DEUS E AS TRAGÉDIAS – II
– Você, na crônica anterior, ainda não satisfez minha curiosidade. Queria terminar minha fala com mais uma pergunta.
– Mas, foi o senhor, seu Ângelo, que disse “Miserere nobis, Domine!”
– Só repeti, pois achei que você mangasse da observação relativa ao fato de Deus exemplar os homens! A minha dúvida se refere à possibilidade de Deus impedir uma tragédia natural. Pode?
– Seu Ângelo, Deus criou o homem e lhe deu inteligência e livre arbítrio. Cabe a ele julgar seus atos. Se pensarmos que Deus monitora a criação, e as coisas acontecem, todas, mediante sua vontade, caímos no chamado providencialismo. Não é isso que ocorre em relação às tragédias. O homem é que as provoca. Qualquer pessoa de bom-senso sabe que uma casa construída à beira de um rio pode ser invadida por enchentes, sobretudo quando a natureza é maltratada, decorrência de atos inconseqüentes praticados pelo chamado “homo sapiens”. Qualquer pessoa, com um mínimo de discernimento, deve desconfiar que escalavrarem-se os morros, sacando-lhes a vegetação, notadamente árvores enraizadas, torna-os suscetíveis de desmoronamento. Construírem-se casas ao sopé deles implica assumirem-se os riscos que eles representam, mormente aquelas que exigem cortes na terra. Além disso, o senhor deve ter notado, como bom observador, que a maioria das construções dispõe de minúsculos alicerces. Coluninhas de meio metro de profundidade não suportam nem o próprio peso e, muito menos, as dores do tempo. O próprio Cristo, embora falando de forma alegórica e, portanto, dando margem a interpretações de cunho teosófico, alerta: "Todo aquele, pois, que ouve estas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína." Mateus 7:24-27. Ora, seu Ângelo, vivemos em um País em que as leis, quando existem, ficam apenas no papel. Todos são irresponsáveis: as autoridades e os cidadãos.
– Os governos fingem governar segundo as leis do estado, e o povo finge cumpri-las. Inclusive, quando podem, os políticos mudam as leis segundo as suas conveniências. O novo código florestal é um exemplo. Se a natureza continuar sendo objeto do bel prazer de insensatos, coisas muito piores poderão acontecer. Tudo, nestes brasis, é construído sobre areia. O senhor está querendo dizer que Deus não age diretamente sobre a natureza; mas deixa que ela haja em seu nome!
– Exatamente! É o que quis dizer com “Deus bate na cangalha para o burro entender.” Só que este burro é indômito; tem vontade própria e só pensa no momento em que cangalha, bruacas e balaios desabam sobre ele.
– Você não acha, também, que os homens andam se esquecendo de Deus? Há até quem decrete a sua morte! Imagina que cavalice! Falamos muito do burro; mas ele não entra em atoleiro; cavalo, sim! Estamos em um momento de pura matéria! Até as igrejas são materialistas: fingem a palavra para arrecadar dinheiro! Criaram até uma associação dos ateus, que se destina a provar a inexistência de Deus.
– Realmente, Deus não existe; Deus é! “Deus esse”, diz Santo Tomás na “Suma Teológica”. Depois, se Ele não é, por que os ateus estão preocupados com Ele? Não é uma contradição! Joseph de Maistres tinha razão: “Ninguém afirma: `Deus não existe' sem antes ter desejado que Ele não exista". É a criatura finita e ingrata desejando que o Criador não exista. Há um filosofo brasileiro, Riobaldães Rosa, que diz: "Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança; sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há de a gente perdidos no vaivém, a vida é burra."
– A vida é uma cavalice. Principalmente, em nosso País! Imagina, não existir Deus! Um dia desses li um poema que, apesar de o autor ser meio louco, me parece, ainda traduz este momento de nossa história cavala: "Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,/ Porque seja ele quem for, com certeza que é tudo/ E fora dele só há Ele, e tudo para Ele é pouco. Cada alma é uma escada para Deus,/ Cada alma é um corredor Universo para Deus,/ Cada alma é um rio por margem do Externo para Deus em Deus com um sussurro noturno. Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito."
– Eh! seu Ângelo, depois o senhor me diz que só sabe o trivial! O senhor tirou a minha farinha; mas fez um bom bolo! Deus esteja! Esse Fernando é demais!
– É Pessoa! Sabe de Deus! Espero que Ele continue batendo na cangalha até acordar os cavalinhos; inclusive, os de Platiplanto! O J. Veiga os conhece bem!
– Agora, sim, vamos encerrar este assunto. Eu não disse ao senhor que não sou senão cronista? Mais, não posso! Veni Creator Spiritus, mentes hominum equuorum visita!
