terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A BURRICE POLITICAMENTE CORRETA – II


– Como estávamos falando, caro Pangloss, para se ter uma idéia do disparate desses pseudo-educadores, os acalantos gregos e hindus de séculos antes de Cristo possuem sonoridade mântrica. A letra pertence às formas simples, cristalizada no imaginário de cada povo. Assim, querer mudar as letras de “Cuca”, do “Bicho-papão”, tal como o “Boi da cara preta” constitui um despautério, proferido por pessoas que pensam que o mundo começou com elas e que, por isso, deve fazer o que elas imaginam, sem qualquer fundamento. Ora, se todas as palavras referentes ao sono, em todos os idiomas provindos do hindu-europeu, carregam também a semântica de sonho, como imaginação, fantasia, fantasma, fantástico e, sintomaticamente, todas relacionadas com o deus Hipnos, pai de Morfeu, verificamos que música e imaginário se entrelaçam de tal forma no cancioneiro infantil que chegam a ser inseparáveis e, em decorrência, revestem-se de um caráter sagrado, porquanto inerentes à tradição. Assim, além de podermos responder aos insensatos de plantão mediante paródia a Michelangelo, quando Julio I, queria que ele vestisse Noé no teto da Capela Sistina, devemos também recomendar-lhes o estudo do folclore e, sobretudo, a audição das berceuses gregas que nos chegaram através da oralidade. Se Michelangelo não podia mudar a Bíblia, também não podemos mexer nas formas simples; a não ser para inserir o riso típico da paródia ou recriá-las em novas dimensões estéticas. Infelizmente, esta hipótese não se aplica aos “pedagogos” responsáveis, como diz George Gusdorf, pela desgraça imperante no ensino em todo o mundo, notadamente em terras de Pindorama.
– Não sei bem o que é pior; mas, e as canções que dizem incitar à violência?
– Ah! Caro Pangloss, as ilações a respeito destas preciosidades de infância são estarrecedoras. Dizer que “O cravo brigou com a rosa” dissemina a violência é simplesmente risível; mas aquele riso amarelo a que nos impõem as asneiras, as parvoíces! Nas mitologias e nas literaturas se encontram relatos inúmeros de ciúmes e desavenças entre irmãos – Caim e Abel, Polinice e Etéocles, Esaú e Jacó –, de deusas, notadamente Hera, que tudo faziam para eliminar as amantes de seus maridos, Zeus; o ciúme de Laio por Jocasta que o leva a tentar eliminar o filho Édipo; o ciúme de Otelo por Desdêmona que, a despeito de abordar vários temas condenados pelos interessados em criar aberrantes e abomináveis preconceitos, servem de lição à humanidade e, não, para impelir à violência contra a mulher. Se tivermos de eliminar do cancioneiro infantil esta ingênua canção, teremos de destruir as mitologias e as artes delas recriadas, notadamente as tragédias.
– Não seria mais fácil eliminar a burrice? Não seria mais recomendável que estes “sábios” de plantão se inteirassem mais de toda a cultura da humanidade?
– Sem dúvida, Pangloss! Veja, ainda, a canção “Atirei o pau no gato”, condenada por fazer apologia à violência contra os animais. Quem defende e acredita nesta hipótese é realmente um piadista de mau-gosto. Se nas canções de ninar interessam apenas a alternância tônica e a harmonia serena, a fim de provocar o sono, dispensando totalmente a semântica impressa à letra, nas chamadas cirandas, sobrepõem-se o ritmo, normalmente binário, a fim de que as crianças possam dançar ou executar momentos que lembram a dança e que são partes integrantes da brincadeira. É claro que segundo uma harmonia não mais calma e tranqüila; mas alegre e com brilho. O preconceito de que a letra de “Atirei o pau no gato” é vítima assemelha-se à tentativa inusitada de se querer censurar o livro infantil “Caçada de Pedrinho” e revela total desconhecimento de um arcabouço cultural que levou séculos para se cristalizar.
– Se continuarem assim, logo vão se intrigar com a canção “Borboletinha”, por nada saberem sobre a metafísica da linguagem, necessária à criação do ritmo e importante para materializar estados de ser e de não-ser na literatura do absurdo. Já pensou quando tentarem entender “Poti poti/ Perna de pau/ Olho de vidro/ E nariz de pica-pau, (pau, pau)”!? Mas, o que eu acho, se o senhor me permite, é que estes “sábios”, além de acreditarem que tudo iniciou com eles, ainda desviam o foco das desgraças humanas para onde o objeto não está, ou seja, estão em um quarto escuro, à procura de uma cartola preta que não está lá. Todo efeito pressupõe uma causa; mas não a que pensam ser. As razoes da violência dos chamados humanos contra outros chamados humanos; mas que não verdade apenas pertencem à humanidade, ou contra a natureza, são mais profundas e de difícil solução. Por isso, preferem ver chifre em cabeça de cavalo! Educação, é melhor fingir que se está preocupado com ela; economia, para quê, se o povo se contenta com migalhas; cultura, ora, é melhor que o cidadão pense que tem cidadania e aprecie o supra-sumo da quinta essência da porcaria, porque não lhe é dado aprimorar o gosto! Se o povo pensar, o estado, tal como é concebido, corre perigo!
– Pangloss! Você disse todas as verdades! Só lamento que uma cuca, um gato e outros entes de imaginário, de folclore, paguem o pato por tamanhas asnices! Senhor Deus, tenha misericórdia de nós!
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 4-1-2011, p. 16.


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