SÓ É POSSÍVEL CALAR SE SE PUDER FALAR!
José Fernandes*
A Batista Custódio, homem liberdade!
Ainda pequeno, vivi o espaço dos alçapões e seus silêncios a escorrem claustros e paredes nuas. Dia e noite, olhos predadores me espiavam pelas frinchas de vento e dos pedregulhos doridos. Hoje, quando me penso viajando nas asas de araras e periquitos, além de brincar de estorvar pedras e limos, leio gaiolas fechando cantos e calando violinos. Quando pensei que só poderia me silenciar porque posso ouvir e cantar sereias melodiando sertões, revejo duros grilhões ditadores querendo engolir letras e palavras que voam rios e correm pássaros. Ora, se falar é articular a existência, mediante o diálogo com o outro e consigo mesmo, na medida em que se revela e se realiza a plenitude do humano, no momento em que se é privado da faculdade de falar, perde-se um dos elementos mais profundos, inerentes ao ser do humano: a liberdade. Será que é por isso que se canta tanto a “cidadania”, essa coisa incompleta que diz respeito apenas à identidade social do indivíduo? Cidadania, tal como é empregada, destituída da identidade ontológica do ser, é um canto de saci passarinho. Deve ser por isso que só se fala em cidadania, como se o homem falasse com a boca do estômago e pensasse com os chinelos; mas tivesse panarício no topo da cabeça! Cidadania concebida pelos olhos dos favores e, notadamente, pela visão vaporosa das brumas, é uma forma de oferecer aos outros as melodias dos avestruzes e de se reter os vôos beija-flores ao néctar da vida, porque aprisionados ao mundéu dos loucos.
Certamente, é por isso que se quer calar a imprensa, a única instituição séria ainda existente nesse país de brincadeira, de engodos, de empates combinados naquele que deveria ser o mais rigoroso dos poderes, a fim de manchar a ficha limpa, de pesquisas falaciosas destinadas os incautos com a própria imagem no espelho... A imprensa ainda é a única maneira de se falar pela maioria, de se mostrar à população os subterrâneos imundos das cavernas de morcegos e sanguessugas. Se falar é articular o ser, no mais profundo sentido de substância do humano, porque possibilidade de ele desvendar-se em verdades do existir, no momento em que se restringe ou se embarga a palavra, se está nulificando a essência mesma do falante; porque negar a palavra é negar a identidade e a verdade do outro. O silêncio só é possível a partir da existência do genuíno falar. Se não se puder falar, não se silencia; é-se silenciado!
Ser silenciado constitui o mais nefando assassinato da liberdade, definida como “estado daquele que faz aquilo que quer e não aquilo que outrem pretende que ele faça; é ausência de um constrangimento estranho” ao pensar, ao agir e à prática do livre arbítrio e da livre pronúncia da palavra falada ou escrita. Os brasileiros pertencentes à minha geração sabem o que é ser calado, sabem o que é ter medo das paredes e seus ouvidos. Os brasileiros da minha geração leram “Os Lusíadas”, inteirinhos, nas páginas do também hoje calado Estadão. Todos sabem que, supressas as liberdades e as garantias individuais, a fala se converte em um ato perigoso, e o humano é fechado na escuridão do silêncio, como bem sintetizou aquele tempo José J. Veiga, através das personagens Amâncio e Manuel Florêncio, em “A hora dos ruminantes”: “Amâncio parou de falar, chegou à janela, olhou o largo com interesse, como quem se despede de um lugar antes de uma viagem demorada, com o cavalo na porta arreado e o arrependimento de ir já doendo por dentro; e continuou falando para fora, indiferente à presença de Manuel Florêncio.
– Quem havia de dizer que Manarairema ia mudar em tão pouco tempo... Antigamente a gente vivia descansado, sossegado, dormia e acordava e achava tudo no lugar certo, não era preciso pensar adiantado. Hoje a gente pensa até para dar bom-dia. O que foi que nós fizemos para acontecer isso? Manuel, estamos mal.
Manuel olhou-o meio comovido, meio desconfiado. Aquele lado novo não esconderia uma armadilha? Amâncio segurou-o pelo ombro e disse quase implorando:
– Precisamos ficar muito unidos, compadre. Vamos atravessar uma quadra de muita dificuldade.
– Mas Amâncio, por que agora? Ou você está assustado com alguma coisa?
Amâncio baixou a cabeça e disse em voz mais baixa:
– Você sabe o que é que eu estou dizendo. Não pensei que chegasse a esse ponto, mas chegou. Caímos na ratoeira e por enquanto não vejo saída.”
Se já vimos o silêncio assassinar a verdade e tolher vôos águias e andorinhas, por que instalá-lo novamente através de espúrias comissões destinadas a cortar letras e palavras saídas das funduras do humano? Por que calar o verbo e suas conjugações de humano de homem na crista do tempo? Haverá ruminantes que se prestem a tão vis currais? Liberdade, jamais tardia, caro Melibeu-Títiro-Virgílio! Liberdade, sempre liberdade, Senhor Deus dos desgraçados! Que posso fazer se, para encantar o azul, uso o vôo dos pássaros, para cinzelar homens, pulo pedras e natureza: elegâncias de garças, gorjeios de árvores e sinfonia de vaga-lumes: desenhos de estrelas?! Que fazer se, para fugir à dança preta dos anus, dou asas à imaginação e seus fios: deixo a pena correr o branco e a folha que entendem cantos de árvores e rios correndo estrelas?! Não se podem calar os bem-te-vis! Veni Creator Spiritus, mentes politicorum visita!
* José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. thjfernandes@uol.com.br – poetacriticojf.blogspot.com
José Fernandes*
A Batista Custódio, homem liberdade!