– Você, na crônica anterior, ainda não satisfez minha curiosidade. Queria terminar minha fala com mais uma pergunta.
– Mas, foi o senhor, seu Ângelo, que disse “Miserere nobis, Domine!”
– Só repeti, pois achei que você mangasse da observação relativa ao fato de Deus exemplar os homens! A minha dúvida se refere à possibilidade de Deus impedir uma tragédia natural. Pode?
– Seu Ângelo, Deus criou o homem e lhe deu inteligência e livre arbítrio. Cabe a ele julgar seus atos. Se pensarmos que Deus monitora a criação, e as coisas acontecem, todas, mediante sua vontade, caímos no chamado providencialismo. Não é isso que ocorre em relação às tragédias. O homem é que as provoca. Qualquer pessoa de bom-senso sabe que uma casa construída à beira de um rio pode ser invadida por enchentes, sobretudo quando a natureza é maltratada, decorrência de atos inconseqüentes praticados pelo chamado “homo sapiens”. Qualquer pessoa, com um mínimo de discernimento, deve desconfiar que escalavrarem-se os morros, sacando-lhes a vegetação, notadamente árvores enraizadas, torna-os suscetíveis de desmoronamento. Construírem-se casas ao sopé deles implica assumirem-se os riscos que eles representam, mormente aquelas que exigem cortes na terra. Além disso, o senhor deve ter notado, como bom observador, que a maioria das construções dispõe de minúsculos alicerces. Coluninhas de meio metro de profundidade não suportam nem o próprio peso e, muito menos, as dores do tempo. O próprio Cristo, embora falando de forma alegórica e, portanto, dando margem a interpretações de cunho teosófico, alerta: "Todo aquele, pois, que ouve estas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína." Mateus 7:24-27. Ora, seu Ângelo, vivemos em um País em que as leis, quando existem, ficam apenas no papel. Todos são irresponsáveis: as autoridades e os cidadãos.
– Os governos fingem governar segundo as leis do estado, e o povo finge cumpri-las. Inclusive, quando podem, os políticos mudam as leis segundo as suas conveniências. O novo código florestal é um exemplo. Se a natureza continuar sendo objeto do bel prazer de insensatos, coisas muito piores poderão acontecer. Tudo, nestes brasis, é construído sobre areia. O senhor está querendo dizer que Deus não age diretamente sobre a natureza; mas deixa que ela haja em seu nome!
– Exatamente! É o que quis dizer com “Deus bate na cangalha para o burro entender.” Só que este burro é indômito; tem vontade própria e só pensa no momento em que cangalha, bruacas e balaios desabam sobre ele.
– Você não acha, também, que os homens andam se esquecendo de Deus? Há até quem decrete a sua morte! Imagina que cavalice! Falamos muito do burro; mas ele não entra em atoleiro; cavalo, sim! Estamos em um momento de pura matéria! Até as igrejas são materialistas: fingem a palavra para arrecadar dinheiro! Criaram até uma associação dos ateus, que se destina a provar a inexistência de Deus.
– Realmente, Deus não existe; Deus é! “Deus esse”, diz Santo Tomás na “Suma Teológica”. Depois, se Ele não é, por que os ateus estão preocupados com Ele? Não é uma contradição! Joseph de Maistres tinha razão: “Ninguém afirma: `Deus não existe' sem antes ter desejado que Ele não exista". É a criatura finita e ingrata desejando que o Criador não exista. Há um filosofo brasileiro, Riobaldães Rosa, que diz: "Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança; sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há de a gente perdidos no vaivém, a vida é burra."
– A vida é uma cavalice. Principalmente, em nosso País! Imagina, não existir Deus! Um dia desses li um poema que, apesar de o autor ser meio louco, me parece, ainda traduz este momento de nossa história cavala: "Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,/ Porque seja ele quem for, com certeza que é tudo/ E fora dele só há Ele, e tudo para Ele é pouco. Cada alma é uma escada para Deus,/ Cada alma é um corredor Universo para Deus,/ Cada alma é um rio por margem do Externo para Deus em Deus com um sussurro noturno. Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito."
– Eh! seu Ângelo, depois o senhor me diz que só sabe o trivial! O senhor tirou a minha farinha; mas fez um bom bolo! Deus esteja! Esse Fernando é demais!
– É Pessoa! Sabe de Deus! Espero que Ele continue batendo na cangalha até acordar os cavalinhos; inclusive, os de Platiplanto! O J. Veiga os conhece bem!
– Agora, sim, vamos encerrar este assunto. Eu não disse ao senhor que não sou senão cronista? Mais, não posso! Veni Creator Spiritus, mentes hominum equuorum visita!
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 25-1-2011, p. 8.

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