CANTATA DE NATAL
José Fernandes*
“Já somos Natal: Yeshua Meshiach veio/da funda eternidade nesta noite, em tempo/de anjos e aleluias a entoarem adeste fideles,/laeti trinphantes, venite in refugium Patris/ e recebei o renascimento no Nome, na Palavra/e nas conjugações do Verbo tecendo mistérios/ e enigmas do invisível e do inapreensível,/ sem ascendente e sem aparência; mas é sempre/ e para sempre onipresente em toda parte/ e em parte alguma, impalpável, imperecível,/invisível; mas artigo de olho inteiro vendo,/cum stupore, o não-visto.”
O Natal não se passa apenas no nível do parecer e, sobretudo, no nível do ter: deslumbramento de cores para enfeitiçar os olhos do visto; ele tem de passar nas funduras do ser e, em decorrência, assumir uma dimensão que ultrapassa a simples matéria de homem. Ele deve ocorrer nas fimbrias da alma, no mais essencial do humano: o espírito. Nestes tempos de ilusão, de domínio do ter, à medida que o homem precisa sobreviver, abandona-se o permanente, relega-o ao esquecimento. Mesmo quem vai à igreja e ora todos os dias, movido pelas necessidades do terreno, não chega à percepção e à consciência da importância daquilo que se leva para o lado incorruptível do existir, daquilo que verdadeiramente importa ao ser do humano. O Natal seria um momento de renascimento; não do nascer de novo! Renascimento no sentido de recuperar, de revigorar e de aprimorar a plenitude do ser, aquela essência que nos faz sublimes e que nos aproxima da divindade.
É por isso que as Escrituras Sagradas, traduzidas em linguagens de homens, revelam que no momento ímpar do nascer-se Messias, anjos entoavam glórias às alturas. Ora, se entendermos a semântica do vocábulo glória como a manifestação de um estado de transfiguração hierofânica, operada em decorrência da viva presença do sagrado, o ato de cantar, sabiamente definido por Santo Agostinho como o rezar duas vezes, reveste-se de um significado inusitado, pois seria a repetição no tempo do mito e do rito da alegria e do “stupore”. A chamada Cantata de Natal, tradicional em outros países, encontra eco, no Brasil, segundo a entendemos e a conhecemos em outras culturas, praticamente só no sul, mormente em Curitiba. A despeito de estarmos em um País cada vez mais distante daquele substrato cultural cristalizado pelo ontem, acreditamos que podemos implantar processo parecido segundo nossa maneira de ver e sentir o Natal. Não como se vê em dezenas de vídeos brasileiros na internet, como se aqui só se cultivassem excrementos de cultura ou para a cultura; mas como se vê em centenas de vídeos de “Cantate de Noël”, de “Christmas cantata”, “Weihnachtskantate”, a exemplo das encantadoras e quase celestiais “Cantatas do Oratório de Natal”, em que Johan Sebastian Bach nos insere na atmosfera do sobrenatural, a ponto de nos sentirmos deuses em espírito, uma vez que sua música evoca magia e mistérios de anjos e divindades
Ao enfatizar a qualidade e a excelência destas cantatas, certamente receberemos a pecha de xenófilo. Cremos, entretanto, que a cultura não se constrói em um dia, nem em poucos anos. Temos de cultivar o belo, naquela acepção do deleite, do sublime, advinda da necessidade de nos aproximarmos do Divino, e isso só se consegue mediante a cristalização do costume por intermédio do aculturamento do povo. Mas, como conseguir o aprimoramento do gosto musical, se não há mais espaço na mídia para “Os canarinhos de Petrópolis”, coral que consegue o milagre da perfeição com vozes mutantes de crianças, tal como ocorre com “Os meninos cantores de Viena”? Por que o povo deve ser mantido nas trevas da ignorância e levados apenas a venerar o feio? Se fosse pelo menos o feio estético! Por que a mídia, as igrejas atendem às ideologias políticas reinantes e enfiam ouvidos adentro as piores produções musicais imaginadas, como se o povo tivesse gosto ditado apenas pelas negras águas podres do Cocito? Até mesmo a Igreja Católica, responsável pelo refinamento do gosto musical em outros tempos, com composições realmente sublimes, como o “Dies sanctificatus”, de Palestrina; a “Ode à alegria”, parte da “Nova sinfonia”, de Beethoven; o “Exsultate justi in Domino”, do Padre Ney Brasil, “Cantate Domino”, de Claudio Monteverdi, adotou, pelo menos nestes brasis, a pobreza e a mizéria artística.
