COISAS RISÍVEIS, OU LAMENTÁVEIS?
Há algum tempo, os brasileiros recriminavam os americanos que diziam ser capital do Brasil, Buenos Aires. Entretanto, se os americanos olhavam e continuam olhando para o próprio umbigo, nós outros, brasileiros, nos encontramos em situação pior, pois a maioria pensa com o estômago e possui frieiras entre as orelhas. A cada dia, decorrência das deficiências do ensino e da maldita concepção que se instalou na sociedade de que o computador resolve todos os problemas culturais, verifica-se que as gafes em torno do conhecimento, em toda a sua extensão, assustam e, por vezes, estarrecem pelo menos aos parcos brasílicos capazes de discernir os limites entre o humor, a ironia, o picaresco e o siso. Se ouvir “assertiva” – situação “em que o locutor declara algo, positivo ou negativo, do qual assume inteiramente a validade” – em vez de “correto” ou coisa parecida, é terrificante. E o “submundo religioso”, se todas as religiões apontam para o sublime, para o divino que até na mitologia grega ficavam no Olimpo, nas alturas, uma vez que ele era a morada dos deuses dignos do panteão? Não confundir com a noção de Hades, que foi substituída pelo paraíso, na mitologia cristã, enquanto inferno passou a referir-se ao estado por que se submeterão os condenados. Será que o “submundo religioso” são as dores do existir, ou aquelas dores do amar de que sabiamente fala Santa Teresa de Ávila, quando diz: “É coisa estranha o amor apaixonado, que custa tantas lagrimas, tantas penitências e orações, tantos cuidados de encomendar o amigo às orações de todos os que possam valer junto de Deus!”? Infelizmente, não foi essa a acepção que empregou o eloqüente falante!
É preocupante quando o inusitado do grotesco, do jocoso, do hilário, perde o caráter burlesco e passa à normalidade, geralmente pela inépcia cultural do povo, tal como ocorre, por exemplo, em transmissões esportivas em que o parlante exorbita as características das toupeiras, pois asno só é néscio no nome. Experimente obrigá-lo a entrar em um pântano! Cheira, refuga, sofre as dores das esporas; mas não se complica jamais! Porém, o desinibido falante se atola na física, na geografia, na geometria, na aritmética, na zoologia, na anatomia, na pluviometria, na língua portuguesa...
Mesmo assistindo a um jogo – quando não o posso ver em outra emissora - prefiro ater-me às imagens que me surpreender com Buenos Aires, capital do Equador, linha que divide o país em leste e oeste, ou Bruxelas, capital da Hungria. Se não se aceitam disparates de um locutor, como aceitá-los de autoridades? Há pessoas que antes de assumirem determinados postos, deviam decorar o carnavalesco soneto de Gregório de Matos, dedicado ao governante da Bahia, Senhor Antão de Sousa de Meneses, para não culparem indevidamente a imprensa de mal intencionada e, certamente, virem na cultura uma necessidade imprescindível ao humano. A menos que se queira cristalizar na história como bufão. Talvez fosse recomendável recriar-se a figura do bobo da corte, que de bobo só tem o nome, como se vê no Rei Lear, de Shakespeare, em que funciona como uma espécie de oráculo ou a moira da tragédia grega.
Se tivéssemos um povo culto, educado, não se ouviria alguém chamar o Corcunda de Notre Dame, de Corcunda de Amisterdã, como me ocorreu dia desses. Para não me opilar o fígado, disse ao cidadão responsável pelo impropério que, a estas alturas do tempo, já que Vitor Hugo publicou o famoso romance em 1831, ele se cansara de Paris e tomara o trem para Amisterdâ, pois, hoje, deslocar-se entre as cidades européias é extremamente rápido. Ou pode ser que fugira para a Holanda, a fim de abrir caminho para o amor desenfreado de Claude Frollo, como recompensa por havê-lo adotado como filho! Sabe Deus!...
