GOIÂNIA E O FUTURO
José Fernandes*
A concepção hindu impressa ao sentido sânscrito de administração se liga ao significado de organização, de desenvolvimento, obtidos mediante a sabedoria de quem idealiza e realiza ações que visam ao futuro da cidade e do estado. Não sem motivo o alfabeto sânscrito se chama “devanagari”, porque destinado à manifestação dos deuses, “deva”, e da cidade, “nagari”: escrita perfeita ou escrita da cidade dos deuses que, por isso, deveria ser administrada pelos devas, semideuses. Por quê? Simplesmente por enxergarem além do tempo e, em decorrência, poderem assegurar que tudo, nela, funcionasse consoante os princípios da ordem, da perfeição, do equilíbrio, da excelência.
As línguas são perfeitas; os homens, a despeito de as haverem criado, não as utilizam e não as compreendem como deveriam. Inteiramente conjugada à semântica impressa à palavra sânscrita, a designação latina daquele que governa a cidade ou o estado, etimologicamente quer dizer “feito, concebido além, adiante”, “prae-fectus”. Ora, o que se exige dos governantes, uma vez que o sentido não se atém apenas à cidade, senão que eles enxerguem além, que eles estejam adiante de seu tempo, como se fossem “devas”? Andando pelas ruas de Goiânia, a qualquer hora do dia ou da noite, temos a certeza de que seus governantes se estacionaram comodamente alguns lustros atrás. A cidade cresceu; mas sem a ação direta do “prae-fectus”, de alguém que estivesse à frente dela, que a enxergasse além das décadas e dos séculos. Basta verificarem-se ruas acanhadas, em que passam centenas de veículos por dia; mas que, muitas vezes, tem de parar, a fim de cederem espaço aos que vem à esquerda, pois, além de estreitas, ainda aceitam estacionamento nas duas direções. A cidade, que deveria ser governada com a visão de um “deva”, de um “prae-fectus” entupiu-se de carros sem que se houvesse pensado a lei de Newton ou o principio da exclusão de Pauli: “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. E agora? Até as ágoras, praças, estão atulhadas de veículos, e a polis crescendo, sem as ações eficientes antevistas pelos “devas”. Setores arranhando os céus, com ruas longas e estreitas dando passagem às lesmas e às tartarugas que se não podem mover. E os devas a olharem o ontem, satisfazendo-se com pequenos nadas que jamais serão tudo. Não é, Fernando Pessoa?
A despeito de Goiânia ter sido governada por um prefeito que traz a pressa na essência conferida pelo nome e que prejudica os seus mandatos, verificamos que ela está parando. Logo poderá chegar à imobilidade, sem que nenhum “prae-fectus” faça valer o “além”, o “adiante”, conferido pela semântica latina de “prae”. De certo imaginam e praticam este “prae”, pensando que ele tem o sentido de nosso pré, antes, anterior. Aliás, são raros os políticos brasileiros que governam com os olhos e os atos voltados para o amanhã. Parece um estigma maligno: estamos sempre agarrados à cauda da história, como se estivéssemos sempre a subir uma grande montanha. Sempre “pré”, porquanto herdamos o sentido vulgar desse prefixo, em vez do culto, inserto em previsão.
Se não houver prefeitos que enxerguem adiante, que prevejam o vir-a-ser, em breve viveremos o que escrevemos em um conto intitulado “Panóletros”, em que imaginamos o absurdo de os semáforos desregularem-se e ficarem sempre verdes, levando a personagem cada vez para mais longe de seu destino. Jamais poderíamos pensar que aquela invenção do imaginário pudesse ocorrer na realidade. Entretanto, se verificarmos o fluxo de veículos em centenas de cruzamentos ao longo de todo perímetro urbano, logo nosso conto deixará de ser ficção. Que horror! Portanto, está passando da hora de o governo municipal, seja quem for, de que partido for, administrar a cidade segundo aquele entendimento de milhares de anos, antevisto pela criação da palavra administração; mas depositado nas cavernas da inércia, da irresolução, da incultura.
Para isso, talvez seja necessário verificarmos outra semia do vocábulo prefeito, em sua acepção latina: “aquele que está grávido”. Não é para rir, não! Prenhe de idéias, de criatividade, de visão penetrante; mas, sobretudo, da prática futurista do ato de governar. A cidade de Goiânia necessita de muitos prefeitos, no sentido amplo de governante, de administrador. Talvez, no próximo ano se inicie uma longa fase dos verdadeiros “prae-fectus”, dos verdadeiros devas em Goiás. Um, com nome de apóstolo, traz o significado de “pequeno”; mas como aquele que difundiu o cristianismo pelo mundo judaico-romano, poderá lançar as bases deste novo tempo. Sabe Deus! O outro, protegido por Marte, poderá ser um verdadeiro guerreiro em termos administrativos e transformar Goiás e Goiânia, preparando-os para atenderem às necessidades dos tempos novos, com a excelência que se requer. Esperamos que eles sejam verdadeiros “prae-fecti”, com aquele terceiro olho de Deva, criador e transformador da polis, pois a administração pública não deve ter partido e, muito menos, míopes, estrábicas e hipemetrópicas ideologias. Propitius esto! Exaudi nos, Domine!
