TRAIÇÕES E TRAIDORES
José Fernandes*
A traição é própria das criaturas. Deus criou os anjos, e alguns se rebelaram e formaram a classe dos belzebus. Cristo, por ser o herói trágico por excelência, porquanto soubesse antecipadamente do destino a enfrentar, escolheu Judas Iscariotes como apóstolo, a fim de que ele o traísse, e as profecias se cumprissem. Parece-nos que os homens gostam dessa pérfida deslealdade, desses malditos ardis. À exceção dos primeiros ingratos, Lúcifer e Judas, a maioria daqueles que compõem a galeria dos maiores sacripantas da história está ligada a grupos e a interesses pessoais. Basta se conferir e se verá: eram espiões – Aldrich Ames – ; generais – Cássio Longinus, Wang Jigwei, Augusto Pinochet –; mafiosos – Silvério dos Reis, Tommaso Buscetta – ; proprietários de sesmarias – Domingos Calabar; filhos adotivos – Brutus; filhos biológicos – Suzana Von Richtöfen e, mormente, políticos, sobretudo aqueles que são criaturas de algum deus “ex machina”, como ocorreu a Talleyrand Périgord e, sem dúvida, a Pinochet. Na trajetória histórica destes brasis, as traições entre políticos são freqüentes e, não se sabem as razoes, quase sempre caem no esquecimento, até do traído ou dos traídos.
O que leva alguém a adotar esta nefasta atitude normalmente é o estado de criatura, de dependência em relação ao criador. Em Goiás, temos um exemplo perfeito de ingratidão, semelhante àquelas bíblicas, pois o criado jamais chegaria a mandante do Estado, sozinho. Aliás, estas eleições se nos prestaram à verificação de que nós, eleitores, sopramos vida aos políticos, porquanto os elegemos, mas somos sempre traídos. Sempre dizíamos a um amigo que, mal passasse o pleito, os combustíveis, notadamente o álcool, seriam majorados. Pois, sequer aguardaram a passagem do engodo. No dia mesmo do primeiro turno, assustamo-nos com as placas apostas às entradas dos postos. Foi uma facada nas costas dos eleitores que ainda iriam conferir sopro a muitos “vitoriosos”. Depois, veio o segundo turno, realizado dia 31 passado. Três dias depois, uma pérfida punhalada perpetrada por centenas de mãos assassinas: a recriação da abominável CPMF para a saúde. Realmente, à época da primeira execrável Contribuição viu-se a saúde de muitos governantes ou de seus auxiliares em excelente estado. É só rememorarmos os múltiplos escândalos ocorridos entre os políticos nesta primeira década di século. Chegam a mais de duzentos. Isso mesmo! Infelizmente, no espaço desta crônica eles não caberiam! Os criadores desses malfeitores, os eleitores, aqueles que necessitam dos serviços oferecidos pelo sistema de saúde, continuaram como dantes na casa de Abrantes. Basta verificarmos o noticiário da época: filas quilométricas em frente a postos de atendimento, salários inomináveis aos médicos que gastam um terço da vida em estudos, pacientes – e como são pacientes! – em macas nos corredores, farmácias desprovidas de medicamentos. Os eleitores continuam naquela situação em que se emprega a semântica do vocábulo “pharmakós”, na tragédia grega: são imolados para purificar a polis, ou para purificar as finanças da maioria dos políticos que, longe de se aproximarem dos heróis trágicos, sempre se saem ilesos das artimanhas dessa esfinge devoradora de impostos.
A diferença entre a política de brasis e a tragédia grega reside no fato de que é o político que traça o seu destino, conscientemente, uma vez que seus próprios oráculos lhe direcionam à execução do ato que vitima àquele a quem deve o voto. Assemelha-se à maldição dos lambdácidas, notadamente se o “pai” e, sobretudo, a “mãe” estiver na classe média, que usa conta bancária para subsistir com o parco salário. Ou, pior, se a “mãe” for o estado que lhe oferece os instrumentos de imolação do contribuinte de forma a arregalar-lhe os olhos, como se vê mediante a ganância da CPMF, saúde certeira às suas ambições. Oh! Deus, como eles mamam!
Se a arrecadação chegou a duas vezes ao que se arrecadava na primeira CPMF, a recriação dessa famigerada contribuição configura realmente uma abominável traição ao povo que elegeu estes governadores que se ouriçaram com a maldita idéia. Toda traição é execrável e, por isso, imperdoável; mas quererem calar a imprensa, agora com idéias de esquerda, é o supra sumo da quinta essência do contraditório: é traição! É uma emboscada com aviso prévio! Já não bastaram trinta anos de ditadura? Parece até que esses que se dizem perseguidos àquela época, gostaram da censura, gostaram que as verdades fossem escondidas nas fundas cavernas do silêncio. Certamente, por tanto a haverem apreciado, desejam adotá-la, agora, como norma de governo! Àquela época, tivemos de nos preocupar com os ouvidos das paredes! Será que, agora, depois de velho, teremos, novamente, de fechar-nos no nosso próprio silêncio e engolir espinhentas verdades? Amigo J. Veiga, você que soube tão bem retratar aqueles tempos de obscurantismo, abra-nos algum caminho, porque, infelizmente, há ruminantes e pecados em todas as tribos. Esperamos que não haja mais torvelinhos dia e noite nem objetos turbulentos neste novo mundo de vasabarros! Chega de cálice e de galos impertinentes! Miserere nobis, Domine!
