quinta-feira, 21 de outubro de 2010

PESQUISA ELEITORAL


O telefone tocou, e Sônia o atendeu. Com medo de trote ou de fornecer dados a quem os deseja para a prática do mal, passou-me o aparelho. Também o atendi, às vinte e uma horas, com receio, pois nunca fui entrevistado por nenhum famoso órgão de pesquisa, desses que abarrotam o cidadão de informações duvidosas. Depois, já fui vítima de ligações feitas por bandidos que até se diziam meus sobrinhos; mas ao perguntar-lhes o nome da mãe, desligaram imediatamente.
– Boa noite! Sou X, do Ibope, e gostaria de lhe fazer umas perguntas a respeito das eleições. Pode ser?
– Desde que não haja nenhuma que me obrigue a revelar aspectos de minha vida particular, não há problema!
– Certo! Você vota no Estado de Goiás? .
– Sim! Acredito que o exercício do voto consciente constitui o pulmão da democracia! Acho, inclusive, que o candidato, uma vez eleito, deveria prestar contas aos eleitores, a fim de que eles pudessem aquilatar se ele deverá ser reeleito, se ele realmente está representando o povo ou a si mesmo, os seus próprios interesses.
– O senhor vota na cidade em que se encontra no momento?
– Não! Aqui é uma chácara e pertence a Santo Antônio de Goiás, um município da chamada grande Goiânia. Eu voto na Capital, pois resido lá também.
– Não tem problema! O importante é que você vote em Goiás. Qual é o seu grau de instrução?
– Superior, em nível de doutorado!
– Desculpe-me; mas você não se encaixa nos perfis de eleitores que nossa pesquisa procura retratar! Não tem ninguém aí com menor grau de instrução?
– Felizmente, não há!
– Boa noite! Obrigado pelas informações!
Soltei uma sonorosa gargalhada e me senti sendo aquele palhaço do soneto “Acrobata da dor”, de Cruz e Souza: “Gargalha, ri, num riso de tormenta,/ Como um palhaço, que desengonçado,/Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado/ De uma ironia e de uma dor violenta.// Da gargalhada atroz, sanguinolenta,/ Agita os guizos, e convulsionados/ Salta, gavroche, salta clown, varado/ Pelo estertor dessa agonia lenta...// Pedem-te bis e um bis não se despreza!/ Vamos! Retesa os músculos, retesa/ Nessas macabras piruetas d’aço...// E embora caias sobre o chão, fremente,/ Afogado em teu sangue estuoso e quente,/Ri! Coração, tristíssimo palhaço.” Movido, certamente, por esta sensação de otário, demorei algum tempo para me recuperar da decepção. Não da decepção de não ser incluído no perfil; mas da desfaçatez, do dirigismo das pesquisas. Quem pensa, quem dispõe de conhecimento para discernir os limites existentes entre a conversa construtiva e a conversa fiada, entre o conveniente e o inconveniente, simplesmente é excluído do sistema e tem caladas as suas opiniões, negado o seu direito de revelar a sua verdade. “Pai, afaste de mim este cálice”!
Este episódio ocorreu na terça-feira, dia 21 de setembro, antevéspera da primavera; mas me deixou intrigado toda a semana! Como vivo em um País em que não se leva nada a sério, em que tudo é brincadeira, fiquei me perguntando quais seriam as verdadeiras intenções dos chamados institutos de pesquisa. Quem os estaria financiando para escamotearem a verdade? Não sem motivo ouvi, há muito tempo, um de meus mestres dizer que “os números não mentem; mas os estatísticos mentem”! É a pura verdade!
Voltou-me ao íntimo o soneto e comecei a sentir que as palavras do sujeito lírico se dirigiam a mim: “Gargalha, ri, num riso de tormenta”. E, por mais me incomodar com o futuro do País, com o meu futuro e com o de minha família, comecei a cantarolar “Pai,afasta de mim esse cálice/Pai,afasta de mim esse cálice/Pai,afasta de mim esse cálice/De vinho tinto de sangue”. Se era para me calarem, pois só posso calar se posso falar, por que me telefonaram? Acordei-me calado e fiquei refletindo sobre aquele provérbio latino: “Vox populi, vox Dei”. Mas, e na calada da noite, serei o que, se o povo possui voz apenas para dizer o que o poder quer ver e ouvir? Se for, “Ri. Coração, tristíssimo palhaço!” Punite mendaces, Domine, quia mendatium est negatio veritatis debitae! Senhor, puni os mentirosos, porque a mentira é a negação da verdade que me é devida! Amém!
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 28-9-2010, p. 6.

1 comentários:

  1. Parece mentira! Gargalhadas e lágrimas, parece que isso define grande parte de nossa identidade de brasileiros. Parabéns por não ter sido incluído na pesquisa.

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