DEUS E AS TRAGÉDIAS
– Fala-se muito sobre a participação de Deus nas tragédias como se Ele fosse um pai desnaturado. Fazem-se muitas perguntas; mas resposta satisfatória mesmo, nenhuma! Você poderia falar sobre isso em uma de suas crônicas, a fim melhor esclarecer aos leigos, problema tão intrigante!
– Eu, caro Ângelo Bello, sou cronista; não sou teólogo! O senhor está confundindo as coisas; não?! Quem sou eu para explicar “mysteria fidei”!
– Você sabe!Não me enrole! Quem tem a sua leitura entende melhor os segredos de Deus que a gente que só lê o trivial!
– Seu Ângelo, o senhor, uma de suas criaturas prediletas e seu mensageiro, quer me tirar farinha; mas, vá lá! Espero não estar cometendo nenhum sacrilégio; mas Deus está dentro das tragédias! Não se assuste! Se Deus existe, conforme se tem provado, a partir da teoria do primeiro motor de Aristóteles, e mediante todos os argumentos teológicos e metafísicos utilizados por Santo Tomás de Aquino, na “Suma Teológica”, com base, inclusive, em método cientifico, como ele bem o coloca no que poderemos chamar introdução, Deus está nas tragédias. Não digo que Ele seja causa delas; mas as deixa desencadear através do criado: a natureza!
– Você está sendo muito simplista! E se ele não existir, e a natureza se constituir apenas um fenômeno?
– Caro Ângelo, admiro a sua incredulidade! Se os argumentos teológicos e metafísicos não são suficientes, observe a extensão do universo! Como surgiu esta imensidão, a ponto de existirem planetas e sistemas solares, segundo a nossa parca inteligência, há milhões de anos-luz? Veja a terra! Está flutuando, apesar de as pessoas dizerem que gostam de terra firme! Se ela e tudo que nela há funciona com precisão matemática; se todo o universo existe e é através de leis físicas e matemáticas, alguém tem de tê-lo criado! Ele não pode ter sido feito per se! Alguém tem de ter pronunciado o “faça-se” ou apenas ter tido a vontade de que ele se fizesse! Não se trata apenas de fenômenos que se auto-explicam!
– Pois é; mas Deus não teria criado tudo e se afastado da criação? Tudo age sem sua vontade externa, não?!
– Age? Externa, como se Ele está dentro delas? Não sei, seu Ângelo! Só sei que todas as coisas tem um início! Alguém fez e organizou tudo isso! Nós, homens, é que nada sabemos! Veja, meu caro, nem a lua, que está logo ali atrás do morro, o homem conhece direito! Aliás, nós também somos criaturas de extrema finitude, apesar de sermos necessários para que o Criador seja Criador! Há um poema antigo, em latim, que expõe com maestria este problema da interdependência entre o criador e o criado: chama se “Sator”! Há um amigo meu que o analisa em um livro intitulado “O poema visual”! Era bom o senhor dar uma olhadinha nele, para entender os mistérios e os enigmas que nos cercam!
– Você foge do assunto! Como que Deus está dentro das tragédias?
– Fujo, não! Se o universo todo é criação de um Deus, conforme se lê em todas as mitologias, qualquer que seja o nome que se Lhe dê, o homem, a despeito de se considerar a criatura por excelência, não sabe cuidar dos outros criados e nem de si mesmo, pois destrói a matemática inerente as criaturas! Os quatro elementos formadores desse mundo em que vivemos são implacáveis! Agem em silêncio, como o pai que vê o filho praticar o mal! Quando menos se espera, eles dão o troco!
– E Deus está nos quatro elementos? Você vai longe demais!
– Vou, não! Sem ser panteísta, posso afirmar que Deus está nos quatro elementos, pois se não o estivesse, não seria onipresente! Os adjetivos usados, notadamente no cristianismo, para defini-Lo e qualificá-Lo são perfeitos: onipotente, onipresente, onisciente! Nos “Upanishads”, séc. VIII a. C., Ele é assim descrito: “Eis o que é invisível e inapreensível, sem ascendente e sem aparência, e não tem nem olhos, nem ouvidos, nem mãos, nem pés, mas é sempre e para sempre — o Onipenetrante que está em toda parte, mas é impalpável e imperecível, Onipresente e Aquele que os sábios, em toda parte, contemplam como a Matriz de todas as criaturas”.
– Estou começando a entender! E a convencer-me!
– Ainda bem, seu Ângelo! Se Ele é onipresente, está nas tragédias e bate na cangalha para o burro entender! Só que o burro não entende e continua destruindo o criado!
– Pode ser que um dia...
– Somos filhos de Deus; mas não estamos percebendo o seu olhar nas profundezas dos mistérios!
– É isso mesmo! Apesar de as leis dos homens proibirem exemplarem-se os filhos, de vez em quando uma tunda, daquelas de arrancar os pêlos, aplicada pelo Criador, é necessária, já que o desconfiômetro não funciona, a fim de que Ele se torne palpável mais do que com o dedo! Miserere nobis, Domine!
