terça-feira, 30 de novembro de 2010

CONTEMPLAÇÃO DO ESTÉTICO

José Fernandes*

A contemplação do belo estético compreende inteiração perfeita entre emoção e conhecimento. Viajar por dentro dos traços, das tintas e mergulhar no interior do som, da letra, da pedra, da palavra demanda saber todos os procedimentos utilizados para a elaboração do discurso artístico. Se este discurso se compõe de palavras, além de o leitor conhecer as técnicas, é bom também exercitar e praticar jogos de linguagem, pois o gosto, mais ou menos acurado, depende do grau de sabedoria que se tem das formas e das fôrmas da arte. Ora, se o prazer do texto revela o entendimento que o leitor tem daquela expressão artística, que se pode dizer do crítico, daquele que tem a obrigação de enxergar detalhes retóricos e estilísticos despercebidos às pessoas não inteiramente afeitas à arte de enfeitiçar linguagens com pormenores estruturais instauradores do estético?
Se a crítica se propõe a desvendar discursos que, por algum motivo, suscitaram alguma empatia com o crítico, o arcabouço teórico normalmente se desprende da conjuntura lingüística utilizada pelo artista; mas já antevista pelo hermeneuta. Porém, quando se é convidado a escrever um prefácio, depara-se com estruturas muitas vezes inesperadas e que exigem versatilidade do prefaciador, como domínio das línguas-mães, das poéticas que serviram de base à elaboração do texto artístico. Em decorrência, a reunião de todos os prefácios escritos para obras diversas, em tempos diversos, encerra um ideário estético singular e plural, à medida que retrata a evolução do pensamento crítico do prefaciador e, ao mesmo tempo, a sua capacidade de caminhar por ramos e rumos vários do saber teórico, sustentáculo de suas posições atinentes aos valores sobre que erigiu sua visão crítica do discurso naquele momento.
Não sem motivo, um raro compêndio da crítica literária brasileira se intitula “Discursos paralelos – A crítica dos prefácios”, em que Gilberto Mendonça Teles se mostra um crítico em estado de extinção, assassinado pelas linhas de pesquisa a que os mestres de hoje tem de se amarrar para não se perderem no labirinto desse monstro de infinitas faces: o discurso literário. Gilberto, professor de literatura que caminha por entre os inúmeros tentáculos dos textos poético e ficcional, sabe, como poucos, segurar-lhes as pontas e descobrir-lhes as direções por que elas procuram enredar o leitor, pois, além de conhecer as teorias, definidas como a arte de ver o invisível, também as exercita e as pratica ao produzir uma obra poética das mais consistentes da literatura brasileira contemporânea. Mediante um olhar apenas pelas vias, pelos trilhos e tritrilhos do sumário, o leitor verificará com quantas linhas se costura o seu pensamento crítico; por quantos atalhos e veredas ele caminha para desvendar este minotauro de palavras sempre a devorar os leitores que se perdem pelos seus labirintos.
A contemplação dos compartimentos do Cnossos poético certamente o fascina, porque conhece os cantos e os recantos utilizados pelos poetas para multiplicarem as imagens e seus claros enigmas de palavras. Assim, empreende viagem serena pelos mistérios dos hífens, pelo corpo transitório, em que se ressalta o título pego a Propércio, “Oculi sunt in amore duces” – No amor, os olhos são soberanos” –, decorrência de o fazer poético de Paulo Galvão correlacionar-se diretamente com a semiologia oftalmológica, a ponto de criar um lirismo e uma poética dos olhos. Mas, conhecedor de todo o Cnossos literário, desvenda a crítica da crítica e a história literária, entendida como a evolução das formas, imprescindível ao entendimento das transformações por que passou o discurso literário ao longo do tempo.
A despeito do privilegio involuntário concedido à poesia e à crítica, Gilberto transita com igual desenvoltura hermenêutica por todos os gêneros literários, desvendando o interior de todos os mistérios desse labirinto de linguagem sem se prender às cores e às espessuras das linhas que cada artista utilizou para enredar o discurso. Até mesmo romances de extremo realismo e de ferina ironia social, como “O destino da carne”, de Assis Brasil; “Jurubatuba”, de Carmo Bernardes, e “Lição de amor”, de David Gonçalves, foram visitados, de forma galante, pelos olhos profundos da crítica telesiana. E o conto, gênero que evoluiu em todos os sentidos nos últimos cem anos, a ponto de tomar emprestado construturas típicas do teatro, do cinema, da música, do jornalismo, da semiótica, a fim de materializar verdades em alto grau estético? E que dizer da crônica, gênero movediço que se abebera em tantas fontes, como a poesia, a história, a filosofia, a sociologia, a psicanálise, para fugir ao efêmero e realmente se tornar arte e vencer as turbulências do tempo?...
A crítica dos prefácios se reveste de tamanho rigor que o crítico poeta o transforma em prazer lúdico no poema “Prefácio”, dedicado à poetisa Augusta Faro: “– Queria tanto que você prefaciasse/meu novo livro de poemas./– Desculpe-me, não escrevo mais prefácio:/Estou cuidando agora dos meus versos.//Dias depois eis um postal da Grécia: – Sabe quem vi de férias por aqui?/O velho Homero, ao lado de uma deusa,/Perguntou por você e lhe manda dizer/para não deixar de fazer o meu prefácio.//Ah musas! Ensinai-me algum remédio,/dai-me uma fúria de trovoes e brisas/para eu fugir do inteligente assédio/das belas poetisas.” É preciso mais? É só contemplar, também! Deo gratias et Mariae!




* José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras – thjfernandes@uol.com.brhttp://poetacriticojf.blogspot.com
Artigo publicado no Diário da Manhã do dia 30-11-2010, p. 10.

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