Disse-lhe ainda que, se não forem estas as causas, talvez desejasse exatamente livrar-se das lembranças amargas da cigana Esmeralda, que o perturbam até hoje. Não sei se o criador deste novo Corcunda me entendeu. Também, parodiando Monoel de Barros, há determinadas coisas que não precisam ser entendidas, notadamente a arte, feita para ser sentida e incorporada, pois entender é procurar saber as razões de um beija-flor voar sem um motor nas costas. A arte, mormente a “Poesia não é para compreender, mas para incorporar”, uma vez que “Sapo é nuvem neste invento”, e as pessoas, infelizmente, não sabem alinhavar-se com água e, por isso, não sabem se desbravar pela poesia; mas pelo capim debruçado nos barrancos. O Brasil precisa sentir um abalo nos alicerces da cultura, a fim de, à semelhança de Fênix, renascer das cinzas para ser uma grande nação e, em decorrência, o brasileiro ser um grande povo! O pior cego é aquele que não se vê! Nosce te ipsum! Exaudi verba mea, Domine!
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 26-10-2010, p. 10.
É preocupante quando o inusitado do grotesco, do jocoso, do hilário, perde o caráter burlesco e passa à normalidade, geralmente pela inépcia cultural do povo, tal como ocorre, por exemplo, em transmissões esportivas em que o parlante exorbita as características das toupeiras, pois asno só é néscio no nome. Experimente obrigá-lo a entrar em um pântano! Cheira, refuga, sofre as dores das esporas; mas não se complica jamais! Porém, o desinibido falante se atola na física, na geografia, na geometria, na aritmética, na zoologia, na anatomia, na pluviometria, na língua portuguesa...
Mesmo assistindo a um jogo – quando não o posso ver em outra emissora - prefiro ater-me às imagens que me surpreender com Buenos Aires, capital do Equador, linha que divide o país em leste e oeste, ou Bruxelas, capital da Hungria. Se não se aceitam disparates de um locutor, como aceitá-los de autoridades? Há pessoas que antes de assumirem determinados postos, deviam decorar o carnavalesco soneto de Gregório de Matos, dedicado ao governante da Bahia, Senhor Antão de Sousa de Meneses, para não culparem indevidamente a imprensa de mal intencionada e, certamente, virem na cultura uma necessidade imprescindível ao humano. A menos que se queira cristalizar na história como bufão. Talvez fosse recomendável recriar-se a figura do bobo da corte, que de bobo só tem o nome, como se vê no Rei Lear, de Shakespeare, em que funciona como uma espécie de oráculo ou a moira da tragédia grega.
Se tivéssemos um povo culto, educado, não se ouviria alguém chamar o Corcunda de Notre Dame, de Corcunda de Amisterdã, como me ocorreu dia desses. Para não me opilar o fígado, disse ao cidadão responsável pelo impropério que, a estas alturas do tempo, já que Vitor Hugo publicou o famoso romance em 1831, ele se cansara de Paris e tomara o trem para Amisterdâ, pois, hoje, deslocar-se entre as cidades européias é extremamente rápido. Ou pode ser que fugira para a Holanda, a fim de abrir caminho para o amor desenfreado de Claude Frollo, como recompensa por havê-lo adotado como filho! Sabe Deus!...
Disse-lhe ainda que, se não forem estas as causas, talvez desejasse exatamente livrar-se das lembranças amargas da cigana Esmeralda, que o perturbam até hoje. Não sei se o criador deste novo Corcunda me entendeu. Também, parodiando Monoel de Barros, há determinadas coisas que não precisam ser entendidas, notadamente a arte, feita para ser sentida e incorporada, pois entender é procurar saber as razões de um beija-flor voar sem um motor nas costas. A arte, mormente a “Poesia não é para compreender, mas para incorporar”, uma vez que “Sapo é nuvem neste invento”, e as pessoas, infelizmente, não sabem alinhavar-se com água e, por isso, não sabem se desbravar pela poesia; mas pelo capim debruçado nos barrancos. O Brasil precisa sentir um abalo nos alicerces da cultura, a fim de, à semelhança de Fênix, renascer das cinzas para ser uma grande nação e, em decorrência, o brasileiro ser um grande povo! O pior cego é aquele que não se vê! Nosce te ipsum! Exaudi verba mea, Domine!
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 26-10-2010, p. 10.

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