os contos de Lacordaire, temos a impressão de estarmos lendo Sêneca, Stern, Voltaire e, sobretudo, Machado de Assis. Só que as narrativas tem tudo e nada a ver com eles. Tudo, porque se nota influência deles no “modus narrandi” do contista; nada, à medida que o estilo é inteiro Lacordaire. Um estilo novo, ousado, moderno; consciente de estar produzindo arte de primeira grandeza, em linguagem que, algumas vezes, lembra Guimarães Rosa.
Por fim, sobressai a figura ímpar do narrador, trazido dos contos piadas para estilar o humor e a ironia nas narrativas de Lacordaire. Ele narra como se estivesse contando uma piada; mas, à semelhança de Brás Cubas, gozando da própria desgraça de existir e, às vezes, de ser o que é, sempre à procura do que gostaria de ser. A diferença com os contos piadas, entretanto, ocorre a partir da sintomígrafe (resumo), que já condensa em gotas o riso que irá destilando ao longo da narrativa, enquanto na piada o riso ocorre apenas no desfecho do discurso. A escolha de terceira ou de primeira pessoa obedece às tonalidades impressas à dança e à dor, a fim de colher o riso na dosagem certa, consoante com as formas e fôrmas de linguagem com que o discurso se constrói e consoante com as formas e as fôrmas do riso de ser ente ou ser pleno nas dimensões ôntica ou ontológica da existência.
Para se sentir a grandeza desse livro, o inteiro “stupore” de suas narrativas, só por intermédio da leitura, pois se trata de um discurso singular, vanguardista, que insere a ficção brasileira na dimensão da cibernarrativa, da ciberliteratura. Sem dúvida, os leitores se sentirão diante de um livro que se transformará em referencial estético da arte literária nacional da primeira década desse século XXI. Por favor, abandonem o espírito provinciano, tendente a valorizar só o que vem do eixo ou da estranja, como dizia Mario de Andrade! Não sejam leitores difíceis! Leiam-no e, depois, me digam! Veni Creator Spiritus, mentes lectorum visita!
* José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras – thjfernandes@uol.com.br – http://poetacriticojf.blogspot.com
Artigo pulicado no Diário da Manhã do dia 11-1-2011, p. 18.

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