CAÇA A PEDRINHO
Antigamente, caçavam-se tigres, leões, pombos...
Hoje, cassam-se falas distraídas do silêncio
nas cavernas em que se escondem letras,
mistérios e enigmas em tons hieroglíficos.
Caçam também bruxas e seus vôos vassoura
perdidos na memória menina dos crepúsculos
avós sentados à beira do tempo com suas ruas
de silêncio e faíscas a trepidarem alimárias.
Cassam, ainda, livros, pois se lê demais
no escuro das idéias torcidas pelos olhos
de corujas e caburés, ou nas carapaças tatus
enfurnadas nos fundos buracos do discurso.
Cassam até o imaginário azul de Pedrinho
que vivia sítios e inocências de árvores
pingando verde e pintando manhãs e rios
que os anos e o pouco siso não trazem mais.
Houve mesmo um czar naturalista que caçava
borboletas e andorinhas. Quando lhe disseram
que se cassam os poetas e suas criaturas de palavras,
ficou muito espantado e achou uma barbaridade.
Refúgio do Poeta, 6-11-2010
Poema publicado no Diário da Manhã - Suplemento Literário, 28-11-2010, p. 2
terça-feira, 30 de novembro de 2010
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