– Fala-se muito sobre a participação de Deus nas tragédias como se Ele fosse um pai desnaturado. Fazem-se muitas perguntas; mas resposta satisfatória mesmo, nenhuma! Você poderia falar sobre isso em uma de suas crônicas, a fim melhor esclarecer aos leigos, problema tão intrigante!
– Eu, caro Ângelo Bello, sou cronista; não sou teólogo! O senhor está confundindo as coisas; não?! Quem sou eu para explicar “mysteria fidei”!
– Você sabe!Não me enrole! Quem tem a sua leitura entende melhor os segredos de Deus que a gente que só lê o trivial!
– Seu Ângelo, o senhor, uma de suas criaturas prediletas e seu mensageiro, quer me tirar farinha; mas, vá lá! Espero não estar cometendo nenhum sacrilégio; mas Deus está dentro das tragédias! Não se assuste! Se Deus existe, conforme se tem provado, a partir da teoria do primeiro motor de Aristóteles, e mediante todos os argumentos teológicos e metafísicos utilizados por Santo Tomás de Aquino, na “Suma Teológica”, com base, inclusive, em método cientifico, como ele bem o coloca no que poderemos chamar introdução, Deus está nas tragédias. Não digo que Ele seja causa delas; mas as deixa desencadear através do criado: a natureza!
– Você está sendo muito simplista! E se ele não existir, e a natureza se constituir apenas um fenômeno?
– Caro Ângelo, admiro a sua incredulidade! Se os argumentos teológicos e metafísicos não são suficientes, observe a extensão do universo! Como surgiu esta imensidão, a ponto de existirem planetas e sistemas solares, segundo a nossa parca inteligência, há milhões de anos-luz? Veja a terra! Está flutuando, apesar de as pessoas dizerem que gostam de terra firme! Se ela e tudo que nela há funciona com precisão matemática; se todo o universo existe e é através de leis físicas e matemáticas, alguém tem de tê-lo criado! Ele não pode ter sido feito per se! Alguém tem de ter pronunciado o “faça-se” ou apenas ter tido a vontade de que ele se fizesse! Não se trata apenas de fenômenos que se auto-explicam!
– Pois é; mas Deus não teria criado tudo e se afastado da criação? Tudo age sem sua vontade externa, não?!
– Age? Externa, como se Ele está dentro delas? Não sei, seu Ângelo! Só sei que todas as coisas tem um início! Alguém fez e organizou tudo isso! Nós, homens, é que nada sabemos! Veja, meu caro, nem a lua, que está logo ali atrás do morro, o homem conhece direito! Aliás, nós também somos criaturas de extrema finitude, apesar de sermos necessários para que o Criador seja Criador! Há um poema antigo, em latim, que expõe com maestria este problema da interdependência entre o criador e o criado: chama se “Sator”! Há um amigo meu que o analisa em um livro intitulado “O poema visual”! Era bom o senhor dar uma olhadinha nele, para entender os mistérios e os enigmas que nos cercam!
– Você foge do assunto! Como que Deus está dentro das tragédias?
– Fujo, não! Se o universo todo é criação de um Deus, conforme se lê em todas as mitologias, qualquer que seja o nome que se Lhe dê, o homem, a despeito de se considerar a criatura por excelência, não sabe cuidar dos outros criados e nem de si mesmo, pois destrói a matemática inerente as criaturas! Os quatro elementos formadores desse mundo em que vivemos são implacáveis! Agem em silêncio, como o pai que vê o filho praticar o mal! Quando menos se espera, eles dão o troco!
– E Deus está nos quatro elementos? Você vai longe demais!
– Vou, não! Sem ser panteísta, posso afirmar que Deus está nos quatro elementos, pois se não o estivesse, não seria onipresente! Os adjetivos usados, notadamente no cristianismo, para defini-Lo e qualificá-Lo são perfeitos: onipotente, onipresente, onisciente! Nos “Upanishads”, séc. VIII a. C., Ele é assim descrito: “Eis o que é invisível e inapreensível, sem ascendente e sem aparência, e não tem nem olhos, nem ouvidos, nem mãos, nem pés, mas é sempre e para sempre — o Onipenetrante que está em toda parte, mas é impalpável e imperecível, Onipresente e Aquele que os sábios, em toda parte, contemplam como a Matriz de todas as criaturas”.
– Estou começando a entender! E a convencer-me!
– Ainda bem, seu Ângelo! Se Ele é onipresente, está nas tragédias e bate na cangalha para o burro entender! Só que o burro não entende e continua destruindo o criado!
– Pode ser que um dia...
– Somos filhos de Deus; mas não estamos percebendo o seu olhar nas profundezas dos mistérios!
– É isso mesmo! Apesar de as leis dos homens proibirem exemplarem-se os filhos, de vez em quando uma tunda, daquelas de arrancar os pêlos, aplicada pelo Criador, é necessária, já que o desconfiômetro não funciona, a fim de que Ele se torne palpável mais do que com o dedo! Miserere nobis, Domine!
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 18-1-2011, p. 13.

Olá professor, sou filha de uma ex-aluna sua, Divina Eterna.
ResponderExcluirGostei muito desse texto, e da sua visão sobre o assunto.