* José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. thjfernandes@uol.com.br – poetacriticojf.blogspot.com
José Fernandes*
A traição é própria das criaturas. Deus criou os anjos, e alguns se rebelaram e formaram a classe dos belzebus. Cristo, por ser o herói trágico por excelência, porquanto soubesse antecipadamente do destino a enfrentar, escolheu Judas Iscariotes como apóstolo, a fim de que ele o traísse, e as profecias se cumprissem. Parece-nos que os homens gostam dessa pérfida deslealdade, desses malditos ardis. À exceção dos primeiros ingratos, Lúcifer e Judas, a maioria daqueles que compõem a galeria dos maiores sacripantas da história está ligada a grupos e a interesses pessoais. Basta se conferir e se verá: eram espiões – Aldrich Ames – ; generais – Cássio Longinus, Wang Jigwei, Augusto Pinochet –; mafiosos – Silvério dos Reis, Tommaso Buscetta – ; proprietários de sesmarias – Domingos Calabar; filhos adotivos – Brutus; filhos biológicos – Suzana Von Richtöfen e, mormente, políticos, sobretudo aqueles que são criaturas de algum deus “ex machina”, como ocorreu a Talleyrand Périgord e, sem dúvida, a Pinochet. Na trajetória histórica destes brasis, as traições entre políticos são freqüentes e, não se sabem as razoes, quase sempre caem no esquecimento, até do traído ou dos traídos.
O que leva alguém a adotar esta nefasta atitude normalmente é o estado de criatura, de dependência em relação ao criador. Em Goiás, temos um exemplo perfeito de ingratidão, semelhante àquelas bíblicas, pois o criado jamais chegaria a mandante do Estado, sozinho. Aliás, estas eleições se nos prestaram à verificação de que nós, eleitores, sopramos vida aos políticos, porquanto os elegemos, mas somos sempre traídos. Sempre dizíamos a um amigo que, mal passasse o pleito, os combustíveis, notadamente o álcool, seriam majorados. Pois, sequer aguardaram a passagem do engodo. No dia mesmo do primeiro turno, assustamo-nos com as placas apostas às entradas dos postos. Foi uma facada nas costas dos eleitores que ainda iriam conferir sopro a muitos “vitoriosos”. Depois, veio o segundo turno, realizado dia 31 passado. Três dias depois, uma pérfida punhalada perpetrada por centenas de mãos assassinas: a recriação da abominável CPMF para a saúde. Realmente, à época da primeira execrável Contribuição viu-se a saúde de muitos governantes ou de seus auxiliares em excelente estado. É só rememorarmos os múltiplos escândalos ocorridos entre os políticos nesta primeira década di século. Chegam a mais de duzentos. Isso mesmo! Infelizmente, no espaço desta crônica eles não caberiam! Os criadores desses malfeitores, os eleitores, aqueles que necessitam dos serviços oferecidos pelo sistema de saúde, continuaram como dantes na casa de Abrantes. Basta verificarmos o noticiário da época: filas quilométricas em frente a postos de atendimento, salários inomináveis aos médicos que gastam um terço da vida em estudos, pacientes – e como são pacientes! – em macas nos corredores, farmácias desprovidas de medicamentos. Os eleitores continuam naquela situação em que se emprega a semântica do vocábulo “pharmakós”, na tragédia grega: são imolados para purificar a polis, ou para purificar as finanças da maioria dos políticos que, longe de se aproximarem dos heróis trágicos, sempre se saem ilesos das artimanhas dessa esfinge devoradora de impostos.
A diferença entre a política de brasis e a tragédia grega reside no fato de que é o político que traça o seu destino, conscientemente, uma vez que seus próprios oráculos lhe direcionam à execução do ato que vitima àquele a quem deve o voto. Assemelha-se à maldição dos lambdácidas, notadamente se o “pai” e, sobretudo, a “mãe” estiver na classe média, que usa conta bancária para subsistir com o parco salário. Ou, pior, se a “mãe” for o estado que lhe oferece os instrumentos de imolação do contribuinte de forma a arregalar-lhe os olhos, como se vê mediante a ganância da CPMF, saúde certeira às suas ambições. Oh! Deus, como eles mamam!
Se a arrecadação chegou a duas vezes ao que se arrecadava na primeira CPMF, a recriação dessa famigerada contribuição configura realmente uma abominável traição ao povo que elegeu estes governadores que se ouriçaram com a maldita idéia. Toda traição é execrável e, por isso, imperdoável; mas quererem calar a imprensa, agora com idéias de esquerda, é o supra sumo da quinta essência do contraditório: é traição! É uma emboscada com aviso prévio! Já não bastaram trinta anos de ditadura? Parece até que esses que se dizem perseguidos àquela época, gostaram da censura, gostaram que as verdades fossem escondidas nas fundas cavernas do silêncio. Certamente, por tanto a haverem apreciado, desejam adotá-la, agora, como norma de governo! Àquela época, tivemos de nos preocupar com os ouvidos das paredes! Será que, agora, depois de velho, teremos, novamente, de fechar-nos no nosso próprio silêncio e engolir espinhentas verdades? Amigo J. Veiga, você que soube tão bem retratar aqueles tempos de obscurantismo, abra-nos algum caminho, porque, infelizmente, há ruminantes e pecados em todas as tribos. Esperamos que não haja mais torvelinhos dia e noite nem objetos turbulentos neste novo mundo de vasabarros! Chega de cálice e de galos impertinentes! Miserere nobis, Domine!
* José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. thjfernandes@uol.com.br – poetacriticojf.blogspot.com
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 16-11-2010, p. 8.

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