quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A BURRICE POLITICAMENTE CORRETA – I



Música não é arte apenas para ouvir, mas para sentir, para inebriar, para tocar as funduras do humano, para sustentar os fundamentos do ser. Por isso, ela surgiu antes da letra, com um caráter eminentemente encantatório, e, por isso, dispensa a palavra, pois sua linguagem possui uma dimensão teosófica, que ultrapassa o meramente humano e se insere na esfera do invisível e do indizível. Evidentemente, que estamos falando de música, no mais genuíno sentido de harmonia, mesmo que ela tenha cunho popular, folclórico, mitológico. Não sem razão, os gregos a definiram como, “monosiké tékne”, que traduz seu duplo caráter metafísico e hierofanico, sagrado, e técnico, que envolve o sentido pleno de sabedoria. Por longo tempo, ela visou a elevar o homem a aproximar-se do divino, a ascender aos deuses e, mormente, ao Deus, Iavé. Em decorrência, sua função primeira, além de louvar os deuses, seria impregnar o limitado ser do homem do sublime. Ao ouvirmos músicas sumérias, mesopotâmicas e, sobretudo, gregas dos séculos VI ao I a.C, temos a sensação de que alguma divindade nos incorpora através dos ouvidos; mas, para que isso ocorra, é necessário que se lhas sintamos com o espírito, com aquela qüididade que carregamos na fundura do ser.
A magia e o encantamento percorreram toda a história, na chamada música clássica, e também se cristalizou em formas e fôrmas diversas dos ritos religiosos, dos rituais de passagem ou de iniciação, e dos folclores dos vários povos, como se vê no “Capricho italiano”, em que Tchaikovsky intertextualiza canções populares correlacionadas com o rito da colheita da uva, e nas inúmeras composições de Villa Lobas, verdadeiras recriações de nossas formas simples. Entre estas manifestações artístico-musicais pertencentes ao coração do todo se destaca, em todas as nações, a chamada música infantil, erudita, como as “Berceuses” ou “Wiegenlied”, “Lullabies”, de Brahms, Beethoven, Mozart, Chopin, Debussy, Tchaikovsky, também presentes entre nós com o nome de acalanto, criado e recriado por compositores da estirpe de Chico Buarque, com a composição erudita do “Acalanto para Helena”, e Dorival Caymmi, que reinterpreta o tradicional “Boi da cara preta”.
Em canções inúmeras do folclore criança de todos os humanos, interessam, sobremodo, o ritmo e a harmonia que se revestem de função mântrica, não, para comover os deuses ou proceder à elevação espiritual; mas para exercerem o feitiço do sono, mediante o deleite, o enlevamento, proporcionados pela placidez, pela serenidade, pelo relaxamento. A letra, a despeito de referir-se ao imaginário do medo, existente na concepção do adulto, tem apenas a função do enlevo, de entorpecimento, tanto que, no momento em que se o conta em “bocca chiusa”, nasalizando a sonoridade, instaura-se o verdadeiro mantra, no sentido sânscrito da palavra, uma vez que nesse idioma, as palavras se compunham, em sua maioria, de fonemas nasais. Além disso, o reiteração do som “hum”, semelhante ao “om” mântrico, possui, desde tempos imemoriais, significado e simbolismo profundos, uma vez que se relacionava ao Absoluto, ao Sublime, caracterizado como o som do infinito, e, entre suas características, encontram-se exatamente o sono e o sonho.
Em nosso repertório de cantigas de ninar, cremos, “Boi da cara preta”, além de ser uma variante do mito de bois indomáveis, como Barroso e Espácio, apresenta todas as características de um mantra, materializado na própria canção, que produz a serenidade necessária à sonolência, ainda possui uma letra em que os fonemas se combinam integralmente com a harmonia. A repetição do vocábulo “boi”, formado por uma consoante bilabial, oclusiva sonora, acompanhada de duas vogais, média e alta, a despeito de não serem nasais, produz musicalidade semelhante à verificada em canções mantricas empregadas, inclusive, por cânticos religiosos, como o gregoriano, sobretudo porque entoado em uma língua sonora, como o é o idioma adotado pela igreja católica de ritos cristalizados pelo tempo. A felicidade de quem compôs esta canção está justamente na interação entre a magia e o encantamento musicais com o som inerente a palavras nada nasais; mas que encerram o ludismo rítmico imprescindível à instauração do poético naquela concepção grega, através do homeoteleuto e, pelos sumérios, por meio dos mantras.
– Professor, até agora não o ouvi referir-se ao tema de nosso convescote! Ou, para o senhor, toda esta análise faz parte da burrice politicamente correta?
– Claro que não, Pangloss! Todos estes esclarecimentos são imprescindíveis para, agora, mostrarmos os absurdos da burrice politicamente correta praticada por alguns pseudo-educadores e por alguns pseudo-cientistas calçados com os saltos altos da incultura. Condenar uma canção como esta, porque o boi causa pavor à criança, é não conhecer os mínimos princípios que cristalizaram o cancioneiro infantil folclórico, é nada entender de psicologia infantil, porquanto ao infante não interessa a letra que será compreendida em uma fase bem posterior ao estar bebê, quando prescinde do ninar materno. É nada entender de música e seus mistérios que ultrapassam o ser meramente homem, pois importa à sua audição unicamente o encanto propiciado pelo arroubo mântrico da música.
– Estou começando a entender! Miserere nobis, Domine!
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 28-12-2010, p. 15.

1 comentários:

  1. É isso mesmo! o professor escritor aqui é demais! PLURITEMÁTICO...POliglota...POlido...

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