Temos de cantar, de exultar, de explodir contentamentos pelo Menino nascente e nascendo no sempre do Deus; mas com arte, com o encantamento do belo estético, capaz de maravilhar anjos e santos, não, de afugentá-los das proximidades da manjedoura, das proximidades daquele espaço em que Ieshua, o Santo dos Santos, se revelou, a fim de divinizar a execrável humanidade. É com olhos de cultura e de espírito que a Academia Goiana de Letras idealizou a Cantata de Natal que se realizará amanhã, dia 22, às dezenove horas, na Casa de Cultura Altamiro de Moura Pacheco, na Avenida Araguaia. Os esforços hercúleos do Presidente, Dr. Hélio Moreira, da musicista, Elen Lara, e da Secretária, Márcia Escher Moura, sob o patrocínio divinal da Unicred, resultante da sensibilidade artística da “Promotor” Mônica Josi dos Santos, convertem-se em uma semente que, esperamos, chegue, no próximo ano, a outros recantos da Capital, inclusive ao Palácio das Esmeraldas, porque cantar o Natal, com a verdadeira arte musical, é elevar-nos, por alguns instantes, ao sublime, em que se ultrapassa a insignificante cidadania e se insere, por um piscar de olhos, no paradisíaco. Gloria in excelsis Deo: Noite Feliz! Nollaig Shona Dhuit! Gajan Kristnaskon! Feliz Natal!
* José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras – thjfernades@uol.com.br –
http://poetacriticojf.blogspot.comJosé Fernandes*
“Já somos Natal: Yeshua Meshiach veio/da funda eternidade nesta noite, em tempo/de anjos e aleluias a entoarem adeste fideles,/laeti trinphantes, venite in refugium Patris/ e recebei o renascimento no Nome, na Palavra/e nas conjugações do Verbo tecendo mistérios/ e enigmas do invisível e do inapreensível,/ sem ascendente e sem aparência; mas é sempre/ e para sempre onipresente em toda parte/ e em parte alguma, impalpável, imperecível,/invisível; mas artigo de olho inteiro vendo,/cum stupore, o não-visto.”
O Natal não se passa apenas no nível do parecer e, sobretudo, no nível do ter: deslumbramento de cores para enfeitiçar os olhos do visto; ele tem de passar nas funduras do ser e, em decorrência, assumir uma dimensão que ultrapassa a simples matéria de homem. Ele deve ocorrer nas fimbrias da alma, no mais essencial do humano: o espírito. Nestes tempos de ilusão, de domínio do ter, à medida que o homem precisa sobreviver, abandona-se o permanente, relega-o ao esquecimento. Mesmo quem vai à igreja e ora todos os dias, movido pelas necessidades do terreno, não chega à percepção e à consciência da importância daquilo que se leva para o lado incorruptível do existir, daquilo que verdadeiramente importa ao ser do humano. O Natal seria um momento de renascimento; não do nascer de novo! Renascimento no sentido de recuperar, de revigorar e de aprimorar a plenitude do ser, aquela essência que nos faz sublimes e que nos aproxima da divindade.