* José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. tjjfernandes@uol.com.br – http://poetacriticojf.blogspot.com
José Fernandes*
A concepção hindu impressa ao sentido sânscrito de administração se liga ao significado de organização, de desenvolvimento, obtidos mediante a sabedoria de quem idealiza e realiza ações que visam ao futuro da cidade e do estado. Não sem motivo o alfabeto sânscrito se chama “devanagari”, porque destinado à manifestação dos deuses, “deva”, e da cidade, “nagari”: escrita perfeita ou escrita da cidade dos deuses que, por isso, deveria ser administrada pelos devas, semideuses. Por quê? Simplesmente por enxergarem além do tempo e, em decorrência, poderem assegurar que tudo, nela, funcionasse consoante os princípios da ordem, da perfeição, do equilíbrio, da excelência.
As línguas são perfeitas; os homens, a despeito de as haverem criado, não as utilizam e não as compreendem como deveriam. Inteiramente conjugada à semântica impressa à palavra sânscrita, a designação latina daquele que governa a cidade ou o estado, etimologicamente quer dizer “feito, concebido além, adiante”, “prae-fectus”. Ora, o que se exige dos governantes, uma vez que o sentido não se atém apenas à cidade, senão que eles enxerguem além, que eles estejam adiante de seu tempo, como se fossem “devas”? Andando pelas ruas de Goiânia, a qualquer hora do dia ou da noite, temos a certeza de que seus governantes se estacionaram comodamente alguns lustros atrás. A cidade cresceu; mas sem a ação direta do “prae-fectus”, de alguém que estivesse à frente dela, que a enxergasse além das décadas e dos séculos. Basta verificarem-se ruas acanhadas, em que passam centenas de veículos por dia; mas que, muitas vezes, tem de parar, a fim de cederem espaço aos que vem à esquerda, pois, além de estreitas, ainda aceitam estacionamento nas duas direções. A cidade, que deveria ser governada com a visão de um “deva”, de um “prae-fectus” entupiu-se de carros sem que se houvesse pensado a lei de Newton ou o principio da exclusão de Pauli: “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. E agora? Até as ágoras, praças, estão atulhadas de veículos, e a polis crescendo, sem as ações eficientes antevistas pelos “devas”. Setores arranhando os céus, com ruas longas e estreitas dando passagem às lesmas e às tartarugas que se não podem mover. E os devas a olharem o ontem, satisfazendo-se com pequenos nadas que jamais serão tudo. Não é, Fernando Pessoa?
A despeito de Goiânia ter sido governada por um prefeito que traz a pressa na essência conferida pelo nome e que prejudica os seus mandatos, verificamos que ela está parando. Logo poderá chegar à imobilidade, sem que nenhum “prae-fectus” faça valer o “além”, o “adiante”, conferido pela semântica latina de “prae”. De certo imaginam e praticam este “prae”, pensando que ele tem o sentido de nosso pré, antes, anterior. Aliás, são raros os políticos brasileiros que governam com os olhos e os atos voltados para o amanhã. Parece um estigma maligno: estamos sempre agarrados à cauda da história, como se estivéssemos sempre a subir uma grande montanha. Sempre “pré”, porquanto herdamos o sentido vulgar desse prefixo, em vez do culto, inserto em previsão.
Se não houver prefeitos que enxerguem adiante, que prevejam o vir-a-ser, em breve viveremos o que escrevemos em um conto intitulado “Panóletros”, em que imaginamos o absurdo de os semáforos desregularem-se e ficarem sempre verdes, levando a personagem cada vez para mais longe de seu destino. Jamais poderíamos pensar que aquela invenção do imaginário pudesse ocorrer na realidade. Entretanto, se verificarmos o fluxo de veículos em centenas de cruzamentos ao longo de todo perímetro urbano, logo nosso conto deixará de ser ficção. Que horror! Portanto, está passando da hora de o governo municipal, seja quem for, de que partido for, administrar a cidade segundo aquele entendimento de milhares de anos, antevisto pela criação da palavra administração; mas depositado nas cavernas da inércia, da irresolução, da incultura.
Para isso, talvez seja necessário verificarmos outra semia do vocábulo prefeito, em sua acepção latina: “aquele que está grávido”. Não é para rir, não! Prenhe de idéias, de criatividade, de visão penetrante; mas, sobretudo, da prática futurista do ato de governar. A cidade de Goiânia necessita de muitos prefeitos, no sentido amplo de governante, de administrador. Talvez, no próximo ano se inicie uma longa fase dos verdadeiros “prae-fectus”, dos verdadeiros devas em Goiás. Um, com nome de apóstolo, traz o significado de “pequeno”; mas como aquele que difundiu o cristianismo pelo mundo judaico-romano, poderá lançar as bases deste novo tempo. Sabe Deus! O outro, protegido por Marte, poderá ser um verdadeiro guerreiro em termos administrativos e transformar Goiás e Goiânia, preparando-os para atenderem às necessidades dos tempos novos, com a excelência que se requer. Esperamos que eles sejam verdadeiros “prae-fecti”, com aquele terceiro olho de Deva, criador e transformador da polis, pois a administração pública não deve ter partido e, muito menos, míopes, estrábicas e hipemetrópicas ideologias. Propitius esto! Exaudi nos, Domine!
* José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras. tjjfernandes@uol.com.br – http://poetacriticojf.blogspot.com
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 23-11-2010, p.2 .

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