Ainda pequeno, vivi o espaço dos alçapões e seus silêncios a escorrem claustros e paredes nuas. Dia e noite, olhos predadores me espiavam pelas frinchas de vento e dos pedregulhos doridos. Hoje, quando me penso viajando nas asas de araras e periquitos, além de brincar de estorvar pedras e limos, leio gaiolas fechando cantos e calando violinos. Quando pensei que só poderia me silenciar porque posso ouvir e cantar sereias melodiando sertões, revejo duros grilhões ditadores querendo engolir letras e palavras que voam rios e correm pássaros. Ora, se falar é articular a existência, mediante o diálogo com o outro e consigo mesmo, na medida em que se revela e se realiza a plenitude do humano, no momento em que se é privado da faculdade de falar, perde-se um dos elementos mais profundos, inerentes ao ser do humano: a liberdade. Será que é por isso que se canta tanto a “cidadania”, essa coisa incompleta que diz respeito apenas à identidade social do indivíduo? Cidadania, tal como é empregada, destituída da identidade ontológica do ser, é um canto de saci passarinho. Deve ser por isso que só se fala em cidadania, como se o homem falasse com a boca do estômago e pensasse com os chinelos; mas tivesse panarício no topo da cabeça! Cidadania concebida pelos olhos dos favores e, notadamente, pela visão vaporosa das brumas, é uma forma de oferecer aos outros as melodias dos avestruzes e de se reter os vôos beija-flores ao néctar da vida, porque aprisionados ao mundéu dos loucos.
Certamente, é por isso que se quer calar a imprensa, a única instituição séria ainda existente nesse país de brincadeira, de engodos, de empates combinados naquele que deveria ser o mais rigoroso dos poderes, a fim de manchar a ficha limpa, de pesquisas falaciosas destinadas os incautos com a própria imagem no espelho... A imprensa ainda é a única maneira de se falar pela maioria, de se mostrar à população os subterrâneos imundos das cavernas de morcegos e sanguessugas. Se falar é articular o ser, no mais profundo sentido de substância do humano, porque possibilidade de ele desvendar-se em verdades do existir, no momento em que se restringe ou se embarga a palavra, se está nulificando a essência mesma do falante; porque negar a palavra é negar a identidade e a verdade do outro. O silêncio só é possível a partir da existência do genuíno falar. Se não se puder falar, não se silencia; é-se silenciado!
Ser silenciado constitui o mais nefando assassinato da liberdade, definida como “estado daquele que faz aquilo que quer e não aquilo que outrem pretende que ele faça; é ausência de um constrangimento estranho” ao pensar, ao agir e à prática do livre arbítrio e da livre pronúncia da palavra falada ou escrita. Os brasileiros pertencentes à minha geração sabem o que é ser calado, sabem o que é ter medo das paredes e seus ouvidos. Os brasileiros da minha geração leram “Os Lusíadas”, inteirinhos, nas páginas do também hoje calado Estadão. Todos sabem que, supressas as liberdades e as garantias individuais, a fala se converte em um ato perigoso, e o humano é fechado na escuridão do silêncio, como bem sintetizou aquele tempo José J. Veiga, através das personagens Amâncio e Manuel Florêncio, em “A hora dos ruminantes”: “Amâncio parou de falar, chegou à janela, olhou o largo com interesse, como quem se despede de um lugar antes de uma viagem demorada, com o cavalo na porta arreado e o arrependimento de ir já doendo por dentro; e continuou falando para fora, indiferente à presença de Manuel Florêncio.
– Quem havia de dizer que Manarairema ia mudar em tão pouco tempo... Antigamente a gente vivia descansado, sossegado, dormia e acordava e achava tudo no lugar certo, não era preciso pensar adiantado. Hoje a gente pensa até para dar bom-dia. O que foi que nós fizemos para acontecer isso? Manuel, estamos mal.
Manuel olhou-o meio comovido, meio desconfiado. Aquele lado novo não esconderia uma armadilha? Amâncio segurou-o pelo ombro e disse quase implorando:
– Precisamos ficar muito unidos, compadre. Vamos atravessar uma quadra de muita dificuldade.
– Mas Amâncio, por que agora? Ou você está assustado com alguma coisa?
Amâncio baixou a cabeça e disse em voz mais baixa:
– Você sabe o que é que eu estou dizendo. Não pensei que chegasse a esse ponto, mas chegou. Caímos na ratoeira e por enquanto não vejo saída.”
Se já vimos o silêncio assassinar a verdade e tolher vôos águias e andorinhas, por que instalá-lo novamente através de espúrias comissões destinadas a cortar letras e palavras saídas das funduras do humano? Por que calar o verbo e suas conjugações de humano de homem na crista do tempo? Haverá ruminantes que se prestem a tão vis currais? Liberdade, jamais tardia, caro Melibeu-Títiro-Virgílio! Liberdade, sempre liberdade, Senhor Deus dos desgraçados! Que posso fazer se, para encantar o azul, uso o vôo dos pássaros, para cinzelar homens, pulo pedras e natureza: elegâncias de garças, gorjeios de árvores e sinfonia de vaga-lumes: desenhos de estrelas?! Que fazer se, para fugir à dança preta dos anus, dou asas à imaginação e seus fios: deixo a pena correr o branco e a folha que entendem cantos de árvores e rios correndo estrelas?! Não se podem calar os bem-te-vis! Veni Creator Spiritus, mentes politicorum visita!
* José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. thjfernandes@uol.com.br – poetacriticojf.blogspot.com
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 2-11-2010, p. 19.

Belo texto! Muito bem merecida a dedicatória. Um forte abraço,
ResponderExcluirMarília Núbile.