É por isso que as Escrituras Sagradas, traduzidas em linguagens de homens, revelam que no momento ímpar do nascer-se Messias, anjos entoavam glórias às alturas. Ora, se entendermos a semântica do vocábulo glória como a manifestação de um estado de transfiguração hierofânica, operada em decorrência da viva presença do sagrado, o ato de cantar, sabiamente definido por Santo Agostinho como o rezar duas vezes, reveste-se de um significado inusitado, pois seria a repetição no tempo do mito e do rito da alegria e do “stupore”. A chamada Cantata de Natal, tradicional em outros países, encontra eco, no Brasil, segundo a entendemos e a conhecemos em outras culturas, praticamente só no sul, mormente em Curitiba. A despeito de estarmos em um País cada vez mais distante daquele substrato cultural cristalizado pelo ontem, acreditamos que podemos implantar processo parecido segundo nossa maneira de ver e sentir o Natal. Não como se vê em dezenas de vídeos brasileiros na internet, como se aqui só se cultivassem excrementos de cultura ou para a cultura; mas como se vê em centenas de vídeos de “Cantate de Noël”, de “Christmas cantata”, “Weihnachtskantate”, a exemplo das encantadoras e quase celestiais “Cantatas do Oratório de Natal”, em que Johan Sebastian Bach nos insere na atmosfera do sobrenatural, a ponto de nos sentirmos deuses em espírito, uma vez que sua música evoca magia e mistérios de anjos e divindades
Ao enfatizar a qualidade e a excelência destas cantatas, certamente receberemos a pecha de xenófilo. Cremos, entretanto, que a cultura não se constrói em um dia, nem em poucos anos. Temos de cultivar o belo, naquela acepção do deleite, do sublime, advinda da necessidade de nos aproximarmos do Divino, e isso só se consegue mediante a cristalização do costume por intermédio do aculturamento do povo. Mas, como conseguir o aprimoramento do gosto musical, se não há mais espaço na mídia para “Os canarinhos de Petrópolis”, coral que consegue o milagre da perfeição com vozes mutantes de crianças, tal como ocorre com “Os meninos cantores de Viena”? Por que o povo deve ser mantido nas trevas da ignorância e levados apenas a venerar o feio? Se fosse pelo menos o feio estético! Por que a mídia, as igrejas atendem às ideologias políticas reinantes e enfiam ouvidos adentro as piores produções musicais imaginadas, como se o povo tivesse gosto ditado apenas pelas negras águas podres do Cocito? Até mesmo a Igreja Católica, responsável pelo refinamento do gosto musical em outros tempos, com composições realmente sublimes, como o “Dies sanctificatus”, de Palestrina; a “Ode à alegria”, parte da “Nova sinfonia”, de Beethoven; o “Exsultate justi in Domino”, do Padre Ney Brasil, “Cantate Domino”, de Claudio Monteverdi, adotou, pelo menos nestes brasis, a pobreza e a mizéria artística.
Temos de cantar, de exultar, de explodir contentamentos pelo Menino nascente e nascendo no sempre do Deus; mas com arte, com o encantamento do belo estético, capaz de maravilhar anjos e santos, não, de afugentá-los das proximidades da manjedoura, das proximidades daquele espaço em que Ieshua, o Santo dos Santos, se revelou, a fim de divinizar a execrável humanidade. É com olhos de cultura e de espírito que a Academia Goiana de Letras idealizou a Cantata de Natal que se realizará amanhã, dia 22, às dezenove horas, na Casa de Cultura Altamiro de Moura Pacheco, na Avenida Araguaia. Os esforços hercúleos do Presidente, Dr. Hélio Moreira, da musicista, Elen Lara, e da Secretária, Márcia Escher Moura, sob o patrocínio divinal da Unicred, resultante da sensibilidade artística da “Promotor” Mônica Josi dos Santos, convertem-se em uma semente que, esperamos, chegue, no próximo ano, a outros recantos da Capital, inclusive ao Palácio das Esmeraldas, porque cantar o Natal, com a verdadeira arte musical, é elevar-nos, por alguns instantes, ao sublime, em que se ultrapassa a insignificante cidadania e se insere, por um piscar de olhos, no paradisíaco. Gloria in excelsis Deo: Noite Feliz! Nollaig Shona Dhuit! Gajan Kristnaskon! Feliz Natal!
* José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras – thjfernades@uol.com.br –
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 21-12-2010, p.8.

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